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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A Liberdade Livre

O festival de surf de cariz internacional que decorreu durante cinco edições no centro da Figueira da Foz muda-se para a praia do Cabedelo onde há dois palcos: um situa-se junto à praia (palco 1)-- onde irão decorrer as diversas provas consignadas ao long board assim como a prática do surf nocturno (algo há muito reivindicado à edilidade pela comunidade surfista da Figueira da Foz) e através desta revolução transformaram a praia no último reduto de liberdade da região centro-- e o outro é fronteiro ao rio Mondego e onde irão decorrer os concertos nocturnos (palco 2); Elephant Maze são uma dupla de destruidores de acordes de heavy metal e de outros universos hard rock e nessa ordem inscrevem algo especialmente vibrante e desafiador a somar a este cocktail a movimentação endiabrada do guitarrista (palco 2); Dead Club são um caso estranho de demência synth que tem contornos repetitivos ou desconstrutivistas numa cadência marcial e por isso épica e a incluir nesta equação a ambiguidade sexual do ou da vocalista e realço este binómio porque por vezes era um outras uma especialmente a cantar e a sua performance é de um confronto contra as ordens morais instituídas pela religião católica (desconcertante de tão soberbo; a seguir com atenção) (palco2). Subway Riders— depois de dois excelentes concertos a fasquia encontrava-se altíssima— mas as provas superam os precedentes pois as canções de diversas índoles seja no pastiche ou no kitsch são apresentadas com uma profundidade emocional eloquente da ordem do divino (palco 2); (esta noite teve como dj Da Chic que se passeou virtuosamente pelo funk e ou pelo disco sound), (palco 2); Manda Blitz uma dupla que usa fundos sonoros pré-gravados sobre os quais sobressaem em diversas cores umas tórridas ou vibrantes que têm como raiz o jazz o senão prende-se quando se libertam das programações e o duo perde a sua eloquência algébrica (palco 1); Ruby Ann & Marc Valentine rodam cds de rockabilly e rock and roll (palco 1); Buster Keaton são um trio de rapazes compenetrados a musicar curtas-metragens do Buster Keaton que na altura era rival Charles Chaplin e a incidência é dividida em dois vectores nos planos curtos (o que pormenoriza o desempenho dos actores) a métrica musical corresponde a esses planos incisivos (com inúmeros pormenores sonoros) quando a sequência é rápida a música é de uma rudeza alarmante o resultado é um delírio para quem gosta de estar concentrado (palco 2); Drunks on the Moon são um casal que tem uma gravidez de contornos melodiosamente densos que evoca o rock de cariz americana ou a pop associada ao cancioneiro francês mas não existe qualquer clivagem entre estes dois universos antes um savoir faire magnifique (palco 2); Birds Are Indie salientam uma rugosidade rock que oblitera a natureza das suas canções pop de recorte britânico mas tal não é negativo antes pelo contrário porque esta revelação ou transposição é tão segura e assertiva que o nervo nunca se quebra antes ganha dimensão de músculo exorbitado mas sempre controlado de forma sublime algo que se repercute no público que reage em diversas moches (impagável), (palco 2); Daltonic Trio Jazz de contornos clássicos a que não é alheio o Miles Davies óptimo para iniciar a tarde junto à praia (palco 1); Palmers delineiam uma sequência de rock indie sem muitos preconceitos ou outros atritos que os possam bloquear se por vezes ou diversamente se são fantásticos isso deve-se à aspereza dos acordes e à sua cadência que é de uma raiva estonteante (palco 2); Wipeout Beat são três máquinas de teclados analógicos processados por humanos e um dos quais por vezes empunha a guitarra eléctrica numa configuração rock que associado à densidade dos teclados remetem para o kraut mas ainda mais marginal do que este género musical pois se sublima para além de qualquer podium e este é reflexo na dança dos surfistas e melómanos (palco 