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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

One Thousand and One Nights

A cidade de Aveiro para celebrar o São Gonçalinho instalou o palco, que verte luzes azuis, sobre o canal da Ria à frente do qual se encontra atracado um moliceiro. O beat é pesado e tenso e com a conivência rítmica do baixo eléctrico de Jorge Romão oferecem a “Sete Mares” a rumorosidade típica de um sangue em progressiva fermentação. O crescendo do beat propõe a dança a corpos bronzeados numa dançateria com palmeiras e biombos de fancaria, porém a sua frequência ritmica é repetitiva o que provoca nos dançarinos uma perniciosa incapacidade de a transcrever gestualmente. Uma das meninas bamboleia-se como um ciclóstomo a cortar as correntes marítimas que a impedem de chegar à foz de um rio de prata, platina e ouro, e as suas mãos esfregam um copo com veneno e questiona-se: “Haverá alguém mais belo que o Rui Reininho?”; a resposta é-lhe concedida por São Gonçalinho com um hábito medieval a saltitar sobre o palco e a cantar: “Vejo destroços de metal a flutuar”, a guitarra eléctrica de Tóli Cesar Machado alinha numa perspectiva delicada e simultaneamente nervosa, e o som tétrico de “sinos sinetas ao acordar” revela a “ria” a “enferrujar”. A intervenção do teclado incute uma densidade tenebrosa à melodia hipnoticamente pop e os “dedos estalando” é “matéria por soldar”, e o seu corpo de Santo inala “diáfanos por envenenar” , vê a ponte-- que se encontra a vários metros do palco-- e resume: “Vejo este, vejo esta ponte, Aveiro a navegar”. Ao agudizar da melodia sobrepõe-se sub-repticiamente o verso: “aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”, vêm-se e “voltam-se devagar”, as vogais são rasgadas pela voz crispada de São Gonçalinho um agente provocador que identifica o público à margem da sua performance. A guitarra eléctrica de Tóli Cesar Machado insere através do mecanismo do pedal de Wha Wha uma repetição aguda que perpassa o acelerar da progressão hipnótica e São Gonçalinho retira o capuz do hábito castanho e surge Sua Alteza Real Rui Reininho:“E vêm-se devagar”. “Toda a gente!”. O Coro de Jorge Romão é onomatopaico: “LáLáLáLáBomBom”. Rui Reininho: “LáLáLáBomBom”. Jorge Romão: “LáLáLáBomBom”. As luzes apagam-se e Rui Reininho despe o hábito de São Gonçalinho e enfrenta de frente o charco que tem à sua frente: “Aveiro obrigado!”. A secção rítmica implementa uma métrica Rock and Roll e a guitarra desenha acordes luminosos de provêem de um deserto com esqueletos com os crânios perfurados por shots de Jack Daniels. “Sexta-feira em Albufeira”, “o mundo esteve para acabar”, “era tal a bebedeira”, a melodia rock and pop é adensada por uma fluência inesperadamente grave, e a certeza da lógica enunciativa: “É Domingo na Suíça, Cascais e Funchal”. Para decretar o fim da corrupção em Portugal sublinha: “Chamem a polícia ninguém vai levar a mal”. O recrudescer do ritmo é perpassado por um solo da guitarra eléctrica de Andy Torrence “confissão”, “beija mão”, “Everybody!”. A progressão rítmica é marcada por um complemento rítmico com o solo de Andy Torrence a revelar numa fluente e consequentemente profundeza épica. “Falto eu no beija mão”. “Já não sei em quem votei”. Rui Reininho é assertivo sobre o canal da ria situado na Praça do Peixe: “Fantástico este cenário” e enuncia a antropomorfia: “Crocodilo fêmea com uma vagina”, que vitimaram os maremotos com os seus cânticos encantatórios. O teclado é o centro rítmico e melódico de “Efecticamente” a mimetizar o saltitar de um ser vivo por domesticar, e a guitarra semi-acustica representa um prado decapitado de “jarros perpétuos amores”, o poeta declara-se abertamente aos portugueses “adoro os bichos do mato”, ao pormenorizar uma caracteristica que os identifica como: “cagados de pernas para o ar”, e adora “os panascas que passam”. A melodia é tão pop quanto uma paisagem campestre à beira mar grafitada por Bansky “engatar”, e o verso que é livre de preconceitos e como tal liberta a mente e sossega o corpo: “Efectivamente gosto de aparências sem moralizar”. A alteração na métrica do teclado para um ritmo mais curto, e a cumplicidade dos breaks da bateria, reviram-na para um cenário em que Ícaro voa em direcção ao sol, por fim o riff agudo da guitarra elécrica é minimal sustenido e corresponde ao som das suas asas de metal a derreterem-se à luz dos raios lazer. “Lálá”. “Efectivamente escuto as conversas sem moralizar”, efectivamente Rui Reininho gosta “de aparências sem moralizar”, “everybody!”. “Obrigado! Senhores e senhoras e meninos e meninas”. A questão: “Sabem que a nossa secção rítmica é de Aveiro?”. O convite de um D. Juan: “A próxima música é um slow e podem exibir o seu feeling heterossexual”. Em “Tirana” a melodia é proposta pelo baixo eléctrico de Jorge Romão, a única fonte de delicadeza, a partir do qual se assoma uma harmonia à qual convergem os GNR constituindo uma nuvem que é nevoeiro lacrimogéneo. A promessa: “Tirana é um lugar quem sabe difícil de encontrar”. Rui Reininho eloquentemente: “foi sempre sedutora”, mas cruel “3-2-1 subtrair”, “sem o intuito de acertar”. Os GNR progridem e adensam as cores que formam as paredes de um reino que é “Tirana”, onde a ditadura determina que seja “ sincera mas apenas por um momento”. Rui Reininho lança as amarras em nome de uma lei proibicionista: “Não vais partir” e o ligeiro crescendo do ritmo faz balançar “Tirana”, num baloiço onde se encontra uma adolescente cobiçada pelo olhar de Balthus. Os seus habitantes são “carne para canhão, espírito investir”, o Hammond serve-lhe a esteira onde podem dormir o sono dos mortos. “3-2-1”. Rui Reininho empunha o microfone a Tóli Cesar Machado que responde: “Milhares deles!”. Rui Reininho: “Here we go!”. A componente binária com a profusão constante do baixo eléctrico de Jorge Romão constroem uma melodia neo (funk) pop e o sintetizador a fluir através do fuzz, conferem a “Vídeo Maria” uma estrutura subliminarmente pop: “Shake your ass”. A intervenção da guitarra ritmo de Tóli Cesar Machado incute-lhe uma memória estética com proveniência na década de oitenta do século passado. O poeta decreta: “Península inteira a chorar” que purifica “uma igreja fria”, a pulsão do baixo de Jorge Romão inscreve-a no domínio do épico melódico. Surge um ser ideal para ser amado “como um círio cintilante” que em carne e osso corresponde à Santa Joana que se encontra: “em frente ao altar” com uma silhueta que é como “o esboço de um anjo fumegante”; e os acordes de Tóli Cesar Machado ganham uma preponderância rítmica-melódica e instituem uma tragédia que é concentrada no verso: “Sinto a língua morta o latim vai mudar”. A Santa Joana “estará a meditar?”. “Vídeo Maria” acresce o ritmo e consequentemente os GNR instalam na melodia uma tensão que atinge o tempo produzido pelo cérebro. “Virou”. “AiUi”. A declaração de amor com o intuito de apaziguar a autocombustão que deflagra no seu corpo puro “atirem-me água benta”, em nome de um exorcista “Assalto a caixa de esmolas”.A súplica dita bem alta, “Atirem-me água fria”, atinge a janela do Mosteiro de Jesus de onde espreita tristemente Santa Joana. Dito muito alto: “Atirem-me água fria”. O teclado é impositivo e converge concertadamente com os GNR para adensar o cromatismo pop convertendo “Vídeo Maria” em Rock and Roll. Jorge Romão é o gerador de um solo que é respondido pela bateria, e Tóli Cesar Machado insere o riff de uma fábula em que as crianças aprederam a dançar, “se é sexy ou não depende da vossa fantasia”, com os GNR em contínuo crescendo até ao fim. Rui Reininho olha para o charco que está à sua frente: “Público mais difícil! Nem o Padre António Vieira!”. Um galo cacareja fantasmagoricamente e de imediato sobrepõe-se o timbre de um piano com teclas de marfim. O baixo de Jorge Romão está ominipresente em cada verso de Rui Reininho: “Felizmente a noite sai”, “ainda bem que há névoa por aí”, crescendo de Jorge Romão, e a súplica: “por favor”. O break da bateria de Jorge Oliveira transferem-na para uma entidade que tem o mar como horizonte e onde “as trevas vão demorar”, “rouca voz”, a melodia é de uma espessura incandescente como lava a percorrer na íris de um cego. “Se o amanhã perdido for”, “por favor”, a síntese do modo de vida de um noctívago sem abrigo: “Directa sim eu declaro morte ao sol”. Quando um foco ilumina a consciência lúgubre de Rui Reininho este revela-se através do seu retrato de pirâmide de espelhos: “Aí vem a luz”, irmanada ao solo épico de Andy Torrence. Sobre o público uma perspectiva estética: “Thank you belezas”, e apresenta “Andy Torrence” . E a próxima canção “é misteriosa”. “AAA”. “Reis do Rock” em que Rui Reininho encarna em Rui Reininho. O beat é progressivo e flutuante como um nevoeiro esvoaçante, “cheira-me a fêmeas fatais”, o ritmo é hipnotizante por se instalar em círculos como uma anémona radioactiva ao largo da Ilha de Bikini. Quando o ritmo aumenta confere ao corpo da canção uma incandescente melodia pop kitsh, “Rei do rock dá-me a voz”. O povo à espera de um resgate da poesia, “compõe por nós”, “Rei da rádio que morreu por nós” . A frequência hipnotizante ganha novamente preponderância e confere uma perturbante melancolia às “cidades tão iguais”. O