domingo, 13 de novembro de 2022

True Grit

Seis anos volvidos da última apresentação a solo da Tracy Vandal, porém durante este tempo tem cantado com os a jigsaw, ou recentemente no concerto de homenagem ao Jack Kerouak autor de “On the Road” à convite de João Rui aka John Mercy que também se irá apresentar ao lado da diva escocesa no Salão Brazil.

Poder-se-ia presumir que seria um concerto quase exclusivo para amigos ou para fãs, nada mais errado o Salão Brazil encontra-se de lotação esgotado e as pessoas estão na expectativa e ou na dúvida sobre que género de espectáculo será, o que sobressai do cartaz de apresentação (que é a capa do disco) é um pássaro preto morto sobre fundo branco com a inscrição “Midnight Presents”, que reúne versões a partir de obscuros originais.

“Still As The Night” (original de Stanford Clark) reúne os elementos que norteiam a Tracy Vandal seja o rockabilly associado a uma continua tensão a partir da qual sobressai a voz da cantora escocesa. Sendo assim estes elementos aqui detalhados ora se escondem ora são reflexo da inusitada capacidade de transformar canções (algumas com mais de cinquenta anos) em temas que para além de soarem actuais parecem originais; inevitavelmente o mesmo sucede com o segundo single “Far From Any Road” (original The Handsome Family) retirado de um álbum inesperado (pois acredito que muitos fãs estivessem à espera de um conjunto de originais). Há ainda a destacar um tema que se revela de uma força tremenda quase com tanta inesperada energia e tensão que não poderia ser mais negro na sua génese:decorre da descrição de quem se está a afastar do Inverno e a entrar noutra estação do ano imaginária, pois esta é tão densa quanto o inverso e esse tema é “Winter`s Going” (da Bonnie Dobson), que se revela quase como se fosse uma explosão mas que nunca logra romper o espaço em está cerceada de tal forma é a sua beleza, e a interpretação da Tracy Vandal é sublime (aliás irrepreensível ao longo do concerto). Por fim nada mais nada menos que a calma sublime de “Wicked Game” (de Cris Isaak) que se revela através de um tempo lento quase na busca de uns acordes mas que em simultâneo tenta anula-los, e é neste paradoxo que canta a Tracy Vandal com delicadeza e beleza como se estivesse por instantes a flutuar.

 Tracy Vandal & John Mercy, Midnight Presents, 12 de Novembro, Salão Brazil, Coimbra.   

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

The Long Trip

Acid Mothers Temple encontram-se junto a uma mesa com os seus discos e alguns desenhos psicadélicos à venda junto à inscrição “Cash”; o concerto de hoje está integrado na digressão denominada de “MetaReboot Tour 2022”, e é uma extravagância pois Coimbra é uma das quarenta e sete cidades a vê-los ao vivo em outros quarenta e sete dias de viagem.

Acid Mothers Temple corresponde a um colectivo japonês de cinco elementos que dão primazia às guitarras eléctricas e a um teclado. As dinâmicas que estabelecem dão prioridade à distorção e outras raras vezes à melodia, na qual se imiscui uma distorção que ora aumenta o seu espectro ora o diminui. Isto jogando sempre no plano dissociativo, em que cérebro procura acercar-se de um (da melodia) ou de outro (da distorção), procurando fazer um reconhecimento entre o que se aproxima da perturbação (a distorção) ou da harmonia (a melodia). Entre estes há uma fronteira-- mas é somente para quem se encontra consciente deste mecanismo-- que obriga o ouvinte a que não esqueça a mortalidade por contraposição do imaginário sonoro associado à imortalidade (leveza e a beleza dos acordes pop), o problema é a incapacidade de identificar um ou outro dada a sua contínua mistura.

 O concerto jamais será um convite a quem se julga de uma forma ou de outra preso no seu ego que de tão grande impede que outras formas do ser se expandam e recriem outras maneiras de apresentar o “eu” (para muitos um desconhecido que se limita a ser uma mimetização de elementos chave nesta sociedade de consumo).