2); PSICOTRONICS encontram no Marquis Cha Cha o centro da sua essência que vestido de Diabo transexual canta e dança mas num registo performativo que é de uma eloquência kitsch e as canções punk synth são decorações de um palácio em que os ocupas dançam dia e noite sem que se apercebam em que tempo se encontram organicamente presos e que ao invadirem o palco o partem (palco 2); Junior Makenzie é um homem de cabelo comprido e barba de vários anos devidamente estilizada e as canções à guitarra acústica e voz grave têm uma latitude norte americana mas de tal forma tipificada que é alarmante a falta de originalidade porém estas tornam-se obsoletas perante a eloquência entre as mesmas pelo músico de Benicassim: “esta música foi gravada com o Paolo Nutini produtor do Michael Jackson eu acredito que o Michael Jackson foi assassinado”; “estava no meio do deserto mas não sabia onde e escrevi esta canção”; “e estava de ressaca e escrevi esta canção”, perante estas provas advogo que siga a carreira de comediante “Makenzie Zoo” (palco 1); Jesse Erikson and the Vessel Virgins (somente foi possível presenciar uma música) e a sua toada lenta remete para o rockabilly mas tal é somente desenhado (palco 2); Niki Moss é um rapaz de boné vermelho mas que se encontra rodeado por outros músicos que se exprimem num indie rock que tem inúmeras fragilidades nomeadamente na estrutura das suas canções algo que se agudiza quando fazem um medley de três canções (palco 2); Aiur Coue têm dois centros o que remete para o onírico outro para o denso e quando se unem numa canção são vertiginosamente belos tal é impossibilidade de os categorizar talvez soturnos e profundos (palco 2); Lonz Dale`s Fantasy a dupla synth rock e house e por vezes tecno rap e outras misturas tóxicas que provocam um vómito corrosivo que se equipara a um reflexo virtualmente da ordem do homem animal de palco que é o de um performer que se traveste nessa irracionalidade que provoca tanto a atracção quanto a repugnância (palco 2); Red Bean Rice são uns adolescentes que ainda se encontram num processo de crescimento criativo que desconhecem o cânone da pop (palco 1); Rapaz Improvisado é um rapaz que raras vezes improvisa talvez essa designação não lhe seja favorável e está acompanhado por um contrabaixista e as canções são de uma delicadeza desarmante evocando diversos estados de espírito num percurso em que se confia no narrador com prazer (palco 1).

Gliding Barnacles, 28; 29; 30 e 31 de Agosto; 1 de Setembro, Praia do Cabedelo, Figueira da Foz.

Dedicado ao Mestre Cruzeiro Seixas.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Siddhartha

O festival Gliding Barnacles para além de inúmeras actividades recreativas tem como centro a pratica do long board que decorre no Cabedelo e a garagem Auto Peninsular situada no Bairro Novo é escolhida para uma colectiva de artes plásticas e provas de vinhos e gastronomia e o palco é ocupado pelos Slushy um quarteto composto pelos mesmos músicos dos No Bunny que encerrarão a noite e esta surpresa (já que não se encontravam no programa previamente divulgado) é uma oferta de rock de características retro que remonta a Nova Iorque da década de setenta e se é delineado com precisão falta-lhe a eloquência necessária para se destacar de bandas similares e expressar traços de alguma vitalidade; os Vaiaparaia E As Rainhas do Baile têm como princípio quase invariavelmente acordes dos Nirvana que posteriormente sofrem diversas alterações rítmicas que resultam em algo entusiasmante porém isto deteriora-se por as soluções serem quase sempre as mesmas algo que é deveras entediante já a voz do cantor/performer tem uma amplitude apreciável mas paradoxalmente em diversas canções é impossível perceber o que canta em português; No Bunny vestem de coelho e há cenouras coladas aos tripés algo que confere aos americanos de Chicago (e não da Califórnia como foram apresentados) uma imagem de músicos que não têm a pretensão de verter canções que tenham um cunho austero ou melancólico