fundo da sua garganta: “Faz das tripas corações”. “Rei da rádio dá-me a voz”, acompanhado por um fraseado pop rematado com a assertividade suprema dos GNR: “hoje somos nós”. Os GNR estabelecem um groove lento como se estivessem a emularem-se mas a guitarra eléctrica revertem-na para a adjectivação Rock and Roll. Quando emerge o groove transpõem-na para o domínio do progressivo psicadélico. A penúltima declaração de amor: “AAA Aveiro podiamos ser paneleiros mas não. Nós somos Rock and Rolleiros”. Os teclados instauram um mantra dark com lampejos de luminosidade pop, os raios de luz derivam do verso sentido que estoura no peito de Rui Reininho: “Quando o sol se põe a seus pés”. Quando o ritmo intercede na narrativa é para se assumir como cúmplice da vertente pop alocando-se à perspectiva sobre um cliché beatleano. A bruxa má “nas mãos uns dentes de alho”, e a boa “és única a dar gás”. Tóli Cesar Machado retira do teclado um solo com epicentro na Bossa Nova, “Rainha das marés sei quem és”; e por sua vez Andy Torrence, através de solos agudos mimimais com textura rock, fornece uma luminosidade dramática à canção “UUU” quebrando-lhe os agrilhões que a prendiam ao quarteto de Liverpool. A última declaração de amor: “Os mísseis estão apontando para Aveiro”, e assevera que “O São Gonçalinho está rouco” como se este fosse um alter-ego de ocasião. “Las Vagas” é estruturada a partir de um ritmo electro analógico contínuo mas circular, “de ouro a mina”, e um anúncio fortuito à população: “somos todos de quem gostas”. Quando o ritmo e a altura aceleram inserem em “Las Vagas” uma relação promíscua entre a pop e o Rock and Roll e surge “a cabra cega”, “fui andar de voga não havia vaga”. Rui Reininho dança como “O Príncipe” de Maquiavel a evaporar-se da lâmpada do Aladino, e o solo de Andy Torrence promovem-na para a ilusão fomentada pelo rock psicadélico. O Príncipe dança, solo, “eu serei a gorda tu serás magra”. O jogo de cintura: “tirar à sorte”. O rebelde sem uma causa senão a de cantar: “Eu sou um peixe fora de água” . O break da bateria transferem-na para uma linguagem Rock na Roll e este ajustamento é correspondido pelos GNR directamente para um estádio de futebol. A confissão de Rui Reininho: “Trinta e tal anos da banda mais genial de Portugal! GNR!”, e ri timidamente para o microfone. A guitarra eléctrica de Andy Torrence gradualmente em crescendo faz reverberar as cores suaves mas tropicais de um universo edílico. Quando o baixo de Jorge Romão marca o compasso dá-se uma serena combustão numa “banheira decorada”. A voz de Rui Reininho é tragicómica numa novela abstracta: “Senti as nossas vidas separadas”. Sobre a sua musa: “Ana Lee”, “Ana Lee ópio do povo”, ela é um “Tigre de papel” a conduzir um “Lotus azul”, rainha de copas, “triângulo dourado”. O break retira-a da melodia exótica pop para uma conversão rock: “E ao vir-me, enfim em verde tónico, no país onde fumam as cigarras”. A certeza poética de que “Ana Lee” está deitada numa cama opulenta a “sonhar por mim”. A guitarra sobrepõe-se e ecoa na Ilha dos Amores, redescoberta por Costeau, e que tem um“poente queimado” onde nada uma sereia que revela a sua ferocidade através das “unhas que cravam em mim”. Grita: “AUU”. “Eu sei que metade de Ílhavo simpatiza comigo. Este pessoal de Aveiro!...”. O baixo eléctrico de Jorge Romão domina o início de “Asas”, o compasso da bateria é lento, e a guitarra insere acordes como se fossem pontos visíveis no escuro. “Sonhar”. “Espreitar”. “Mil casas no ar”. A corrente rítmica cresce serenamente para culminar melodicamente numa apropriação do espectro da bossa nova: “Mas só quando quiseres pousar na paixão que te roer”. “Já não há leis para te prender aconteça o que acontecer”. Colocam um microfone no palco e Rui Reininho questiona o roadie: “Que é que estás a fazer?”. O teclado assume-se como o ponto emissor de uma canção outonal que por vezes é dominada por tempestades. O microfone destinava-se a Isabel Silvestre, que através do seu timbre de cristal transporta os cagaréus para um universo rural, onde os “tontos chamam-lhe torpe”. A esperança vã: “Hemisfério traga outro forte”. Rui Reininho declara independência ao medo: “Por nem querer nem bairro ou corte”. Isabel Silvestre: “Corre o rio para o mar”. O acordeão de Tóli Cesar Machado injecta-lhe a substância necessária para catalogar “Pronúncia do Norte” de épica. A voz da cantora minhota ganha uma fluência de soprano que comanda as almas para a utopia proposta pelas Belas Artes. Rui Reininho: “Secaram”. Quando as duas vozes cantam há uma união de sentir profético: “É a pronúncia do norte”. A voz de Isabel Silvestre assume o papel de campo de fuga para com a ansiedade que mata lentamente o povo português através da saudade: “E as teias que vibram nas janelas esperam por um gajo parecido com elas”. Rui Reininho e Isabel Silvestre ecoam numa igreja neo-gótica com uma profusão de janelas com vitrais com a inscrição: “Pronúncia do norte”. Rui Reininho: “Corre o rio para o mar” que simbolicamente representa o passar do tempo psicológico. A esperança da diva do rio Douro: “Não tenho barqueiro nem hei-de remar”. Os cantores dramatizam o timbre em dois níveis: o seco e o cruel de Rui Reininho, e o encantatório da diva: “ Mar”. A melodia é o centro de uma queimada que incendeia o cérebro através do fervor da alma: “Não tenho barqueiro nem hei-de remar”. “Obrigado Pessoal! Isto é melhor que Justin Bieber ou Lady Gaga?”. O ritmo é duplo e crescente e as harmonias quentes e tépidas. “Yeah”. Rui Reininho encontra-se numa casa de fados no Bairro Alto com a presença do barbeiro António Variações : “Quando um barco tem pés para andar”, a melodia é um efervescente pop, “e quando a maré negra chegar e não houver ninguém para a crude limpar”. A melodia transforma-se num remoinho que nos banha com água salgada, “sereias sensuais”, a métrica da lírica é pontual com o aumento do ritmo: “Se ainda se ama o mar salgado então é ver no cinema se ´Há lodo no Cais`”. O fadista à desgarrada: “Bai Abeiro não tenho bergonha nem caralho!”. Palmas. Rui Reininho recompõe o seu canto a um fado pop, “imundo imenso sais”; e o poente é um sol radiante que é um déjà vu: “voltas ao cais”. E alerta “às raparigas de Aveiro” , que estão estáticas como estatuetas de sal ,que está disposto a roubá-las aos pais: “Ai carago!”. O domínio estético de “Popless” reside num crescente groove e a intervenção da bateria introduz-lhe um carácter orgânico colocando-a numa frequência soul pop kitsch. O poeta vê a sua ninfa a emergir da Ria de Aveiro que reflecte “a imagem dela sem reflectir”; surge na cama de dossel “é ela a dormir”, mas ao abandono ela não ficará: “deixa-la”. O seu peito ganha uma textura insuflada, “cresce”, Rui Reininho não esquece quem se encontra à varanda especialmente as mulheres de romances de cordel :“sabendo que é bela à janela”. “AAAA”. “POPLESS”. “POPless” o groove ganha uma circularidade hipnótica confiscada pela guitarra solo semi distorcida de Andy Torrence e com um remate com a evocação pontual aos Depeche Mode. A marcação do ritmo é espaçada e proporcionada pelo bombo “atenção!”. “Mal de vivre mal le faire”. “Toda a gente a cantar ´Dunas`”, dos acordes que emergem sub-repticiamente irradiam uma luz em que os corpos na praia se expõem aos raios ultravioleta concentrados no respirar do acordeão de Toli Cesar Machado. “Patchiuari”. Aponta o microfone para o público e este responde: “Patchiuari”. Rui Reininho incentiva-os atráves da imaginação: “Faz de conta que estamos no Estádio da Luz”, ouvem-se assobios de bocas incapazes de usar o pensamento formal. “Patichiuari”. “Benção! Esta música é ´Sangue Oculto`. De puta madre!”. A bateria é o ponto concêntrico a partir da qual os GNR se assumem como uma chama acesa pelo Rock and Roll e o solo contínuo e agudo de Andy Torrence conclui a equação epicamente. “Ardem chamas de dois sóis”. O recrudescer do ritmo importam-na para um domínio em que predomina uma lasciva sedução, “uma barragem uma fronteira”. “Ao fugir da própria vida sem correr e sem saltar”. O poeta sacrifica-se pelos portugueses: “Oculto sangue que tenho para dar”. “Flores num funeral”. “Sangue que tenho para dar”. “Olé!”. A celebração rock da sobreposição da guitarra eléctrica sobre o ritmo bateria são centros narrativos de uma canção destinada a dominar a Ibéria. Pausa. “Ao fugir da pópria vida sem correr e sem saltar oculto sangue que tenho para dar”. “+ Vale Nunca” predomina o dedilhar infantil da guitarra semi acústica de Tóli Cesar Machado com a resposta da guitarra de Andy Torrence e o pulsar de Jorge Romão, ligam-na à terra; e o órgão é a sua soul, o dois por dois tempera-a com um compasso profundamente pop. “Há um bicho novo para limpar”. Rui Reininho abandona o palco e passa sobre uma boia rectangular e clama: “Estou a molhar-me!”. Toma de assalto o moliceiro de onde canta: “Mais vale nada, nunca mais crescer”. “Ei!”. O agudizar da melodia é uma tragédia que escurece a alegria dos acordes e o testamento é assinado pelo solo de Jorge Romão mas paradoxalmente o pulsar da bateria ilumina as luzes do palco. Pausa. Rui Reininho canta como se fosse um golfinho suicida: “nada apetecer”, que se recusa a intoxicar-se sempre que vem à superfície para respirar.



