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domingo, 13 de abril de 2025

Fuck the World

Victor Torpedo and The Pop Kids sobem ao palco do Salão Brazil em Coimbra onde apresentam o último álbum “Fuck the World”. E a música versa sobre a decadência a que este mundo tem resvalado, década após década, e que está patente como exemplo em “Society”, o primeiro single a ser extraído do álbum acima descriminado. Não há neste concerto lugar a tristeza ou depressões descontroladas, antes uma alegria que contamina os ouvintes e os leva a dançar, pouco lhes importa se o Mundo vai acabar ou se é feito de esgotos e lixeiras a céu aberto, ou de Ilhas desertas contaminadas com uma fauna de doentes mentais. É certo que a movimentação do Victor Torpedo e do seu saxofonista entrando pelo publico adentro tipo espalha-brasas incita-o a movimentarem-se como que a acorda-los da hipnose que música provoca. A música sublinha a pop mas uma pop que se deixa contaminar por outros géneros musicais como o ska, mas tudo misturado de forma a que haja um equilíbrio entre as diferentes influências, e desta forma pode-se declarar que toda a energia que é imposta pelos músicos é espelhada na música que sofre com a urgência de transformar o Mundo num lugar onde reina a felicidade.

 Victor Torpedo and The Pop Kids, “Fuck the World”, 12 de Abril, Salão Brazil, Coimbra.  


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

The Loved One

Noah Lennox mais conhecido por Panda Bear é um músico americano e membro fundador dos Animal Collective, e que se irá apresentar no Salão Brazil que se encontra lotado. Para meu espanto Panda Bear, traz consigo duas teclistas ou processadoras de som, um baixista e um baterista, e o Panda Bear assegura a guitarra e a voz;  porque dada a complexidade da sua música esta seria apresentada através de um teclado ligado a um computador. As primeiras músicas referem-se à uma electrónica que remete para locais tropicais, mas o género é pop quase com a pretensão de ser psicadélica. A partir daqui o leque vai-se abrindo devagar como se fosse um arco-íris que teve início na mencionada pop, para passar para uma versão que se aproxima da pop-rock mas numa vertente psicadélica que gradualmente se esvai para resultar no rock. Este último raciocínio parece simplista, e é o de facto, mas poderemos criar uma trave mestra que se deveria apelidar de pop psicadélica que se transmuta para outros domínios que sejam mais psicadélicos somados ao rock que por sua vez é indie. Mas estas denominações apenas servem para situar o ouvinte sobre quais os efeitos destas sonoridades têm sobre quem está no Salão Brazil, e estes dançam e gritam ao Panda Bear no intervalo das canções, como se estivessem hipnotizados pela sua música.  

 Panda Bear, 4 de Dezembro, Salão Brazil.  

domingo, 10 de março de 2024

O Livro Dos Nomes Perdidos

Dela Marmy apresentou no Salão Brazil em Coimbra o seu primeiro álbum denominado de “Acaso”, antes deste havia publicado dois eps em inglês. Surgiu com um quarteto em que se encontrava uma teclista, baixista, guitarrista, baterista, mas quem brilhou ou tinha esse poder de brilhar foi a Dela Marmy com uma voz envolvente, a cantar em português durante quase todo o concerto (excepto em duas ocasiões),  que atraiu o ouvinte e o transportou para outros mundos e estes eram encantatórios que nos remetiam para essa outra dimensão onde se celebrava um prazer inexcedível. Para além da forma como se movimentava em palco e fora dele, isto é, a dançar libertando-se das amarras que o palco impõe, ela ocupou o espaço vazio celebrando uma felicidade contagiante. Há ainda a realçar a cordialidade e a doçura seja quanto cantava e se expressava dessa forma ou quando dançava, um e outro estão irmanados para abrilhantar o espectáculo e oferecer-lhe uma honestidade sem limites, de quem se entregava sem qualquer calculismo, seja de que ordem for. Há em Dela Marmy um novo universo que musicalmente passa por exemplo pela MPB ou pela pop portuguesa da década de oitenta do século passado, isto sem preconceitos de qualquer ordem. Dela Marmy é um diamante que se delapida ao vivo diante dos nossos olhos que testemunharam o nascer de uma nova mulher que é incrível não só na expressão corporal mas pelo seu canto de sereia que tanto enamoraram os piratas mais cruéis e sanguinários, ela chegou para transformar os corpos em almas e para que estes sejam seres livres, tais anjos. 

