Monday, December 11, 2017

O Fósforo na Palha

No jornal de hoje há um anúncio curioso “homem com andropausa procura jovem que saiba ler e escrever e passar a ferro e cozinhar e lavar a roupa e tomar conta da minha mãezinha entrevadinha e que goste de música clássica e de ópera e que fale durante horas porque eu sou introvertido e assim o tempo passa mais depressa e que goste de gatos e de cães rafeiros como os meus dois filhos” e ao reler pergunto onde é que este idiota reside mas somente se encontra à disposição um número de um telemóvel ao lado do qual se encontra entre parêntesis “(não atendo números codificados)” e como tal a minha vontade de lhe telefonar com timbre de menina de alcofa fica frustrada mas mesmo assim ligo e oiço uma voz adormecida que deve ter uma cabeleira postiça branca “sim?” e parece irritado por ter sido apanhado em algo que havia previsto e emito uma voz cavernosa de velha habituada a fornos de lenha e a fazer a cama às vacas que passeia para a ordenha durante a manhã e com as quais contorna a capela em ruínas vítima de um incêndio demoníaco e oiço o “cavalheiro” a resmungar como se estivesse sem a placa dos dentes que devem encontrar-se submersas num copo de água na mesinha de cabeceira para que ao acordar não veja no espelho o rosto da morte; encontro-me no Hard Club em Gaia e tocam os argentinos Mueran Humanos que apresentam canções synth já que a pop fica diluída numa contínua torrente de beats nos quais é-me impossível detectar uma estrutura que as consigne a esse género (ou se calhar é essa a intenção do casal ela no teclado/voz e ele no baixo eléctrico) mas mesmo que tal seja intencional não resulta porque para além de ser entediante é irritante tanta falta de sentido estético; e o seu perfil de quem gosta de música erudita parece-me falso já a mãezinha fica bem com os pés à lareira quanto aos afazeres domésticos da “jovem” deve-se acrescentar que seja activa na cama já que a passividade deve-o ter acometido durante toda a vida e esqueci de acrescentar ao seu anúncio que a “jovem deve ter entre os 35 e os 45 anos” não sei porque descarta a possibilidade de seleccionar uma com 25 anos talvez porque tenha medo de que alguém lha roube e se tivesse a morada enviar-lhe-ia um space cake para o seu casamento com os noivos no cimo de uma pirâmide de chantilly de mãos dadas a sorrir por sentirem uma felicidade esquisita e o anunciante desliga o telemóvel não se antes insultar a idosa “pró caralho!” e ainda tento oferecer-me como se fosse uma prenda a sair de surpresa do space cacke mas apenas oiço um som digital repetitivo; os cabeças de cartaz são The Horrors que correspondem a um quinteto de rapazes liderados por uma figura magra e esguia com uma cabeleira que lhe cobre parcialmente a cara e que dá pelo nome de Faris Badwan e desde a primeira canção “Hologram” é fácil denotar que se encontra no palco um cantor com um poder magnético que dificilmente se faz ouvir dificilmente por entre o psicadelismo synth pop algo que o técnico da frente irá gradualmente resolver e que é um sinal predominante perturbante com uma cadencia mecânica distorcida “are we hologram? Are we visions?” a segunda “Machine” é um festim de referências com origem na louca Manchester com as suas raves regadas a ecstasy marcada por um ritmo gótico que assombra dada a sua beleza negra e no fim Faris Badwan dirige-se directamente ao escasso público que se dignou vir ouvi-lo numa noite fria de Dezembro “good night Porto” e a canção seguinte “Who Can Say” ressalva os mesmos apêndices que a anterior