Monday, August 14, 2017

Sunday, August 13, 2017

Tratado das Paixões da Alma

Num campo de futebol na Batalha as pessoas ruminam cadáveres confeccionados por cozinheiras gordas de bata e touca para cobrir as falhas na penugem; e há uma senhora num palco mínimo a cantar sobre um groove kitsch, “você me deixa louco”, tiro-lhe uma fotografia para o Instagram; uma doçura acutilante transportava-me para um tempo em que a sua luz guiava-me por entre crisântemos e me cobria com uma felicidade instantânea mas quando tomava consciência da sua influência desvanecia-se num suspiro que me confiscava a noção da realidade e os meus passos eram como as gaivotas ou as andorinhas e os grifos que lutavam contra a nortada, “você me deixa louco”; estou no backstage dos exuberantes GNR que se preparam para subir ao palco “às dez e vinte”, o Rui Reininho está a conversar com o Paulo Carvalho e o Tóli César Machado e o Jorge Romão estão a relaxar antes de enfrentar a multidão que os espera ansiosamente; e ainda são gravados pela Joana Sequeira Duarte para promoverem o concerto que se irá realizar no Barreiro; a sua gargalhada libertava-me da toxicodependência que me obrigava a vogar numa jangada de haxixe sobre as ondas atlânticas e a ocidente o sol estava suspenso em vermelhos e amarelos tórridos como se o fim nunca tivesse fim e como se fosse o momento mais bonito do dia, “você me deixa louco”, e as rochas eram paredes de aço em que o mar encontrava um reflexo difuso e as algas e os limos substituíam as folhas da sua cabeleira solta que emoldurava o seu rosto num retrato psicológico naturalista que não era somente um incêndio de chamas canibais que me consumiam em cada labareda ou um manancial de ciprestes que cresciam selvaticamente em meu redor como se fossem prenúncio de que terei que voltar para a caverna onde grafitava desenhos rupestres e saltava para cima de um potro que me encaminhava para um destino que tinha uma direcção indeterminada e que era incapaz de dominar; sobem ao palco os três cúmplices dos GNR: Tiago Maia (guitarra eléctrica/voz); Samuel Palitos (bateria/voz); Paulo Borges (teclados/voz) e é este que insere os acordes do poema-canção “Bem-vindo ao Passado” que é um convite irresistível à multidão para entrar num universo em que domina uma contínua e elegante Pop: “Vídeo Maria”; “Efectivamente”; “Popless”; “Cadeira Eléctrica”, executadas com um domínio supremo e que tecnicamente são transportas para um subtexto predominantemente rock; a minha memória era um constante lapso e relapso de imagens e de frases desconexas que me confiscavam os restos da sanidade mental, “você me deixa louco”, por vezes acordava às quatro da manhã e enfrentava o pavor de ficar para tia velha e frustrada como as beatas que rezavam na capela da Zambujeira do Mar por um Deus desconhecido e o ar era tão espesso quanto a areia quente de uma tarde de Verão rodeado por figuras disformes que se desmembravam em cada passo como leprosos que entoavam insistentemente numa ladainha doentia, “você me deixa louco”; e o público tem-se demonstrado deveras receptivo e participativo com a actuação excelente dos GNR que se revelam dramáticos em “Dançar SOS”, pop em “Cais” e “Asas”, palpitantes e urgentes em “Impressões Digitais”, e rock “Sangue Oculto”, esquizofrénicos em “Las Vagas”, as palmas ecoam heterogeneamente num excesso de satisfação; percorria insistentemente um mapa com países inexistentes e golpeava as ilhas perdidas onde se enclausuravam virgens vigiadas por um círculo de castratis que navegavam à deriva num cruzeiro onde os ouviam cantar, “você me deixa louco”, e por vezes encontrava num retrovisor convexo a minha inocência a morrer e não sei se estava no futuro no passado se no presente sujeito às mãos de um “círio cintilante”, ou num xadrez em que a rainha era a última a soçobrar perante as investidas dos cavalos; parecia que a tempestade se estava a impor num coalhar de nuvens cinzentas que se coagulavam no meu rosto como se fossem borbulhas de um eterno adolescente que se representa através do meu corpo; o Jorge Romão discursa para a multidão sobre os técnicos que os acompanham e que são fundamentais para o “espectáculo” e lamenta que Jorge Jacinto (roadie) não esteja presente devido ao falecimento do seu pai durante o dia de ontem em que os GNR tocaram no Douro Rock e este estoicamente não abandonou as suas funções; e os GNR continuam a desfilar o seu acervo de sucessos como a macabra “MACabro”, o hino “Pronúncia do Norte”, a popular-kitsch “Nova Gente”, a dramática “Morte ao Sol”, e a eterna “Dunas”; o público quer de volta os GNR e as salvas de palmas sucedem-se e os músicos surgem para a pop-irónica, “Quando o Telephone Pecca”, à qual se segue a rock-kitsch: “Quero que Tudo vá para o Inferno”; e as luzes do palco denunciam que os GNR irão voltar mas as pessoas afastam-se como se fossem pombos a depenicar migalhas de pão duro que a minha avó lhes ofertava em nome da generosidade; “Sub 16” trá-los ansiosamente de volta e as palmas e o delírio sucedem-se semelhante a uma peste benigna como o amor que em ciclone anula todos os outros sentimentos deixando o escravo do escravo do escravo feliz: “+ Vale Nunca”.

