Thursday, November 7, 2019

Beyond Good and Evil

Decorre nesta noite de Novembro uma tempestade que gradualmente se abate sobre a cidade do Porto salpicando-a com um pontilhismo luminoso de tão obscuro que a envelhece em cada segundo que passa e em cada passo que dou e friamente meto essa fotografia no bolso do casaco preto de cabedal e procuro o bilhete para ver no Hard Club os Primal Scream mas previamente há actuação dos portuenses Fugly que derramam a sua verve punk mas assediada constantemente por um trash vibrante que lhes confere uma densidade predominantemente agressiva e as inúmeras variações rítmicas incute-lhes uma eloquência atroz e pena que haja tão escasso público e que isto se reflicta aquando da entrada em palco dos Primal Scream que se atêm ao predomínio de programações e samplers que são rasgadas ou reconstruídas pela guitarra eléctrica do Andrew Innes mas a gramática que predomina é a de um ritmo atroz que provoca uma perturbante claustrofobia que paradoxalmente é tão apelativa quanto dançante e quem dança no palco é o Bobby Gillespie que enverga um fato cor-de-rosa desenhado pelo Alexander McQueen que esteticamente se encontra inscrito entre a década de sessenta e setenta do século XX e esta ambiguidade oferece-lhe um simbolismo de figura enquadrada no tempo e no espaço que o rodeia com figuras fotografadas pelo Lewis Carroll do qual se tal fosse possível o Bobby Gillespie teria sido o modelo humano para a Lagarta azul no “Alice No País das Maravilhas” e os Primal Scream ao se munirem do fluxo absurdo do livro deflagram canções em que impera o psicadelismo mas um psicadelismo sustentado na repetição numa métrica estruturada para violentar o consciente a isto associam os strobs que aprofundam a violência do ritmo num estilhaçar e ou numa decomposição do kraut rock e esta delapidação é algo digno do sagrado de tão corrosivo e isso poderia decorrer ad eternum sem que haja qualquer atenção para as paisagens circundantes que formam um vórtice e desaparecem e esse quadro volátil é o detonador de um outro conjunto de imagens canibais e vice-versa e etc. e após este derrame de ácido musical sobre os cérebros até aí virgens de tal delirante droga o Bobby Gillespie anuncia que agora vão “slow down” e inscrevem um blues rock mergulhado numa densidade tão decadente quanto austera em que as cores são negras que gradualmente se transforma num rock violento viril e tempestivo ouvem-se as palmas do público a acompanharem a corresponderem ao Xamã vestido de cor-de-rosa que sente a dor da despedida de um amor que julgava eterno “baby stay with me”, “stay with me”, “stay with me”, e prosseguem para o recrudescer de um rock com reminiscências às décadas de sessenta e setenta (século XX) que oferece às canções um cariz de festividade incomensurável de tão urgente e que não se extingue no rock antes reafirmam-no como o evocar de uma memória épica que têm o talento de transcender e nessa medida rejuvenescem-no para algo que apela a que se dance sem qualquer restrição e se alcance uma liberdade hedonista que apela a que se limitem ou se anulem inúmeros preconceitos e se nutram desta energia que percorre o concerto transversalmente numa estrutura musical e narrativa em que a voz do Bobby Gillesppie desempenha um papel de cantor que tem uma dicção assertiva de tão presente quanto o seu posto e este centro é o catalisador da indução a uma hipnose que confere a quem está presente a estar ausente mas paradoxalmente a bater palmas à performance apoteótica dos Primal Scream.

Primal Scream + Fugly, 6 de Novembro, Hard Club, Porto.