Dela Marmy, Acaso, 9 de Março, Salão Brazil, Coimbra.     

 

sábado, 16 de dezembro de 2023

Até Amanhã

 

A noite no Salão Brazil em Coimbra é de celebração pois está em causa uma apresentação por três bandas da coletânea “Coverbilly Psychosis- A Tribute To Tédio Boys”, e essas são por ordem de entrada em palco: o Peter Suede, Birds Are Indie, Wipeout Beat. O primeiro é um jovem aspirante à rocker mas faltam-lhe canções que fossem originais, e não meras cópias de singles de sucesso de outras bandas tão dispares quanto The Cure ou Guns and Roses, apesar da sua performance e dos seus comparsas ter sido irrepreensível.

Birds Are Indie demonstram que são a banda pop de Coimbra, e isto para assinalar a excelência com que executam as canções tal como a eloquência das melodias que arrebataram inúmeras consciências, a somar a isto ainda há a inclusão do funk como elemento predominante que fez abanar algumas ancas.

Wipeout Beat apresentaram o seu rock oriundo de teclados velhos e gastos dos quais retiram o Kraut, sonicamente poderosos de tal forma que aparentam que se fundem com os teclados e o Pedro Antunes com a guitarra, são homens máquina que delegam ao ouvinte a capacidade da ausência e paradoxalmente da presença, e é nesta interface que se instaura uma loucura sónica que se espraia e liberta os corpos de grilhões invisíveis.

"Coverbilly Psychosis- A Tribute To Tédio Boys!!!", 16 de Dezembro, Salão Brazil, Coimbra.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Tintin au Tibet

O Salão Brazil está lotado à espera da entrada em cena de Rui Reininho e dos seus três músicos que se dividem pelos teclados, guitarra e bateria, sente-se a ansiedade no ar que é satisfeita quando surge o Rui Reininho que interpreta “Aqua Regia”.

Já com a presença dos seus companheiros de banda enveredam pelo espiritual “Namastea” e pelo surreal “Turafões” para desembocarem no “Enfado Vegetariano” uma canção de inspiração flamenca com um poema deveras irónico pois ridiculariza o universo das touradas.

A primeira incursão pelo o oriente passa por “Tan Tan no Tibet” e através de um tema novo “Japan” cantado em mandarim, algo que causa estranheza e simultaneamente espanto: como é possível o Rui Reininho cantar numa língua tão estranha à nossa?

“Quando um de nós morre, sete se levantam…”, numa lembrança ao recente falecimento do músico dos Ornatos Violeta, Elísio Donas, ao qual dedica a fúnebre “Palmas”.

“Animais Errantes” é o reflexo das substâncias que nutrem o “20.000 Éguas Submarinas”, o segundo álbum a solo do Rui Reininho e que expõe através de um conjunto referencias estéticas, na sua maioria de pendor assumidamente experimental tentando quebrar a lógica pop/rock que é popularmente é consumido, nesta canção exacerba-se essa vontade de liberdade com a conjunção dos músicos a levarem-na ao extremo como se fossem vértices contra vértices num jogo de geometria autodestrutiva recriado pelo Almada Negreiros. 

Um dos temas do álbum “20.000 Éguas Submarinas” é o mar como elemento agregador de uma nação como Portugal que teve como desígnio atravessa-lo e de certa forma ser dono e senhor de um caminho marítimo para a Índia, este fado parece que se espraiou na alma portuguesa e se repetiu noutras aventuras que deixaram uma marca indelével na alma lusa. O mar no último álbum do Rui Reininho tanto liberta como é um elemento asfixiante assim é “Hidrofone” como em “Fartos do Mar” ou no majestático “…The Sea…”, como fossem os três últimos fôlegos de um naufrago.

 Por fim uma lembrança do álbum “Os Homens não se Querem Bonitos” (dos GNR) um tema composto por “Alexandre Soares” o guitarrista que acompanhou os GNR até 1986 e que faz parte da banda que aqui se apresenta a defender uma história musical que começou à três anos; “Sete Naves” que encerra um concerto memorável pois na génese se reinventou gradualmente relegando para os píncaros dos sentidos todo um manancial onde por vezes pontua a loucura numa procura através desta da liberdade do espirito.