antes estão dispostos à diversão seja através das letras absurdas ou das canções que se encontram muito próximas às dos Ramones que poderá ser catalogado de pastiche mas isto são meras considerações que devem ser esquecidas dada a fluência e violência técnica com que são implementadas jogando com um público que tem de implorar por mais uma canção ou suster o vocalista que se atira da coluna num último acto de demência; (praia do Cabedelo) The Rooms é um quinteto de Leiria liderado pelo André Castela e as suas canções são um compêndio de Rock and Roll que se divide em diversos centros seja o de L.A na década de sessenta ou o rock progressivo londrino e se por norma excedem os seis minutos (a última tem doze) deve-se à capacidade artística de conduzir o espectador a diversas paisagens sonoras seja o deserto ou a cidade e nessa medida cada um dos temas cumprem essa premissa cantados por uma voz potente que é catalisadora ao detonar um outro mundo ao qual é-nos proposto que lhe confie uma pátria imaginária; Cow Caos são um colectivo de rapazes com uma dançaria que grita ou diz algo sem sentido e a sua performance impregna-os de um kitsch desconcertante e musicalmente divagam por inúmeras paragens exóticas que são apresentadas numa perspectiva quase jazzistica de uma elegância abrasiva; (garagem Auto Peninsular) Kaliscut são um quinteto que têm no cantor um melómano dado o facto de ter ao pescoço um 45 rotações sobre a camisa branca que de cantor tem pouco ou quase nada sendo um ponto de ruído e o resto são rascunhos de estereótipos do reggea e do rock com mais de trinta e cinco anos; Time For Tea começam com uma pop contida num meio tempo elegante com a conivência de uma voz sedutora de tão melodiosa porém quando as complexificam ganham uma lógica que não as favorecem e as relegam para a banalidade; Fugly são sublimes ao injectarem no rock inúmeras variantes que são de tal forma aplicadas que é difícil perceber em que parte se encontram as canções e isto a um ritmo estonteante com origem no trash como se estivessem a executar um número no qual domina a surpresa e o espanto e o público está à altura deste desafio deixando-se deglutir pelos Fugly; Pinela é o convidado para Dj na praia do Cabedelo e este ex-Capitão Fantasma roda clássicos da música americana com preponderância para as décadas de cinquenta e sessenta; Drunks On The Moon são um dueto que apresenta um conjunto de canções que primam por uma elegância atroz atribuir-lhes a designação pop poderá ser erróneo porque as estruturam de forma diversificada e em que prima uma melancolia que a espaços ganha outras fronteiras e estas ramificam-se em diversas memórias sónicas sem que seja perceptível a sua origem e como tal são surpreendentes; (garagem Auto Peninsular) Marc Valentine apresenta as origens do rockabilly e fá-lo de uma forma assertiva sem a pretensão de lhes incutir outros géneros algo que para um purista seria delapidar um género que deu origem ao Rock and Roll; Ruby Ann tal como Marc Valentine tem como centro o rockabilly mas tem menos preconceitos que ele já que arrisca a pop e a sua actuação foi tão precisa e elegante quanto seria exigível a alguém que representa Portugal no espectáculo “Viva Las Vegas” em Las Vegas; (praia do Cabedelo) Maxime é um one man band que usa o loop como instrumento primordial mas a questão principal é a seguinte há lógica na inserção da voz ou da guitarra acústica e a resposta é que há mas o que prima é um desequilíbrio que as transforma numa divagação primária e ainda há a censurar os seus comentários (tradução livre do inglês): “não vou tirar os óculos escuros porque fico muito bonito e eu quero é que prestem atenção às canções” ou “esta canção é sobre nudez e eu vou-me despir para aquele homem bonito porque é especial” salva-se a versão “Sympathy For The Devil” dos Rolling Stones; os Ganso têm como eixo transatlântico Portugal e o Brasil do primeiro delineiam o ye-yé e do segundo as melodias quentes e kitschs ao que se deve somar um psicadelismo