Saturday, October 7, 2017

Sífilis Versus Bílitis

Acendo mais um cigarro e em vão tento ler uns rabiscos indecifráveis e socorro-me de um rascunho de uma peça de teatro: “Ao reflectir sobre as lápides cultivadas aleatoriamente num jardim de almas num comício de surdos-mudos, revejo-a a desfilar num carro de vidros fumados; e a ser carregada pelos amigos e familiares que em passo lento encaminhavam a minha mãe por entre ciprestes viçosos, e a deitavam ao lado de uma cova húmida para onde os coveiros a desciam suportada por cordas; e a terra ecoava sobre o caixão na esperança remota que acordasse do seu sono profundo…”, atiro a peça no tampo da minha secretária negra e tento produzir uma raiva suprema que incorporo e segrego lágrimas que não consigo fazer correr pelo meu rosto e pouco a pouco como se estivesse no funeral da minha mãe elas vogam sulcando-o de um brilho de dor transparente; a sala do Teatrão encontra-se vazia à espera dos fãs de TAV Falco que nasceu nos Estados Unidos há muitas décadas atrás e que se faz acompanhar por um quarteto de músicos que se denominam de Panther Burns e se dividem entre a guitarra eléctrica, baixo eléctrico, bateria e teclado, vestem fatos escuros e há dois que usam óculos escuros, e introduzem um instrumental que é como uma passadeira vermelha à entrada em cena do TAV Falco (guitarra eléctrica/voz) que é de uma elegância extrema e que é recebido com entusiasmo pelos presentes; e as canções variam entre o rock pejado com calor californiano derivado às guitarras com as que remetem especificamente para o fim da década de sessenta do século XX; a pose de TAV Falco é a de um crooner exasperantemente sóbrio quanto profissional pois nos intervalos criticava o estado dos seus monitores que o incomodavam; e ainda discorrem pelo blues e pela pop mas sem caírem em clichés antes revelam um universo alternativo que se poderá entender de vanguarda para além de estar associada a uma marginalidade que lhes conferem uma decadência dandy; TAV Falco ora canta ou fala de verso em verso não se percebendo por vezes o que dita esta alternância algo que revela estranheza outras misticismo como se o que narra fosse ditado num código que transpõe universos em que não domina o idílico; e por vezes os diversos géneros musicais acima assinalados são polvilhados com pó kitsch e assim eliminam qualquer eventualidade de se transformarem numa caricatura do passado; apago o cigarro e acendo um outro e fumo-o e improviso um galã numa telenovela da América latina ao qual acrescento um tom poético ao telefone que não agrada às antenas de televisão, (“sim?”), “Conchita ´OIGA` you do the smack” (1), e sem que a minha contracena responda acrescento: “Let's say at half past seven I want you back” (1), e tento acrescentar sedutoramente, ”All right?” (1), e sorrio tristemente perante a submissão da minha mulher que me venera e que obedientemente me retribuía o seu amor de cores outonais; olho para o retrato do meu pai que tinha por hábito levar-me a um estúdio para as fotos para a caderneta escolar, e sugeria ao fotógrafo que eu era um excelente modelo que contrariado aceitava a sugestão, e colocava-me à frente de um telão onde duas velhas vestidas de folhos brancos