Tuesday, June 11, 2019

Devotion

As mãos querem correr para fora da sensibilidade ou da possibilidade de redigir um testamento onde constem os desperdícios dos dias e a reciclagem dos sentimentos ou transformar o fuso horário num outro domesticado segundo esse ditador que é invisível e que poderia ser uma larva ou insecto ou talvez a lagarta a abandonar o casulo para se transformar numa bela borboleta de asas multicoloridas que ao esvoaçar é tão leve quanto poderão ser os pensamentos que se libertam do jugo do ditador rude e atroz parece de ficção mas não o é reclama para si o que pertence a esta gente suja e gasta sentada à borda da fronteira entre a fome e a miséria há lutas algures no meio de militares contra militares fascistas contra fascistas e cada um tem o seu ditador um magro o outro um velho desgraçado que transmite a sua doença venérea aos escravos da sua herdade que lhe parece o seu país não há futuro neste ou com este outro ser do mesmo poço fundo repleto de seres microscópicos se regressa-se o que deveria ocorrer como se fosse algo inevitável deveria suceder e se tal se cumprisse que fosse enquanto se aparelha um ser bicéfalo com cornos e outras decorações do domínio da imaginação do senso comum e se fossem mortificados dos braços tatuados com rostos de canibais e o resto entra-se em autocombustão a justiça estaria a se instituir como denominador entre os rebeldes que esfomeados se insurgem contra o preço milionário do pão e as migalhas para os pombos têm o preço da cocaína que passeiam num quietude de figuras de um museu da natureza e o bem-estar mas esqueléticas e com falhas na penugem por vezes irrequietas num arrulhar de pássaro solitário que esfomeado patrulha a varanda que se abre para um azul que teima em se empalidecer como se através da negação surgisse algo diferentemente belo mas aparentemente é um dia igual ao anterior com sangue nas ruas desta cidade de paredes feridas por balas de um calibre que vai além da sua proporção e que simbolicamente representam a violência que se divide em diversas e perniciosas manifestações a mais violenta é a tortura dos fascistas sobre os fascistas; a proposta para esta noite fria de Junho é a união de duas entidades naturalmente distintas os GNR ligados à corrente eléctrica com A Banda Filarmónica de Matosinhos-Leça da qual é presidente o Rui Reininho que teve a amabilidade de os convidar para abrilhantar o concerto e estes apresentam um medley que começa pelo hino da RTP e pelo meio tocam “Maria Faia” música popular para um público que cantarola as letras das canções e ao fim de vinte minutos desta temática surgem os GNR que se fazem às “Asas” e ouve-se o sustentáculo da filarmónica que enaltece a beleza da canção assim como sucede em “Popless” e esse papel é de realçar nas canções predominantemente lentas haverá em outras que tal é diminuído quase ao mínimo como se estivessem somente a decora-las mas ganha-se numa performance sonora vibrante por parte dos GNR que jogam entre si a pop em “Efectivamente” ou “Mais Vale Nunca” e o rock psicadélico de “Las Vagas” e ainda reggae em “Mosquito” e o dramatismo pop em “Morte ao Sol” e a eloquente por ser naturalmente épica “Pronúncia do Norte” a versatilidade estilística é representativa de quase quatro décadas a reafirmar novas fronteiras à música à passagem dos mutantes GNR; que mesmo que confessem a verdade dos seus actos jamais serão absolvidos deste sacrifício em que a vítima geme e chora antes de ser manietada com mãos de ferro com uma corrente presa aos pés de cimento e que empurram para o interior de uma piscina de água salgada e alguém salva-o e deixa-o na borda à espera que se desequilibre e ouvem-se fogos a estoirar ao longe surgem focos de fumo sobre as cabeças dos revoltosos que descodificam-no como focos que se elevam ao céu num transferir de almas que somente sobem e nada desce nem um raio de sol parece que repentinamente escureceu porque alguém correu o pano do teatro italiano onde as marionetas jogam xadrez contra damas numa imagem que representa o que se transmite das ondas de revolta que assolam as estações de televisão manipuladas pelos fascistas e minada de comunistas e o povo aparentemente serena na expectativa de que o fio que os prende ao silêncio que seja finalmente talvez um dia cortado e se tal suceder que seja como o sempre foi um novo fascista que institui as suas leis que se regem segundo os seus estados de alma ou pelos caprichos decadentes da sua consorte que consome o tempo a mima-lo a trata-lo por pai a paparica-lo e a dar-lhe tautau ou a roubar-lhe a constituição para analisar as alterações introduzidas pelos assessores de multinacionais de produtos de origem animalesca em vias de extinção.