exótico e ainda acrescentam citações dos Beach Boys e dos Beatles isto estruturado segundo uma métrica em que se fundeia o português de uma voz roufenha (a seguir com muita atenção); (garagem Auto Peninsular) Bad Pig são um trio que tem um som excessivamente alto como se este fosse mais importante do que as canções punk/trash/hardcore que primam por uma unidimensionalidade que as aniquila e ainda há a censurar o comportamento do baterista que na plateia destrui o tripé e o prato de choque sobre o palco não creio que a destruição seja do que for seja política deste festival que advoga a inclusão social e a defesa do meio ambiente; Scúru Fitchadu a partir do funaná têm o talento de associa-lo a outros géneros como o hardcore e se aparentemente esta relação é paradoxal não há vestígios de tal antes criam um universo em que domina um abjecionismo sónico que é desconcertante; Bad Pelicans alimentam-se de duas bandas os Nirvana e os Smahing Pumpkins e esta mistura resulta às primeiras canções porque posteriormente o grunge domina e ainda há a surpresa negativa de uma versão dos Dzert é certo que são eficazes e mantêm uma relação intensa com o público muito por culpa das movimentações esquizofrénicas do guitarrista e estou certo que se por acidente o Kurt Cobain estivesse presente seria fã deste trio; (praia do Cabedelo) sobre os Nooj pouco ou nada há a reparar à sua linguagem pop/rock que executam e por vezes há umas que são mais pop e outras mais rock com letras em português que são meros slogans e deve-se esquecer a que versa sobre o sexo anal; Huggs um trio que versa uma melancolia em que a guitarra semi-distorcida predomina e surpreendem ao evocarem a solidão associada às grandes cidades que nem a internet é capaz de alterar e a voz é a de um narrador que vê uma realidade que o fere por reverter para uma rotina em que impera o vazio; (garagem Auto Peninsular) YGGL é o segundo one man band mas distante da inabilidade do Maxime já que a partir de um muro de guitarras distorcidas pré-gravadas insere uma outra em tempo real e erige um quadro sonoro de uma beleza atroz; Iguana Garcia encerra o capítulo dos one man band e o seu som tem por norma um ritmo festivo que poderia ser usado por um Dj em Ibiza que é prolongado para além do aceitável posteriormente insere uma alteração ora com a voz ou com a guitarra e regressa o ritmo e como tal qual será a nota a dar ao Iguana Garcia uma negativa; The Parkinsons têm a honra de encerrar a quinta edição do festival e fazem-no através de um punk visceral de tão primata mas não é somente de agressividade que se nutrem há a melodia que se estabelece como uma moldura que cumpre o papel de lhes impregnar uma memória e se é quase banal afirmar que são como uma speed bowl que abre brechas no presente cavando um outro tempo em que predomina uma demência que é correspondida por parte do público que segura uma prancha surfada por Alzheimer numa homenagem acidental a todos os que amam as ondas do Cabedelo.

Gliding Barnacles, 28, 29, 30, 31 de Agosto e 1, 2, de Setembro, Praia do Cabedelo e garagem Auto Peninsular, Figueira da Foz.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Eu Hei-de Amar uma Pedra

A minha mãe dá-me a mão e descemos a estrada que dá acesso à praia da Zambujeira do Mar, o meu irmão ficou com o meu pai no Rita enquanto esperava que acaba-se o segundo café da manhã, na curva cruzamo-nos com uma senhora alta e imponente que empurra um carrinho de bebé cor-de-rosa, e pede-lhe para espreitar para o interior e quando se inclina vê uma bebé rechonchuda de olhos bem fechados a sonhar com o futuro que sorri, “que bonita es su hija”; a minha mãe adora recém-nascidos e crianças aos quais descobre motivos para se deslumbrar continuamente, e é por esta razão que eu nunca desejei crescer apesar dos meus doze anos fazerem de mim um “homem” aos olhos orgulhosos do meu pai, que me incentivava a esquecer a infância e a ambicionar a idade adulta mas infelizmente ficarei retido na adolescência; “como se