GNR 11 de Janeiro, Festas de São Gonçalinho @ Aveiro



Dedicado a Elizabeth Dunn.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

D. Quixote de la Mancha

A caixa de ritmos dá pancadas no cérebro dos presentes, ausentes pela imposição da ignorância, que desde o nascimento ouvem as estátuas erigidas em nome do medo. Jorge Romão insere os acordes introvertidos de “Sete Naves” a sua pulsão dominante associado à síncope rítmica é constante e dilacerante e a guitarra wha wha de Tóli Cesar Machado conspurca-a com uma adejectivação anos oitenta. “Goodnight!”. A voz vê “um rio” e ainda “destroços de metal a flutuar”. O morto: “sinos sinetas ao acordar” o ritmo é contínuo e circular, o teclado assume-se dramaticamente, e a poesia: “vejo estes dedos metálicos frios vontade de enferrujar”, o ritmo é um simulacro da verdade: “São estas veias estalando” provocam uma densidade rítmica “paro de martelar” e o baixo de Jorge Romão “não são feitas para navegar” mas sempre “a do mar” a beleza “fundem-se com o ar” e num espasmo ou orgasmo “voltam-se devagar AAAAAAA” as teclas tétricas e oraculas “AAA” sobre o ritmo doentio emerge o solo da guitarra solo “nunca a do mar” e “elas vêm-se e voltam-se devagar”. Jorge Romão: “AIAIABOMBOM”. Rui Reininho: “Aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”. Jorge Romão: “AIAIBOMBOM”. Palmas. “Bom dia! A batalha já está ganha”. A segunda canção da noite denomina-se “Sexta-feira (Um seu criado)” e corresponde a uma métrica alicerçada na progressão rock da guitarra solo e é “Sexta-feira em Albufeira” com a bateria a revelar uma vertente tipicamente rock and roll a poética é naturalista: “Era gente tão foleira que ninguém sabia onde era o mar”. E a melodia reza: “Falta a tua confissão”. A guitarra solo mimetiza e sintetiza os acordes do refrão “faltei eu ao beija mão” e a continua desorientação do sujeito poético revela que ingeriu substancias tóxicas porque “já nem dou pró Dj”. Palmas: “Obrigado senhores e senhoras e meninas e meninos, não se vão já embora que não é hoje que mudou a hora”. Palmas: “Podem bater mais forte que isto não é o Festival da Canção.”. A pop ensimesma-se por culpa de teclados repetitivos mas doentiamente primaveris acusando um dia em que a noite chega tardiamente, a guitarra acustica de Tóli Cesar Machado acentua essa perspectiva e a voz de Rui Reininho narra que adora “todos os bichos do mato” como se fosse uma determinação de um Deus cego com hábito de irresistivel pureza “efectivamente ici é diferente” a natureza floresce coabitando com “ratos do esgoto” que “como se fossem mafiosos convictos habituados a controlar”. Jorge Romão: “Lálálálá”. Solos curtos e agudos da guitarra de Andy Torrence. Jorge Romão: Lálálálá”. Rui Reininho dança e canta “efectivamente gosto de aparencias sem moralizar”. Palmas. “Muito obrigado por passarmos juntos esta noite é muito lisonjeiro”. Aponta para um elemento do público e convida-o a “buscar uma rapariga para dançar”. Anuncia “Tricana” um espelho de água onde se inscreve um ritmo dolente “sobre os sérvios e os croatas”, os acordes correspondem a uma luz que alumia o coração que em cada pulsação corresponde a “tirar à sorte e dar” a voz fixa um ponto no escuro de onde jorra uma água luminosa “foi muito sedutora” e criminosa: ostenta uma arma que “atira para o ar sem o intuito de acertar” e o retrato da figura humana surge na conversão de “3-2-1 é só subtrair aprender a dividir para poder reinar” e o rasgo de carácter “Tirana é sincera mas só por um momento” a melodia constantemente e concisamente soturna e luminosa. “Espírito de investir” de se saciar das almas alheias e o bombo marca a progressão tétrica e bela lenta “2-3-6 para poder reinar” , “para poder reinar” surge o hammond a expirar uma celebração fúnebre “3-2-1 é só subtrair”. Palmas. “Boa noite rapazes e boas raparigas”. “Video Maria” é construída a partir do ritmo duplo da bateria, o hammond pronuncia-se através de uma frequência soul kitsch mas Jorge Romão recoloca-a numa discoteca que transpira a estrógeno e é através destas três perspectivas que surge o “big Picture”: “Península inteira a chorar”, a mulher de corpo de santo mas alma “como um círio cintilante” tem o poder de um “anjo fumegante” e o baixo pulsa sexualmente “há um profundo desejo divino a crescer” e as testemunhas da ficção: “Os santos do altar devem tentar compreender” e procurar uma justificação para a Maria “estará a meditar?” e as vogais demonstram que goza de um prazer carnal “Aiui” e o teclado insurge-se a impor receio “atirem-me água benta”, “desconjuro-a”, “atirem-me água fria “, a cegueira que institui o amor: “Por ela assalto o BPN”. O encaixe de bateria/baixo é viciante por impor a dança das ancas “assalto a caixa de esmolas” para comprar uma ínsula com uma escrava que é “virgem ou não?”. A sexta canção “Morte ao Sol” é iniciada pelo piano e com o cacarejar de um galo sobre o telhado de uma casa com azulejos com a inscrição: “Felizmente a noite sai”, o solo de Torrence a afunilar a vertente de pré-explosão e a escavar na veia uma dor aguda “se a luz se esvai” e será irreversível “se o amanhã perdido for” os breaks da bateria conferem-lhe um adensar do dramatismo inerente a “metamorfoses de pavor” o poeta da bela figura canta: “Meu amor” e declara solenemente aos pés da ninfa mais formosa, enquanto os GNR sublinham uma tragédia inscrita nos acordes densos “Directa sim eu declaro morte ao sol.”. A voz grave: “OOO aí vem a luz” o mal que nos irá cegar para impedir ver o futuro sem medo, que paralisa os portugueses fruto de morte prematura de um pai tirano. O solo agudíssimo de Torrence abre o dique que sustinha o sangue nas artérias e inunda o organismo “O céu não fecha já sobre nos revela sierta imagem atroz.”. O sétimo tema é constituído por uma programação analógica que ganha relevância progressivamente com a cumplicidade de Baixo/bateria, secundada pela guitarra que desenha os acordes melódicos que a dominam, e o sintetizador polvilha-a com adjectivação anos 80, “Rei da rádio dá-me a voz” e o jogo de espelhos inibe o espectador de dividir a pessoa da personagem que o Rui “Rei da pop compõe para nós” personifica: “Rei do rock morreu por nós”, o ritmo é progressivamente mais pesado mas simultaneamente convida a que os corpos dancem, dancem, dancem sobre o túmulo constituído por “cidades tão iguais” com habitantes a dedilhar um rosário de “indiferentes orações.”. Reininho apresenta o “autor compositor e interprete António Machado, mais conhecido por Tóli.”. A oitava canção “Unika” versa sobre “aquecimentos proibidos” com a preponderância dos teclados e a bateria a usar o bombo como um ponteiro de um relógio de uma igreja soturna, o objecto da perdição é composta por “casca de carvalho”, é, “és a uninka a dar gás a rainha das marés” a melodia não rejeita uma apropriação do cânone inscrito pelos Beatles. “E acordo coberto de pêlos.”. “Foste de mota até Góis e só tens estes sóis”. As tonalidades timbricas adensam-se: “como que fantasmagórica” a guitarra impõe-se através de um solo hard and rock relegando-a para o patamar denominado de épico. Palmas. “Obrigado” e que tal “fazerem um casino no Mosteiro [da Batalha]? Já vi ideias mais estupidas a serem aprovadas!”, e o casino chamar-se-ia de “Sixteen”. A guitarra semi-distorcida entre corta o ritmo analógico projectando uma disruptiva sonora e a voz de Rui Reininho é o elemento unificador, o centro que acentua um discurso subjectivo “a inundar de ouro a mina (eco)” e o convite de uma “roleta russa aceita apostas” o rock (analógico) mantém a sua métrica roll “perdes todos de quem gostas”, “e então Batalha?”. “ E eu serei a gorda”, “a cabra cega”, “fui andar de voga mas não havia vaga” o ritmo acelera e é percorrido pela guitarra eléctrica e “eu de foca de licra” Reininho dança num salão de um palacete neoclássico: “Um peixe fora d`água.” . O rock and roll emerge como “uma cobra fora d`água”. Palmas. “Obrigado!”, e Rui Reininho avisa: “A próxima têm que ouvir.”. A guitarra de Torrence desenha sub-repticiamente os acordes exóticos de “Ana Lee” e que gradualmente revelam uma ínsula habitada por um Rei: “Eu bebi sem cerimónia o chá” e a expurgação de um hálito quente e doce “senti as nossas vidas separadas”, Reininho apela pela “Ana Lee” sua Dulcinea del Toboso. A métrica kitsch confisca um ritmo pop perfeito na sua profunda abstracção, “Lotus azul nada de novo”, o horizonte do castelo do Rei: “Triângulo dourado.”. “Trono de jasmim.”. Reininho não esquece os “ponta de lança da Selecção Nacional.”. A décima primeira canção “Asas” é um slow com a temperatura ambiente do interior de um corpo sexualmente activo pelo surgimento da menstruação, a voz suave e sedutora: “mil casas no ar”, a melodia recrudesce a intensidade como uma penetração no útero mais recôndito “não te esquecer”, o dedilhar da guitarra acústica de Tóli Cesar Machado corresponde às unhas de gel de uma gata sobre o papel de parede. “Da paixão que te roer é um amor que vês nascer.”. A utopia associada a um amor eterno: “Não há leis para te prender.”. A promessa: “Aconteça o que acontecer.”. O hino do norte “Pronúncia do Norte” encontra o seu leito através do dedilhar do piano de Amorim a voz surge como um espectro que vê “a bússola não sei se existe aponta sempre para norte.”. A certeza que é o Douro a salivar: “Se é uma pronúncia de norte” piano intenso ao intensificar a sua omnipresença “corre o rio para o mar (eco).”. O acordeão de Tóli Cesar Machado pronuncia-se a mimetizar uma correnteza presa às margens de Portugal: “Corre o rio para o mar e há pronúncio de morte.”. Quando intercede a bateria o rio ganha uma textura rude e doce. A eterna e perniciosa saudade: “E as teias que vibram nas janelas esperam um gajo parecido com elas.”. Rui Reininho: “Obrigado por esta vida maravilhosa” e junta as mãos como um samurai disposto a festejar trinta e dois anos de GNR. A secção rítmica erige um continuado e progressivo descolar de um ritmo aparentemente programado: “Quando um barco tem pés para andar”, a métrica rítmica institui o dois por dois sobre os quais as guitarras se misturam cativando a melodia promovendo-a à qualidade tímbrica de um sol radioso aos olhos de um anestésico. “Lá do fundo mar imenso imundo saís”, “cais”. “´ Se há lodo no Cais`” com os teclados a polvilharem-na de uma lullaby inesperada aos ouvidos de uma criança, o solo agudo de Torrence desperta-a “sereias censuais”, “escorregas sempre cais.”. Rui Reininho discursa: “Não vou votar na Angela Merkel não gosto daqueles casaquinhos” e coloca as mãos abertas sobre o seu peito e desloca-se como a Chanceler alemã, o público ri. “Popless” é iniciada por uma pulsão da secção rítmica, destaca-se o baixo de Jorge Romão, “velho hábito aspirar o ar” perfumado pelo perfume de Ana Lee “vê-la vibrar” , “se ela deixar”, “Lá vem ela sabendo que é linda”, o seu charme revela “interesse” a introdução da componente analógica exprime os acordes circularmente “PoPLess (eco)” o baixo é a persona que se impõe através da sua incapacidade de instalar o espaço vazio, é intencionalmente viciado na simplicidade desconcertante. “Dunas” o acordeão de Tóli Cesar Machado sobrepõe-se à programação rítmica e é apresentado como sendo a “Sandra [Baptista] e o seu acordeão”, as palmas escasseiam e Rui Reininho cita um colega com o nono ano de secundária: “O David Fonseca tem razão Isto é mais fácil em inglês.”. “Patchi wari Patchi wari”, Rui Reininho incita o público: “E quem não salta…”, G.N.R saltam e o público imita-os. “Eu sei que hoje é o dia da Nossa Senhora; e eu já fui a funerais mais animados!”, ri e desfere: “Não é verdade!”. “Vamos cantar uma em espanhol. Esta é uma canção do hijo Iglésias e do hijo Carreira!”, o público ri. A guitarra de Torrence delineia os acordes agudos de “Oculto Sangue”, sobre uma métrica que corresponde à estética rock and roll “é uma barragem uma fronteira”, “sem correr e sem saltar”, “as flores são como sangue”, “sem correr e sem saltar oculto sangue que tenho para dar”, Jorge Romão ensaia diversos saltos sobre o palco, e o rock ganha um ritmo acelerado consentâneo com a guitarra a expurgar solos hard. “+ Vale Nunca” melodicamente é doce por imposição do sintetizador a mimetizar um chilofone que prenuncia que irá nascer “um bicho novo para limpar” a guitarra grave insurge-se “mais vale nunca”, “mais vale nunca mais crescer.”. O balanço rítmico aprofunda e liberta a lullaby “cérebro em fuga”, solo curto e arguidíssimo, Rui Reininho dança acompanhado por um regimento de fantasmas. Solo da bateria e consequente intervenção de Jorge Romão e a adição dos acordes da guitarra acústica de Tóli Cesar Machado: “Nada mais querer”, sample de chilofone, Jorge Romão: “Mais vale nunca”. Rui Reininho: “Agora é a doer.”. Palmas: “Obrigado por esta noite maravilhosa!”, e sublinha: “Ainda bem que o Papa perdoou os padres. Os crimes já prescreveram!”. “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” do brasileiro Roberto Carlos é acelerada pela métrica da guitarra de Torrence o fio condutor a projectar os acordes típicos da década de setenta do século passado com uma contemporaneidade rock. GNR descarregam os decibéis do rock and roll tropical e “que tudo o mais vá pro inferno.”. Jorge Romão sobe para uma coluna central-recuada, segura com a mão direita o braço do baixo, Rui Reininho ergue o braço direito na sua direcção a marcar o salto do tigre, salta para o centro do palco, a bateria amplia o atrito. Palmas. “Respeitem os animais e as crianças que nós também.”.

GNR, 15 de Agosto, Festas da Batalha @ Batalha (Dedicado a Tóli Cesar Machado, Rui Reininho e Jorge Romão)

