Friday, November 2, 2018

Thursday, November 1, 2018

Secreções, Excreções e Desatinos

Não fumes nem te filmes a fumar os teus dedos não sei há quantos anos a observo a fumar-me devagarinho por vezes converso com o seu umbigo com um diabrete trespassado que saltita no meu ombro e mete a sua língua na minha orelha para me seduzir a carregar no botão explodir para me subtrair a ossos e a carne desmembrada o seu baton insere uma dentada no meu pescoço mas não quero rejuvenescer nem que me peças emprestado os testículos para dar de comer ao teu tubarão que por vezes abandonas à porta de um lar de alcoólicos famosos que colocam pensos embebidos em Jack Daniels nas vaginas talvez sim ou talvez um de nós esteja a transpirar as palavras que nos tornam vorazes mas momentaneamente aprisionados a umas paredes de luxo e o foco circular espera ser descoberto pelos mirones que se limitam a procurar uma escapatória à sua curiosidade mórbida e a tua locução é de uma cigarra habituada a lidar com as intempéries que antecedem o Verão há quem a condene à morte mas a sua sentença apenas é deliberada por um vogal de uma associação de vagas malucas que são vetadas à entrada da discoteca e ela vibra ao expurgar a alegria e transforma-la em felicidade dou-lhe a mão mas é de composto inexistente que paradoxalmente me toca como se eu fosse uma guitarra portuguesa que se rebela contra a saudade lamento a sua surdez e acrescento uns acordes em vão e abandono-me numa estrutura que se movimenta saturantemente e ofegante reza pelo futuro e pergunto-lhe se é pelo dia de hoje mas ignora-me altivamente estou certo que ela conhece o preço de tudo mas ignora o seu valor é possível que se encontre a contar os escudos que lhe entopem os bolsos e que lutam para residir nesse buraco onde se sepultam os destroços de navios; o Stereogun apresenta dois nomes para subir ao seu palco e a primeira é uma jovem que veste de fantasma e a sua designação artística é Vive La Void e as suas canções primam por uma linearidade synth por ser meramente repetitiva sem que esta resulte assertivamente em algo hipnótico e nem a tonalidade gótica a consegue retirar da monotonia mesmo que sejam as mais enigmáticas e por consequência indubitavelmente as mais belas; Suuns tem uma narrativa sónica deveras entusiasmante por agregar às canções com estruturas electrónicas diversas correntes estéticas como o rock o kraut rock e a prog e a noise e a pop e o trip hop isto sem que haja quase pausas de umas para as outras e que estão predominantemente imersas em tonalidades negras que em combustão contínua deflagram numa claustrofobia que em vez de atrofiar o ouvinte o liberta e ainda há a destacar a urgência com que deterministicamente se impõem na memória futura como épicos; e Ámen ámen te digo que é melhor a caixa de cartão a esta casa escavacada pela Leslie essa puta morena que se vende por um prato de lentilhas e as vacas mugem num coro selvagem que é um hino à liberdade que gradualmente se estabelece numa métrica fugue mas a natureza ventosa das almas impõem que se altere a canção para uma fúnebre em que constam os alicerces de uma outra sociedade destruída pelos romanos e os arqueólogos que a descodificam reinscrevem um apocalipse detalhado num salmo de seda esburacado por aparos intelectuais e onde é que nos encontramos talvez num centro que paulatinamente se reinsere num outro tempo que se limita a ser uma escapatória para o além que imaginariamente é possível que seja algo tão abstracto quanto surrealista e um lastro de heresias percorre o céu como uma estrela cadente que anuncia o nascimento de um menino sem braços ou pernas que tem uma cruz vincada nos lençóis de linho setenta vezes sete e ressuscita completo no teu regaço de gaivota tonta desorientada que despe as penas hediondas oriundas de uma lixeira no fundo de um oceano que se consome em cada corrente que se prende a um hemisfério invertido que inverte as coisas à nossa volta e ao minuto se discorre uma outra história em que domina a harmonia num retábulo de Mestres que representam uma fábula que defende um mundo a céu aberto às modas ditadas para serem dissecadas pela tua língua viperina.