Sunday, October 20, 2019

Lejos de Veracruz

Estou na Pena no Centro Cultural e Recreativo da Pena composto por um salão onde se encontra um palco (palco Anaia) que nas duas anteriores edições do Festa D`Anaia foi pisado pelos The Twist Connection ou The Parkinsons e onde houve tocadores de gaita-de-foles que ofereceram ao espaço uma ruralidade desmedida e ainda há um segundo palco que se encontra no bar (palco Efervescente) mas é o primeiro que debita um som propenso ao nu metal e ao hard rock que dominaram as rádios e a MTV na década de noventa isto é óbvio do século XX se para os Millennials possa parecer-lhes algo tão novo quanto urgente que decorre de ignorarem que estes géneros eram uma vertente decadente do rock e destes são fiéis signatários os Sins of a Man; Xamaril (palco Efervescente) sublimam uma noção do que poderá ser a música medieva de cariz festiva e isso tem origem na gaita-de-foles mas por vezes imiscuem-se perigosamente no reggea ou são responsáveis por cânticos futebolísticos ideal para quem bebe uma cerveja e se imagina sentado numa mesa senhorial com anões e anãs a dançarem para divertir o cortesão e as cortesãs; Cosmic Mass (palco Anaia) poderiam ser Comic Mass e talvez este novo baptismo os absolveria do discorrer de um distorcido repetitivo que se enquadrará num punk que por vezes é trash e vice-versa mas nesse vai e vem bipolar os Cosmic Mass não logram revelar-lhe algo mais do que um formalismo inócuo e que é deveras exasperante dada a sua unidimensionalidade; por falha inculpável não presenciei a actuação de Kopke (palco Efervescente); quanto à Baleia Baleia Baleia (palco Anaia) é uma sequência de variações pop que encontram uma constante numa eficaz variação rítmica que acompanha o cantor baixista que traduz a actualidade num português do nono ano e nessa medida é eloquente porém são meramente ilustrativos de episódios diversos com origem em lugares comuns e estes slogans acrescentam algo à vida na rede social mais próxima e nesse reflexo é assertivo mas paradoxalmente propenso a se diluir no tempo; D3O (palco Anaia) actuam segundo um transe de rock and roll que é de uma violência portentosa de tão eficaz ao qual incutem diferentes e varias variantes mas há dois pólos opostos que se relacionam equilibradamente a demência e a lealdade à razão e é nessa assumpção que são imponentes de tão gigantes; e é altura de mudar para o segundo dia da Festa D`Anaia que tem sido o mais concorrido porém a tempestade que se abate sobre a Pena fez com que tal não se concretizasse o que é uma pena já que é o dia do Conjunto Corona mas serão os Kings of the Beach a encerrar o palco Anaia mas não devo omitir que ainda haverá lugar para os djs até de manhã; Granjo (palco Efervescente) toca a guitarra acústica e canta quase sussurrantemente numa melancolia que se equipara aos dias cinzentos que se erguem num horizonte imperfeito e a sua lírica espelha esse desalento poético pontuada por uma ironia elegante e como exemplo este apontamento: “Eu nunca mudo, eu mudo sempre sem mudar” (épico); A Pupet Show Named Julio (palco Anaia) mais um nome interessante ou antes poderá ser intrigante o porque de tal designação que ficaria bem a uns mariachis alcoolizados pois a banda limita-se a replicar um universo indie de uma banda ultra conhecida com origem em Nova Iorque e como tal espera-se algo mais ousado pois são um conjunto compacto; Chalo Correia (palco Efervescente) somente à guitarra acústica que parece que a multiplica em outras tantas dada a versatilidade deste angolano que é um embaixador supremo do folclore musical do seu país que é tão vasto quanto árido mas a voz de Chalo Correia é quente e envolvente de tão magnética que usa o kimbula que sobre este refere “que tem muitas palavras em português” e este africanismo é por exemplo elegantemente explanado numa “rumba angolana”; Holympo & Heartless (palco Anaia) são uns adolescentes que julgam que produzem algo parecido com hip hop mas de facto é somente parecido o que pressupõe que delineiam a sua forma mas que estruturalmente está pejada de inúmeros erros para além da dicção dos Mcs ser fraca não se percebendo porque se revoltam e porquê ou porque de por vezes chorarem por um amor que perderam na primária; há uma jovem sexy que a dada altura do concerto se apresenta “Sequin” (palco Anaia) e explica como se deve pronunciar o seu nome artístico acompanhada por dois comparsas que produzem um synth pop de cariz dançante que encontra em Sequin a tradutora deste ritmo a dançar insinuantemente como se estivesse a faze-lo para influenciar a audiência mas tal é em vão e a forma como canta é tão envolvente quanto encantadoramente bela; por fim o Conjunto Corona (palco Anaia) é uma trupe de hip hopers tipificados num absurdo desconcertante que narram universos populares entre o Porto e Gaia e outras localidades proficuamente obscuras e esta capacidade de enunciar assertivamente uma cultura onde impera o machismo e ou o tuning e o uso de drogas recreativas ou o roubo é pró e anti-gunas e esta ironia é como se fosse um ácido que coroe esse universo afectando-o paradoxalmente com sua inclusão no imaginário popular do qual somente a pop detém esse poder e nesta medida são de uma verve incisiva e precisa quanto os GNR o foram durante a década de oitenta (século XX); o encerramento destes dois dias de festa cabe aos galegos Kings of The Beach que se limitam a decretar o fim do rock and pop que por vezes derrapa inconscientemente para o punk mas um punk sem qualquer métrica criativa há muita ginástica por parte do baixista e que no intervalo das canções tem a arrogância de imitar a voz esganiçada do guitarrista e isto prolonga-se até que há uma tensão entre ambos que aparenta que estão na disposição de se agredirem algo que seria verdadeiramente punk curioso é que nas ruas de Barcelona decorriam batalhas campais pela independência da Catalunha e contra a sentença de prisão a diversos representantes políticos da região autónoma e no palco da Anaia decorreu algo deveras tão ou mais decepcionante.