Rui Reininho, “20.000 Éguas Submarinas”, 1 de Junho, Salão Brazil.  

domingo, 26 de março de 2023

Eco e Narciso, leituras de um mito

 

Se fosse uma noite de inverno daquelas noites que os poetas de espírito tão nobre quanto negro fazem uso para delinear os seus poemas românticos, muitos dos quais fora de moda, alguns até representativos de outras eras que não esta em que vivemos. Caso se confirmasse que há tempestade como da a última vez que BALLA passou pelo Salão Brazil e teve direito a uma plateia exígua, justiçava-se o grupo de desconhecidos e amigos que deixam muito espaço vago na sala de concertos mais popular da cidade de Coimbra. E quais ou qual poderá ser a justificação? Para mais o músico lançou “Cãs” talvez referente ao facto de que ultrapassou os cinquenta anos e os trinta de carreira durante a qual se foi desmultiplicando em outras personagens que correspondiam a outras sonoridades. Mas BALLA resistiu às mudanças talvez porque augura de certa forma algo que move muitos artistas pops: a canção perfeita a que se repete na rádio sem cansar o ouvinte e por outro lado o faz querer voltar a ouvi-la, talvez seja isto ou o facto da música pop movimentar multidões que histéricas descobrem nelas episódios que marcaram a sua vida e lhe deram um reconhecido valor. Dos compositores de música electrónica talvez Iánnis Xenákis seja preponderante na obra de Armando Teixeira (BALLA), isto inserido na música pop oferece às canções um sinfonismo que foi ostensivamente utilizado por exemplo por Jean-Michel Jarre (um discípulo do Mestre grego/francês); e confere às do músico português uma inquietação desmedida como se fosse um despertar não só do corpo mas da sua consciência e dessa forma oferece ao ouvinte a possibilidade de elaborar um outro universo. Há a excelente “Natureza Humana” ou a “Lixo” ou a oportunidade de dançar ao som da ritmada “Sobressalto”; sem esquecer o clássico “Construi Ruínas” que revela a pop synth delicada e ostensivamente angustiante; já “Segredos” (o single de avanço de “Cãs”, o seu último Lp) é uma balada com direito a distorção da guitarra eléctrica e por fim a dupla de pérolas pop “O Fim Da Luta” e  “Outro Futuro”. Por estes exemplos foi triste de ver o Salão Brazil a receber um dos nossos génios da pop electronica vazio ou meio vazio despendendo da perspectiva.

BALLA, "Cãs", 25 de Março, Salão Brazil, Coimbra.


domingo, 13 de novembro de 2022

True Grit

Seis anos volvidos da última apresentação a solo da Tracy Vandal, porém durante este tempo tem cantado com os a jigsaw, ou recentemente no concerto de homenagem ao Jack Kerouak autor de “On the Road” à convite de João Rui aka John Mercy que também se irá apresentar ao lado da diva escocesa no Salão Brazil.

Poder-se-ia presumir que seria um concerto quase exclusivo para amigos ou para fãs, nada mais errado o Salão Brazil encontra-se de lotação esgotado e as pessoas estão na expectativa e ou na dúvida sobre que género de espectáculo será, o que sobressai do cartaz de apresentação (que é a capa do disco) é um pássaro preto morto sobre fundo branco com a inscrição “Midnight Presents”, que reúne versões a partir de obscuros originais.

“Still As The Night” (original de Stanford Clark) reúne os elementos que norteiam a Tracy Vandal seja o rockabilly associado a uma continua tensão a partir da qual sobressai a voz da cantora escocesa. Sendo assim estes elementos aqui detalhados ora se escondem ora são reflexo da inusitada capacidade de transformar canções (algumas com mais de cinquenta anos) em temas que para além de soarem actuais parecem originais; inevitavelmente o mesmo sucede com o segundo single “Far From Any Road” (original The Handsome Family) retirado de um álbum inesperado (pois acredito que muitos fãs estivessem à espera de um conjunto de originais). Há ainda a destacar um tema que se revela de uma força tremenda quase com tanta inesperada energia e tensão que não poderia ser mais negro na sua génese:decorre da descrição de quem se está a afastar do Inverno e a entrar noutra estação do ano imaginária, pois esta é tão densa quanto o inverso e esse tema é “Winter`s Going” (da Bonnie Dobson), que se revela quase como se fosse uma explosão mas que nunca logra romper o espaço em está cerceada de tal forma é a sua beleza, e a interpretação da Tracy Vandal é sublime (aliás irrepreensível ao longo do concerto). Por fim nada mais nada menos que a calma sublime de “Wicked Game” (de Cris Isaak) que se revela através de um tempo lento quase na busca de uns acordes mas que em simultâneo tenta anula-los, e é neste paradoxo que canta a Tracy Vandal com delicadeza e beleza como se estivesse por instantes a flutuar.