bebericavam chá num jardim com ilustres begónias e sapinhos das Caldas embrulhados numa renda de filigrana a saltitarem na relva como se fossem mais leves que o ar, numa geladaria pedia um gelado a uma senhora gorda de bata branca e touca na cabeleira que sorria enquanto passava a língua pelo chocolate e pela baunilha (e agradecia à minha mãe a felicidade que me estava a proporcionar), e fecho os olhos e coloco as mãos juntas sobre o peito e sou um anjo que está a efectuar o milagre da multiplicação dos pães e a Sua mão abençoa-me por ser tão misericordioso para com a miséria humana, e estou de fato de banho deitado num leito de mar acompanhado por uma sereia de cabeleira loura postiça em bikini cor-de-rosa que transmite uma estação de rádio com música ligeira que besunto com bronzeador para mudar a emissão, e sentado num cadeirão junto a uma lareira de tijolos de burro castanho ladeado por uma árvore de luzes que piscavam o Natal esperava que o meu pai a desce-se e me oferece-se a bola de cristal que tanto desejava pontapear num campo de futebol na Praia da Claridade, a minha avó batia palmas entusiastas perante o seu conjunto de lençóis na cama de pregos para enfrentar o Inverno que era a sua prisão; o concerto está a decorrer com segurança algo que incute confiança ao TAV Falco que gradualmente se familiariza com a multidão disposta à bajulação; e ainda apresenta uma canção de dois minutos com as guitarras num rock visceral; e durante uma outra TAV Falco meneia a pélvis timidamente como se estivesse a homenagear o Elvis Presley; e deste parece que executam uma canção de trás para à frente que é de facto genial; e o kitsch surge numa outra e remete para os bares de prostitutas de Tijuana amadas pelo Jack Kerouac no “On the Road” mas que não é redundante (antes pelo contrário); e o rock and billy é disposto segundo o seu cânone mas manchado de um negrume que a torna épica; TAV Falco apresenta os Panther Burns e questiona se estamos familiarizados com o “Missipi River” e as duas canções que se seguem são trips com mezcal e cocaína numa bandeja casquinha num cenário com vista para uma estrada que se alonga ou diminui conforme o nível de intoxicação, memoráveis; e quase a encerrar o concerto que está no limiar das duas horas de êxtase e de supremacia estética, TAV Falco abandona a guitarra eléctrica e somente com o microfone entre as mãos canta como se fosse um cantor de blues num exercício inebriante de tão sedutor; as palmas que estão a ecoar apesar da violência serão sempre escassas para homenagear TAV Falco; e personifico um poeta que está num pontão sentado num sofá a ler “Sífilis Versus Bílitis” (2), e que tentava poema após poema esquecer os dias de sol que divagaram por entre nuvens incertas e para mitigar a solidão beijo um careto com dentes lavados de fresco, (“sim?”), “All right?”(1), o vento contorna os nossos escafandros para enfrentar um calendário que teima em prosseguir por entre destroços de um aquário com serpentes e virgens num somatório de coincidências improváveis, e num espelho encontro o meu rosto difuso para dizer-lhe que “eu” não sou uma personagem mas uma miríade iconoclasta que se revela ao olhar dos que tentam identifica-la como se “eu” fosse eu.

