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domingo, 21 de dezembro de 2025

O Nu

Noite de chuva e frio traz no seu regaço o espetáculo ao Cineteatro Messias de Rui Reininho (harmónica; voz; sinos), e seus pares dos quais se destaca um ex-GNR Alexandre Soares (harmónica/ guitarra elétrica) e Rui Maia nos teclados e na bateria Gil Costa. Nada faria prever que este concerto fosse a antítese dos que têm promovido o “20.000 Éguas Submarinas” a segunda relíquia a solo do cantor e performer do Porto; isto,  porque desde o início que se destacou de canção para canção uma harmonia perturbante alicerçada em códigos sejam rítmicos e ou modulares, mas que dada a complexidade dos acordes do Alexandre Soares, este revira o blues  e ou o noise, como sendo uma segunda alma que se instala e envenena tudo ao seu redor; enquanto o Rui Reininho deambula alegremente canção após canção-- chegaram a sair pessoas e o teatro já meio vazio ainda mais vazio ficava-- como se a música tivesse o poder de afoguentar os que esperavam um alinhamento à GNR destes tocaram “Piloto Automático” e “Sete Naves” naturalmente irreconhecíveis mais uma vez o que se destacam são as cores negras, durante a primeira ainda houve quem fizesse de corista “vodka, vodka”. Numa altura do ano em que as publicações fazem contas aos melhores do ano ao vivo poder-se-á colocar este concerto no top dos primeiros, mas não primeiro por ser primeiro, antes porque foi épico, e este facto não é somenos é antes de mais histórico que dois GNRs ainda tenham a virtude de revelar algo que se encontrava de alguma forma encoberto aos nossos ouvidos. Parabéns.

Rui Reininho, 20 de Dezembro, 20.000 Éguas Submarinas, Cineteatro Messias, Mealhada.    

P.S- Em memória do meu falecido pai.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Tintin au Tibet

O Salão Brazil está lotado à espera da entrada em cena de Rui Reininho e dos seus três músicos que se dividem pelos teclados, guitarra e bateria, sente-se a ansiedade no ar que é satisfeita quando surge o Rui Reininho que interpreta “Aqua Regia”.

Já com a presença dos seus companheiros de banda enveredam pelo espiritual “Namastea” e pelo surreal “Turafões” para desembocarem no “Enfado Vegetariano” uma canção de inspiração flamenca com um poema deveras irónico pois ridiculariza o universo das touradas.

A primeira incursão pelo o oriente passa por “Tan Tan no Tibet” e através de um tema novo “Japan” cantado em mandarim, algo que causa estranheza e simultaneamente espanto: como é possível o Rui Reininho cantar numa língua tão estranha à nossa?

“Quando um de nós morre, sete se levantam…”, numa lembrança ao recente falecimento do músico dos Ornatos Violeta, Elísio Donas, ao qual dedica a fúnebre “Palmas”.

“Animais Errantes” é o reflexo das substâncias que nutrem o “20.000 Éguas Submarinas”, o segundo álbum a solo do Rui Reininho e que expõe através de um conjunto referencias estéticas, na sua maioria de pendor assumidamente experimental tentando quebrar a lógica pop/rock que é popularmente é consumido, nesta canção exacerba-se essa vontade de liberdade com a conjunção dos músicos a levarem-na ao extremo como se fossem vértices contra vértices num jogo de geometria autodestrutiva recriado pelo Almada Negreiros. 

Um dos temas do álbum “20.000 Éguas Submarinas” é o mar como elemento agregador de uma nação como Portugal que teve como desígnio atravessa-lo e de certa forma ser dono e senhor de um caminho marítimo para a Índia, este fado parece que se espraiou na alma portuguesa e se repetiu noutras aventuras que deixaram uma marca indelével na alma lusa. O mar no último álbum do Rui Reininho tanto liberta como é um elemento asfixiante assim é “Hidrofone” como em “Fartos do Mar” ou no majestático “…The Sea…”, como fossem os três últimos fôlegos de um naufrago.