domingo, 19 de maio de 2013

El Amor en Los Tiempos del Cólera

A cegueira compulsiva de um poeta de um metro e oitenta, registado com o apelido de Reininho sobe ao palco instalado no Estádio Municipal de Leiria acompanhado por Jorge Romão (baixo), Tóli Cesar Machado (guitarras/piano e acordeão); uma outra guitarra de Andy Torrence, bateira e teclado/programações. Os acordes são densos e o ritmo mecânico, como o mecanismo de um relógio que marca segundos decrescentes e crescentes para entrar num tempo psicológico onde “vejo um rio”, Douro ou Tejo, noite e dia, loucura e sanidade, amor “ vejo destroços de metal a flutuar”, toca o despertador “sinos sinetas ao acordar” e a obsessão não “para de martelar”. Rui Reininho dá marteladas na cabeça para alertar da facilidade com que surge o abismo que conduz à loucura gerada a partir da razão. A síncope é gerada pelo adensar do ritmo conjugada com os acordes agudos das guitarras, uma em sinal aberto a outra dispara a descarga eléctrica em forma de electro choque, Rui Reininho ganha corpo de animal: “metálicos frios” quase a “enferrujar”, “veias estalando, matéria por soldar”. Rui Reininho é como “as naves que eu construo não são feitas para navegar, aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”. “Sexta-feira (Um seu criado)” opõe-se ao negativo pop de “Sete Marés” ao se inscrever numa tónica rock com direito a bar aberto numa despedida de solteiro “era tal a bebedeira”, que afunila os sentidos: “ninguém sabia onde era o mar”. Quando o hammond intervém: “falta a tua confissão”, insere-lhe uma alma soul. “É Domingo na Madeira”, “No Funchal há um buraco na Madeira ninguém vai levar a mal”. O hammond sobressai por entre o jogo das guitarras, como se fosse “beija mão”. “Já não soube com quem falei”. O solo curto (semi distorcido) da guitarra, e o hammond respira e expira, “falta a tua confissão”, “Já não dá, já não dei”. A progressão é imposta pelas guitarras, a voz do cantor/performer Rui Reininho mergulha na muralha do black out: “Já não dou nem para o Dj”. “Boa noite! Já não jogávamos em Leiria há muito tempo! Agora para aquecer uma música brasileira, romântica”. O teclado assume-se como o elemento predominante, ao introduzir os acordes da música pop que celebra a Primavera: “Pássaros estúpidos a esvoaçar”, as teclas impõe sua omnipotência circulando por “Efectivamente” como uma contínua radiação ultra violeta, o poeta convive com “o riso das crianças dos outros”; e como em qualquer outra localidade: “Efectivamente em Leiria é diferente”. Sobre o timbre do teclado pontua a guitarra semi-acustica de Tóli Cesar Machado, sublinha uma delicadeza exasperante “de quem anda a engatar” . E a eloquente ironia: “como se fossem mafiosos convictos habituados a controlar”. E a figura tipo é escondida através do olhar de um voyer, solo da guitarra de Torrence, “Efectivamente gosto de aparências”. O poeta transfere-se para o actor que ouve mas nunca presta a atenção: “Aparentemente escuto as conversas, efectivamente sem moralizar”. Reininho junta as mãos junto à boca como a rezar e em simultâneo a agradecer as palmas. “É muito bom sermos lixo ao ar livre. Música sobre a guerra, a pedofilia e a psiquiatria. Enfim chama-se: ´Tirana`”. O assobio de Rui Reininho, introduz a melodia tropical que assola a ilha “Tirana” durante as estações do ano em que as borboletas voam em direção ao sol. A promessa é uma constante numa descontínua epopeia utópica: “Tirana é um lugar quem sabe difícil de encontrar”, não há medo: “Avançar e tirar”. A delicadeza pop levada ao extremo de uma beleza inatingível pelo olhar, os acordes ondulantes como uma bossa nova pop, uma pele “muito sedutora” mas que tem o poder “de dividir para poder reinar”, a duplicidade entre ser e o possuir, a bateria retira-a pontualmente da sua ondulação: “Bom nome para quem não passou fome”. “Para poder reinar”. O palco é iluminado por um cor-de-rosa dos contos infantis, para induzir o sono às crianças com medo escuro, a guitarra emite um solo contido que é secundado pelo hammond: “2 3 6”, “mais carne para canhão”, o tropicalismo é pejado pelas cores negras do céu de Londres: “para poder reinar”. “2 3 2 1 é só subtrair”. “2 3 6”, “3 2 1”, “2 3 6 para poder reinar”. “2 3 6” “3 2 1” “2 3 6 para poder reinar”. “Temos novos rapazes na banda, isto ainda não é um club completamente homossexual, como o David Gueta! Na bateria Jorge Oliveira”. Os breaks da bateria e os pratos expelem um ritmo respirado, o elemento que insere a melodia é o baixo de Jorge Romão, que peja “Videomaria” da dor irreparável do fluxo sanguíneo pós delapidar a pele da “Península inteira a chorar”. A densidade da melodia agrava-se quando o narrador omnisciente vê “em frente ao altar”, a alma “de um anjo fumegante”, o homem vítima da sua capacidade para pecar sente “um profano desejo a crescer”, mas perde o dom da palavra: “Sinto a língua morta, o latim vai mudar”. GNR emitem uma massa psicadélica-pop, a eterna curiosidade: “Estará a meditar?”. O desejo corre nas veias do performer como se fossem agentes secretos do pecado mortal do amor entre um homem e uma mulher: “Atirem-me água fria”. A purificação: “Atirem-me água benta”. “Fria” (eco). “AiUiAiUi”. Palmas do público. A personagem bíblica: “É Maria”. “Sexy eu sei virgem ou não depende da nossa companhia”. A próxima “música é sobre Vampiros”. A melodia é inserida pelo teclado que delineia o recorte tétrico de “Morte ao Sol” num inóspito serpentear a enunciar: “Felizmente a noite sai”, o teclado carrega nas teclas pretas e brancas, que incendeiam um contínuo negrume. A guitarra irrompe como um raio de luz, sólido e flutuante, “estou contente se a luz se esvai”, as guitarras conjugadas criam e delapidam um diamante, que estoura nas mãos do baterista, forte sobre o bombo, e a guitarra sola em êxtase. A hipótese: “Se o amanhã perdido for”. A lei: “Eu declaro morte ao sol”. “OOO”. “Aí vem a dor”. Sobre a melodia constituída por um vácuo, irrompe um solo semi-distorcido. Vê-se ao espelho: “imagem atroz”, haverá alguém mais cruel? “Eu declaro morte ao sol”.“Aqui em Leiria não vale a pena falar em inglês nem em italiano”. “Bellevue”, é transgressora em dois níveis: o canto, que se desdobra numa contenção dilacerante, que nota após nota, verso após verso, acompanha a segunda parte que corresponde a uma valsa pop noir, “a tensão do medo puro”, a densidade acentua-se numa contínua marcha sobre as artérias de Paris. “Encosto ao vidro um anel de brilhantes”, é a tentativa de entrar, “sabem que me escondo na Bellevue”. O local onde decorre o drama: “cama de dossel”. “Ninguém comparece ao meu rendez vous , salto para cima experimento o colchão, onde era sangue era apenas menstruação”. As suas vítimas: “Os meus amigos no fundo do jardim”. A solidão: “Agora mais ninguém confia em mim”. O supérfluo: “Os corpos no lago eram de jovens no desemprego”.“Um peseudo-hit, do ´Retropolitana` [marca os rrs] ´Rei do Roque`. O meu nome é Rui Reininho”. A programação insere um ritmo duplo, mas gradualmente espaçado e dengoso, emitido das colunas de uma discoteca à beira mar, por entre a savana cheira-lhe a “fêmeas fatais”, em redor do predador “Macacos imitações”, o teclado insere o fraseado sobre o qual canta o apelo: “Rei da rádio dá-me a voz”. A massa rítmica gradualmente aumenta numa progressão acentuada pela intervenção do Hammond e do sintetizador: “cidades tão banais”. A guitarra de Tóli Cesar Machado recria os acordes vitais de “orações”, “Rei do Roque dá-me a voz”. “Rei do rock canta por nós”, GNR tomam a forma de uma estrutura pop que responde ao instinto do psicadelismo: “morreu por nós?”, pontuado pela guitarra eléctrica como a perfurar a hipnose que gradualmente se instala e que transforma GNR numa conjuntura sónica que converte “Rei do Roque” em reis da psicadélica. “Vou cantar uma canção, muito bonita, sobre as mães: ´Diário de Milú`. No piano forte Tóli Cesar Machado”. O piano insere a melodia, entre o negro e o cor-de-rosa choque, a bateria o ritmo de um coração faminto por um amor de romances de cordel. A natureza revela-se cenograficamente: “na casca de carvalho”. O cantor/performer canta como se fosse uma sereia: “onde o céu ficou para trás”, o canto a profunda revelação: “És única a dar gás”, os teclados formam uma rede kitsh pop, ela é a “rainha das marés”, a paixão: “salto para os teus” como se fosse para o escuro onde é penetrado esse “atalho” e se sacia com “dentes de alho”. Ergue a bandeira: “Uma forca e um martelo”. Ecoa um laivo beatleano. “Eu caio aos teus pés”, de súbito a progressão dramática inscreve “Unika” numa nave conduzida por um remoinho transgressivo que toma de assalto o slow pop. “É como a EDP”. Rui Reininho encarna os ditadores da Tree Gorges: segura junto a si o tripé do microfone através do qual discursa em chinês: como se fossem zetas a trespassar o público. “Só depois de pé atrás”. “És a rainha das marés”. “Gás” o teclado insere a progressão, “trágica a canção”, a guitarra solo discorre ligeiramente distorcida enunciando o fim. “Andy Torrence on the guitar”.“Vamos a las vagens a ´Las Vagas`”. GNR, concebem sonicamente uma estrutura ondulada com sincope estratosférica perpetrada pela guitarra semi-distorcida, com o baixo com a bateria a suster “a macro onda”, os pontos sonoros formam no espaço uma quadratura do circulo: “Vista dali da marina”. A guitarra expande-se e retrai-se circularmente. “AAAA”. A textura da melodia enruga-se progressivamente: “perdes todos de quem gostas”. “Eu serei a gorda”. “Não havia vaga”. “Licra”. “Eu sou um peixe fora de água”, a voz de Rei Reininho ecoa, a guitarra eléctrica destravada, Reininho dança: abana as ancas e levanta os braços para à frente do seu peito. Aplausos. “Uma música transexual chama-se ´Voos Domésticos`”. O timbre que sobressai é o dos teclados que lentamente desenham a melodia com origem nos bares bafientos de Buenos Aires, que sublinha a proximidade de uma tragédia amorosa, de um amor em tempos de cólera. O timbre de Rui Reininho sublinha um abandono letal, “Ai a turbulência é da tua ausência”. Soa o bombo: “soa a campainha”. Aviso à navegação: “Só pago a sobremesa”. E o emissor pontua as vogais com delicadeza que é incisiva: “Adivinha quem sou eu”, a voz da sua consciência: “Sou a turbulência”. E em spoken word: “De pé os portugueses e as portuguesas na cama!”. O solo do piano impõe um crescendo rítmico num prenuncio emitido pela “Torre de control”, e a voz canta como um gato com vertigens: “adivinha quem é?”. Jorge Romão confere-lhe uma violência contida e precisa: “Ai a turbulência, doméstica violência”. A guitarra eléctrica de Andy Torrence desfere rápidos acordes mas em regime introvertido, a voz segura-os em continua possessão à espera do exorcista, que dê a água benta: “Eu bebi sem cerimonia o chá”, a guitarra gradualmente abandona a introversão e revela uma tropicalia da Bahia tóxica: “Ana Lee ópio do povo”, “tigre de papel”, a voz de Rui Reininho sobre os acordes da guitarra que “abrem” e que traz consigo GNR e consequentemente uma paisagem com personagem de um conto de fadas tropical: “Se ela se põe de vestidinha”, a pretensão: “deixei-a a sonhar por mim”. “Ana Lee”, “nada de novo”, “triângulo dourado”. O Tóli Cesar Machado tem uma guitarra nova “como a do gajo dos Depeche Mode”, aparentemente semi-acústica mas com uma forte munição, da qual desfere os acordes de “Personal Jesus”. Rui Reininho imita a dança languida de Dave Gahan: braços levantados e em movimento e ancas endoidecidas. Insulta o actual Ministro das Finanças: “Gaspar ó caralho!”, o público apupa, “não falamos de política!”. “Assas” é uma erupção de raios azuis onde “flutuam mil casas no ar”, o meio tempo consigna-lhe uma preguiça proporcionada por uma temperatura tropical, gradualmente devastada pelas guitarras que paradoxalmente emitem raios ultra violeta, “aconteça o que acontecer”. Os meios-tons do piano conferem à “Pronúncia do Norte” uma alma imersa no Rio Douro: “Lá do fundo donde eu venho”, a voz do Norte, “É a pronúncia do Norte”, a denúncia: “Os tontos chamam-lhe torpe”. O piano canta: “É a pronúncia do Norte”, “hemisfério traga outro forte”, é a prece proporcionado pela hipérbole: a bussola “aponta sempre para Norte”. Escorre o “rio para o mar” (eco). A paisagem é de contornos naturalistas, “as searas secaram”, “é um prenúncio de morte” (eco). Acentuada pela intervenção do acordeão de Tóli Cesar Machado, “caminhos novos para andar”, e que substitui o piano como se estivesse a tocar em almas de marionetas portuguesas confrontando-as com a sua mortalidade.“E para vós provar que tem sido uma vida maravilhosa”. A poética surrealista: “quando o barco tem pés para andar”, sobre o compasso rítmico que gradualmente se eleva em altura e em intensidade, dramática a realidade: “E quando a maré negra chegar”. No refrão-prece: “lá no fundo do mar imenso imundo sais”. Rui Reininho projecta a hipnose através da poesia que tem dois emissores: um questiona o outro sugere uma tragédia económica e social. GNR sublinham uma melodia melancólica sustida por Jorge Romão, “se ainda se ama o mar salgado” , “então vai ver se ainda ´Há Lodo no Cais”, “muito cuidado atina”. O sintetizador confere-lhe uma vertente da pop dos anos oitenta, “se o pescado mora ao largo”, mas o e se o “medo impera e vais longe mais”, “muito cuidado atina, voltas ao Cais”. O bombo insere o ritmo compassado de “Dunas” e Rui Reininho anuncia que vai beber um “chá”. Sente-se um frisson provocado pela ansiedade por parte da multidão em trautear a melodia que retrata um dia de Verão passado nas “Dunas, saltamos rochedos como na TV”, a inserção do acordeão confere-lhe um timbre que repete as notas do refrão: “Nas dunas, roendo maçãs”. “Nas ondas da manhã”. “Em câmara lenta como na TV”. “Onde?” “AAAA”. Rui Reininho coloca no pódio “Tóli Cesar Machado a trinta e três anos à frente desta merda!” , ladeado por: “António Manuel Ribeiro e os Xutos&Pontapes”. Reininho imita a gestualidade contida de Morrissey e da sua boca sai um inglês fleumático: “Can you help me with this song? Motherfuckers?”. “Viva a liberdade! Viva esta cidade!”. “Popless”. As guitarras completam-se em regimes timbricos opostos uma mais rude a outra rock and roll, esta realiza os solos, retirando-a irreversivelmente da sua métrica circular repetitiva pop. Rui Reininho dança sob as luzes pretas e brancas. O surrealismo animista: “por onde ela passa a relva cresce”. A excitação do peito “tudo o que sobe também desce”. “Olá, Leiria já que não podemos ser amantes ficamos amigos”. GNR iniciam “Sangue Oculto” com o solo da guitarra a percorre-la continuamente, os breaks da bateria seguem o cantor: “ardem chamas de dois sóis”. A primeira parte da canção é gradualmente contida, a segunda cresce continuamente durante o solo hard rock de Andy Torrence. Rui Reininho encena uma corrida pelo palco com o tripé nas mãos. “Oculto sangue que tenho para dar”. E aprofunda a perspectiva sobre a utopia: “flores são como animais”. A chuva cai piedosamente no Estádio Municipal de Leiria e é iluminada pelos focos vermelhos que incendeiam o palco. “Ao fugir de uma investida”. Dão o corpo às balas através do rock épico, “o fogo uma fronteira”. “Mais Vale Nunca”, é uma lullaby para fazer acordar os adultos que subitamente descobrem que “há um bicho novo para limpar”. As guitarras completam o fraseado infantil do sintetizador, inculcando-lhe um carácter adulto, jogando em contra cena. “Género preguiçoso e letal”. O solo da guitarra é em eco crescente e decrescente. Jorge Romão impõe a pausa, surge o teclado: “Vais ouvir e ver”. A voz prevê: “Mais vale nunca mais crescer”. Continua a chover sobre os presentes. O solo de Andy Torrence corresponde a melodia que GNR canibalizam sonicamente. Subtraindo ao original, “Que tudo vá pro Inferno” (1965) assinada por Erasmo Carlos e Roberto Carlos, a sua vertente romântica popular brasileira, resgatando-a para a pura e simples diversão e impregnando-a de uma ironia letal que desdenha “o céu azul sempre a brilhar”. “Eu quero que vocês me aqueçam neste inferno”. “De quê me vale a minha vida de Ronaldo?”. “E que tudo o mais vá pró inferno”. A chuva dá tréguas e as palmas eclodem, atiram um cachecol do União de Leiria ao Rui Reininho: “Um beijinho para o David Fonseca”.