llama?”, encontrava-se em Portugal há quatro anos e ainda não dominava o português e pede-me ajuda, “como é o seu nome?”; na praia pontuavam guarda-sóis como azulejos num padrão heterogéneo e o sol cavava na areia uma brilhantina prateada onde cintilavam conchas e migalhas de restos das lágrimas do atlântico, e a maré destapava o que pareciam ser bustos de africanos contornados por um punhado de peões; sentado num sofá preto inscrevo num caderno as ondas sonoras de uma guitarra eléctrica tocada por um americano baptizado de Hudson Ritchie, que tem a honra de estrear o palco diurno do Festival Gliding Barnacles instalado à frente da praia do Cabedelo, e o seu som é monótono e desprovido de chama que seja capaz de alguma estilização; o segundo é um jovem que não nasceu O Gajo é Parvo que manipula uma guitarra eléctrica acompanhada de loops e o resultado é de um anacronismo exasperante; quanto à dupla Urso Bardo divididos entre bateria e a guitarra eléctrica misturam o rock e o psicadelismo e quando este tem um maior pendor as canções ganham dimensão sónica; o segundo palco está instalado na garagem Auto-Peninsular no Bairro Novo da Figueira da Foz, o horário é noctívago e o indutor sonoro é da responsabilidade dos Drunks on The Moon que apresentam canções de teor delicado e soturno, a luz advém da voz da Manon Capelline que serena qualquer alma perturbada, a viagem entre o universo rural americano e o vaudeville parisiense é dolorosamente bela; os Subway Riders inscrevem um conjunto de canções que ora são versões de clássicos ou originais que sofrem com uma decomposição implementada de forma visceral que conduz a amar o absurdo como se fosse o centro da consciência humana; a minha mãe ouviu a resposta e instantaneamente reage, “que hermoso nombre!”; e delira por a bebé perfazer hoje um mês de nascida, “feliz cumple años baby!”, e obriga-me a espreitar para o interior do carrinho e a sombra enquadrava-a numa beleza de anjo puti a soprar um sopro como se estivesse a devolver a fantasia à realidade ou como se fosse Isolda e Julieta siamesas, “maravilloso mama”, e é feliz por ter visto um milagre que somente ela e eu testemunhara-mos e continuamos o nosso percurso até à praia, onde atravessamos um caudal de água doce que julgava suja e obriga-me a lavar as sandálias e os pés ao mar; e besunta-me de Nívea apesar dos meus protestos, “Jimmy el sol puede matarte!”, contra este argumento restava-me ficar calado mas tenho vontade de rebolar-me na areia como um caniche com sarna mas encontrava-se a escaldar e ficaria salpicado de varicela; no palco da praia do Cabedelo está Calcuta que tem uma voz poeticamente envolvente e a sua guitarra eléctrica é de uma flutuação assertiva que evoca um bucolismo pop que não se espelha neste dia ventoso que o sol teima preguiçosamente em aquecer, quando deriva para um esoterismo bíblico quase resvala no ridículo; Red Italian Hunter executam as canções num contínuo e perpassam diversos géneros musicais: rock, rock psicadélico, jazz, reggae, new wave, surf rock, as que sobressaem devido ao seu pendor sónico são as rock; quanto aos Daltonic Zebra dividem-se entre o decalque ao grunge e à soul/blues e são estas canções que devem ser ouvidas com atenção porque demonstram laivos de originalidade; no palco da garagem da Auto-Peninsular estão os Ditch Days que são um conjunto indie-pop mas que são naturalmente descartáveis porque se resumem a clichés; a dupla Ghost Hunt confisca uma sonoridade synth rock e ou kraut rock e a relação entre o baixo eléctrico do Pedro Chau e dos sintetizadores e da mesa de mistura do Pedro Oliveira erigem uma estrutura que subliminarmente se impõe em ângulos tão diversos quanto complexos, as novas canções não têm como objectivo a dança mas antes a dos neurónios intoxicados com tal procedimento épico; no palco instalado no Jardim Municipal, que em tempos patinhos feios mergulhavam num charco enquanto as crianças desciam do escorrega, os Cosmonauts têm uma secção rítmica tão poderosa quanto a dos Stone Roses