segunda-feira, 27 de maio de 2019

Der Mann ohne Eigenschaften

As sombras proporcionadas pelos diversos prédios assimétricos contrastam com uma estrutura neo-gótica algo que revela um mau gosto de um romântico que fazia do seu canto o de uma alma que sofria pela sua amada tal como nas cantigas de amor que tinham o mesmo propósito mas numa vertente popular nesse castelo viveu o meu pai até aos dezoito anos algo que contava com orgulho aos seus parceiros de lar e a forma como o dizia elevava o castelo à palácio com bordados e salvas de prata um pouco por todo o lado ou serviços de chá banhados a ouro isto fazia dele um rei que tinha como reino os objectos que o distinguiam dos pobres que se afogavam em vinho ou dividiam uma sardinha e uma broa como se estivessem a saborear caviar ele ri-se ao encenar a hora de almoço com a empregada a servir-lhe a sopa ou o cozido ou as caras de bacalhau que tanto o satisfaziam e em criança era caracterizado como irrequieto que se supunha que advinha da sua incapacidade de concentração mesmo com estes obstáculos era um dos melhores alunos da classe pois era o único que vomitava todos os nomes dos rios e afluentes de Portugal; Lonz`s Dale Fantasy são um duo que tem como premissa inicialmente a IDM e posteriormente enquadra-se no rap isto numa perspectiva acentuadamente retro mas desconstrutivista o que é de facto caso para destacar como sublime mas há uma nota dúbia que recai sobre a performance do cantor que parece um cavalo aquando da fuga do estábulo isto é a sua loucura não encontra enquadramento na música porque como qualquer loucura prima por excesso de devaneios que por vezes ganham cariz de risco para o cantor e intimida o público da Tabacaria no Teatrão que este ano abre as portas a uma segunda edição do festival TNT com a curadoria do incontornável Victor Torpedo; Subway Riders (palco Teatrão) perfazem este ano trinta anos de uma carreira que pode e deve ser apelidada de não-carreira aliás se traduzir o “não” para no e acrescentar wave obtém-se o centro que norteia esta banda de bandidos de Coimbra que pretendem aniquilar clássicos ou revirar o lógico e nessa medida instalar a anarquia que se nutre do absurdo (venham mais trinta!); Futuro Terror (palco Tabacaria) são uns espanhóis que cantam em castelhano e as canções são rugosas e rápidas por vezes trash outra menos trash para não provocar qualquer intoxicação alimentar outras mais noise e há umas menos noise gritadas em versos dolorosos em que há uma noção de quais os sentimentos que primam pela frustração que devem ser exorcizados; ou as linhas de ferro e a predominância do minifúndio sobre o latifúndio detido por um dos seus familiares pois descendia de uma família que era comum o casamento entre primos em segundo grau para manter o sangue puro mas que tinha o inconveniente de gerar inúmeros idiotas endinheirados que rapidamente faliram assim sucedeu ao meu avó algo que jamais lhe perdoou mas mesmo assim restaram uns baldios que ainda suportam umas vacas e cabras para abate mas para o meu pai estas são touros prontos para a lide e tece aleatoriamente críticas a diversos toureiros e apoderados com os quais habitualmente lidava e enumera-os como se estivesse a saborear a sua vida de picador de touros quando o visito fico à espera que me diga algo diferente do que me havia dito mas o seu fio condutor é determinantemente repetitivo e circular e não consigo não talvez seja capaz de fazer de conta que estou a ouvi-lo pela primeira vez sem que me pareça enfadonho e depois de meia hora de histórias intercaladas com gargalhadas de quem está ausente despeço-me com um beijo amargo e os seus companheiros acenam-me tristemente como se estivessem num prisão a quem chamam velhice; The Cannibals (palco Teatrão) é liderado por Mark Spencer que surge vestido como um pedinte chique oriundo de um século imaginário e apoiado a muletas (que rapidamente irá rejeitar) tem a cara manchada de sangue e óculos escuros e uma boina completam a sua figura com um mistério que pressupõe que não perspectivo se vive no meio dos vivos se dos mortos e o quinteto demonstra o poder sónico do trash-punk-rock isto é são um compêndio que escreve esses estilos de forma primeva e irrepreensíveis neste desígnio numa pureza como um estado de alma a minha fica a seus pés à espera de beijar os dos Cannibals; King Salami and The Curberland Three são uns rapazes de proveniências díspares e isto esta referido nos acordes exóticos numa associação por exemplo aos acordes do mambo mas a base é aceleradíssima que tem a cadência de uma máquina que repete constantemente um mesmo movimento sem qualquer sinal de proibição nisto alguém elogia o “ass” do cantor (uma estátua neo-africana) e ele faz gala do seu “ass” e deve a este o hipnotismo às jovens que o seguiram incansavelmente; Natty Boo And The Peligro 5 é um postal de uma ilha que poderá ser um pensamento que migra de ilha em ilha como uma gaivota tonta que por vezes é ska outras calipso mas segundo uma perspectiva vibrante de tão dançante que os metais e principalmente a secção rítmica providenciam magistralmente indicado como anti-depressivo; mas por outro lado podem-no convidar a jogar às cartas algo que ele não diz que não mas enaltece o Xadrez por ter cavalinhos pretos e brancos que serviram para inúmeros cavaleiros que saiam da praça aos ombros com as orelhas do touro nas mãos e as montadas subiam automaticamente de preço algo que parece uma parodia da razão contra a besta e a sua entoação poética de quem está a dizer algo retirado da Reader`s Digest com uma acentuada pronúncia londrina que surpreendia as utentes do lar que educadamente o enxotavam para fora do quarto todas as mulheres que conheceu e que inventariou num caderno que era um diário sobre as suas aventuras sexuais que por vezes redundaram em abortos clandestinos e ou pancadaria que o levara ao hospital e exibia as cicatrizes como se fossem troféus de uma guerra imaginaria entre ele e o esposo da mulher que estivera a foder para ele as mulheres eram como as vacas do estábulo meros objectos com os quais atingia um clímax que não o satisfazia antes o obrigava ao périplo de fecundador destituído de qualquer critério para além do seu único e exclusivo prazer.