 Tracy Vandal & John Mercy, Midnight Presents, 12 de Novembro, Salão Brazil, Coimbra.   

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

The Long Trip

Acid Mothers Temple encontram-se junto a uma mesa com os seus discos e alguns desenhos psicadélicos à venda junto à inscrição “Cash”; o concerto de hoje está integrado na digressão denominada de “MetaReboot Tour 2022”, e é uma extravagância pois Coimbra é uma das quarenta e sete cidades a vê-los ao vivo em outros quarenta e sete dias de viagem.

Acid Mothers Temple corresponde a um colectivo japonês de cinco elementos que dão primazia às guitarras eléctricas e a um teclado. As dinâmicas que estabelecem dão prioridade à distorção e outras raras vezes à melodia, na qual se imiscui uma distorção que ora aumenta o seu espectro ora o diminui. Isto jogando sempre no plano dissociativo, em que cérebro procura acercar-se de um (da melodia) ou de outro (da distorção), procurando fazer um reconhecimento entre o que se aproxima da perturbação (a distorção) ou da harmonia (a melodia). Entre estes há uma fronteira-- mas é somente para quem se encontra consciente deste mecanismo-- que obriga o ouvinte a que não esqueça a mortalidade por contraposição do imaginário sonoro associado à imortalidade (leveza e a beleza dos acordes pop), o problema é a incapacidade de identificar um ou outro dada a sua contínua mistura.

 O concerto jamais será um convite a quem se julga de uma forma ou de outra preso no seu ego que de tão grande impede que outras formas do ser se expandam e recriem outras maneiras de apresentar o “eu” (para muitos um desconhecido que se limita a ser uma mimetização de elementos chave nesta sociedade de consumo).

É certo que é mais fácil viver através de outros que de uma forma ou de outra venceram os obstáculos que a vida lhes foi “proporcionando” (entre aspas para sublinhar o seu carácter pleno de ironia). É possível que este método seja falível e obrigue um reinicio desse percurso, desta feita com a tomada de posse do “eu” e dessa forma usufruir livremente a música destes japoneses que tem como objectivo lembrar que entre o céu e o inferno haverá sempre música.    

Acid Mothers Temple, MetaReboot Tour 2022, 1 de Novembro, Salão Brazil, Coimbra.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Let Us Compare Mythologies

Dela Marmy é o nome artístico de Joana Sequeira Duarte que surge no palco do Salão Brazil acompanhada por três músicos, a música que executam é de uma vertente que se alicerça à pop mas com inúmeros pormenores dos teclados que lhe oferecem uma delicadeza esotérica que transpõe ou recoloca o ouvinte num universo quase infantil, essa parcela nas canções é a porta para a abstracção que é de certa forma encantatória por aprofundar algo que é somente uma memória mas a mais pura, certamente que os quadros pop são delineados de forma a evitar qualquer cliché salvaguardando assim um índice elevadíssimo de originalidade que revela um mundo repleto de uma beleza insofismável em que a tragédia é de um romantismo tão profundo e delicado que se rebela contra a efemeridade a que estão condenados os seres vivos e é essa esperança que é um íman que prende o melómano, por outro lado há um propósito maior que se prende à fantasia que delicadamente se constitui como subtexto das canções e não é que seja meramente contemplativa antes é associada a uma pop que no seu âmago deslumbra e gera uma felicidade contida mas paradoxalmente plena de esperança para com o caos que por vezes faz movimentar o Mundo e ao demonstrar esse efeito descobrem-se pontos cardeais que dominam e se espraiam e cativam a quem esteja presente e de momento a ausência deve ser compreendida como um despertar em direcção de algo divinalmente belo e que por conseguinte é uma soma intransponível, a melancolia mistura-se intermitentemente com a felicidade como se a primeira fosse dominada pela segunda e assim inversamente e a isso deve-se a voz da Joana Sequeira Duarte que é de uma clareza imaculada que assoberba as canções a um patamar de uma inexplicável doçura ou assertividade no que canta seja a tragédia ou noutras a evocação de algo que por si só é suficiente para elevar as canções a um pináculo de beleza mas que é ideal e não a que transborda de páginas de manuscritos antigos antes dos dias em que domina o Outono e se encaminham para o Inverno e a única companhia para conquistar a próxima estação do ano é Dela Marmy.