TAV Falco and Panther Burns, 6 de Outubro, Teatrão, Coimbra.

Dedicado ao meu guru Rui Reininho.

(1)- "Hardcore (1º Escalão)" (Rui Reininho, Miguel Megre, Vítor Rua) incluída no álbum dos GNR “Independança” (1981).
(2)- REININHO, Rui, Sífilis Versus Bílitis, Lisboa, Quasi Edições, 2006.


Friday, October 6, 2017

Thursday, October 5, 2017

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo

Desconheço em que espaço me encontro a rabiscar palavras pretas sobre fundo branco as quais são reflexos turvos do seu rosto de sibila que traduz em cada olhar sobre a realidade a moldura de um romantismo pejado de pétalas vermelhas num pontilhismo que lhes oferece um distanciamento no qual é perceptível destrinçar o mistério da sua aura de anjo que caiu por acidente numa terra que não estava preparada para a albergar no seu seio julgo-a iluminada por uma luz artificial que lhe confere uma cor de lustros areados por um roberto vestido de mordomo como se tivesse sido bronzeada por um sol escravo das estações do ano e ao pisar as ondas do mar o seu corpo é sucessivamente transcrito para o ritmo da maré que o refaz e o desfaz num jogo desordenado que lhe confere uma efemeridade eterna que somente é reflexo da sua beleza alheia da natureza humana; acabei de sair do Pátio onde decorreu o jantar de aniversário do Carlos Dias ou Carlos Subway (militante nos Wipeout Beat) e da fã número num dos Subway Riders Dulce Coimbra, transporto uma bateria preta e a rádio debita uma voz que repete “cena” e “imagina” uma metanarrativa absurda que me tortura e desligo-o paro à porta do Pinga Amor e descarrego a bateria que os Subway Riders irão utilizar daqui a pouco; e desta vez Carlos Subway (voz), Victor Subway (guitarra eléctrica), Calhau Subway (maracas, saxofone, voz), Chau Subway (bateria), Augusto Subway (teclados) fazem-se acompanhar por João Pedro Viegas Subway (saxofone), e as canções são sufragadas segundo critérios diversos: a composição/decomposição, minimalismo e o seu contrário, o jazz versus o rock, o romantismo kitsch, a pop e o anti-pop, o dub e o techno; umas são citações de clássicos da cultura anglo-americana outras originais que por vezes são tão pastiches quanto hipnóticas tecidas com a vertigem sob o olhar dos tímpanos, há a destacar a visceral performance do Carlos Subway tão enraivecida quanto um cão alemão de crómio a orientar um rebanho de judeus para a Capela dos Ossos; se é ela à janela a meditar sobre o silêncio que é a energia do nada e no vazio cresce uma flor carnívora no meio de juncos policiada por espantalhos que a aprisionam num sombreado intermitente soprado pela aragem diurna e creio que está à minha frente a questionar-se sobre os efeitos nocivos do tempo em que tinha que enfrentar os alçapões de um palco onde julgava que era a musa de um dramaturgo do absurdo e tento acariciar o seu perfil que se esfuma mas mesmo assim desenho com o dedo no ar o seu sorriso tão cândido quanto delicado que me transmite a totalidade do seu ser e que por ventura um dia terei o talento de descodificar.

Subway Riders, 4 de Outubro, Pinga Amor, Coimbra.

Festa de aniversário do Carlos Dias e da Dulce Coimbra.