GNR, Tour 2017, 12 de Agosto, Festas da Batalha

Em memória do lendário produtor australiano Tony Cohen e do pai do Jorge Jacinto

Monday, July 24, 2017

Sunday, July 23, 2017

Obscenity and Arts

A lua é uma prostituta que se vende graciosamente à terra que depende da natureza para existir e que é indispensável à fruição dos dias luminosos de Verão como o que se extinguiu há horas e que me dilacerou o coração que se inundou de sangue como se estivesse a ser vítima de uma overdose de cocaína; as lágrimas estão acumuladas nas minhas pupilas à espera que o dique ceda à pressão da mais violenta e inexpugnável dor; ergo uma arma de plástico e aponto-a sobre a minha cabeça derretida e quando carrego no gatilho oiço um estoiro que me perfura os neurónios que entram em curto-circuito e os olhos fecham-se e vejo uma estátua de luz que abre os braços à espera da minha alma que nunca coube no meu corpo de anão e entrego-a num envelope selado com baton transparente e esvaneço-me num vácuo onde estou em lista de espera para incorporar num ser vivo mais belo e inteligente do que eu e que não tenha sido amante de virgens vãs; estou numa mata contígua ao parque de campismo de Quiaios e ao recinto onde irá decorrer o Festival WoodRock que estoicamente cumpre cinco anos de estrondos, e que é responsável pelo convite aos Desert Mammooth que estão a tocar sob um toldo num estrado ladeado por focos coloridos, o rock é a raiz das canções que embrulham com o psicadelismo ou o stone, não há nada a apontar à sua execução mas domina um problema transversal que é a falta de soluções que as individualize algo que é redundante e induz ao tédio; quanto aos Legendary Flower Punk inserem-se num quadro heterogéneo que passa pelo funk, rock, psico-rock, flower dance pop, jazz, e transcrevem com primor as diferentes geografias sem que haja percepção por parte do ouvinte, esta elegância é medida segundo o equilíbrio em relação à guitarra eléctrica e à trompete que intercaladamente assumem-se como os centros de um fulgor estilístico épico; os Tau são compostos por dois freaks que se dividem por precursão/teclado/voz e voz/guitarra acústica ligada a pedais e evocam o mantra que misturam com blues e o rock e a pop como se fossem discípulos de George Harrison quando foi para Índia aprender a tocar sitar com Ravi Shankar, e que induzem a um hipnotismo de tal forma sedutor que é capaz de libertar a consciência dos wood rockers, do domínio do m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o; estou sentado ao lado do espírito da Alice que é tão leve quanto o meu e o seu perfume inebria-me e acaricio-lhe o cabelo escuro imaterial como os sentimentos a que as almas estão proibidas de aceder, beijo-lhe o rosto de pedra lapidada num estaleiro de onde zarparam navios com piratas fantasmas e o seus olhos verdes moram nos meus castanhos e partilhamos o amor volátil e irreal que se esvai num tempo paralelo onde seremos felizes a alterar a lógica da vida; encontro-me no recinto do Festival WoodRock e os Duvida 431 esforçam-se por expurgar um hard rock que se limita à sua vertente académica e não são capazes de o transformar em algo urgente e nessa medida revelador de originalidade; os Oddhums executam um metal contido que é interessante mas a repetição de um único mecanismo rítmico infecta as canções de uma monotonia redundante; os Lâmina implementam um metal gótico e aqui inscrevem-se as composições compassadas com as guitarras ora a dilacerarem ou a planarem, mas nestas dinâmicas algo falha e que não é totalmente perceptível ao ouvinte, talvez estas não estejam devidamente equilibradas o que produz um vazio sonoro; já os The Black Willows têm como premissa o hard rock que por vezes roça o metal, de sublinhar que as canções predominantemente lentas ou a que surge a partir da delicadeza da guitarra e do baixo eléctrico são de facto intrusivas; os Correira são um caso do mais puro e sincero rock and roll com origem na década de setenta do século passado mas através de uma vitalidade desarmante; pena que tenham tocado somente duas canções algo que se prendeu com problemas irremediáveis com o bombo; !bah!; os Mr. Niyagi são uns adolescentes que deveriam estar a ensaiar o seu hardcore primata numa garagem próxima, o palco merecia um outro desfecho; a Alice está cada vez mais distante e tenho que me aproximar lentamente para lhe sussurrar que a adoro mesmo que tenha nascido numa casa invertida que irremediavelmente a consignou à infância e nessa medida exerce um poder estranho sobre mim que me faz rastejar “onde nem a bela dona cresce tocando o musgo com a mão” e ela sorri e lança uma gargalhada que ecoa na minha cabeça perfurada com um calibre pernicioso que me libertou da vida; não sou um suicida ou somente um outro suicida como quase todos os suicidas que se suicidaram por não suportarem a merda da solidão; o palco está vazio à espera dos míticos Mão Morta; que o ocupam e vertem as suas canções que estão pejadas de um negrume tétrico que têm um programa político que visa alertar as consciências para a sua escravização por parte dos diferentes lobys que se canibalizam, a postura dos diversos elementos é na sombra deixando o centro do palco para o bailado desarticulado do Adolfo Luxúria Canibal que se expressa através de um canto/falado/sussurado/cuspido quase gutural que induz o suicídio aos que amam o quotidiano, inequivocamente tão violento quanto um punhal a perfurar um coração a palpitar de prazer; os Vodum são um composto afro com um groove tribal que é perniciosamente refrescante e nem a saturação destes elementos os anula, há ainda a destacar a voz potentíssima assim como a postura dominante da cantora negra de vestido de cetim e cabeleira encaracolada; Bala são duas jovens, uma loura a outra morena, a primeira na voz e na guitarra distorcida e a outra na bateria e na voz e as suas descargas são de uma violência tão atroz quanto cruel, e as vozes são um contínuo grito punk que é capaz de libertar a dor a quem a sinta na alma; Alice partiu para um outro corpo onde possa dar continuidade às suas diabruras intelectuais e temo que jamais voltarei para os seus braços compridos de mãos elegantes com as unhas pintadas de luto.