SUUNS + Vive La Void, 31 de Outubro, Stereogun, Leiria.

Sunday, October 21, 2018

Primavera Autónoma das Estradas

A figura que está à minha frente modifica a sua expressão de dia para dia e apesar de ser o mesmo rosto este ganha outras características que o redefinem algo que me confunde pois não sei qual é que mais me agrada talvez o de hoje em que sorri como se estivesse agradada pela luz natural que a ilumina mas simultaneamente esconde-se através de histórias que julga que a retratam mas na verdade são episódios nada banais de uma vida passada em Lisboa onde conheceu a Ana Hatherly e o Mário Cesariny e esteve com o artista plástico surrealista a veranear na Costa da Caparica durante a década de sessenta e é incapaz de retrata-lo psicologicamente para além da adjectivação de “louco” ou “libertino” mas quem mais lhe agradava era o Cruzeiro Seixas por ser um homem que divagava por diversos assuntos que a apaixonavam mesmo que fosse interrompido pelo piano do Mário Cesariny que fora aluno do Lopes Graça e que no intervalo bebia vinho e fumava e os presentes detinham-se perante a sua elegância com que dominava as teclas e percorria diversos compositores como Debussy ou Erik Satie e tal como nos seus poemas existia uma melodia que contrastava com uma métrica irregular imersa no verso branco e os temas versavam (entre outros) a condição do homem perante a incapacidade de ser dono de si e consequentemente assumir o poder para modificar radicalmente uma realidade que era de censura e perseguição aos desalinhados fossem comunistas e ou homossexuais os primeiros eram uma ameaça para a nação os segundos pervertidos que mereciam a prisão aliás o Mário Cesariny adorava ir preso porque era mais fácil o engate; noite de festa na Pena equipara-se à Festa D`Anaia no Centro Cultural e Recreativo da Pena e a minha chegada atrasada impede-me de ver os Fugue algo que me irrita mas tal é gradualmente mitigado pelos Gypos que se agigantam canção após canção como se estivesse uma multidão hipnotizada pelo rock que se ramifica ao psicadelismo e ao noise de tal forma equilibrado que é difícil prever que o próximo concerto se equipare mas há uma certeza: “We are the fucking Gypos”; Zanibar Alines delineiam os maneirismos do hard rock originário da década de setenta do século XX com solos majestosos quer da guitarra ou do piano associados a uma voz poderosa mas não acrescentam algo novo e isto torna-os quase um tributo a uma banda fantasma; Fugly são de um composto sonicamente avassalador que deflagra a partir do punk mas mesclado a uma pop que lhes confere uma tonalidade adolescente e se isto não fosse suficiente têm uma presença em palco que o torna pequeno; The Parkinsons desde a primeira canção que não se rebelam contra a condição de messias do punk numa continua explosão de parábolas punk que sucessivamente minam a memória como se fosse impossível reagir à sua violência porque é desta que se alimentam nunca se deixando consumir; já Cruzeiro Seixas esteve na mesma situação uma única vez e teve o cuidado de telefonar à mãe para lhe contar uma mentira para justificar o não comparecer para o jantar a minha interlocutora faz uma pausa e olha para mim fixamente a tentar perceber se estou atento às suas histórias e a Ana Hatherly