com um acréscimo de distorção mas não deixa de ser tão ou mais urgente e violenta com os strobs a ribombarem ao ritmo dos beats (algo que será transversal ao concerto) e Faris Badwan sobre um ritmo pausado é de um dramatismo atroz fala/canta: “And when I told her I didn't love her anymore/ She cried/ And when I told her, her kisses were not like before/ She cried/ And when I told her another girl had caught my eye/ She cried/ And I…”; a quarta “In And Out Of Sight” é de um romantismo gótico synth profundamente incisivo e é amordaçante de tão bela a seguinte “Mirrors Image” versa o rock mas com uma melodia soturna pejada de psicadelismo com um loop exótico a seguinte “Sea Within a Sea” é de uma virilidade slow negra que é seduzida por um psicadelismo synth e encontra o Faris Badwan na frente do palco a cantar curvado sobre a plateia como se fosse um vampiro sequioso pelas almas presentes: “So say I walk alone, barefoot/ On wicked stone tonight/ Will you leap to follow/ Will you turn and go/ Will your dreams stay rooted in the shallow”; a sétima “Weighted Down” é de uma languidez synth e que oscila indolentemente mas que é manchada pela guitarra eléctrica de doze cordas que sobressai negativamente quase anulando toda a sua beleza prog dark e quase e quase no fim os The Horrors decidem ilustrar a seguinte “Press Enter To Exit” com uma pop assertivamente elegante mas delineada para levar os adolescentes a usarem eye liner com a voz do Faris Badwan melodicamente poética de tão dramática: “What does it tell you when you change into a stranger?/ What words can never be denied?/ When does it start to turn the shade into a shadow?/ How does your life become a lie?/ Questions unanswered/ You walk into the storm/ Because there's no point in waiting now/ For the promise of a cur” e é encerrada com um solo de guitarra eléctrica que eleva à condição de épica e a nona “Endless Blue” sobrevém num slow que discorre esvoaçantemente do sintetizador que é transporto para um plano onde o rock se enrola com o synth como se estivesse a ser emitido num ecrã a imagem de um sol negro a iluminar o dia já “Still Life” é uma coroa pop que encerra o fantástico concerto; mas regressam e “Ghost” é uma space lullaby tão etérea quanto profundamente psicadélica e “Something To Remember Me By” é uma belíssima e elegantíssima canção pop que é como uma antítese a toda loucura sónica que emoldurou o concerto e que o público ruidosamente aplaude hipnotizados por terem assistido a uma efemeridade dilacerante; e as páginas seguintes são anúncios de prostitutas que oferecem massagens ou passeios relaxantes em SPAs paradisíacos rodeados por tubarões famintos por carne humana que lhes irá saber à de porco e na página central dá conta de um pianista que se suicidou depois de lhe terem descoberto um tumor maligno no cérebro inoperável e a sua fotografia corresponde a quem esteve a vida obcecado por um teclado preto e branco com uma cauda negra que poderá corresponder ao hábito da morte e numa outra mais pequena o rosto da viúva de óculos escuros para esconder a alma marcada por uma dor repentina e procuro no Youtube as músicas que o fizeram feliz e há variações diversas tocadas como se estivesse a ouvir ondas de um mar de Verão que recusa o negrume da noite e que é de tal forma sedutor que as oiço repetidamente para me sentir arrebatadoramente vivo e questiono-me como será o impulso suicida que vitimou milhões de seres humanos e suponho que seja mais poderoso do que o da vida e como tal deve ser eliminado como se fosse uma erva daninha.