Dela Marmy, Captured Fantasy, 5 de Dezembro, Salão Brazil, Coimbra.

domingo, 18 de outubro de 2020

DE L`AMOUR

Não associo o seu rosto à fotografia de quando tinha quinze anos olho para ele e encontro um rosto meditativo de quem está a planificar ou a sintetizar um problema a sua ausência era tão crónica quanto o era o da minha mãe e passeava por entre braços estrangeiros ou eram de estrangeiras cada uma com seu sotaque de uma cidade brasileira não me lembro de nenhuma delas tenho uma vaga ideia que eram de plástico ou pelo menos era assim que as sentia e tinham um odor estranho como que agridoce que ainda hoje tenho como algo amargo porque simbolizava que estava sem a minha mãe ou pai não sabia onde me encontrava se dentro ou fora de uma caverna húmida com desenhos ancestrais riscados nas pedras de argila tal como os que desenhava ou pelo menos parecidos creio eu ou talvez não eram meras deambulações de um estímulo criativo que me libertava da presença das amas havia uma que parecia que fazia de minha mãe e outra de outra mãe e ainda uma outra que aparecia recorrentemente para conversar sobre as suas dores diárias que eram de origem da alma ou pelo menos era a isso que associava às suas lamentações; noite de festa em Coimbra no Salão Brazil o último reduto de resistência à onda da pandemia que encerrou inúmeros clubs em diversas cidades do país e que se mantêm encerrados as bandas deixaram de ter um palco à medida da sua popularidade para muitos seria a emancipação da garagem para outros mais uma visita para cantar e tocar e serem presencialmente ouvidos algo que hoje é um luxo pois agravado com as emissões online que são por si só impessoais e formatadas a um emissor pobre que condiciona a audição do ouvinte e essa aversão entre outras obriga-me a estar sentado à espera da Raquel Ralha e do Pedro Renato uma dupla originária dos míticos Belle Chasse Hotel e tal se prende com a apresentação ao vivo do álbum editado recentemente “The Devil’s Choice, Vol.II / Heavenly Tales” se o primeiro capítulo desta dupla tinha como premissa reescrever temas de outros músicos/bandas em que dominavam cores garridas de tão agressivas que reinscreviam um outro negrume que era somente desenhado nos originais o concerto encontra a cantora com asas brancas mas de vestido negro acompanhada por Pedro Renato na guitarra e nos teclados e as canções dos Love and Rockets ou do Barry Adamson ou dos Pixies têm como centro nevrálgico realçar a melodia numa cadência que evoca simultaneamente uma efemeridade fúnebre em que reverberam pormenores narrativos que primam por uma eloquência dramática que apela a imagens idílicas que são de um arrasto sentimental que recorda estados de espírito dignos de uma criança ou laivos de demência por parte de um idoso e nessa transacção há um baloiçar de sonho derrotado como o que se assemelha a “Heaven” dos Psychedelic Furs; apesar de não perceber o que ou porquê ou por quem chorava era uma lamúria recorrente que se aparentava com algo tão distante do qual somente era capaz de ouvir o eco das suas palavras tolhidas de dor perguntava à minha mãe porque ela chorava e ela dizia que fazia parte dos pobres para se aliviarem de tal enguiço sentir-se-iam felizes não compreendi o que dizia enquanto contemplava com uma divagação filosófica o jornal e eu abandonava-me a jogar com uns mini carrinhos e afastava-me da sua presença e no meu quarto continuava a acelerar e sentia o cheiro do seu cigarro a ser absorvido parcialmente pela janela da nossa casa de onde se vê o horizonte e se me assemelho a uma criança é somente porque esse era o meu estádio de desenvolvimento mas a ausência de um irmão ou de um outro ente querido da minha idade teriam feito nascer um amor que desconheço como é o fraternal posso alistar-me num lar e encontrar o irmão que tanto desejei desde que me lembro que o espero para lhe dar a minha palavra que lutarei por nós tal como hoje como sempre.  

Raquel Ralha & Pedro Renato, “The Devil’s Choice, Vol.II / Heavenly Tales”, 17 de Outubro, Salão Brazil, Coimbra.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...