Sunday, June 25, 2017

O Virgem Negra

A auto-estrada é uma recta ladeada por eucaliptal que parecem personagens abandonadas num palco iluminado pelo sol que simultaneamente as dividem e as unem e as suas sombras sobrepõem-se umas às outras e reflectem-se parcialmente sobre a terra arenosa; olho para o banco ao meu lado e descubro um olhar terno de uma jovem longitudinalmente magra que sorri como se estivesse a duvidar sobre a direcção em que seguimos, e liga o rádio e ouvimos um radialista a pronunciar esforçadamente os títulos das canções em inglês e desliga-o, e tento revelar-me através de uma ficção que decorre em casas de parto nas quais tentei exorcizar a dor ao enfrentar a morte ou recorri a musas intoxicadas que atentaram contra o meu ego de pluma de ganso; paramos numa estação de serviço mas ela decide ficar no carro e opto por seguir viagem e contornamos curvas que parecem intermináveis e as placas azuis e brancas anunciam que estamos quase a passar pelo Porto, e a minha parceira deambula sobre os enigmas que a mantêm cativa à vida personificando um girassol que observa o sol durante o solstício de Verão, e coloca a sua mão na minha que se encontra sobre o manípulo das mudanças e retiro velocidade à viatura para que possamos ver as margens do Douro com o Porto e Gaia frente a frente e entre estes corre o rio lentamente para a foz para se banhar num salitre purificador e imiscuir-se num universo marítimo que lhe é estranho; e perdemo-nos nas veias do Porto e num túnel o seu rosto de princesa da civilização egeia é intermitentemente iluminado por focos amarelos e ao sairmos a luz ténue revela a sua pele marmórea que é de uma delicadeza sedosa, fecha os olhos e põe os óculos Ray Ban e o seu silêncio significa que está pensativa sobre o nosso destino que é moldado pela A2 que nos orienta para A4; saímos para uma estrada nacional que afunila em direcção a Santo Tirso pois no Colégio de Lourdes irá decorrer um concerto dos GNR destinado exclusivamente à comunidade escolar, e ao qual me fiz de convidado algo que desagrada à minha companheira que julgava que constávamos numa lista VIP; sobem ao palco os três músicos dos GNR (na bateria: Samuel Palitos, ex-Censurados e ex-Sitiados; na guitarra eléctrica/voz: Tiago Maia que também dá pelo nome de Sr. Maia; nos teclados: Paulo Borges o bon vivant) e durante a tepidez celestial de “Bem-vindo ao Passado” surgem os GNR: Jorge Romão (baixo eléctrico) e Tóli César Machado (guitarras, teclados, acordeão) e Rui Reininho (voz e maracas) e a canção ganha densidade dramática que é contaminada por laivos de psicadelismo; a pop psicadélica tinge “Vídeo Maria”, que julgara que não iria ser tocada dado o facto ter sido alvo de censura pela religião católica da qual é inspiração este colégio; “Efectivamente” é a súmula da pop elegante e lúdica e por essas razões é intemporal; “Popless” tem uma estrutura linear mas que se torna circular quando o Rui Reininho canta o refrão “Pop Pop Less, Pop Pop Less” como se fosse algo tão belo quanto enigmático; “Cadeira Eléctrica” tem o poder de uma melodia que progride variavelmente e perco o sentido do princípio meio e do fim algo que a tolhe com uma eterna novidade; “Ana Lee” tem um exotismo que não encontra paralelo num trópico pop e “Dançar SOS” abandonou o seu carácter de canção de abandono para ser uma lullaby que enfeitiça a consciência; “Cais” tem um pendor pop que é imiscuída numa saudade que lhe dá corpo e “Asas” revela-se numa delicadeza de slow que se inscreve no onírico pop; “Impressões Digitais” e “Sangue Oculto” são naturalmente opostas a primeira tem um groove viciante que remete para uma festividade descomplexada para induzir à dança, quanto à segunda é a invenção de um rock da ibéria contaminado por um fascinante kitsch; “Las Vagas” sofre de uma turbulência que os impedem de implementarem a sua natureza psicadélica e nessa medida confiscam-lhe o seu poder hipnótico; “MACabro” poderia ter um cravo e seria uma música para a corte num baile de máscaras fúnebres, é um relicário pejado de uma melodia de vaudeville destinada para uma peça de teatro do absurdo; “Pronúncia do Norte” é de tal forma arrebatadora que as pessoas abandonam as cadeiras e aproximam-se de uma fita frente ao palco que não pode ser transporta, se fosse uma matéria orgânica seria uma encosta com vinhas da região demarcada do Douro; “Nova Gente” é de uma ironia lírica e rítmica para fazer dançar os aldeões num largo de igreja iluminado mas é também virilmente urbana algo que a torna estranha; os GNR saem do palco excepto o Jorge Romão que o abandona e se aproxima dos Super Fãs GNR que entusiasticamente o congratulam e pousam para a fotografia; mas as luzes mantêm-se acesas sobre os pontos que os músicos ocuparam; e “Dunas” é recebida com histerismo por parte do público que os acompanham com palmas e cantam o refrão que os transportam para um estágio de desenvolvimento imberbe; o original do Roberto Carlos “Quero que Vá Tudo Pró o Inferno” é apresentado com o intuito de lhe retirar o seu pendor Iê-Iê-Iê e associá-la à pop/rock contemporânea; “+ Vale Nunca” surgem diversos jovens juntamente com o professor Duarte Almeida (um dos responsáveis por este inusitado acontecimento) que se colocam atrás dos três GNRs e há uma festividade nas suas palmas e na forma como assumem a canção que se rebela contra o que tanto anseiam; Jorge Romão tem o cuidado de indicar ao Manu (roadie) para que coloque o seu microfone próximo dos adolescentes para que seja audível o refrão pop: “Mais vale nunca mais crescer”.