The Horrors + Mueran Humanos, 09 de Dezembro, Hard Club, Gaia.

Saturday, December 9, 2017

Manifest der Kommunistischen Partei


Noite de chuva em Coimbra onde irá decorrer no Teatro Académico Gil Vicente o concerto “Sempre Além—Um Espectáculo em Torno de António Variações” e o texto da folha de sala é da responsabilidade da comissão organizadora do colóquio: “Variações sobre António. Um colóquio em torno de António Variações” promovido pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e que explica o seguinte: “Sempre além de quaisquer fronteiras ou classificações, este espectáculo performativo e multimédia pretende convocar um itinerário em torno do percurso pessoal e artístico de António Variações e do seu tempo através dos seus temas mais emblemáticos e dos momentos-chave da sua carreira, num registo que mais do que homenagear ou prestar tributo, revisita, relê e celebra a sua obra singular” e os músicos que compõe esta celebração são inúmeros: Raquel Ralha (voz/teclado), Tracy Vandal (voz), João “Jorri” Silva (teclados), Pedro Chau (baixo eléctrico), Carlos Mendes (bateria), Miguel Padilha (teclados), Pedro Renato (teclados e guitarra acústica), Sérgio Costa (teclados e guitarra/ baixo eléctrico), Sérgio Nascimento (bateria), e ainda o irmão do malogrado cantor o Luíz Ribeiro (voz) e o seu irmão Jaime Ribeiro (voz) e a música que dá o sinal para a entrada de alguns dos músicos acima assinalados é “Toma o Comprimido” e o microfone é tomado pela Raquel Ralha que oferece uma profundidade estilística à “Erva Daninha” e “Estou Além” que citam os acordes das canções mas com arranjos actualizados que sublinham a vertente kitsch dos originais escusado será escrever que a Raquel Ralha tem uma voz tão bela quanto segura com um alcance que não faz ter saudade da do António Variações; sobe ao palco Luíz Ribeiro que elogia este: “Maravilhoso colóquio e concerto em volta do António Variações” e o tema que irá cantar chama-se “Curva Ilusória” que foi escrito “a partir de uma cantoria do António Variações” e que tem como fundo um piano melancólico com um verso assim: “No jardim da minha infância” e outro assim “não quero viver da saudade” com uma entoação minhota e se fecharem os olhos como eu o estou a fazer julgariam que o emissor seria o excêntrico António Variações mas se os abrirem como eu o estou a fazer veriam que o Luíz Ribeiro veste camisa branca e calça de flanela cinzenta portanto a antítese do seu irmão que também foi um pioneiro stylish cabeleireiro e a canção seguinte “Lodo” é antecedida por este testemunho “avançamos oito anos” quando o António Variações “nos anos setenta regressou da Guerra do Ultramar” e nessa altura “trabalhava num cabeleireiro na Parede” e foi surpreendido pelo irmão que o informou que “já tenho música para um dos teus refrões (dixit)” e os teclados inferem um dedilhar melancólico sobre o qual ouvimos a alma do António Variações “só perseguido pelo azar” e há um outro verso que causa espanto dada a sua beleza “águas paradas no rio em tempo de maré cheia” pois é arrepiante; surge o Ricardo Seiça que desempenha o papel de um actor com a personagem errada que diz “o António Variações é o barbeiro das palavras” que não passa de uma banalidade errónea porque o facto de ter sido cabeleireiro (e não barbeiro) não é algo que o tenha influenciado a recortar o português antes deu a termos populares um acréscimo poético e nessa medida consagrou-os à cultura pop e prossegue a tentar descrever displicentemente o génio do cantor minhoto; o Ricardo Seiça irá aparecer mais vezes mas não tirei qualquer apontamento porque as suas intervenções serão gratuitas e inócuas; surge novamente a Raquel Ralha que oferece à canção “É p'ra Amanhã....” uma entoação tão popular quanto o original e a música ressalva a sua memória kitsch; à escocesa Tracy Vandal calhou em sorte “Canção de Engate” e que é cantada em inglês e durante a qual há um divórcio entre esta e os músicos que transmitem a alegria de um engate numa rua do Bairro Alto mas devesse sublinhar que gradualmente que a cantora consegue enquadrar-se no ritmo acabando-a primordialmente; o Luíz Ribeiro toma a palavra e o que diz é emocionante “saudade de não estarmos com o António” que faleceu em 1984 vítima (ao que se julga) de SIDA que grassava entre “Braga e Nova Iorque” e que vitimou especialmente a comunidade homossexual e a canção que irá cantar é “um poema com uma viagem simbólica” e que se intitula “Então foi a Braga” e que tem uma melodia tristonha que retrata um périplo de comboio e a voz é similar à do António Variações como se estivesse novamente tão presente como quando ainda estava vivo; junta-se ao Luíz Ribeiro