engatava como os homossexuais lá para os lados de Alcântara onde residia e ela era uma mulher escultórica algo que para a altura era como ver um óvni a passear no Chiado e a artista plástica festejou juntamente com o Mário Cesariny o vinte e cinco de Abril nas ruas de Lisboa inundadas por cravos; Jasmim tem um contínuo pendor slow a partir do qual inscreve inúmeras influências de cantautores portugueses e ainda se socorre de apontamentos do tropicalismo que são vertidos psicadelicamente em estruturas que apelam à contemplação algo que o torna profundamente sedutor; Calcutá apresenta um conjunto de esboços que delineiam um pretenso esoterismo pop que é de tal forma frágil que é quase confrangedor ouvir uma voz tão melodiosa em algo tão insípido; Ganso apresenta-se sem o flautista e talvez este facto o tenha levado a relegar a pop para um segundo plano e o que sobressai é o rock algo que não provoca qualquer desequilíbrio pois não se descaracterizam e o universo sonoro advém das bandas da década de sessenta do século XX seja de Londres ou de Los Angeles; Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo há uma relação antagónica entre o ritmo dos grupos de baile com a pop e isto é algo tão corrosivo quanto o ruído mas de positivo têm a voz e as letras das canções mas há a censurar a postura do Filipe Sambado que assedia com a boca no ombro do teclista que se encontra de tronco nu não estou numa de moralizar porém fazer de uma aparente orientação sexual (a homossexualidade) centro do seu comportamento como se estivesse a defender essa causa em vez das músicas é iníquo e ainda há que reportar algo assim: “O Cristiano Ronaldo violou uma jovem” ou “animem-se mais do que o meu feed no Facebook”; Chalo Correia é um angolano que maioritariamente não ultrapassa a fronteira do semba que é consumado a um ritmo veloz que convida à dança que os presentes ensaiam como se fossem angolanos; mas Cruzeiro Seixas acusava os comunistas de perseguirem os homossexuais como nunca haviam sido durante o Estado Novo algo que o entristeceu profundamente por ser apoiante da antiga União Soviética tal como Picasso e este facto fê-lo abandonar a ideologia comunista que para os surrealistas era a alternativa que ambicionavam em relação ao capitalismo e mostra-se incomodada por ter sido vista com desconfiança pelos artistas plásticos que formaram o segundo grupo surrealista e descreve-os como “misóginos” parece que delineia umas reticências e relata que nessa altura fez de conta que não se sentia desconsiderada e ou discriminada e continuou a participar em sessões onde eram desenhados cadáveres esquisitos e rejeita que tenham consumido drogas pois os surrealistas não precisavam desse indutor para criar e por vezes o Mário Cesariny convidava-a a passear pelos jardins da Gulbenkian onde observavam os patos e comentavam as flores e se o Fernando Pessoa era um dos seus poetas preferidos tal não o poderia dizer abertamente porque sabia a opinião do Cesariny que era um poeta do “bonitinho” e da “ausência de um sujeito” pois era uma versão do Walt Whitman do qual havia retirado a heteronomia para além de o julgar um “saudosista” que escreveu a “Mensagem” por contraposição “aos Lusíadas” com o intuito supremo de ser tão “mitológico” quanto o Camões.