GNR, Estádio Municipal de Leiria, 18 de Maio @ Leiria

domingo, 25 de março de 2012

Psicopátria

As luzes do palco do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz estão estáticas marcando a ausência dos músicos que acompanham GNR que durante trinta anos sobrevoaram Portugal. Palmas. Orgão e piano introduzem “numa terra sem leões” numa casa portuguesa “cheira-me a fêmeas fatais” concerteza: “algumas confusões, problemas ideias”. O violino marca o início de uma leve progressão: “Rei da rádio dá-me a voz, canta por nós, Rei da pop dá-me um som”, baixo de Jorge Romão impõe o acelerar da progressão. “As cidades tão banais e rurais, faz das tripas corações”, o baixo traz consigo a banda: “Rei da rádio dá-me a voz”, “esquimós”, “morreu por nós” (eco), teclado, palmas. “Boa noite”. As teclas assumem uma melodia tépida, como se fosse uma harpa, a bateria coloca-se entre este eixo e o baixo visceral: “Tarde de chuva a Península inteira a chorar”. Amélia ergue-se como um “sirio cintilante” , observada pelo Padre Amaro: “em frente ao altar” o que se crê “um anjo fumegante”, o violino sobrepõe-se ao ritmo binário: “Um desejo profano a crescer” do português de aqui e além mar “até sinto a língua morta” no centro há um anjo petrarquista que “devem tentar compreender”, será que vacila entre o sacrifício e o pecado, “estará a meditar”? Solo de violino, “Ai” (eco), “Ui” (eco), o ritual: “Atirem-me água benta”, “por ela assalto a caixa de esmolas”, “é Maria, casta eu sei, virgem ou não depende da vossa fantasia” . O convite irrecusável ao nosso Estado: “Vai para o Inferno de Dante”, solo Hamond e o violino a intervir circularmente: “Ai” (eco), “Ui” (eco). “Atirem-me água benta”, por ela assaltamos “a caixa de esmolas” e seguimos para “o Inferno de Dante”, atirem-lhe água “bem fria” (eco), “Ai” (eco), “Ui” (eco). “Elvis Costello e o David Byrne”. “Leve, levemente como quem chama por mim”, a canção da película: “o odor do medo puro”, não sabemos que o anel de “diamantes” é de fancaria. Rei de POPortugal canta sobre as ondas sonoras de orgão negro, “com muita atenção, ai! O meu coração!”. O cerne do problema: “Sabem que me escondo na Bellevue”. O aviso na placa do portão da Bellevue: “Cuidado com o cão”, mas a sua presença feroz não o impede de violar a propriedade “e subo a mão”, o sintetizador introduz uma textura artificial “diamantes” e seguimos o narrador “com muita atenção”, que sofre “Ai! O meu coração!” e não sabemos: “Sabem que me escondo na Bellevue”, e a casa dos espíritos tem um “corredor” que nos conduz para um “sorriso cruel”, seduz e instiga a saltar para a “cama de Dossel” , “experimento o colchão”. “Sabem que me escondo na Bellevue” e as “minhas amigas no fundo do jardim agora mais ninguém confia em mois”, a bateria quebra a rotina lugubre dos teclados e insurge-se como o batimento de um coração receoso do fim. “Agora mais ninguém espera por mim”, pausa, palmas, o violino é uma lamina cortante para dessosar os cadáveres e partir da qual se impõe a progressão da banda. Rei de POPortugal mimetiza a posse introspectiva de um professor catedrático perante uma equação por resolver e com o indicador aponta para a janela: “Sabem que me escondo na Bellevue”, os corpos ainda estão quentes sob a relva “as minhas amiguinhas no fundo do jardim”, “agora mais ninguém confia em mim” era só para “brincar ao cinema negro” a tela branca projecta um país com “jovens no de-sem-pre-go”. “Penteado igual ao do David Bowie, ´Ziggy Stardust and the Spiders from Mars`”. Violino sobre o piano de cauda dedilhado por Antonio Cesar Machado: “Lá vamos nós!”. Palmas. “Obrigado gente sentada!” A bateria toma a pulsão da canção pop com borbulhas de sabão suspensas no ar, “pra limpar”, irrompe o grito do Ipiranga “logo ao nascer” e o drama “nada apetecer” e a resposta: “Mais vale nunca mais crescer”, a bateria dá o ritmo cardíaco ao recém nascido e é alegre e divertido estar vivo, “mas olha para o que eu faço: mais vale nunca mais beber”, os pratos da bateria deixam espaço para os acordes abertos da guitarra e a doçura do teclado: “nunca mais crescer” e “mais vale nada”. O baixo de Jorge Romão insurge-se como se fosse uma das artérias que nos liga ao cérebro e uma resposta em forma de wha wha é introduzida pelo teclado de Hugo Novo. Rei de POPortugal bate palmas ao ritmo de um parto feliz providenciado pela pulsão alegre da bateria e os acordes de cor de papel de parede de um quarto bebé. Pausa. “Vais ouvir e ver”. “Nada acontecer”. “Mais vale nada”. “Mais nunca mais crescer: Nunca mais querer”. “Mais vale nunca mais crescer”, “nunca”. “Mais vale nunca mais crescer”. Violino: o rompimento do cordão umbilical: “NUNCA!”: “NADA”, violino, e uma estrondosa ovação é desferida a GNR por parte dos presentes.“Obrigado! Também às vezes... E biba e biba Espanha: TERÉTER. Inteligência e sensibilidade da canção número cinco”. O piano de cauda é dedilhado por um anjo de blaiser preto secundado por um sintetizador “Asas”, “your song; encosta-te a mim”, resolve a equação com um falseto iconoclasta “asas servem para voar, espreitar mil casas no ar”, soa um único prato da bateria sequênciada pelo bombo, estoiram “do alto do ar”. O baixo amplia a canção: “quiseres pousar na paixão que te roer” e o violino prolonga-se languidamente e lascivamente “aconteça o que acontecer”, o hammond pelvilha-a com mortalidade. Rei de POPortugal, segura o tripé com as mãos e a progressão circular é direcionada num ponto preto sobre a tela branca. “Pousar na paixão que te roer”, o buraco na tela aumenta rapidamente “de acabar”, o falseto corresponde à voz da alma: “Já não há leis para te prender” adicionado por um final épico. “Tóli Cesar Machado no piano forte. Chegamos esta tarde e ligou-se ao piano, é um espécie de Mexia mas na poupança! ´Valsa dos Delatores`”, violino, teclado infantil, Nursery Rhymes: piano de Antonio Cesar Machado, “tens medo do escuro tal criança sem futuro, és fraco velhaco cobarde armado em duro”, violino subtil, “no caixão”, o piano a rezar com o rosário nas mãos e o violino persegue o pecado e emerge uma textura infantil injectada por Hugo Novo. “Nem na cama estas seguro”, “sofre de medo puro”, Ruca Lacerda dá um tempo longo sobre o bombo, dando ritmo à marcha contra quem “sofre do medo puro”, “dos mortais que te rodeiam” e o português como as mentiras: “mesquinhas serpenteiam” . “É uma volta no caixão, perseguição”, o poeta abre os braços e o convite denota rejeição pela profunda oração/ordem: “E vai pelo Mundo”. O Rei de POPortugal levanta o braço e movimenta a mão para à frente e para trás e instaneamente dança como um soviético e o bombo encurta o seu batimento, aumenta a progressão e o circo de feras pega chamas. “Nós deitamo-nos todos os dias cedo, para que isto dê certo. É uma espécie de erecção”. O piano de cauda de Antonio Cesar Machado, a voz do criador e artista: “A chuva esconde-se no orvalho”, “na casca de carvalho”, o ritmo é processo perpétuo “única a dar gás”, és “a Rainha das marés”, és “única a dar gás”, a certeza “podes seguir aí sentado, o crucifixo, nas mãos uns dentes de alho” e se o narrador se transmutar numa antropoformia: “Se eu uivar e acordar cheio de grelos”, “a Rainha das marés o Mundo salta aos seus pés”. O violino irrompe num solo circular mas a partir do qual irá lançar notas diagonais a assumir o advir da tempestade secundarizada pelo piano, baixo, bateria. “És a única a dar gás a Rainha das marés”, “és única, a única”, “trégua”, benze-se sobre o ritmo binário e o epílogo é pontual e simultâneo e em altura. “Em vez de tratar vocês por tu. Vou tratar voceses por tu”. “Todos me tratam por você, menos tu não sei porquê”, a silaba tónica “o” é reproduzida pelo piano de cauda, “já não sei onde parei”, “voltei”, “fiquei”. “Eu inventei o verbo amar”, no Trópico de Capricórnio de Miller, Henry, “eu gosto de voce brasileiro”, pausa, o violino insurge-se sobre o piano, “onde cheguei”, “se parti e não voltei”, aceleram vagamente o ritmo, “Eu não gosto de vocês, parti sem hesitar”, “chorar”. O balanço de Copacabana com uma mulata ao colo: Rui Reininho vê-se no seu ginásio com o Carlos Carreiro: “Eu que inventei o verbo amar”. “Esqueci o calor do lar” e o assobio é o espelho do chamamento da serpente: “eu”, “voces”, “partir”, “vou ficar” (eco). “Obrigado Figueira da Foz! A última vez que viemos aqui, estava o nosso amigo Santana Lopes, assim com menos cabelo do que eu” e mexe no cabelo, o público ri. “Quando aqui voltarmos já devemos estar hospedados no IPO”, público ri sonoramente. “E o Tóli no Casino até às seis da manhã? Las Vegas, ´Las vagas`, let`s dance and be alright”, teclado Korg, insere os acordes macros: “AH! É tão grande é macro onda”, é um Tsunami que vai “inundar de ouro a mina”, violino, baixo, bateria 2X2, violentos de hair metal. O revólver passa de cabeça em cabeça dos ouvintes: “Roleta Russa aceita apostas”, a selva, “eu serei a gorda, serás a magra, a cabra cega”, “a vaca”, “a magra”, a antopoformia a sugerir a transmutação do ser: “Estarás de foca”, “peixe fora d` água”, solo tresloucado do violino a incutir a perspectiva: “a magra”, “não havia vaga”, estarei de “foca, tu de tanga”. “Todos de tanga”. “Somos todos peixes fora de água”, “um peixe fora de água”. Palmas. “O Jorge Romão está com um ar encaralhado porque será?”. No imperativo para o público: “É definitivamente ´Sexta-feira` na Figueira”, a guitarra de Antonio Cesar Machado assume-se na condução da canção incutindo-lhe acordes poderosamente pop, afastando-se da vertente light red neck, as pessoas abandonam as cadeiras e regressam a cada “Sexta-feira na Figueira”. “Estes são os sapatos que nos vão enterrar. A canção francesa é dedicada ao nosso amigo Tony Carreira”. A Psicopátria: “Pássaros estupidos a esvoaçar”, teclado saltitante, “os cagados de pernas para o ar. ´Efectivamente`”, o baixo impõe-se na diversão estilistica Pop, somos “ratos do esgoto habituados a controlar”. Rei de POPortugal: “Escuto as conversas”, baixo, teclado: “sem moralizar”, a marcação é dada pelo piano trepado pelo teclado, a paisagem é rupestre com “Bichos” de Torga presente(s): Palmas. “Super nada”. E sobe o sangue à cabeça de Ruca Laçerda: Rei de POPortugal: “Estás a ficar corado?”. Os acordes do piano surgem como elementos decorativos em relação ao teclado que insere os elementos fundadores de um leito de onde “há um prénuncio de morte lá do fundo donde eu venho”, a inóspita e poderosa verdade irrefutável do dono do Trono de POPortugal: “Canto a pronúncia do Norte”. Rei sob as luzes brancas ouve a sua voz e o teclado: acordeão: cada nota dedilhada em tempos diversos transporta a consciência para um nível superior, sublime: “Não tenho barqueiro nem hei-de remar”, a barca baloiça com a incursão da bateria, as encostas do Douro “secaram”, vinha após vinha, que encontram o seu dissipar no movimento pérpetuo de “corre o rio para o mar”. Os acordes marcam uma constante emolação: “é a pronúncia do Norte”, “e as teias que vibram nas janelas esperam um gajo parecido com elas”. O compromiso com a independência lírica: “Não tenho barqueiro nem hei-de remar”. “Corre o rio para o mar” (eco) para cessar as almas presentes que esperam a barca do Anjo. “Moscovo? Lindas praias!”. A voz da Pop: “MUÁ. MUÁ”, a cantar num salão de baile num cruzeiro na companhia de Cervantes, “eu vejo destroços de metal a flutuar”, “vejo no Mondego”, ao situar a acção de “Sete Naves” numa geografia familiar instrui o público a seguir a narrativa claustrofóbica. GNR recorrem a uma repetição circular progressiva dos acordes, com um recorte interno de Jorge Romão irmanado à bateria e esta sequência minimal provoca sincope: “sinos sinetas ao acordar”, violino, breaks da bateria, hipnótico, ácido, e os dedos “frios vontade de me enferrujar”, a decomposição: “Matéria por soldar”, “peso o ritmo, paro de trabalhar”, “as vagas onde elas vogam”, falseto: “Voltam-se devagar”, cresce um odor de Marrocos de S. Burrogs, William, Naked Lunch. A voz do Rock: “AAAAAA”, “AAAAAAA”. Sincope. Baixo: “AAAAAA”. O contra-fado: “As vagas que eu construo não são feitas para navegar aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”, contra o “Orgulhosamente Sós”, Salazar, Oliveira. Os breaks da bateria marcam o aumento do ritmo e a altura , através de um gradual 2x2: “LÁLÁLÁ”; Jorge Romão: “BOM! BOM!BOM!”; “LÁLÁLÁLÁ”; “BOM!BOM!BOM!”. “Há uma questão sexual entre mim e os bichos”. Rei de POPortugal balança no seu colo de braços compridos um bebé e as escovas da bateria reforçam o R.E.M do recém nascido. Jorge Romão. “Principal”, o ácido do vinho do Porto escorre das encostas do Douro, “ardem chamas de dois sóis”. Portugal: “Na luta na arena principal mato-me primeiro e a ti depois”, ao “saltar a fronteira”, “estou na Figueira” , sem “correr e sem saltar”, D. Quixote de La Mancha, Brel, Jacques, “oculto sangue que temos para dar”, cantado e finalizado em surdina pelo público. Ovação. Ovação quando o Rei da POPortugal regressa ao palco do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, senta-se ao piano e recorta o teclado, ri. “Há um ano atrás, estreamos, ´Voos Domésticos` no Portugal Fashion”. “Voos Domésticos” é Gardel vertido no Último Tango em Paris através da guitarra de Antonio Cesar Machado, violino agudamente: “aterrar aqui”, o desejo utópico: “Num tapete mágico” com Balthus, acutilante doce e belo: “Fim em mim”, a dependencia amorosa: “Olha a turbulência é da tua ausência”, o local: “algures na cozinha, jantar gourmet”, “café”, o violino progride e transporta consigo a força doentia de uma melodia “em pé”, “Torre de Control fantasia de lençol: adivinha quem és?”. O violino acelera exuberantemente mas o baixo de Jorge Romão domina-o através da sua prolongada obssessão, nesta sequência: Romão, Jorge. O violino insere os acordes da torre emissora para Paris e Berlim, contra MerKozy. “Era um GNR!”. “Tenho a anunciar às vossas moléculas, que o Carlos do Carmo canta hoje em Ilhavo. AHHAHAH! Ele sabe que eu tenho um humor mordaz! Gosto muito do Carlos”. A textura dos acordes da guitarra de Antonio Cesar Machado, exibem uma doçura grandiloquente, através da subtileza do seu ritmo a partir do qual circulam os outros instrumentos, ouve-se a nave a descolar: “Se há lodo no cais”, “onde o mercado impera e vamos longe de mais”, é a revolução sobre a escravatura dos cravos, “muito cuidado”, regresamos ao estrangeiro: “Voltas ao Cais”. A bateria desfere um ritmo afro beat, “sais”, é um banco de areia: “Ó neptunias, sereias sensuais”, e “se o perigo mora ao lado então vai ver ao cinema se ´Há Lodo no Cais`”, com Brando, Marlon, “vais escorregar: muito cuidado: voltas ao Cais.” O sujeito profético: “Muito cuidado, atina, voltas ao Cais”. “É o último show que fazemos para gente sentada”. O piano serpenteia como uma serpente egípcia “felizmente a noite sai, ainda bem que há névoa por aí”, “se a luz se esvai”, “e uma sombra se queimar neste lugar”, bombos, “metamorfoses de horror”. O holocausto travestido de democracia, “vão demorar”, ficamos estáticos “se o céu se fecha sobre nós” . E a voz de Portugal: “Revela ciesta rouca voz”, sobrepõe-se a guitarra de Antonio Cesar Machado, o piano serpenteia: “Directa sim. Eu declaro: Morte ao sol”, “imagem atroz”, “directa sim. Aí Vem a luz!”, a representação da morte num tríptico onde estão inconscientes os crucificados: “Ao sol”.