 Por fim uma lembrança do álbum “Os Homens não se Querem Bonitos” (dos GNR) um tema composto por “Alexandre Soares” o guitarrista que acompanhou os GNR até 1986 e que faz parte da banda que aqui se apresenta a defender uma história musical que começou à três anos; “Sete Naves” que encerra um concerto memorável pois na génese se reinventou gradualmente relegando para os píncaros dos sentidos todo um manancial onde por vezes pontua a loucura numa procura através desta da liberdade do espirito.

Rui Reininho, “20.000 Éguas Submarinas”, 1 de Junho, Salão Brazil.  

domingo, 5 de junho de 2022

Werther

A associação entre a Orquestra Jazz de Matosinhos e Rui Reininho encontra o seu segundo capítulo na Praça Real Vinícola (antes havia decorrido na Casa da Música) inserido no conjunto de concertos Jazz Na Real Vinícola; o cantor dos GNR traz consigo o Alexandre Soares e o Paulo Borges que juntamente com a orquestra (maioritariamente constituída por metais) executam as canções que decorrem do segundo álbum de originais de Rui Reininho “20000 Éguas Submarinas”. A relação que estabelecem é a de acentuarem os elementos estéticos que se evidenciavam em cada um dos temas do álbum, isto sem serem meramente retratistas, mas na procura de evidenciar pormenores que se encontravam no subtexto da linha melódica dos originais: onde há delicadeza e profundidade acentuam-se as mesmas, onde há excesso e opulência acrescenta-se ainda mais a densidade; destas ondas sonoras (o que remete para que esteja inerente uma ondulação que não afecta somente “Fartos do Mar” mas também as suas congéneres) provém universos abstractos e outros oriundos-- de e por exemplo-- do flamenco a sua coexistência confere às canções uma profundidade extravagante pois se encaixam sequencialmente ora derivadamente e tendencialmente criando um “big picture”. Porém e comparativamente quando Rui Reininho se apresenta somente com os seus quatro comparsas há um aprofundar senão mesmo um denso sublinhado sobre o psicadelismo que confere uma dimensão “inconsciente” às canções, mas dado o facto de a orquestra ser composta por metais a que se juntam uma bateria e um baixo  eléctrico, as opções teriam que passar obrigatoriamente por esse conjunto de músicos, logo essa dimensão psicadélica está alienada dando espaço  a arranjos  que complementam as canções noutros domínios (como o aqui evidenciado flamenco),-- resolvendo assim-- o que em quinteto era uma constante enunciação que se insinuava e se exprimia para além da moldura do tal “big picture” extravasando as suas fronteiras mas sem se perder a narrativa sónica. A surpresa final é “Sete Naves” --original dos GNR e uma das composições co-escritas com o Alexandre Soares, um dos membros fundadores do Grupo Novo Rock-- e que a Orquestra Jazz de Matosinhos transforma numa tempestade, mas em vez de soprarem ventos adversos sobre embarcações fantasmagóricas há uma felicidade destemida contra toda e qualquer perturbação que se torna numa esperança que enche de força os marinheiros que usam a voz do Rui Reininho para se vingarem de residirem no além, e o único desassossego é ouvirem-se através da sua voz e por essa e somente por essa razão sentirem-se vivos. 

Rui Reininho & A Orquestra Jazz de Matosinhos, 04 de Junho, Jazz Na Real Vinícola, Matosinhos.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