Festival TNT, 25 de Maio, Teatrão, Coimbra.

domingo, 5 de maio de 2019

Odisseia

Quero vender este fogo mas não descubro coleccionador nesta feira de vaidades onde se pavoneiam espécies em vias de extinção mas pouco lhes importa tal condição se vestem peles de animais centenários e podem visitar as ruínas das suas vivendas durante o Verão e conceder um desconto a quem não é capaz de se relacionar socialmente e ignorar os despojos dos pobres dos deficientes ou resvalar para um jardim de flores de plástico que decoram os seus leitos de colchões de penas de gansos depenados enquanto cantavam uma ária ou lhes decepavam os testículos para obterem o timbre perfeito para o alarme da garagem e se os tortura na bolsa o sobe e desce das acções como se fosse um gráfico que inscreve um constante bater mal dos seus corações abunda a ansiedade que os consome num contínuo degradante talvez os saldos ou a venda antecipada de almas para ilustrarem o passado os faça irradiar felicidade mas esta é por norma tão fugaz quanto o abrir e fechar de um novo dia de Inverno ilustram os seus sentimentos através de velhas escrituras das quais desconhecem a sua essência e relatam o seu desdém em vozes tão populares quanto inócuas que lhes dá risos de quem está distante da realidade seja o vento que dá movimento à paisagem campestre e sonham com um sítio onde possam viver sem limites de gastos ou que não lhes obrigue a reverem-se ao espelho onde as seitas divagam de deserto em deserto talvez haja algo que os satisfaça seja o silêncio ou a bebedeira do dia anterior ou a infusão de água benta na sopa do perdigueiro que tem que mamar às escondidas do papa e se ele chora muda-se a fralda que tem por destino cobrir a carapaça de uma tartaruga prestes a contrair matrimónio com um padre de sotaina pedófila se correm de soslaio como imundos pesos de lixo que substituem as pedras e a terra e as flores e as grutas e as pontes e os túneis de néon; Lisbon Poetry orquestra tem como premissa enaltecer a obra da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen uma das poucas mulheres a constar no Panteão Nacional juntamente com a Amália e as canções em que o declamador é Miguel Borges oferece à poesia uma textura exacerbada que é impossível perceber os versos associado a isto há uma inaptidão por parte dos músicos que se limitam a desenhar as canções já quanto ao André Gago imprime um canto declamado sedutor e brilhante que dá vida à poesia da Sophia e a banda está à altura ao criar seja ambiências ou diversas ondulações melódicas pejadas de pormenores delicados; e a loucura não se apropria de quem passa sejas tu ou eu ou nós ou vós e eles ou elas há uma transversal imunidade ao grotesco seja por que estão imersos em imagens que lhes ou que vós permite distanciarem-se das tragédias sejam as climatéricas ou as de Homero não conhecem o surrealismo através de um poema do Mário Cesariny ou do Rui Reininho cantam o inferno de dantes como se estivessem a sofrer com uma relação que os prendia a uma dor associada ao amor sentimento cristalizado em notícias de ódio em pareceres da especialidade e lutam entre pares por um outro futuro que não esteja consignado a uma vivencia imersa na turbulência de uma visão sobre um desterro de dejectos humanos e assinam diversos documentos que impõe a cegueira do próximo seja Ulisses ou de O Virgem Negra ou ainda da Ana Lee numa banheira de pétalas vermelhas que a vestem de uma beleza artisticamente bela e há quem lhe chame passado ou presente mesmo que entre estes haja uma fronteira que não conseguem visualizar por se movimentar conforme a intensidade de cada uma das memórias que representam um estado de alma de dor ou de consternação e até de frustração com os quais dialogam na esperança que desapareçam ou se transformem em algo positivo seja no amor ou numa vitória qualquer e o desmaiar de um novo dia onde se vertem no interior de uma concha ensanguentada que se desfaz num ou noutro gemido de prazer e se a isto as velas apagadas se acendem para ocultar mistérios que se revelados serão surripiados pela má-língua preta e suja e repleta de verbos egocêntricos associados a uma máscara que se transmuta em outras tantas que é impossível localizar o interior dessas cavernas que nem têm desenhos rupestres ou fósseis suspensos num óbice e são capazes de divulgar o que conta para que se faça luz mas que seja eterna e que anule a escuridão de todas as outras luzes que piscam ao encontrarem um vazio etéreo e nacionalmente conhecido como o tesouro velho e de fancaria mas que vos solda a uma massa que por aqui construiu os seus jazigos.