É certo que é mais fácil viver através de outros que de uma forma ou de outra venceram os obstáculos que a vida lhes foi “proporcionando” (entre aspas para sublinhar o seu carácter pleno de ironia). É possível que este método seja falível e obrigue um reinicio desse percurso, desta feita com a tomada de posse do “eu” e dessa forma usufruir livremente a música destes japoneses que tem como objectivo lembrar que entre o céu e o inferno haverá sempre música.    

Acid Mothers Temple, MetaReboot Tour 2022, 1 de Novembro, Salão Brazil, Coimbra.

sábado, 29 de outubro de 2022

On The Road

Concerto marcado às dezanove horas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), mais concretamente no Teatro Paulo Quintela onde John Mercy (isto é, João Rui dos a jigsaw) and the Dead Beats apresentam “West of the American Night” inserido no colóquio “Kerouak 100” organizado pela Secção de Estudos Anglo-Americanos do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras que celebra os sessenta e cinco anos da publicação deste clássico americano.

É o Jazz que em 1957 dominava os bares bafientos de Nova Iorque, onde se ouvia Charlie Parker ou Miles Davis, que dá sinal de entrada para os músicos que acompanham John Mercy como por exemplo Victor Torpedo, Pedro Antunes, Raquel Ralha, Tracy Vandal e Miguel Cordeiro, e à leitura de excertos do clássico do Kerouak por parte de entre outros Manuel Portela (poeta e docente da FLUC) e das actrizes Margarida Sousa e Isabel Craveiro (da companhia de teatro “O Teatrão); e enquanto decorre o concerto irá dominar a projecção de imagens da América no que aparenta ser o suporte Super 8. O que ocupa os intervalos entre as canções são o jazz e a leitura da obra, ambas estão interligadas já que foi a partir do bebop, isto é, através da sua estrutura de cortes abruptos e criação de novas linhas melódicas ou rítmicas que traduzidas para literatura poderão ser comparáveis ao redireccionamento do raciocínio para assuntos similares e ou próximos ao que estava a narrar Jack Kerouak. Este assimilou o que se poderá denominar uma outra forma de narrativa, ou de estabelecimento de um novo estilo de contar uma história, de alguém que se encontra num quase permanente movimento perpétuo, trata-se assim de uma nova forma de ver o mundo e tudo o que nele cabe e que é passível de ser transcrito para o papel. 

“Holding On” é uma balada rural em que a voz de John Mercy alterna com a da Tracy Vandal e é de uma profundidade exasperante dada a perspectiva que lança sobre a América, o country será substituída pela americana, à qual se somarão outras canções com um recrudescer do ritmo e uma rudeza na forma como são apresentados os seus acordes aproximando-se do country rock. Isto é, apenas uma súmula do foi apresentado neste espectáculo que assinala o aniversário de uma das obras mais importantes do século XX que retrata gente como William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Neal Cassady (pertencentes à beat generation).

Apensar de a obra do Kerouak se assumir como uma obra onde o que reina é a mais profunda da liberdade estética, há que contrapor uma realidade de um país dividido entre brancos e pretos onde se viviam inúmeros tumultos sociais, e os polícias se vestiam de Ku Klux Klan para combater manifestações de paz organizadas por Malcolm X (que viria a ser vitima da sua inteligência e tenacidade) assim como do seu congénere Martin Luther King Jr.

Esta América dividida é um traço geral na obra que procura realçar os diversos episódios que foi escrevendo Kerouak descrevendo-a através de uma ruralidade exasperante mas predominantemente é nas metrópoles é que se encontra o olhar de alguém que se detém para transcrever o que lhe sucede e nessa medida dar a conhecer ao leitor o porque de tal lhe atrair à atenção. Viva “On the Road!”, Viva Jack Keouak!.

John Mercy & The Dead Beats, “West Of The American Night”, 28 de Outubro, Teatro Paulo Quintela, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra.


Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...