Voos Domésticos, GNR, 24 de Março, Centro de Artes e Espéctaculos @ Figueira da Foz

domingo, 11 de março de 2012

Sob Escuta

O piano é uma malha fina de tecido de seda, “numa selva sem leões”, a declaração de amor carnal: “cheira-me a fêmeas fatais”, o espicaçar do violino dedilhado por uma mulher angular, magra e maquilhada de boneca do leste. “Ideias originais”, a banda vem à superficie , o pedido de clemência: “rei da rádio dá-me a voz”, sintonizamos o transistor e o “rei da pop compõe para nós”, pausa, banda respira, a merda das “cidades tão iguais” . O piano de Antonio Machado numa cadência neo-pop, com o sujeito poético a encarnar “tripas coracões” , no centro, o narrador ficcionado “indiferentes orações” , baixo submerso na malha melódica a puxar pela estrutura óssea do “rei da rádio dá-me a voz” , banda, a lei “compõe para nós” , a fatalidade da lógica institucional que somente o “rei do roque morreu por nós” , “por nós” (eco), o piano e o baixo surgem e o vilino expande-se rasgando o tecido do piano, que fez nascer a canção. “Rei da rádio dá-me a voz”, a voz da rádio portuguesa: “compõe para nós”, “cantam por nós” em inglês. “Morreu por nós” , o teclado de Hugo Novo, salpica o sangue essencial para encontrar o fim. “Obrigado boa noite, bom dia! É maravilhoso voltar aos palcos especialmente aqui em Estarreja” . O teclado volta dimensionar-se como uma malha de metal a partir da qual irrompem as cores do pecado: “tarde inteira a chorar” o que faz uma mulher numa casa portuguesa “fumando em frente ao altar”, será a a nossa irmã ou irmão? O ritmo engrandece a canção. A castidade revista em “um anjo fumegante” , violino cortante derrapante agressivo vivo a imputar a morte à morte, aborto, “profano desejo a crescer” , e o acordo ortográfico: “até sinto a língua morta” , o ritmo sincopado, mas numa vertente crescente e decrescente, remoinho, “estará a meditar”. O violino abre espaço entre a cadência ritmica para ser o transmissor da acção: “AAI! UI!” (Eco!) “Ao inferno de Dante, atirem-me água benta”. O Estado: “com ela lá vai a caixa de esmolas”, “atirem-me água fria”, solo hammond, sobre a sincope, o vilonio reverbera uma última vez: “Ai!UI! Atirem-me água benta, por ela assalto a caixa de esmolas” , “por ser cinquentona o nome dela é Madonna. AiUi! Sexy eu sei!”, “ depende da sua”, “ atirem-me água friaaaAAA”. “Um tema luso”, teclado fúnebre, dedilhado na barca do anjo, o hino à sangria que está ocorrer em Portugal. Baixo de Jorge Romão: “Leve Levemente como quem chama por mim”, a banda sublinha as vogais do objecto poético, mimético, “a tensão o medo”. Reininho sobe o pé e “a mão” , uma flauta emerge como um guarda rios suspenso numa cascata, o Rei de POPortual: “encosto no vidro o anel de brilhantes”, “ Ai! O meu coração!”, “sabem que me escondo na bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, somos todos cadáveres adiados: “um sorriso cruel atrás da última porta cama de dossel”, solidão,”sabem que me escondo na Bellevue”. Jorge Romão ergue o baixo: “as minhas amigas no jardim” das camélias “agora mais ninguém confia em mim”. Pausa. Palmas. Violino mais teclado submisso , violino impositivo, abre o prisma para a banda, as luzes acendem-se e apagam-se , estabelece-se a progressão, pausa, “sonho que me escondo na Bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, o espaço onírico onde “os meus amigos enterrados no jardim agora mais ninguém confia em mim”. Rei de PoPortugal veste a pele do Conde Lautréamon , a pericia de um membro em constante mutação, através da deglutição, a promesa: “desemprego” o murro no estômago e o vómito a espumar. “Uma mais positiva para fazer crescer as pedras da calçada” portuguesa. Mais vale um violino e teclado sobre o ritmo binário mais vale palmas mais vale baixo mais vale o bombo que marca o ritmo e o baterista faz correr areia num instrumento cilíndrico, é prenúncio de um nascimento, “que tentam calar”, é, “vais ouvir e ver”, a perversão de um povo velho, “mais vale nunca mais crescer”, solo do violino, e o baixo ressurge numa cadência comprometida com o “cérebro em fuga”, “letal”, “anda responder”, “mais vale nunca”, ficam, “ficas a aprender”, “mais vale nada”, e o Rei de POPortugal, joga basket com uma bola transparente, liberta-se do adolescente que o prende à terra, a banda segue o movimento dos acordes, livres e descompremetidos em relação ao envelhecimento imposto pela natureza. Pausa. “Mais vale nunca”, “nada”, ou, “apetecer”, “crescer”, não olhem, “olha para o que eu faço”, utópico: “Nunca mais morrer!”, violino e baixo, “agora Estarreja!” : “Nada acontecer!”: “Nunca mais crescer!”. “Jorge Romão no calhambeque. Há anos, estreamos aqui ao lado, em Aveiro, não sei se conhecem, esta espécie de Veneza com menos gôndolas mas com mais dinheiro, onde estreamos ´Popless`”. Antonio Machado, introduz através do teclado os acordes pop de uma canção de amor com “Asas”, “servem para voar”, “espreitar”, “mil casas no ar” o sintetizador dá-lhe uma textura infantil, “ar” eco, violino, “na paixão que te roer sem prazo ou idade para acabar”, baixo, “aconteça o que acontecer”, violino. A banda surge como se estivesse a soturar uma ferida aberta pela descoberta do amor adolescente. Rei de POPortugal, pega no tripé e coloca-se de lado, abana as ancas, dá voltas à memoria, “acabar”, “já não há leis para te prender”, a progressão segue duas vertentes, unas na altura e no tempo, e o seu cruzamento enuncia liberdade. “Parabéns pelo vosso salão. Somos todos dignos uns dos outros. Mas antes vamos cometer um pequeno pecado”, original: “Valsa dos Detectives”, os dois teclados impõe uma densidade próxima do pós-negrume, violino, sintetizador, pausa, a carga dramática é proposta por um ritmo de escadaria de Sacré Couer, pontuada por Piaf ou Picasso ou Toulouse-Lautrec ou pelo Conde de Lautréamont. “Tem medo do escuro tal criança sem futuro, é falso velhaco cobarde armado em duro”, e quem é, és, somos nós, e vai “pelo mundo guiado pela mão”, e não estamos mortos, “depois de morto dá uma volta no caixão”, violino, “nem na cama estás seguro” , não, violino, 2x2, “que te rodeiam”, “que mesquinhas serpenteiam”, não sabemos sair deste remoinho de esperança vã, de fatalismo kitsch, “guiado pela mão”, o sangue pinga de cada verso. “Depois de morto dá uma volta no caixão”, a acusação sobre a nossa: “traição” e o emigrante “vais pelo mundo guiado pela mão”, o violino inicia um solo contínuo a sobrepor-se à progressão encetada pelos teclados, bateria e baixo de Jorge Romão, ouve-se o centro de uma revolução como um tufão ou remoinho narrativo sonoro: “AAAAAA”. “É a mulher de ontem é a mulher de hoje, cherchez la femme”. Os teclados equilibram a canção num território beateliano, “carvalho” e a bateria revela a cadência de uma melodia agri-doce, a banda repete os acordes pop-slow: “agulha no cabelo”, há uma tragédia “onde o sol se põe atrás”, já que no amor, “és unica a dar gás”, a violência da declaração: 2x2, “rainha das marés”, violino é a voz da musa do sujeito poético. O objecto icónico como sinal da sua pureza transcendental: “crucifixo, nas mãos uns dentes de alho”, para afastar os espiritos como o de Lautréamon: “se eu uivar e acordares coberta de grelos”, a banda inicia a progressão para a retirar do lodaçal da tristeza, “rainha das marés”, com o violino a responder ao Rei: “és unica”, baixo desce a escala e afunda-a numa incerteza da qual é rasgatado pelo violino: “mas tu és unica a dar gás”, “a princesa das marés eu caio aos teus pés”. Coloca as mãos atrás das costas como se estivesse a ser algemado, abre a boca para fugir da asfixia, aumenta o ritmo, “és minha”, diminuem a altura e encontram-se no épilogo. “A coisa mais importante são vocês. Esta música são vocês. Se não fossem vocês erámos mais uns subsidiados ”. Teclado e violino encetam um percurso delicado, frágil, que surge quando os vassos comunicantes se cruzam no tempo e no espaço, “inventou o verbo amar, fugi sem hesitar”, em “que gozo com vocês”, “sem hesitar”, pausa, teclados mais violino, “se fiquei e não gostei”. O break da bateria traz consigo todos os instrumentos, “eu menti sem hesitar, esqueci o calor do lar”, “chorar”, o teclado introduz acordes de um tropicalismo tépido, fátuo, violino, baixo: “eu inventei o verbo amar”, “lar”, “inventei o verbo amar”, “parti e não vou chegar”: o assobio do Rei de POPortugal mimetiza os acordes tropicais inseridos anteriormente pelo teclado. “Ficar” (eco). “Obrigado Estarreja e Companhia. Os Casinos, Las Vegas, Las Vagas, Las Vagas: io”. Teclado binário, o baixo com o pendor de uma cascavel com veneno na ponta dos caninos salivantes, “macro onda, vista ali da marina”, a melodia é “de ouro a mina”, no tapete verde rodam os dados: violino, teclado, baixo, “aceita apostas”, cita Camões: “fiel das balanças”, com o baixo a impor-se como um corte transversal e continuo em cadência marcial, encaminha o sujeito-poético para a tragédia gréco-romana, “de quem gostas” (eco). O violino é o cumplice da máfia italo-americana, o ritmo e a altura aumentam, “magra, serei a gorda e tu” , a, “cabra cega”, a determinação: “estarás de licra e eu de tanga”, a liberdade: “sou um peixe fora de água” (eco), solo do violino tão assertivo quanto violento, “serei a gorda”, “serei quem peca serás quem paga”, a consolidação de uma verdade que os receptores não acreditam: “nós somos peixes fora d`água”, violino, no singular agrega a proposta asfixiante: “e eu sou um peixe fora d`água”, a progressão hipnótica instala o principio da loucura e o público bate palmas.. A violinista faz anos e recebe das mãos do Rei de POPurtugal um bouquet e o entoar do público: “Parabéns a você, nesta data querida...”. “Este aqui [jorge Romão] só faz anos de quatro em quatro anos”. E ridiculariza a “Sexta-feira” de um rapper: “Sexta-feira ó. É Sexta-feira ó”. “Sexta-feira (um seu criado)”, com a guitarra semi-acustica de Antonio Machado a incutir-lhe a estética country-pop sobre ritmo binário. “Souvant, ou lálá”, “Efectivamente”, o circuito melódico da canção passa obrigatoriamente pelo teclado, “pássaros estupidos a esvoaçar, o riso das crianças dos outros”, o observador nunca se imiscui na narrativa, “sem moralizar”, pausa, “panascas que passam”, aumenta o ritmo, “que disfarçam ao dealar”, estamos “a controlar”, “em Estarreja é diferente”, “sem moralizar”, a banda produz os acordes como se fossem tocados para trás, o teclado sobressai mantendo a melodia do refrão na mémoria do ouvinte, “sem, sem moralizar”, breaks da bateria, palmas do público. “Obrigado! A nossa vida está a recomeçar. Deixamos de viver das nossas subvenções. Amanhã estaremos aqui. E Segunda-feira também”. O teclado injecta os três acordes poéticos, do slow que veio do norte com a respectiva pronúncia que representa uma nação: “lá no fundo donde eu venho”, a língua “é a pronúncia do norte” , a tentação do poeta se substituir ao poder de Deus: “hemisfério fraco traga outro forte”. Ao viciar um instrumento de navegação como a: “bússola sei que existe aponta sempre para norte”, somente porque assim se impõe a “pronúncia do norte” ouve-se o Douro a correr para o “mar”(eco). O acordeão de Antonio Machado revela o serpentear das encostas do Douro talhado à vontade do homem para da vinha fazer o sangue do “barqueiro nem hei-de remar”, e é o orgulho de um povo que: “corre o rio para o mar”, se navega para a foz: “prenúncio de morte”(eco). Esperam “um gajo parecido com elas”, “andar”, corre “o rio para o maaar”, “norte” (eco), acordeão, a banda insurge-se na equação, mas o teclado mantém o seu pendor trágico, até à Foz. A lírica do Rei de POPortugal flutua no rio e transforma o seu leito nas veias de um corpo rugoso, que ao sol ou à lua, representa e representa-se como o devir de uma alma preparada para enfrentar as agruras do mar do norte. Teclado + bateria, a génese de “Sete naves”, é construir e desconstruir, não numa lógica de somatório de opostos, mas de circularidade dos acordes que encaixam no ritmo de máquina de indústria de “metal a flutuar”, que tem na voz do poeta: “desejo de me afundar”, aumenta o ritmo da máquina de fazer pancadas, não “paro de martelar”, violino, a frieza descritiva da máquina biomecânica: “dedos metálicos frios, vontade enferrujar, matéria por soldar”, mas a parte humana denota fraqueza: “vontade de me enforcar”, e o refrão revela a alma: “as naves que eu construo não são feitas para navegar, aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”, o ritmo binário embebeda as luzes que nos iluminam hipnoticamente no convite aos corpos para que expulsem as almas, e as ponham a dançar a olhar para um precípicio. Os acordes do baixo são elementos que unem as peças soltas desta nave que flutua sobre as nuvens criadas por Dali, das quais saltam tigres dispostos a nos vilipendiar. Jorge Romão ergue o baixo disposto a decepar as cabeças que ouvem “as naves que eu construo não são feitas para navegar”, e voemos, “fundem-se com o ar”, “se se voltam devagar”, o Rei de POPortugal: “fundem-se com o ar”: “Lalai”; Jorge Romão: “BomBOmBOm”; Rei: “Lalailai”; Jorge Romão: “BomBOmBOM”. “Vocês têm peixes no brazão, nós temos peixes no coração”. “Sangue Oculto”, é-lhe retirada a vertente épica-rock, para a instalarem num ritmo esotérico que lhe mantém a trágica “luta na arena artificial”, “ao fugir de uma investida”, bateria e baixo, “ao fugir da própria vida, sem correr e sem saltar, oculto sangue que tenho para dar”. Palmas. “´Voos domésticos` primeira canção proeminentemente heterosexual”. Antonio Cesar Machado, tem a guitarra semi-acustica como elemento timbrico e é na sua orientação que a nave espacial encontra a sua cave, ela “me disse para aterrar em mim”, a banda repete os acordes dolentes e quentes simultaneamente, “em mim”, banda, “olha a turbulência é da tua ausência”, solo do violino, teclado, baixo, bateria, “a tua ausência”, nem o espelho responde nem a memória faz parte: “diz-me quem és? A torre de control, fantasma de lençol”. “Cais”, a canção proeminentemente pop, e o resumo da certeza de que em Portugal nunca há “ninguém para o crude limpar”, mesmo “sais”, o clássico argumento: “vendes o Cais”, aumenta o ritmo e a altura descolando delicadamente para a estratosfera: “mar salgado”, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?