Lisbon Poetry orquestra, O Mundo de Sophia, 3 de Maio, Museu Municipal Santos Rocha, Figueira da Foz.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

The Golden House

Eu talvez seja este espaço que me circunda que parecem paredes brancas que se dobram ao ritmo da tempestade que se abate sobre a cidade filha de um rio e afilhada do oceano Atlântico e esta relação familiar é meramente de uma ordem aparentemente poética destituída de talento de uma poetisa popular que ainda rima os seus versos para os cantar à janela do seu estábulo de vacas envelhecidas com cruzes e canhotos ao pescoço e amadas por camas de hospital e apalpadas por médicos da especialidade e temo que um dia esteja com elas a pedir às enfermeiras por carinho e atenção que é tudo o que têm para dar seja morfina ou um beijo de morte súbita altero-me em novas e constantes observações que se dissipam em esgares que se encobrem num outro olhar visível à luz deste dia pardacento e que obstinadamente me cega e recebo o sinal de um radar que está a identificar quem tem mais speed no sangue e acelero contra um muro invisível e não sei nem percebo porque o sucesso me faz mal torna-me bicho que mente ao seu espelho com rosto de elefante; tarde quente em São João da Madeira e ainda mais tórrida no terraço da Oliva Creative Factory onde estão a tocar os Galo Cant`às Duas (excelente nome mas para uma banda de world music) inseridos no Party Sleep Repeat que tem como cabeças de cartaz os Dead Combo (pelo menos no destaque gráfico nomeadamente nos flyers mas nos horários colados nas paredes são os Parkinsons que encerram este festival) entretanto antes dos Galo Cant`às Duas já tocou o Melquíades e foi-me impossível a presença devido ao atraso rodoviário quanto à dupla destaca-se o baterista do baixo/voz/teclado mas o que resulta desta conjugação são esboços destituídos de qualquer critério estilístico; tarde quente em São João da Madeira e ainda mais tórrida no terraço da Oliva Creative Factory onde estão a tocar os Galo Cant`às Duas (excelente nome mas para uma banda de world music) inseridos no Party Sleep Repeat que tem como cabeças de cartaz os Dead Combo (pelo menos no destaque gráfico nomeadamente nos flyers mas nos horários colados nas paredes são os Parkinsons que encerram este festival) entretanto antes dos Galo Cant`às Duas já tocou o Melquíades e foi-me impossível a presença devido ao atraso rodoviário quanto à dupla destaca-se o baterista do baixo/voz/teclado mas o que resulta desta conjugação são esboços destituídos de qualquer critério estilístico; e aspiro a casa do pó e das bolas de pêlo dos gatinhos e gatinhas com lacinhos no cabelo sejam flores ou diabinhos farruscos e mosquitos de imigrantes disfarçados de pedintes tento um novo lar onde não tenha que lavar o chão e nem a loiça e possa fumar enquanto passa a novela ou perder-me num sono acidental que me levasse ao sonho e se dissipa-se num segundo de romance de cordel centrifugado em imagens esquartejadas por um carniceiro vegetariano tento ausentar-me para um desterro mas estou presa num paraíso que é tão redundante quanto qualquer jardim de virgens esculpidas numa fonte marmórea que cospe saliva que se cola ao céu e as nuvens chamuscam os campos infinitos que brilham de ouro como se fossem girassóis infinitamente mais belos do que este relevo sobre a areia que é sucessivamente apagado pelas ondas que se dissipam com medo de serem absorvidas pela areia e tento o rescaldo das memórias que se apropriam da minha vontade de as esquecer e não consigo debater-me com a inexistência dessa ausência e lamento que este estado se encontre enquadrado com a aridez e frieza do vento e baloice o meu berço como uma nau por esse mar adentro à deriva na esperança; no palco que se situa no fim de um pátio empedrado estão congregadas Astrodome, Jibóia, Conjunto Corona; Astrodome conjugam diversos estilos como o prog e