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sábado, 10 de abril de 2010

Holocausto Canibal

Está uma noite quente de Abril, na Charneca, uma freguesia rural de Pombal. Onde se encontra o colectivo de metal RAMP, ainda estão a jantar, juntamente com as duas bandas que os irão anteceder. A sala onde irá decorrer o espectáculo tem um friso superior onde constam taças de casados contra solteiros, t-shirts emolduradas com as equipas visitantes, e uma guilhotina encostada à esquerda do palco, com a lâmina afiada pronta para decapitar os amantes de Deus. Rui Duarte está nas escadas oblíquas que dão acesso a esta sala: “É agora”, é uma da manhã, e os putos estão transformados em devoradores de cerveja, charros, cigarros. Rui, contorna-os com a confiança de quem enfrenta multidões há vinte e cinco anos, os seus cabelos encaracolados, chegam-lhe à cintura, é possante, e cada passo é uma marca de poluição contra o ambiente. Um intro antecede a entrada da banda em palco, os primeiros sessenta minutos de concerto, são de uma violência excessiva, as guitarras jogam entre si, como se estivessem a descarregar choques eléctricos sobre os putos, que abanam as cabeças e fazem das suas cabeleiras espanadores, que o Diabo usaria para limpar os ventres das suas amantes que se recusaram a abortar os filhos de Deus. “Somos milhares”, e os “RAMP gostam de ter os amigos consigo”, “obrigado!”. Os miúdos erguem os dedos como se fossem os cornos do Diabo, e exalam todas as energias acumuladas das rotinas diárias, gritam, e a histeria é contagiante. Rui Duarte é o incendiário, o pirómano, que congrega em si a atenção dos milhões que ficaram em casa a ver “as novelas da TVI”, e aponta o dedo “ao BLITZ” que no passado ainda dava atenção à música dos “RAMP”, mas, “isso, pouco importa!!! O que nos interessa é que temos connosco os nossos amigos!” Que veneram, mais uma hora e quarenta e cinco de espectáculo, de decibéis distorcidos, de voz grutural, de mandamentos que instalam a irracionalidade. “Alone”, será “SEMPRE MAS SEMPRE PARA A MINHA MÃE”, o tema rejeita o meio tempo do original e é decapitado na sua tensão, ouve-se a lâmina da guilhotina a decepar a cabeça multifunções de DEUS.

Subversion Tour, RAMP, Associação Desportiva Acção Cultural da Charneca,Pombal, 9 de Abril.

domingo, 26 de abril de 2009

O Claustro dos Corvos

Os RAMP são um remoinho de esquizofrenia bruta, liderados por um Minotauro de cabelos encaracolados que o vestem da cabeça até aos ombros. Quando abre a boca as chamas incendeiam o Alfa Bar, repleto de adolescentes que se acotovelam, abanam a cabeça a seguir o ritmo de “Blind Enchantment”, o primeiro tema de Visions, o álbum que se distribuiu à entrada. Ou se atropelam, empurram, ao instalar a desordem, surge o reduto da demência, onde o grotesco é a nota que impera como fio condutor de duas horas de terror sonoro, nunca encontraremos o início ou fim do novelo, o labirinto é um claustro onde os corvos devoram os cadáveres dos cães atropelados por Mercedes descapotáveis. “Esta música, queria dedica-la a quem fez parte de mim, faz parte de mim, e continua a fazer parte de mim. Apesar de já não estar cá!”, “Alone”, “OoooooOOOOOO”, “vocês:”, “OOoooOOOOo”, “MAIS ALTO!!!!”, “OOoooOOOOO”. Os miúdos atiram-se sobre o palco, o roadie manager, a Velha, entra e tenta segura-los com a paciência de uma idosa amante do croché, “CALMA!!!!”, “CALMA!”. A tensão dissipa-se gradualmente mas paradoxalmente o Minotauro encaminha-os para o clímax. “Anjo da Guarda” de António Variações é revisto sobre uma palete de solos distorcidos e em ritmo arrítmico, são as frequências de um coração à beira do ataque de nervos, a voz: “eu tenho anjo, anjo da guarda que me protege de noite e de dia!”. “Nesta altura recuamos ainda mais no tempo, o próximo tema chama-se ´Thoughts`”. A sequência de solos entre os dois guitarristas transformam, “Walk Like an Egipcian” da girls band mais sensual do planeta, as Bangels, num bordel onde o pagamento se efectua através de escárnio e de gozo, “Lá, lá, lá, lá, lá, lá”. “Vocês não são nossos fãs, mas nossos amigos. Este é o momento em que recuamos vinte anos, este é o momento em que partilhamos o nosso Inferno!”

Visions Tour, RAMP, 25 de Abril, Alfa Bar.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...