GNR, 24 de Junho, Semana Cultural do Colégio de Lourdes, Santo Tirso

Tuesday, June 13, 2017

Monday, June 12, 2017

As Mãos na Água, a Cabeça no Mar

A sombra é um véu translúcido que cobre a Festame dedicada ao porco fonte de riqueza e por isso um símbolo assado da Mealhada que é consumido em diversos restaurantes improvisados com vista para um certame de bens de consumo; cada sandes de leitão representa a derrota da antropofagia em que os ricos comiam os pobres num hotel sumptuoso com tantas estrelas quanto os dedos de um amputado por ter roubado das chamas de um raio um braço de um macaco; quem detinha o fogo era um soberano que o acendia ao cuspir álcool para um crepitar de pedras que ao chisparem se transformavam na voz do dragão que amedrontava os seus descendentes que se ajoelhavam por se verem submissos a uma prisão de espírito, faziam promessas de um parricídio exemplar que os emanciparia do jugo que os seduzia e do qual eram incapazes de se rebelarem e executarem o atentado sobre o coroado; o palco Rei dos Leitões é ocupado por três músicos Samuel Palitos (“the man machine”) na bateria, Tiago Maia (“cool as fuck”) na guitarra eléctrica e Paulo Borges (“cowboy kitsch”) nos teclados; que formam um rectângulo com a entrada em cena do Jorge Romão no baixo eléctrico e do Tóli César Machado teclados, acordeão e guitarra eléctrica e Rui Reininho voz e maracas que se apelidam de G.N.R (Grupo Novo Rock), completam este ano trinta e seis anos a calcorrear Portugal a imporem o bom gosto pop/rock por províncias pobres e tacanhas alimentadas pela ignorância que é estimulada pelo medo e neste combate invisível ainda não houve vencedores, mas o país contemporâneo e predominantemente urbano associa-os a uma sofisticação melódica e lírica que culturalmente os enriqueceu; a primeira canção é o slow pop “Bem-vindo ao Passado” que é um indutor fantástico para introduzir o vulgo num universo em que impera uma melancolia que pretende agitar a consciência, seguida pelos épicos “Vídeo Maria” e “Efectivamente”, estas e as seguintes são executadas com um nível de segurança considerável que lhes permite serem por vezes substancialmente descontraídos algo que enriquece o concerto por o inscrever num círculo em que domina o risco que entra em contradição com a postura sóbria e concentrada dos G.N.R que revelam respeito pelos presentes; há um Leitão que durante as canções é constantemente deselegante para com o Rui Reininho que o tentou desconsiderar cordialmente, este canta sentidamente como se fosse a primeira vez algo que é simbolizado pela alteração dos versos que perturbam os ouvintes e lhes provocam distanciamento sobre a poética, e a sua posse é a de uma estátua que se movimenta com a elegância de quem nasceu com a “star quality”; “Impressões Digitais” é a assumpção de um ludismo com um groove viciante e “Las Vagas” um monumento pop psicadélico que é tão belo quanto efémero; Jorge Romão é o ponto seguro onde convergem ritmicamente e é essencial para circulação seja da melodia ou da atenção para com o canto do Rui Reininho; e quando há multidões transforma-se numa figura incansável que tem o poder sub-reptício de os dominar conduzindo-os para o êxtase; quanto a “Nova Gente” é rural-urbana que segundo os estetas é um retrato kitsch deste “Porrtugal” como canta Rui Reininho que como é público é “larger than life”; e encerram o concerto com a fúnebre pop “Morte ao Sol” que é liricamente surrealista; e durante o encore a veraneante “Dunas” despega-se uma das peças da bateria do Samuel Palitos que não os impede de aceitar a situação descontraidamente; “last but not the least” Tóli César Machado é uma figura tutelar por duas razões: é o único que fez parte da fundação da banda e por ser responsável de grande parte das suas composições; e no palco tem um comportamento tímido que por vezes o coloca numa discrição inconsequente que é anulada quando toca o piano ou usa o acordeão; e a antepenúltima é “Telefone Pecca” que tem a urgência de um discorrer pop que parece ter sido talhada para a era dos Smart Phones e sem que acabe dilapidam o Roberto Carlos “Quero que Vá tudo para o Inferno” que ganha uma textura rock com laivos pop e a enquadram com o materialismo reinante.