que introduz a próxima canção a partir de um mito “há quem julgue que o António Variações tinha só uma Diva que era a Amália mas não é verdade antes era a nossa mãezinha Deolinda de Jesus” o seu irmão Jaime Ribeiro que agradece à Universidade de Coimbra a homenagem mas acrescenta algo que não deveria sequer pensar “a vetusta Universidade de Coimbra” porque está a ofender quem está a enaltecer a obra do António Variações e o dueto “Deolinda de Jesus” desencontra-se continuamente porque um é lento e incisivo o segundo é meramente popularucho para além de estarem desenquadrados da melodia melancólica (em playback); e Raquel Ralha é voz de “Perdi a Memória” revista num funk kitsch que é arrebatadora já “Dar e Receber” versa o disco sound que faria corar os Abba por ser tão ou mais kitsch quanto as suas canções e a última “Sempre Ausente” é fúnebre e introspectiva como se estivesse a presenciar a viagem do António Variações para o além, e a plateia ergue-se dos cadeirões e ovaciona os músicos faltando os irmãos do homenageado; a carrinha da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian parava à porta de um prédio de quatro andares com elevador no qual descia para ver as novidades e requisitar um livro para me acompanhar durante as semanas de Verão passados num bairro marginal de Aveiro que o lia num quarto com uma mesa redonda com uma toalha vermelha enquanto a minha mãe passava a ferro as camisas do meu pai e cantarolava canções da sua infância passada em Caracas “ai que abandonaste la negra, no la escuchas a chorar?” que me obrigavam a parar a leitura de “Os Filhos da Droga” da Christiane F. que página após página me induzia a rejeitar um universo em que dominava a heroína e esta era tão estranha quanto nojenta mas que paradoxalmente me atraia por consumir a consciência da Christiane F. assim como o seu corpo esquelético que vendia para financiar o vício pelas ruas da Berlim ocidental que ainda se encontrava dividida pelo Muro que por vezes era emitido na nossa televisão a preto e branco e à sua frente num palanque o John F. Kennedy discursava para a multidão no inicio da década de sessenta "Ich bin ein Berliner” e a minha mãe relatava como decorreu o seu assassínio em Dallas pela mão de Oswald e não acreditava que tivesse sido este o autor mas “la CIA o el FBI” mas havia um outro grupo suspeito “la derecha cubana” e “la Jaqueline casó con Onasis para huir de esos criminales” e suspirava triste por o Johnson ter dado continuidade à guerra do Vietnam para engrandecer “el pueblo americano que transformó una generación de hombres sin piernas o de silla de ruedas” que apoiou “a Pinochet” que “que arrojaba a personas vivas al mar dejando a sus madres solas” e dava-me a ler o “Manifesto Comunista” do Karl Marx e do Friedrich Engels que havia comprado na livraria Havaneza na Figueira da Foz no fim de semana anterior para reler os fundamentos do comunismo mas que eu não conseguia passar das primeiras páginas porque a sua nomenclatura lexical era-me inacessível algo que a desagradava e eu sentia-me profundamente ignorante e substituía-o pelo “Asterix e os Normandos” e desejava um dia ter uma porção mágica não para agredir as pessoas mas para as fazer felizes mas a minha mãe achava que tal seria impossível “los portugueses están siempre tristes porque tienen miedo del pasado viven con miedo del pasado cuando Salazar mandaba a los PIDE a arrestar a los comunistas” e que se encontrava sintetizado em três palavras “Fátima, Fútbol e Fado” e parece que se questionava o porque de ter casado com um português “el amor es ciego Jimmy un día lo sabrás” e eu sorria como que a ansiar pelo dia em que me apaixonasse pela primeira vez e procurava na estante algo sobre o amor de preferência um guia mas somente encontrava o “El Amor en los Tiempos del Cólera” do Gabriel García Márquez no qual sucessivamente me perdia mas não desistia de ler mesmo percebendo vagamente a sua história e para colmatar esta incapacidade questionava-a sobre o seu conteúdo mas ela recusava educadamente ajudar-me “tienes que descubrir las herramientas para orientarte en sus palabras” e ao fim de uma página que me levava meia hora abandonava-o para acabar o “Astérix e os Normandos” e depois de jantar na mesa da sala juntamente com a minha mãe e o meu irmão esperava-mos horas para ver o “Monstro da Lagoa Negra” e colocava-mos os óculos 3D mas por muito que tentássemos nunca lograva-mos ver em profundidade e aguentava-mos até que o sono nos levasse a paciência enquanto o monstro procurava uma donzela num pantanal cinzento como se o amor fosse algo de tão poderoso que fosse responsável pela união de uma besta com uma jovem.