GNR & A Banda Filarmónica de Matosinhos-Leça, 10 de Junho, Senhor de Matosinhos, Matosinhos.

Sunday, June 9, 2019

The Nick Adams Stories

Há um sonho que é mutante e que se repete sem o encontrar reflectido na minha rotina de pedinte de palavras ou coleccionador de números se tal algum dia será possível parece que estou à espera do táxi mas mais uma vez nesta semana deixei-o passar não tinha o dinheiro para a corrida e a alternativa seria caminhar para o centro dos centros comerciais mas por outro lado quem teria a cordialidade de me transportar e por ver-me assim isto é sem alternativa tinha que arriscar a primeira opção algo que se equiparava a horas ao sol e ou à chuva quando esta era miudinha não sei que idade é que tinha nessa época talvez ainda deveria ser adolescente ou talvez na terceira idade porque me recordo que as pessoas tinham muita repugnância quanto à minha pessoa que julgavam suja e a cheirar mal algo que recordo com dor e pesar tão ferido quanto discriminado mas era tão-somente o reflexo do que me circundava que transformava o meu exterior em algo redutor e que no seu centro interior mantinha-se vivo o adolescente que por vezes se movimentava de forma oposta às minhas decisões de adulto por muito que me custe cala-lo em nome de um ideal de vida em que os sonhos são meras rotinas existencialistas e que talvez haja harmonia entre pares e seja celebrado mais um aniversário de casamento cada uma das etapas a percorrer parecem funestos encontros religiosos perante isto não consigo perguntar-me porque é que me tornei num utensílio subjugado a estatísticas e outras formas de estudar o comportamento humano e era consultado por diversos especialistas que redigiram extensas cartas a questionar-me sobre a veracidade dos meus cálculos que eram citados no Ministério da Educação; se fosse outra pessoa a surgir em palco essa seria Flack vestido para o Woodstock acompanhado por um grupo extenso de músicos virtuosos que se imiscuem no rock predominantemente psicadélico com solos épicos pela guitarra eléctrica de Flack ou mergulham no interior de uma pérola em que se vislumbra uma pop que remete para o lo-fi e se por vezes é prog esta é vilipendiada por uma turbulência rock que lhe é superior em poder sónico mas além disto há Flack a cantar como se estivesse a se revelar pela primeira vez; Diabo na Cruz são um retrato de dois ou mais universos um dos quais é ao cancioneiro popular português mas desconheço a proveniência da mesma apesar da guitarra braguesa que toca o cantor que está a substituir o lesionado Jorge Cruz e esta toada resume-se ao compasso dos bombos e a diversas e vagas divagações predominantemente estéreis por exemplo na música celta depois há a pop e rock e algum prog rock que resultam porque são bem executados mas sem qualquer criatividade inerente a esse processo e ainda soma-se a entoação festivaleira do cantor que é de facto um ruído; Moonshiners se fosse possível pô-los a secar num estendal na expectativa de que algum dos pingos fossem algo que não um rock and roll de tal forma tipificado que me surpreendi quando se dirigiram em português para saudar a festa da Rádio Fáneca pois julguei-os americanos já que é daqui que brota a sua sonoridade enleada em inúmeros lugares comuns que são um mero bocejo para além do nível técnico dos músicos ser de um nível baixo excepto o tipo do saxofone e o vocalista/harmonicista; Conan Osíris é um show digno de discoteca já que é música de dança diversificada por exemplo pelo ítalo disco ou a synth pop isto transversalmente misturado com samples orientais que lhe conferem consistência estética a isto soma-se a sua relação com o bailarino que por vezes é somente um figurante outras acende em si a atenção do público e por fim ou se calhar não as letras são diários de um escritor que transgride a lógica da rotina e lhe dá um significado difuso mas que entra em contradição com a forma infantil com que se dirige aos fãs por “bebés” seguido por algo inconsequente e há o reparo em relação à sua voz que nem sempre esteve afinada e com entoações que impedem a percepção do que canta; esses anos fizeram de mim um homem dependente emocionalmente por Cristina que tinha como figura uma simples sardanisca à qual por vezes pisava para a separar da cauda que a prendia à terra ela era pragmática e irresoluta nas suas determinações estilistas que se estendiam à decoração do apartamento que era predominantemente colorido de amarelo ou aos quadros com narrativas naturalistas copiadas dos clássicos franceses algo que ela entendia como “cultura” e dizia-o como se estivesse a perfumar-se com a palavra quando a traduzia para francês com alguma dificuldade e jamais saia de casa sem o cão pequeno de pêlo caído até ao chão parecia um trabalho do Mel Ramos e o cão por si só poderia constar na colecção particular do Jeff Koons e quando saiam para ver as montras o silêncio assemelhava-se ao ruído que ela fazia ao telefone ou então a ver televisão com as amigas para um chá perante estes rituais de consumo não sei se tal encontrava reflexo com a minha crónica falta de dinheiro ou se de facto a Cristina existiu mas foi num outro sonho que poderia ter redundado em pesadelo mas ela era de facto de uma beleza decadente por não encontrar no espelho o seu rosto mas o que fora idealizado como o mais belo e essa máscara tornava-a única por ser tão sedutora perguntei-lhe o que estava aqui a fazer o retrato de um rei e ela sorria como se algum amante tivesse esquecido uma peça de roupa íntima e de seguida um sorriso seguido de um silêncio nervoso e o argumento é que era da autoria de um artista plástico onde se devia “investir” o D. Carlos estava tão gordo que era difícil de o identificar talvez através do bigode fosse o centro do seu rosto algo que era destituído de uma estética filial ao original ao aumentar-lhe o peso o seu poder real decresce pois jamais seria visto como um modelo pelos soldados que lhe foram fieis e por outro lado tornava-se um alvo fácil a potenciais atiradores como acabou por suceder mas sobre este episódio a Cristina não me ouvia e eu não a censurava talvez um dia abandone este palco e volte a ser quem um dia se sonhou como livre.