GNR, 11 de Junho, Festame 2017

Sunday, May 28, 2017

Saturday, May 27, 2017

Pity and Terror Picasso’s Path to Guernica

A chave de sol é introduzida numa fechadura de um corpo que explode e os seus estilhaços formam um quadro de figuras que se mantêm estáticas sobre um fundo de meios-tons que representam enigmas dilacerantes por se intrometerem num universo onde reina a dor associada à irracionalidade; encontro-me no Salão Brazil em Coimbra à espera dos concertos de Canja Rave e dos Holy Fanda & The Reverendes têm como ponto central a Paula Nozzari, que desde chegou à Capital do Rock tocou bateria com os Subway Riders, The Walks, a jigsaw, The Jack Shits, The Parkinsons e com Mike Up ao qual administra musicoterapia; à esquerda da tela há uma criança de braços abertos que jaz inconsciente e em seu redor constam os braços da sua mãe e o seu pescoço expande-se verticalmente e abre a boca e sai um grito que se propaga mas não encontra reflexo na cabeça de um touro, que simboliza uma nação dividida por Franco o ditador do bombardeamento à Gernika em 1937; os primeiros a subirem ao palco são os Holy Fanda & The Reverendes que para além da Paula Nozzari são formados pelo cantor Holy Fanda que empunha uma guitarra e pelo baixista Nick Jennings, e o que representam é o rock da América rural da década cinquenta/sessenta do século XX e os géneros passam pelo country (pop), bluegrass, (rock), rockabilly, algo que é executado segundo parâmetros rígidos que os impedem de os recriar e consequentemente incutir-lhes novas e diversas perspectivas, a estas devem-se subtrair três canções que se destacaram pela sua pertinência, há a sublinhar o exotismo quando o cantor se expressa em checo e a codificação da sua poesia é de uma beleza estranha; sob o plano inferior um corpo divide-se num vácuo e os braços separam-se sem que vertam sangue e o seu rosto parece que estrebucha ao lançar um grito de grifo condenado ao silêncio soterrado sob escombros de alvenaria com paisanos, e ao centro há figuras que se transmutam sem que haja uma concretização da sua fisionomia que conduz o olhar para um braço que segura um archote que tem a chama numa redoma de vidro que não ilumina em seu redor, sobre as quais delineiam-se figuras que se anulam ou se acrescentam e são finalizadas pela cabeça de um homem transmutado num cavalo mutilado pela dor e à sua frente um pássaro de pescoço esticado com mandíbulas de uma forquilha afinca sobre o céu cinzento onde pende um olho que tem como pupila numa lâmpada; o dueto Canja Rave divide-se pela Paula Nozzari (bateria/voz/melódica) e por Chris Kochenborger (guitarra/voz), as canções têm inúmeros desvios estéticos que surgem como se fossem o subtexto e gramaticalmente remetem para diversos subgéneros que são apenas a raiz de uma estrutura reverberantemente rock, segundo um pendor lúdico que deriva de uma criatividade tão eficaz quanto por vezes desconcertante, entrecruzam o contemporâneo e o retro que equilibram majestosamente, há ainda a salientar a destreza com que as duas vozes ora se complementam ou simplesmente dialogam por vezes num romantismo kitsch; que é devidamente exemplificado quando convidam a Rita Joana a cantar em português com o Chris Kochenborger; quando este usa o inglês parece uma voz radiofónica que oferece às canções uma perspectiva sobre uma geografia que remete para bombas de gasolina desactivadas num deserto de filmes do John Wayne, por vezes no intervalo diz piadas como se estivesse a falar para uma audiência submissa à bandeira dos Estados Confederados dos EUA; na última canção convidam os dois membros dos Holy Fanda & The Reverendes e transcrevem uma massa que sintetiza um rock de uma urbanidade ficcional de tão transgressor; e na direita do quadro desloca-se curvada com os seios a penderem nus uma mulher grávida de uma bebé fecundada que arrasta os seus braços pesados tentando contrariar o tempo que a consome em pulsares de sangue com espinhos e olha em direcção a um céu insensível à sua desmesurada dor, seguidamente irrompe verticalmente uma figura que lança os seus braços e abre a boca e os seus olhos não filtram a realidade e parece que é esfaqueada por um vértice do qual se constrói um edifício com uma janela aberta e no topo umas barbatanas de tubarões rasgam o céu.

Canja Rave + Holy Fanda & The Reverendes, 25 de Maio, Salão Brazil