Voos Domésticos, GNR, 09 de Março, Cine-Teatro de Estarreja @ Estarreja

sábado, 13 de agosto de 2011

Piloto Automático

Noite húmida cobre a Batalha de Aljuz Barrota, há muitas padeiras e imigrantes, jovens e velhos, postos de venda de cerveja. O palco está instalado junto ao Mosteiro da Batalha, os batalhenses ficam inertes ao apelo do ritmo prog-rock-electro que infecta o pop-fado de “Sete Naves”, surgem Rui Reininho, Tóli César Machado, Jorge Romão com mais três irmãos sanguinários. Rui Reininho (Rei): “Vejo destroços de metal a flutuar”, “provavelmente o Tejo”, “sinos, sinetas ao acordar”, o “ritmo” é mecânico e circular, “paro de martelar”, solo da guitarra, “vejo estas veias estalando”, “artéria por estalar”, levanta os braços, “diáfanos por envenenar”, “vejo isto”, “outro ritmo”, “pára de martelar”, a música continua a contrariar a narrativa do Rei, as luzes negras e brancas acompanham a sincope: “As naves que eu construo aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”. “Fode”, o sangue começa a estalar, “elas vêm-se, volteiam-se devagar”, o Rei encarna Bruce Lee e dança, “OOOO”, “AGORA”, e pede ao povo que se venha, levanta o braço direito para os acordar: “AAAAA”, solo da guitarra a mimetizar os acordes do refrão, “as naves que eu construo não são feitas para navegar”, pausa, “nunca a do mar”, “ar”, “vêm-se”, “vêm-se”, “voltam-se devagar”, “beijoo”, solo-guitarra, “nem a do mar”, “AIAIA BOM”, “AIAIAI BOM”. O Rei dirige-se aos súbditos: “E a Batalha está ganha! Ainda agora começou!”, não é ironia, a declaração de guerra é sincera. Assim o demonstra, “Sexta-feira (um seu criado)”, a canção rock and roll, que se prostitui “em Albufeira”, “para acabar”, “era tal a bebedeira”, “ninguém sabia onde era o mar”, “beija-me”. “Já é Domingo na Suécia, Cascais, Funchal”, “a policia”, “bem contra o mal”, “falta a tua confissão”, com a canção muito próxima do original, “amei”, “já não dou com o Dj”, solo da guitarra substancialmente prolongado e distorcido, “falta a tua confissão”, “beija mão”, “de quem gostei”, “dó”, “já não há, já não dou”, “nem pró Dj”, com o Rei perdido na Batalha. “Obrigado meninos, meninas, senhoras. ´Efectivamente` foi estreada aqui no tempo do Mestre de Aviz”. A canção redefiniu a pop, o ritmo é por si só de uma circularidade lúdica, subtil, com paredes rupestres com “pássaros estúpidos a esvoaçar”, o tédio do “riso das crianças dos outros”, o refrão é assertivo: “Efectivamente”, coro: “Lalalalalala”, “sem moralizar”, dois por dois, “engatar”, a guitarra insurge-se para lhe dar progressão, “controlar”. “Efectivamente”, “sem sincronizar”, a guitarra emerge mas desta vez complica, o teclado não resolve a questão, “sem moralizar”, “m-o-r-a-l-i-z-a-r”, coro: “LAAALALALA”. “Pois é, esta época passada foi uma série de títulos que ganhamos. Primeiro lugar desde 96! Obrigado! A nossa reciprocidade”. A música é um tónico tropical, um fluído que suporta o Rei: “Qualquer escravo era feliz”, “vender macacos do nariz”. A perspectiva sobre a mudança de paternidade: “O papa agora faz de mama” e “a mama tem mais cabedal que o papa”, “o futuro nas televisões”. “AAHH os bebés vinham todos de Paris”. “AAAH os bebés eram todos para meter no nariz”, blues-pop, “a mama vive tão longe do papa e os bebés ganham mais que os papas”. “O papa tem mais paciência que o Papa”, eco: “OOOOO”: “Vai Batalha agora tu!”. “A próxima canção é fantástica, porque começa no princípio e acaba no fim”, é o slow noctívago-pop de “Morte ao Sol”, “felizmente a noite sai”, solo-guitarra, “este lugar”, solo-guitarra-fm. “Metamorfoses de horror”, quem o determina paradoxalmente é o Rei sol: “Vão demorar?”. “Estou contente se a luz se esvai”, “revela cierta”, “rouca voz”, o vento sopra bolhas de sabão, “meu amor”, “directa sim”, “declaro morte ao sol”. “Directa não”, “morte ao sol”, progressão, o solo da guitarra substitui na íntegra o da gaita-de-foles de Paulo Marinho no original. “´Bellevue`, vous parlez fancais? ´Une Valse a Mille Temps`”, a referência ao universo do belga Jacques Brel, ganha corpo na progressão dos acordes e no ritmo compassado, que é Porto travestido de Paris. A narrativa é de papel químico de um policial, imerso num sufoco, o telefonema: “Leve, levemente como quem chama por mim”, que lhe permite ter uma “ideia brilhante que cintila no escuro”, a acção: “E subo a mão”, a guitarra percorre o refrão, “diamantes”, “salto à janela”, “coração”. “Bellevue”, “rendez-vous”, o ritmo acelera, “último estertor”, “cruel”, o local do crime: “Cama de dossel”, o detective põe-na à prova, ”experimento o colchão”, “solidão”, o baixo encorpado de Jorge Romão. “Rendez-vous”, “lá no jardim”, “confia em mim”, pausa, os teclados aumentam a tensão, quando o Rei assobia no microfone, a guitarra de Tóli César Machado sobressai. “Stop”, a revelação do autor do crime: “Sabem que me escondo na Bellevue”, alegre ma non tropo, decadente, “os meus amigos no fundo do jardim”, “ninguém confia em mim”, o alçapão: “Era só para brincar ao cinema negro”, as provas: “Os corpos no lago de jovens no desemprego”. “Atrás de mim a História, à minha frente o futuro”, quando o Rei disse: “atrás”, colocou os braços em direcção ao Mosteiro, quando referiu: “futuro”, para à frente. “É pena a Assembleia [da República] não estar aberta. Tenho um jeito para estas coisas. Então e o meu chá?”. O funk-pop de “Rei do Roque”, a narrativa beat: “numa selva sem leões”, “Rei da Rádio dá-me a voz”, “Rei da pop compõe por nós”, “Rei do Rock morreu por nós”, a síncope instala-se, “evidentes orações”, electro-pop-rock. “Isto é Oeste? Vamos lá ver isto. A ver se não me engano nas vogais”. A música que se segue é um slow movido a gás, ecológico-pop, o naturalismo da “casca de carvalho”, “a agulha no cabelo”, o refrão desconcertante: “Unika a pagar o gás”, teclado de Tóli, “um crucifixo, as mãos, os dentes de desejo”, “si lui trouvez”. “Unika a dar gás”, “a rainha das marés”. O hino ao ópio, com uma introdução hindu, urdida enrolada e fumada pelos Beatles: “Ana Lee, meu lotus azul, ópio do povo”, “Ana Lee”, a melodia é Trópico de Capricórnio, “num Lotus azul, nada de novo?”, “Bragil”, “jasmim”, “e a ouvir-se”, “num país onde fumam as cigarras”, sobressai a bateria, “tigre de papel”. “Lotus azul”, “poente dourado”, solo-hard-rock da guitarra, aceleram o ritmo. “Ana Lee”, “jaguar perfumado”, “tigre de papel”. “Vamos fazer uma estreia mundial”, ri. “Esta é para os Bombeiros….”, levanta os braços , “Que são os Bombeiros!”, palmas do povo. “Voos Domésticos”, o original que dá nome ao um best of reescrito, produzido por Flack. Uma melodia slow-pop-kitsch, que poderia ter constado no “Retropolitana”, domínio dos teclados, “o que faço aqui?”, “e então se tropeça-se”, “em mim”, “olha a turbulência é da tua ausência”, “adivinha”, “algures na cozinha, soa a campainha”, é o Rei, “num gesto de avareza só pago a sobremesa”. Avisa: “Olha a turbulência é da tua ausência”, é “a torre de control”, “adivinha quem sou?”, a densidade psicotrópica é densa, com os teclados entre o universo pop-prog, a guitarra a assumir-se como o interlocutor do Rei. “Escuta a turbulência é da tua ausência”, “fantasia de lençol”, o psicodrama: ”adivinha quem sou?”. “´Voos Domésticos` à venda em todas as casas da especialidade, que são poucas, são mais os piratas”. Do ar? “Asas”, a pop-cinética de veludo, andamento de meio tempo, letra onírica: “Servem pra voar”, “pra sonhar”, “espreitar”, “não te esquecer”, o Rei voa, “por combater”, “tentar não te esquecer”, “no alto do ar”, “se quiseres pousar a paixão que te roer”, “é um amor que vês nascer”, o solo semi-distorcido circular resume a melodia. “Estão a ver isto”, o Rei aponta para um copo que contém: “Mesmo chá!!”, Tóli César Machado desloca-se da direita para o centro do palco, recorre do microfone do Rei: “Toma lá do meu!” e estende-lhe o seu copo. O Rei enólogo chega à conclusão: “Ah! Isto sim é chá da marca do Jorge Palma! Um grande herói!”, riso do povo. “A Pronúncia do Norte”. “Um dos melhores compositores vivos: Tóli Cesar Machado”. A ironia rock de “Cais”, não é totalmente aplicada, o ritmo é substancialmente mais lento comparativamente com o original, e nem se assemelha com a versão que roda na TV, internet e na rádio pirata. “Se ondas vêem chatear”, a lírica é premonitória: “E quando a maré negra chegar?”, “crude limpar”, “imenso sais”, “sereias sensuais”. O narrador volta à terra: “Se o pescado morre ao largo”, “vai ver se há ainda lodo no cais”. “Voltas ao cais”, a canção diminui o ritmo e instala-se um ritmo marcial, próximo do break beat, “sensuais”. “Imagino o Carlos do Carmo no Allgarve com as bifas em topless a cantar: ´I've Got You Under My Skin`”. “Espelho Meu”, “Porto 1980”, os acordes disparados pela guitarra em delay coloca-a no pedestal do psicadélico, as luzes brancas incendeiam o espaço como se fossem bolas de espelhos, a banda joga em bloco, vibrante pulsão agressiva, fantástica: “Perguntem ao meu espelho”, a banda faz uma pausa, e Tóli Cesar Machado encerra a canção com acordes rítmicos, genial. Qualquer imigrante emociona-se com “Dunas” poluídas. “Sem reflectir”, “velho habito”, “a lado”, “ficar quieto”, “senti-la a vibrar”: “Ah! Lá vem ela”, “a relva cresce”, “um peito assim, ai”, “sabendo que é boa”. A demência: “AIAIAIAIAIAIAIA”, denso fílmico, “acabar de jantar”, “não pedia para ficar”, fica “sabendo que é bela”, “interesse”, “talvez assim”, “linda”, o teclado liberta-a da tensão nada característica da bossa nova: “PoPoPopLess”, o solo da guitarra distorcido, funciona como se fosse o coro da Antiga Grécia. O rei encarna o Axel Rose, “lá vem ela”, “mexe”, “AIAIAIAIAI”: “PoppopLess”, eco, “PoppopLess”, eco “PopopLess”, eco. “A próxima musica é mesmo em espanhoel: ´Sangue Oculto`”, o solo da guitarra que inicia a canção é menos linear que o original, a banda é uma máquina de rock and roll, finalizada com um desafio anti-touradas: “Se puderem mostrem compaixão pelos animais, não se arrependem!”. Encore. “Nós vivemos disto e para isto!” Blues-pop de “Burro em Pé”: “Se foi só para nos ver”, “mais vale me calar”, “tira o cabelo da boca”, “esse piercing no umbigo fica-te mesmo a matar”, o fraseado de música clássica, retira-a da mediocridade, a guitarra solo mimetiza os acordes dos teclados, “IONHK”. O Rei explica: “O burro é um dos animais mais inteligentes que há!”. “Há um bicho novo para limpar”, popopop, com refrão: “Vaisouvirever”, “mais vale nunca mais crescer”, poprock, “cérebro em fuga”, coro: “Mais vale nada”, “crescer”, “mais vale nada”. Seguido de um tufão soul-pop-tropical que aquece o “Inferno”, com os devidos aditivos ao romantismo latino-americano. “GNR, trinta anos venham mais Trinta!”.