The Mental Traveller

Os critérios de divisão estão soterrados no ciclo do qual florescem os crisântemos veja-se a lua curta breve monopolista do temperamento dos bichos alguns terrestres outros extra-terrenos se simbolicamente me ultrapassa e se transforma numa luz que cruza a noite e dá-lhe um tom de pérola selvagem que cavalga os campos e lhes confere uma outra soberania que somente o ministério do mester é competente para tal e lhe inverter a cor e dar-lhe dia essa luz que aparentemente mostra ou demonstra que o divino é infinitamente um toque um sopro uma tempestade um terramoto ou uma borboleta a cheirar uma flor a alimentar-se do seu pólen a elevar a beleza do movimento lento das suas asas a um píncaro que não é perceptível nem pela suavidade da primavera estação do ano inventada pelo homem esse que tem que incutir lógica à lógica caso contrário a desordem será um eterno e desolador pretexto para abraçar uma ideia suicida um pecado mortal bastas vezes ignorado por quem censura tal acto ou facto que se resume a uma vida longa ou breve quem sejas que faça a respectiva contabilidade se o que me falta de vida é tanto quanto o que me faltava enquanto criança e acreditava nos búzios que tinham Nero na voz e no hálito no Inverno a neve somente flocos de esferovite de uma caixa de cartão de presente de Natal “deixa os anjos” pedia a minha voz “deixa os anjos dormir quantos mais dormirem mais paz terás na tua vida o que é que desejas mais meu amor?”; Rui Reininho estreia em Viseu nos Jardins Efémeros, “20000 Éguas Submarinas” o seu segundo longa duração a solo, acompanhado por quatro músicos um dos quais é Alexandre Soares que fez parte dos GNR (banda que o Rui Reininho ainda lidera) e um outro que esteve na génese deste novo álbum Paulo Borges. O concerto versa musicalmente inúmeros campos estéticos: seja a música concreta, o minimal repetitivo, o free jazz, a música oriental, e o psicadelismo, o minimal progressivo, a new wave, estes são os que se delineiam com maior assertividade no núcleo de cada uma das canções que fogem à estrutura pop/rock; antes, são erguidas através de uma estrutura heterogénea em que inclusivamente o universo oriental é reinterpretado de forma a transcorrer uma nova universalidade, que permite ao ouvinte divagar através de um psicadelismo que é sedutor mas simultaneamente causar-lhe-á alguma estranheza por derrubar a ignorância e ou o preconceito, este até poderá recair como um anátema sobre a poesia surrealista de Rui Reininho que é em spoken word ou entoada e ou declamada de forma sóbria e consistente mas paradoxalmente espectral, Rui Reininho é o detonador do psicadelismo esotérico que causa espanto por ser tão sedutor quanto genial; oiço-a e toco o seu rosto lívido marcado por vales e sombras densas talvez ela seja um fantasma um lençol branco a secar na corda bamba das manhãs de Verão tão ao vento e tão quente que o meu toque em nada toca somente sente o seu calor humano que me parece uma recordação dos tempos em que num deserto onírico ela orientava as ondas para que irrigassem as suas pernas cadavéricas onde se enrolavam as algas que não eram mais do que os cabelos soltos de Nero dá-me força para cantar como um rouxinol ou como uma sereia que atrai-a os marinheiros esses errantes que dos mares apenas trazem lembranças inesquecíveis de mulheres de vidro frágil que se tocadas como se fossem violoncelos poderão ter um orgasmo “glória glória aleluia” pergunto à outra dama das virtudes se faria o mesmo em nome do prazer tal acto como num grito soturno de liberdade para que abandone o seu aspecto espectral que lhe confere uma fragilidade que é usada por todos os outros como forma de a subjugar à ditadura das éguas submarinas a cavalgar ou deixarem-se montar por Neptuno que tanto gosta das suas crinas imortalizadas em epitáfios a poetas que tal como eu são dignos de constarem numa pedra sabão para que a efemeridade seja dona da eternidade e que de nada daí resulte sejam versos coroados de grandes e diversos feitos onde o sangue os une e transforma as epopeias em tratados de guerra em nome de Deus que sem rosto ou com rostos de animais e de pessoas misturados de animais que sobressaem nos baixos relevos e onde se encontram relutantemente imortalizados tal como os desejos mais obscuros ou os desígnios que fazem com que o homem acorde durante a manhã e se considere tão vivo que se pode movimentar livremente por entre as ruas lamacentas sem se aperceber que é essa lava que o leva para um ponto que reconhece o fim mas que se assimilado poderá ser uma passagem para um outro encontro com outros seres vivos que se assemelham a uma outra consciência que de uma outra forma ou de outra o tentam manter vivo para que testemunhe novamente que a terra é um saco azul dominado por correntes que a prendem ao universo.

Rui Reininho, “20000 Éguas Submarinas”, 10 de Julho, Jardins Efémeros, Viseu.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...