Festa D`Anaia, 18 e 19 de Outubro, Centro Cultural e Recreativo da Pena, Pena.

Wednesday, October 16, 2019

A Wild Swan And Other Tales

É perceptível que há ansiedade no público vestido maioritariamente de preto que ocupa o Hard Club-- sala emblemática da muito romântica cidade do Porto-- que espera a entrada em cena dos Psychedelic Furs que se fazem anunciar com uma música de cariz sinfónico e a sua aparição é recebida com entusiasmo por figuras tão dispares quanto o Adolfo Luxúria Canibal ou o Marco Nunes e é essa intensidade que se transfere para os músicos que se desinibem gradualmente e quando se asseguram que os portugueses estão fascinados com as suas canções de teor vário mas centradas na pop que se imiscui em diversas fontes seja num negrume que lhes adensa o seu traço de perdição mas numa vertente maioritariamente platónica ou na decomposição desse centro pop para um pós-punk isto é guitarras aceleradas e um baixo corpulento do Tim Butler que somente por si (sem esquecer o saxofone o teclado e a bateria) são de uma urgência tal que sobrevém uma opressão causada pela urbe e esse quadro é deveras fantástico porque revela a intensidade de algo quase asfixiante que aumenta a frequência sonora do Hard Club poder-se-á afirmar que os Psychedelic Furs apesar da sua origem longínqua na década de setenta/oitenta do século XX supor-se-ia que as suas canções soassem datadas (isto apesar de na essência emanarem fielmente das gravadas em vinil) mas tal não sucede porque a elegância jamais é démodé e como tal essa contemporaneidade retira a banda de qualquer cápsula do tempo que esteja presa ao passado e isso é sublinhado com uma canção nova a qual se assemelha a uma canção fúnebre pop com métrica do Jacques Brel (do qual David Bowie fez versões em inglês) e que liricamente reporta aos primeiros tempos de músico pop por parte do cantor Richard Butler que tem um timbre de voz grave tão grave que parece dissonante e esta distorção provoca o distanciamento dada a sua estranheza e o chamamento dada a sua textura intrigante e que por vezes irrompe dolorosamente outras vezes é de uma assertividade que transparece uma frieza que é meramente de quem narra dramas existencialistas mas o amor esse é reflexo de inúmeras parábolas pop que remetem para algo cinético de tantas vezes sonhado como se fosse um desejo secreto que somente o inconsciente detém o seu registo há a ainda destacar a relação de gang dos Psychedelic Furs que enfrentam o público como se fossem piratas que estão na disposição de lhes vilipendiar a alma esse fluxo invisível emana como um íman principalmente quando executam um psicadelismo viciante que é uma confrontação com a mortalidade ouvem-se aplausos e as câmaras no ar fotografam e filmam o cantor a rodopiar ou a evocar algo que é uma narrativa em que o amor ou desamor colidem e se transformam em algo inexplicável e essa perdição é um reflexo de um pós-pop-romantismo que encontra no kitsch dos sintetizadores de Amanda Kramer uma ilusão que se imiscui no turbilhão do negrume incutindo-lhe uma áurea que ora se intercala ou é a base das canções e ainda há um encore hiper-psicadélico que é uma extensão que se alarga e contrai numa profusão quase infinita e eclodem as palmas e o Richard Butler despe-se com um beijo enquanto os restantes músicos dão à canção uma continuidade apoteótica e é este epilogo que impede o público de abandonar a sala com palmas e mais palmas que duram largos minutos até que por fim um roadie desliga o equipamento dos Psychedelic Furs mas a beleza das canções perdura e perdurará para além deste fim.

The Psychedelic Furs, 15 de Outubro, Hard Club, Porto.

Monday, September 16, 2019