Voos Domésticos, GNR, 12 de Agosto, Festas da Batalha @ Batalha

sábado, 1 de maio de 2010

Retropolitana

As luzes do Auditório Jorge Sampaio no Centro Olga Cadaval em Sintra apagam-se e a voz off informa: “A Rádio Comercial apresenta Retropolitana”, o novo álbum dos G.N.R. O palco emite sirenes e as luzes imitam o foco de uma prisão de alta segurança, entram os três músicos que acompanham, Jorge Romão no baixo, e Tóli César Machado na guitarra-ritmo, veste uma camisa branca sob colete azul. El Rei del Roque, canta: “Macacos imitações”, “Rei da rádio, compõe para nós”, as guitarras estão afinadas e equalizadas na mesma onda, são os reis de la rocke. A guerra é apenas uma pintura, “retrato em pó”, “o rádio berra”, “o Sr. Dos Anéis”.”Clube dos Desencalhados” , “não é?”, “e vivo à beira de um mar plantado” , “o sorriso à espera”, “bem-vindo ao Clube dos Desempregados”, o meio tempo ganha em crescendo, “sentir tremuras” , “como as estrelas”, “há festa na praia do afogado”, “sentir tonturas“, trágico, sensível, frágil, “sentir touturas”, “soltar amarras”, o abandono: “Ficar no bar a ouvir as estrelas”, a melodia é perpassada por uma descontinuidade, “soltar amarras”, “passar a barra”, “a cantar.”. “Efectivamente”, “engate”, “ratos do esgoto”, al El Rei le gustam las aparências. É implacável com as suas groupies: “Já não tocávamos para gente sentada, desde o Natal dos Hospitais. Antes sentados que acamados!”. A constatação: “qualquer escravo era feliz”, “a rir a ser imperatriz”, “a cabra faz-me mal”, “já cá estamos outra vez?”, “a culpa é das televisões”, “e os bebés vinham todos de Paris”, “Papa faz de mama”, “e o bebé até é pop” , “pó sai”, pop/soul, o falseto é tão irónico: “O Papa faz de mama”, ahahah, “e a bebé já sai com o papá”, eco, a canção acaba em regime de Eurovisão com El Rei a rodopiar no sentido dos ponteiros do relógio. “Chama-me um táxi, já amanhece”, slow de telenovela. “Ainda bem que a névoa anda por ai”, “overdoses”, “as trevas vão iluminar.”.”Dunas”, é um passatempo, apenas se destaca quando o guitarrista mimetiza a delicadeza tímbrica de Alexandre Soares. El Rei reflecte: “Depois da nossa música sobre os submarinos”, aproxima-se da bateria e segura um copo na mão e com o olhar mede o líquido amarelo: “O que é isto?”, bebe, “cerveja? É a minha análise.”. Asas, “hesitas”, “paixão”, retira do indicador a aliança que coloca no bolso esquerdo do casaco branco. “Também somos das profissões mais antigas do Mundo”, “somos os piratas”, vivemos em “Tirana.”. Emitem mais um novo tema a meio-tempo, “até do musgo, casca de carvalho.”. Ouve-se a perfeição onírica com a melodia do teclado de Tóli: “Os Diamantes são eternos, como os amores de Verão”, “acrobacias”, “as nossas manias”, “pulseira electrónica”, “a nossa vaidade sem”, “pulseira electrónica”, “as más companhias”, El Rei ensaia uma queda, enquanto um solo electrónico de guitarra eclode. A constatação: “Eu acho que o Papa, não deveria ir ao Porto, ser feriado, porque ele está lá todo o ano!”. “U.S.A”, El Rei despe o casaco branco, e enluta-se enquanto canta este clássico, “abusa”, “tratado por tu já nem se USA nem em Castelhano”, num groove que sintetiza o neo-kitsh, “uma Musa.”. E, “Popless”, é inebriante. “Quem é que aqui é que usa Tatoo?”, os casais de meia idade, sorriem contrariados: ”Não foi de acto natural”, El nancimineto del Rei, “higiene pessoal”, “marca tropical”, “ABC é um animal”, “um homem nu”, speed-pop, “eu vou pagar uma bebida Nacional”, o imperativo: “Quero ver o teu tatoo”, “de um homem nu”, o sintetizador de Tóli, a sobrepor-se ao todo. “Quero ver o teu Tatoo”, Roxic Music é claramente o seu ADN, Del Rei! Viva El Rei! Viva El G.N.R: “Mostra lá esse tatoo”, “deixa ver esse tatto”, “o piercing é anal?”, ”paraíso fiscal.”. A narrativa do burro em pé é uma fábula gasta, que dorme “em pé”, harmonicamente devedora de um tema dos Beatles. “Mais vale nunca”, o tema hiper-pop, “crescer”, os sentados catapultam-se para a verticalidade, palmas, gritos, histeria. “Sangue Oculto”, loucura, espelho meu amor.

Retropolitana, G.N.R, Auditório Jorge Sampaio, Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra, 30 de Abril.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Délicatessem

A aldeia encontra-se iluminada com as luzes do Verão, à entrada da área destinada às farturas e carros de choque, várias lápides estão expostas rodeadas por uma rede de galinheiro. As adolescentes com sotaque de França, Suíça, vestem roupas de cores claras e acentuam nos topes, para aumentar a corrente de ar e desta forma arejar a temperatura corporal. Os convidados desta noite de festejo são os G.N.R, com o palco instalado à frente de um campo de futebol sintético coberto por uma alcatifa para não o danificar e impedir os jogos dos casados contra os viúvos aos Domingos à tarde após a bênção do Padre às suas beatas e beatos. A bandeira da festa na Bidoeira de Cima é hasteada por Rui Reininho, vestido com um blaze azul às riscas brancas, e uma camisa branca, ganga e sapatilhas cinzentas completam a indumentária digna de um por de sol em Cascais, junto à marina a ver os velejadores a zarparem para o Ultramar. Os G.N.R ainda perguntam se o espelho é a fonte adequada para obter o reflexo de Portugal, “perguntei ao meu espelho”, “complicado”, “e continua de pé?”, o fraseado da guitarra sustenta toda a canção que é envenenada por um funk nervoso e excitante. “Bom dia. Obrigado pelo vosso convite, apropósito foi o primeiro deste ano”, é a cerimónia do Rei. Sou o “Popless”, “yeah”, com as guitarras em distorção, “quando tudo sobe também desce”, “mexe e remexe”, “ e assim acontece”, “ai, ai, sabendo que é boa”, “o segredo é Pop-pop-pop-lesss”. O aviso do Rei: “Meninos e meninas não se cheguem às falécias, por causa da humidade, capice?”. O palco encontra-se rodeado por um pinhal de solo arenoso, as luzes são um jogo simples de very lights e de uma parede led que dança ao ritmo das canções. “Há um bicho novo para limpar”, “mais vale nunca, mais vale nada”, “cérebro em fuga”, “letal”. Apresenta Jorge Romão, como o “George Constanza” da “série Seindfeld, não era?”. “Somos muito novos, temos 30 em cada perna. Tirando as partes gagas”. A pronúncia do Norte é sempre prenúncio de morte, “hemisfério traga outro Norte”, “a bússola”, está de tal forma viciada que aponta inquestionavelmente para Norte: “Mar”, “mar” e o bandoleon expira uma tragédia que levava os portugueses para o Mar do Norte à pesca à linha do bacalhau, “não tenho barqueiro”. O agradecimento vindo de um Rei letrado em romances de cavalaria queimados por Cervantes: “Se não fossem vocês estaríamos na tropa! Esta é dedicada ao meu amigo Mickael, assim um gajo giro. E eu não sou giro? Somos uma boysband de gajos giros!”. Os “ratos” nesta aldeia parecem “mafiosos convictos habituados a controlar”, não vos parece? “Efectivamente!”. Nunca daria para instalar uma banheira decorada à sombra dos pinheiros, porque a “Ana Lee”, “Ana Lee”, é mulher da elite, que delira com um “Lotus azul”. O que era uma canção à viola, é transposta em regime de rock-funk-transgressor, a transbordar de um “triângulo molhado”. Reininho informa o público: “Esta é mais difícil, é tipo preço certo”. Coloca a voz à David Fonseca a carpideira-mor deste país de anglo-saxónicos: “Esta música é em modos de Leiria, é em inglês!”, “she sucks”, “que rico”, “que maravilha”, com as guitarras a repetirem os acordes, no interlúdio são as teclas que realçam o kitsh, “ai! The Puerto Rico Show”, “The Puerto Rico Show”, “Miss. Venezuela”, “Miss. Caraibas”, “que rico sabor, ai! Ai!AI!AI!”, “Guantanamera, Guantanamera”, “AHAHAHAHAHAHAHA”, ecoa, soul-psicadelica, “Conchita, you are in the business…”, “I Want you!”, “Aiaiaiaiaiiaiai”, “The Puerto Rico Shooooooow!” . E a “Tirana”? A gestualidade do Rei implica uma comunicação semelhante à de um professor de matemática surdo. “Esta é o terror”, de onde fogem, “Dama(s) e Tigre(s)”, de um jogo “divertido e letal”, “por trás de cada porta há um só destino”, numa convergência proeminente rock. É “Sexta-feira (um seu criado)” algures num espaço onde rodam bebedeiras de bar em bar, com a voz em simultâneo com o riff: “Falta o teu voto na mão”, “já não sei em quem votei”. A conclusão de que, “os gajos com piada estão a morrer todos. Eu vou viver até aos cem!”. “Sinto a língua morta o latim vai mudar”, “estará a meditar?”, “Ui!”, “Ai!”, “Ui”, “Ai”. “E se o amanhã perdido for? Metamorfoses de pavor”, “OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO”, “aí vem a luz”, solo de guitarra-psico. “Esta é de um amigo nosso, Roberto Carlos”, vale a pena ser belo, rico e dono de um cabriolet e contar as histórias da nossa juventude às virgens que se passeiam à beira mar. Pois, as “assas servem para planar e sonhar”, e inscreve-las na memória para as noites gélidas de Inverno, “aconteça o que acontecer”. A adolescência é sinónimo de leituras com final feliz: cão, gato, e os objectos domésticos para dar utilidade à casa. Quando se é “Sub 16”, tem-se o sonho de ver os G.N.R ao vivo no Estádio de Alvalade e beber “cerveja escondido da mãe”, e gritar: “ESTOU FARTO, FARTO, DE DORMIR SÓ”. “Patchiuri, patchiuari, patchiurirararararararara”, “onde?”, “agora somente os de Bidoeira de Baixo”, “patchiuari, patchiauari, patchiuari”, “agora só aquela senhora que está a conduzir de sandálias e de topless!”.

G.N.R, Bidoeira de Cima, 23 de Agosto.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...