Festa D`Anaia, 19 e 20 de Outubro, Centro Cultural e Recreativo da Pena, Pena, Coimbra.

Thursday, September 20, 2018

Les Crimes De L'Amour

Vestígios de cera sobre a toalha branca de papel jornal parecem lágrimas de Santa à qual sou fiel quanto o sou a qualquer prostituta pois não há amor mais demente do que aquele que se encarcera em masmorras e espera pelo fim da sentença que se insurge contra a solidão e se a dama é chinesa é tão tóxica quanto o vazio que me proporciona esta paisagem composta por uma imensidão de palavras que ondulam tais ondas congeladas em sacos de plástico sofro com a multiplicidade de segmentos de ar que me anulam a respiração e evito sufocar com excesso de oxigenação se emito SOS é porque algo está a implodir e não sei se sou eu ou a minha querida lasciva que dorme num espaço adjacente onde se assegura à vida mesmo que esta seja pobre de tão miserável à mercê dos marinheiros sedentos da sua carne malhada de fresco e uma luz é o meu ego que acaricio para o fazer brotar por entre os juncos deste riacho seco onde tento nadar acompanhado de golfinhos filhos de pais incógnitos e ao longe os heróis lutam pelas suas heroínas em dose sucinta para se misturarem com o sangue que os irriga propulsionado e bombeado pelo coração excitado imiscuem-se pombas de asas cortadas que em vão sucumbem à escuridão e revejo-me distante das pessoas que circulam na rotina de um dia como os outros esquecidos entre tristezas e alegrias por vezes tento verbalizar mas a minha mudez é castraria e alternadamente sinto o teu toque na minha pele de leopardo albino que me excita a querer-te rasgar a carne e saciar a minha fome faminta por mais fome num circuito que me obriga a ancorar os pés no fundo do fundo do Inferno onde corro sobre brasas que não conseguem anular a pureza que me contamina com uma felicidade naturalmente efémera não acredito que esteja vivo ou seja o espelho daqueles que se julgam despertos em relação aos sinais exteriores que os obrigam a perseguir a procissão das velas não lamento a minha figura diáfana como a de um fantasma; Spectrum tem como representante Sonic Boom que se divide pela guitarra e voz e teclado e maquinaria digital e tem consigo um tipo na guitarra eléctrica que tal como ele se encontra sentado e não lhe incomoda que a sala esteja praticamente vazia e aliás o que o perturba é começar com sete minutos de atraso e as três primeiras canções têm como referência uma vertente fúnebre algo que é deveras incomodativo porém há aqui uma determinação por parte do emissor que é exigir do espectador a entrega e essa tem que ser total e nestas há guitarras e a electrónica é quase um apontamento que serve como paralelo e ou campos de fuga à voz falada/cantada que não se molda à melodia assegurando distanciamento ao ouvinte e dessa maneira obriga-lo a prestar atenção ao que é cantado e o que domina é a dor e as suas inúmeras vertentes seja a provocada pela solidão pelo desamor e para cortar esta linha de desalento instrui um blues visceral onde são exibidas as entranhas do mal e posteriormente há uma dupla de canções em que a electrónica ganha um domínio que as torna sedutoras de tal é a sua envolvência negra e o no epílogo há um beat que é como uma redenção a quem por mero capricho seduziu a morte; antes de perseguir a nudez de cada uma das palavras que me perseguem para me sucumbirem à sua beleza superficial risco o meu nome desta pedra tumular para ser finito e se não é permitido reavaliar esta condição em que me reduzo ao nada e a partir do qual estou imortalizado num outro tempo onde os sedentos se rebelam contra a sua condição de escravos do aquém e pergunto a que horas é que a paranóia se subjuga à sua porção de cristais que me inspiram a perseguir um poente enevoado onde me limitam a um furacão que se repete segundo após segundo aniquilando sumariamente a minha personalidade que numa bandeja é servida num alguidar que não pinga lágrimas e não sei é o meu o sangue ou o do teu vaginal esse hemisfério sul gretado que se derrete às minhas carícias que te parecem infinitas labaredas e confesso que a ilusão institui uma distancia entre a realidade que é deveras fugaz como as ocorrências que são esquecidas pela memória que as associa conforme o seu grau de familiaridade por vezes tenho a tentação de as reviver para dessa forma experienciar uma liberdade que seja eternamente satisfatória mas tal é tão utópico quanto amar a utopia e os satélites emitem sucessivamente imagens de um episódio em que a coligação de forças se divide em duas frentes que vagarosamente abandonam o teatro onde os mortos são cobertos com lençóis de linho e alguém corre o pano que os encobre e atrás do qual ressuscitam e nesse mundo são alistados para enfrentar o inverno que sopra uma gélido brisa neste verão que se perde em cada instante e o fim está a palpitar neste segundo em que te escrevo e cada termo é um retrato abstracto desse ponto no escuro que segrega os mistérios que te consubstanciam numa mulher que vagarosamente endeuso.

Spectrum, 19 de Setembro, Salão Brazil, Coimbra.