Festival WoodRock, 20, 21, 22 de Julho, Quiaios

Por razões do foro pessoal foi-me impossível ver no dia 22 os Mr. Mojo e Her Name Was Fire, peço desculpa aos músicos e aos leitores.

In loving memory of Chester Bennington


Monday, July 17, 2017

Homenagem à Realidade

A luz difusa ilumina dois corpos distantes que dão as mãos em direcção a um horizonte diáfano, onde andorinhas construiriam ninhos de espinhos e assobiariam “Bem-vindo ao Passado” e estátuas transportariam corações feridos por punhais bicéfalos que explodiriam num rasgo exangue; guardo num cofre o sonho induzido pelo ópio; e mergulho numa vertigem invertida onde me espelho num torpor que me divide em personagens que têm em comum uma caixa de ritmos que bate fielmente pelo futuro, entrelaço-me nos braços de uma ninfa que fora abusada por Camões num canto dos “Lusíadas” e segredo-lhe que eu não sou eu nem um outro e nem tão pouco o meu reflexo que se transmuta consignado ao passado, oiço o seu murmurar enigmático em que não me descubro como um ser humano condenado a uma sombra tímida contaminada pela tristeza; encontro-me no OOD (bar) onde confluem os loosers de Coimbra a propósito do aniversário do poeta Alexandre Valinho Gigas que se encontra atrás da mesa do Dj ladeado por Carlos Dias (teclado) e Pedro Antunes (teclado) o primeiro inscreve um contínuo sustenido e o segundo é dissonante a instituir a distopia, o poeta verte o fumo do cigarro pela sua boca e desfere para o microfone: “Um punhal a arder”; “uma pomba a arder”; “conseguirás chegar à praia?”, os teclados inscrevem-se agudamente e angustiantemente e surge um beat de uma caixa de ritmos que lentamente marca a métrica do verso: “Encontrei-me aqui entre mim e a enorme sombra”; “poesia”; o ritmo acelera e “cheguei por isso”, “a mexer cá dentro”; “na distância de ser poeta/ Na distância de ser poeta”; “sou um poeta da vida”; “sou um poeta que grita calado”; “falas da morte”, “quero falar de paixão”, ouvem-se os teclados a suprimirem os silêncios do poeta e o beat é ainda mais acelerado, “sonho inquieto que se vai perder de vista”, “fraterno”, “fixo os olhos”; “uma”, “amor”, “respira respira futuro”, a cadência melódica e rítmica é ondulada mas contida como se fosse a areia de um deserto soprada por Cronos, “o teu futuro está nas tuas mãos”, “solitárias”, “respira o futuro”, “acredita no futuro”, “futuro”, “acredita nos outros”, “mordes nos que acreditam em ti”, e o ritmo sobrevém e não há uma secura na dor do poeta, “como é o futuro?/ Como é o futuro?”; silêncio; e as máquinas retomam uma outra canção seguindo uma cadência lenta; e encontro o meu reflexo no verso: “À frente dos olhos, malvada obra-prima”, a envolvência dos teclados lo-fi induzem à atenção, “carnes gordas”, “obra-prima não sabe nada”, “frio”, há uma aparente dissonância dos teclados que parecem agulhas pontiagudas num urso de peluche, “o inferno é o meu alimento”, “amor”, “o inferno é o amor/ O inferno é o amor”.

Aniversário do Alexandre Valinho Gigas com Carlos Dias e Pedro Antunes, 16 de Julho, ODD