ou o psicadelismo em canções que ultrapassam os 10 minutos infectadas com algum histerismo estético mas inevitavelmente académico valem pelo poder sónico; Jibóia é um contínuo de música de dança na sua forma repetitiva mas com um cunho popularucho algo que é repelente; já sob a noite o Conjunto Corona são do hip hop imerso no dub que emolduram as suas críticas ao que é tipicamente tripeiro e nessa decomposição resulta a repulsa mas numa toada de celebração cáustica que é cantada em uníssono pelos fãs que nos intervalos das canções entoam “Gondomar! Gondomar! Gondomar!” no mínimo é coroa-los como os incendiários dos bairros sociais; que não seja incomodada por nenhuma cegonha ou gaivota subitamente altera-se o local e subo ao palco e danço um tango com o meu doutor que nas horas mortas assobia como se não estivesse a precisar com quem está a falar subjuga-me ao seu amor que surge em mim como se fosse estimulado para engana-lo mas isso pouco importa se sou assim talvez se fosse homem adoraria ser amada por mim mas não sou eu a falar antes a actriz da telenovela bela e altiva e sumptuosamente simpática que deve ser lida com o distanciamento que estas séries o exigem e tento parir-me em pedaços dispares que poderiam rebolar-se pelo chão num estilhaço cósmico centros luminosos que exercem um psicadelismo obscuro e ofusco obstáculos para esta nave espacial que se projecta num emaranhado de promessas dispares e ainda estou desejosa pela próxima cena que seja devidamente encenada para uma peça naturalista tento ripostar sobre as exigências que a sociedade ordena a uma mulher para que seja magra como um cabide andante e que seja fotogénica para ser objecto de atenção alheia e que simbolize a moda que se alimenta de iogurtes magros e de alface e beterraba para que a pele seja resplandecente ao absorver os raios de sol a saúde subjugada a critérios estéticos uma mistura explosiva como um cocktail energético que o meu marido engole antes de ir para o ginásio mas que lhe toldam a libido algo que me deixa um tanto ou quanto doida pois pergunto-me como é que alguém troca sexo por uma barra com anéis nas pontas creio que não devo censurar a sua escolha porque ele ama-me; no palco instalado num renovado armazém é a vez dos Go!Zilla, Glockenwise, Dead Combo, The Parkinsons; Go!Zilla são um somatório de erros na prossecução de serem fieis por exemplo ao prog e ao hard rock e esta fidelidade apesar de se respeitar é a responsável por um equivoco já que nem engrandecem as bandas que citam tornando-se em meras marionetas que tocam instrumentos ou cantam inconsequentemente; Glockenwise são fundamentalmente pop mas rejeitam a sua vertente light já que emitem uma densidade cósmica que é sem dúvida aprazível com uma eficácia assertiva pena que seja imperceptível na maioria das canções perceber o que é cantado em português; Dead Combo instituem diversos universos que aparentemente são familiares já que remetem para África ou para o cancioneiro popular português isto subjugado a instrumentos ligados à electricidade algo que lhes dá uma contemporaneidade kitsch insinuada numa festividade encantatória; The Parkinsons cumprem com a premissa que somente o punk é capaz de outorgar algo que pontualmente associam à pop algo que torna as canções sedutoras mas a combustão é predominantemente punk e a isto soma-se uma performance que é condizente com a música seja o Victor Torpedo afrontar os seguranças ao puxar as grades e a obrigar o público a aproximar-se do palco ou a tocar guitarra sobre um destes e a enfrenta-los como se estivesse em guerra contra a ordem ou as diversas investidas do Alzheimer sobre os jovens ou ao pôr-se às cavalitas de um dos seguranças enquanto canta e este estilhaço sónico dura aparentemente trinta segundos tal como de um sonho de onde é impossível sonhar.

Party Sleep Repeat, 27 de Abril, Creative Olive Factory, São João da Madeira.