Saturday, September 23, 2017

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Na janela embaciada do nosso quarto observo um quadro bucólico do Noronha da Costa onde consta a silhueta de uma mulher com um vestido escuro do século XV que acena um adeus que amargamente retribuo, e enquanto o vidro é salpicado por chuviscos que tingem a sombrinha de lágrimas deito-me numa cama de lençóis intempestivos impregnados de sémen e do perfume a lírios líricos da sua vulva, e tento abstrair-me da melancolia de quando era adolescente e testemunhava os dias de Setembro a se curvarem poeticamente perante a sedução do Outono, fecho os olhos e revivo o seu sono profundo de quem está num labirinto de onde não consegue sair; encontro-me no Salão Brazil onde irão decorrer três concertos: A Jigsaw; Raquel Ralha & Pedro Renato; Victor Torpedo reunidos com o objectivo de angariar fundos para socorrer os gatos urbanos de Coimbra; A Jigsaw apresentam-se sem um dos seus elementos nucleares o João Silva (que se encontrava a musicar a peça “TOMEO Histórias Perversas” levada à cena pela Escola da Noite) e assim restava o João Rui (guitarra acústica/voz) com os convidados: Tracy Vandal (voz); Victor Torpedo (guitarra eléctrica); Pedro Antunes (baixo eléctrico); e é o João Rui e a Tracy Vandal que são os centros narrativos de histórias de amor e sangue emolduradas em universos em que predomina o rock e o western billy, que ganham uma considerável dimensão sónica através da qual é transmitida uma imprevisibilidade excelsa; quando a Tracy Vandal é a protagonista as canções ganham um pendor poético em que a esperança é uma tragédia que ama o pathos; e um fio de lã orienta-a para uma cascata e do céu pende uma corda que trepa e vislumbra um galeão com corsários que vogam por entre as nuvens de algodão doce cor-de-rosa, e secretamente está perturbada por se encontrar ausente da nossa casa com vista para o mar e uma convulsão repercute-se pelo seu organismo como um garrote de dor que é incapaz de contrariar e por instantes sente em si o amor que nutro por ela e o desejo que me corrompe as veias carcomidas pelo tempo, e tem ao seu lado um fantasma e quando trocam de olhares o seu rosto é reflectido nessa personagem e fundem-se e respira fundo e quando abre os olhos a lua é um papagaio manipulado por uma criança esquecida pelos pais num ventre em que predominava a solidão e tenta rasga-lo mas não lograva perpassar o casulo, pensa em gritar mas fraqueja e se ouve o seu choro julga que é de uma outra criança e em vão desespera; a Raquel Ralha (voz) e o Pedro Renato (guitarra eléctrica) fazem-se acompanhar pelo Sérgio Costa (guitarra eléctrica) e por um Mac que introduz a base das canções que correspondem a versões de originais da segunda metade do século XX, às quais é-lhes adicionado um negrume que as torna tão belas quanto tóxicas algo que paradoxalmente as revitaliza enquadrando-as no século XXI, sobrevém a voz da Raquel Ralha que lhes dá uma profundidade impar que conduz o ouvinte por universos estranhos mas que é incapaz de lhes fugir dada a sedução dramática do seu timbre de voz, visceral; e tenta saltar do galeão mas é impedida pela Outra X (1) e são-lhe colocados agrilhoes e movimenta-se como se fosse uma pata choca a arrastar os pés pelo convés em direcção à proa, e lentamente passa a mão pelo seu cabelo preto e as ondas repercutem-se à sua volta e julga que está a ser penteada pela sua mãe de mãos de gigante e sussurra o seu nome na esperança que a salve, porém o horizonte é-lhe imposto num rascunho que descreve em numeração romana os rostos dos seus familiares que em fila indiana mergulham da lua para o além, e o primeiro choro de um recém-nascido é liberto da sua boca em botão de rosa vermelha e desperta as algas e os limos que abandonam o mar e impedem a persecução do galeão, e Outra X (1) julga que embateu contra uma nuvem de chumbo e ordena aos escravos para apontarem os canhões para o inimigo invisível, e ao desencalhar descobre que a prisioneira desapareceu e dá violentamente com a bengala sobre a cabeça de um anão sinistro que desmaia, e corre à volta do navio e desesperada espreita para baixo e vê-a a escorregar por um halo e gradualmente desaparece da sua vista; Victor Torpedo veste o seu fato de astronauta e no ecrã surgem os vídeos das canções pop-lo-fi com a respectiva letra, raramente se fixa no palco preferindo enfrentar e desafiar o público a cantar os refrães absurdos, e ainda compôs uma canção “I Love Cats” que demonstra a paixão do cantor/performer pelos felinos, e instituiu a festa; e uma ínsula sob um lusco-fusco intermitente com palmeiras e um mar de topázio voam gaivotas de papel que grasnam e acordam-na e toca no seu tornozelo onde se encontrava um bilhete em hebraico e desolada olha em seu redor e o ar a fugir-lhe e as margens da ilha cada vez mais pequenas e ela cada vez mais grande e dá um grito que irrompe em trovões e assusta as andorinhas do mar, e o silêncio angustia-a e põe as mãos sobre as orelhas com brincos de madrepérola da avó e agacha-se como um índio à espera de um sinal de fogo e com um lápis desenha na areia um universo em que as estrelas e os planetas se conjugavam em seu redor para a amar.

A Jigsaw + Raquel Ralha & Pedro Renato + Victor Torpedo (a receita angariada reverteu a favor do Fundo de Socorro Animal do Grupo Gatos Urbanos de Coimbra), 22 de Setembro, Salão Brazil, Coimbra.

(1)- Nome de uma canção dos GNR com poema de Rui Reininho e composição de Tóli César Machado incluída em "Retropolitana" (2010).

Em memória do Cícero.