Sempre Além—Um Espectáculo em Torno de António Variações, 08 de Dezembro, Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra.

Thursday, December 7, 2017

Der Kitsch. Eine Studie über die Entartung der Kunst

Estou na sede da DRAC- direito de resposta associação cultural na Gala situada na margem sul da Figueira da Foz e que tem em cartaz duas bandas: Twin Transistors e os The Last Internationale; os primeiros apresentam um conjunto de canções que se inserem no desert rock mas não conseguem acrescentar algo que lhes consigne originalidade porque alicerçam-nas em redor dos seus clichés o que é deveras entediante e a única que vale a pena ser discriminada é a versão de uma canção dos Velvet Underground; a música que assinala a entrada em palco dos The Last Internationale é “The Revolution Will Not Be Televised” do Gil Scott-Heron e o seu ritmo é mimetizada pela bateria mas o baixo e a guitarra revertem-na para o rock e a partir deste ponto surgem outros em outras canções que reverberam um rock por vezes mestizado com o funk e o punk que tem origem especialmente na guitarra eléctrica de Edgey Pires que a seu lado tem uma cantora que versa a soul e que confere às canções uma personalidade estranha por ser um foco de luz que emana do jogo agressivo dos instrumentos musicais e ela apenas despe o casaco e encontra-se vestida de preto com um chapéu de abas e para além de assegurar a voz ainda toca baixo e quando é necessário a harmónica e a performance da dupla é suficiente para incendiar o público que se ajoelha perante a profusão de solos épicos por parte Edgy Pires e se deixa penetrar pela Delila Paz que canta por entre a multidão como se estivesse no palco e há uma versão do John Lennon “Working Class Hero” e uma outra do Neil Young “Hey Hey, My My (Into the Black)” a primeira é à guitarra eléctrica e com a voz soberba da Delila Paz a recuscitar o Beatle e a segunda é apresentada com um dramatismo rock que a engrandece e se poderia haver uma surpresa é a de a cantora convidar um membro do público para cantar “A Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso mas que se esquece de um dos versos e a multidão aplaude o incidente e a banda prossegue o delírio de rock na roll como se o dia fosse supérfluo e o a noite eterna; sento-me na esplanada do Bar do Bruno situado sobre a praia do Baleal em Peniche e peço um chá que tem um odor suave e delicodoce e observo o mar pejado de surfistas à espera da onda perfeita enquanto o sol de Dezembro os ilumina tornando-os em diamantes negros que deslizam em ondas anãs e tento ausentar-me das conversas banais à minha volta assim como da de um casal que aparentemente estão presentes que bebem cafés como se a cafeína fosse ouro e leio “Der Kitsch. Eine Studie über die Entartung der Kunst” do Fritz Karpfen traduzido para português mas é mais chique usar o título em alemão não vos parece ou não vos quer parecer e não coloco o respectivo ponto de interrogação para me libertar das fronteiras que a pontuação institui e assim cabe ao leitor escrever a sua história e sou interrompido por uns americanos de fato de borracha que discorrem pomposamente sobre a sua surfada durante a qual dominaram a maré mas não consigo identificar de que estado americano são provenientes nem se são orgulhosamente apoiantes do boçal Donald Trump que é um terrorista de