Festival Rádio Faneca, 7 e 8 de Junho, Ílhavo.

Sunday, May 26, 2019

Der Mann ohne Eigenschaften

As sombras proporcionadas pelos diversos prédios assimétricos contrastam com uma estrutura neo-gótica algo que revela um mau gosto de um romântico que fazia do seu canto o de uma alma que sofria pela sua amada tal como nas cantigas de amor que tinham o mesmo propósito mas numa vertente popular nesse castelo viveu o meu pai até aos dezoito anos algo que contava com orgulho aos seus parceiros de lar e a forma como o dizia elevava o castelo à palácio com bordados e salvas de prata um pouco por todo o lado ou serviços de chá banhados a ouro isto fazia dele um rei que tinha como reino os objectos que o distinguiam dos pobres que se afogavam em vinho ou dividiam uma sardinha e uma broa como se estivessem a saborear caviar ele ri-se ao encenar a hora de almoço com a empregada a servir-lhe a sopa ou o cozido ou as caras de bacalhau que tanto o satisfaziam e em criança era caracterizado como irrequieto que se supunha que advinha da sua incapacidade de concentração mesmo com estes obstáculos era um dos melhores alunos da classe pois era o único que vomitava todos os nomes dos rios e afluentes de Portugal; Lonz`s Dale Fantasy são um duo que tem como premissa inicialmente a IDM e posteriormente enquadra-se no rap isto numa perspectiva acentuadamente retro mas desconstrutivista o que é de facto caso para destacar como sublime mas há uma nota dúbia que recai sobre a performance do cantor que parece um cavalo aquando da fuga do estábulo isto é a sua loucura não encontra enquadramento na música porque como qualquer loucura prima por excesso de devaneios que por vezes ganham cariz de risco para o cantor e intimida o público da Tabacaria no Teatrão que este ano abre as portas a uma segunda edição do festival TNT com a curadoria do incontornável Victor Torpedo; Subway Riders (palco Teatrão) perfazem este ano trinta anos de uma carreira que pode e deve ser apelidada de não-carreira aliás se traduzir o “não” para no e acrescentar wave obtém-se o centro que norteia esta banda de bandidos de Coimbra que pretendem aniquilar clássicos ou revirar o lógico e nessa medida instalar a anarquia que se nutre do absurdo (venham mais trinta!); Futuro Terror (palco Tabacaria) são uns espanhóis que cantam em castelhano e as canções são rugosas e rápidas por vezes trash outra menos trash para não provocar qualquer intoxicação alimentar outras mais noise e há umas menos noise gritadas em versos dolorosos em que há uma noção de quais os sentimentos que primam pela frustração que devem ser exorcizados; ou as linhas de ferro e a predominância do minifúndio sobre o latifúndio detido por um dos seus familiares pois descendia de uma família que era comum o casamento entre primos em segundo grau para manter o sangue puro mas que tinha o inconveniente de gerar inúmeros idiotas endinheirados que rapidamente faliram assim sucedeu ao meu avó algo que jamais lhe perdoou mas mesmo assim restaram uns baldios que ainda suportam umas vacas e cabras para abate mas para o meu pai estas são touros prontos para a lide e tece aleatoriamente críticas a diversos