fato e gravata e com uma poupa que poderia ser surfada por qualquer aprendiz como os que tentam equilibrar-se em pranchas hand made que lhes oferecem uma aura de surfistas profissionais em circuitos internacionais e se tivesse uma longboard estaria neste momento a produzir a espuma das ondas que são como coroas efémeras com origem no poder do Posídon que mereceria uma estátua em bronze numa das rotundas do Baleal e releio a página em que o autor revela as diferentes facetas do kitsch e a sua premissa é a do pastiche que agradava aos pequenos burgueses que decoravam as suas vivendas com obras vazias de conteúdo somente porque ficavam bem com as cortinas amarelas e este ensaio datado do início do século XX é de uma actualidade atroz porque ainda domina em Portugal a ignorância nas elites que financiam artistas plásticos carentes de autenticidade e de originalidade somente porque ficam bem numa casa de bem onde se tratam por você como se tal os coloca-se numa redoma de vidro que os impedisse de serem vítimas da vulgaridade à qual a pobreza está associada e uma mulher pede para se sentar na minha mesa de madeira branca algo que cordialmente permito e lê um livro com mais de quinhentas páginas com o título “O Pavilhão Púrpura” do José Rodrigues dos Santos e levanta-se deixando-o como se fosse uma prenda envenenada em que cada palavra fosse uma gota de cicuta e reaparece e pega no calhamaço para adultos infantilizados e dirige-se para uma outra mesa sem agradecer o tempo em que o seu livro manchou a minha reflexão e peço mais um chá de tónico espiritual e substitui-o o livro do Fritz Karpfen pelo “A Câmara Clara (ensaio sobre fotografia)” com título em português para vos surpreender não vos parece ou não querem perceber e sentam-se umas adolescentes que conversam ruidosamente sobre a noitada que vivenciaram com capítulos memoráveis mas que infelizmente se dissipam da minha memória e há uma que recebe uma chamada telefónica do namorado que a entendia porque sente que ele lhe está a cercear a sua liberdade e por isso desdenha o seu amor e sinto o odor a cannabis e uma delas levanta-se rapidamente como se tivesse a decorrer um afogamento de um seu familiar e após minutos regressa com uma amiga que está de tal forma mocada que estira os braços para o ar enquanto se senta e pede uma cerveja “Bar do Bruno Craft Beer” e depois de beber pelo gargalo assobia o “Não sou o Único” dos Xutos & Pontapés composição do malogrado Zé Pedro e as amigas riem e o ensaio do Roland Bathes questiona a fotografia através de um discurso que parece uma confissão sobre a mortalidade e refere que a sua origem é o teatro no qual se encontram fundeados os princípios nucleares que transformam uma fotografia numa obra de arte e o pôr-do-sol atrai os olhares dos clientes que aproveitam para o fotografar porque assim se apropriam de um instante que lentamente se eclipsa e no Instagram procuro a imagem de uma mulher que não olha para a objectiva e sustém a mão esquerda sobre o seu queixo e a sua pele pálida contrasta com o seu cabelo negro comprido que enquadra o seu rosto eternamente belo numa melancolia que espelha a sua alma e que conquistou o meu coração.

The Last Internationale + Twin Transistors, 7 de Dezembro, DRAC, Gala.

Em memória do fundador dos Xutos & Pontapés o Zé Pedro e do “french Elvis” Johnny Hallyday.