toureiros e apoderados com os quais habitualmente lidava e enumera-os como se estivesse a saborear a sua vida de picador de touros quando o visito fico à espera que me diga algo diferente do que me havia dito mas o seu fio condutor é determinantemente repetitivo e circular e não consigo não talvez seja capaz de fazer de conta que estou a ouvi-lo pela primeira vez sem que me pareça enfadonho e depois de meia hora de histórias intercaladas com gargalhadas de quem está ausente despeço-me com um beijo amargo e os seus companheiros acenam-me tristemente como se estivessem num prisão a quem chamam velhice; The Cannibals (palco Teatrão) é liderado por Mark Spencer que surge vestido como um pedinte chique oriundo de um século imaginário e apoiado a muletas (que rapidamente irá rejeitar) tem a cara manchada de sangue e óculos escuros e uma boina completam a sua figura com um mistério que pressupõe que não perspectivo se vive no meio dos vivos se dos mortos e o quinteto demonstra o poder sónico do trash-punk-rock isto é são um compêndio que escreve esses estilos de forma primeva e irrepreensíveis neste desígnio numa pureza como um estado de alma a minha fica a seus pés à espera de beijar os dos Cannibals; King Salami and The Curberland Three são uns rapazes de proveniências díspares e isto esta referido nos acordes exóticos numa associação por exemplo aos acordes do mambo mas a base é aceleradíssima que tem a cadência de uma máquina que repete constantemente um mesmo movimento sem qualquer sinal de proibição nisto alguém elogia o “ass” do cantor (uma estátua neo-africana) e ele faz gala do seu “ass” e deve a este o hipnotismo às jovens que o seguiram incansavelmente; Natty Boo And The Peligro 5 é um postal de uma ilha que poderá ser um pensamento que migra de ilha em ilha como uma gaivota tonta que por vezes é ska outras calipso mas segundo uma perspectiva vibrante de tão dançante que os metais e principalmente a secção rítmica providenciam magistralmente indicado como anti-depressivo; mas por outro lado podem-no convidar a jogar às cartas algo que ele não diz que não mas enaltece o Xadrez por ter cavalinhos pretos e brancos que serviram para inúmeros cavaleiros que saiam da praça aos ombros com as orelhas do touro nas mãos e as montadas subiam automaticamente de preço algo que parece uma parodia da razão contra a besta e a sua entoação poética de quem está a dizer algo retirado da Reader`s Digest com uma acentuada pronúncia londrina que surpreendia as utentes do lar que educadamente o enxotavam para fora do quarto todas as mulheres que conheceu e que inventariou num caderno que era um diário sobre as suas aventuras sexuais que por vezes redundaram em abortos clandestinos e ou pancadaria que o levara ao hospital e exibia as cicatrizes como se fossem troféus de uma guerra imaginaria entre ele e o esposo da mulher que estivera a foder para ele as mulheres eram como as vacas do estábulo meros objectos com os quais atingia um clímax que não o satisfazia antes o obrigava ao périplo de fecundador destituído de qualquer critério para além do seu único e exclusivo prazer.

Festival TNT, 25 de Maio, Teatrão, Coimbra.