e este groove permite a que as guitarras sejam de um psicadelismo estonteante e quando a dupla de guitarristas dividem as vozes instituem um romantismo de adolescente dominado pela libido, alucinante; o meu pai está deitado de barriga para baixo com o EXPRESSO dobrado numa mão a ler a crónica do MEC e a rir a espaços como se encontra-se na perspectiva irónica do jornalista sobre os portugueses a sua, pergunto-lhe se quer ir até a outra ponta da praia onde os rochedos formam uma piscina natural, mas não tira os olhos do jornal e resta-me acompanhar o meu irmão a lavar os pés numa poça de água para o proteger da corrente ténue, e não foge à creme da minha mãe que nos acarinha preferencialmente quando nos sente vulneráveis num espaço que estávamos a iniciar a descobrir; no palco na praia do Cabedelo, El Bastard realizam demoradamente o sound check; e as suas canções derivam do hard rock ao qual não conseguem injectar insulina para lhes dar outra perspectiva que ainda não tenha sido derramada para um vinil com mais de três décadas de edição; YGGL somente com uma guitarra eléctrica e uma caixa de ritmos institui um percurso que passa pelo rock, psico-billy, kraut rock, pós-rock, rock industrial, efectivamente perturbante; e os Moon Preachers oferecem um compêndio que tem como princípio o psicadelismo que segregam através do rock de forma tão equilibrada quanto subtil; na garagem da Auto-Peninsular os 800 Gondomar libertam-se da raiva da adolescência com canções rápidas e distorcidas que são de um pragmatismo canibal (pena que o público não tenha correspondido a este chamamento); seguem-se The Twist Connection que canção após canção estabelecem uma lógica de rock and roll tão sólida quanto vibrante e urgente e o público responde ao Carlos Mendes instituindo a anarquia; no palco do jardim onde se passeavam na Primavera reformados cabisbaixos que procuravam o dominó, estão os TT Syndicate e a sua estrutura musical é assumidamente o blues que ganha outros parasitas que o revigoram, porém há um academismo que os coloca num passado que não conseguem revitalizar; e passeamos por entre os africanos talhados a cinzel e a escopro pela força das marés e suponho que seja triste serem encavalitados por gaivotas que lhes cagam nos ombros caspa, procuramos em desfiladeiros caranguejos que lentamente se deslocavam para trás num suave movimento de quem vislumbrou dois dinossauros que os queriam devorar enquanto palitavam os dentes; e sentamo-nos numa sombra mortiça que gradativamente se emagrece numa lenta contracção perante os raios de sol oblíquos que nos aquecem as cabeleiras, passam senhoras que mencionam o “Platini” numa língua estranha que lhes oferecem um mistério que me instiga a olhar para os seus seios nus como se fosse a primeira vez, e um pescador trepa um preto e fica sentado a inspirar a maresia que exala uma pureza de pérolas luzidias num sentido olhar das marés sobre o céu, em que os peixes descobrem uma força que os conduz aleatoriamente por entre limos e algas que se emaranham como se fossem cabelos da terra a tingir-se com as cores amargas da velhice, o anzol com chumbo e a minhoca esperam desvia-los da corrente para gáudio dos seus amigos e familiares num repasto para celebrarem a pescaria demolhada em vinho carrascão; no palco da praia do Cabedelo estão os Wipeout Beat que têm como base sonora teclados que implementam melodias lo-fi mas de um romantismo ao qual está inerente um kitsch decadente, as novas canções poderão ser avaliadas segundo o parâmetro da excelência; o Rapaz Improvisado com a sua guitarra eléctrica introduz um universo predominantemente western com variações que por vezes são citações de clássicos de filmes de Hollywood; e os surfistas do Gliding Barnacles com os fatos de gala escolhem-no para realizar uma parada em que se colocam lado a lado com as long boards empinadas de costas para o horizonte como se fossem descendentes do louco do Neptuno; El Senor discorre pelo surf-pop-rock e neste triângulo amoroso delimita fronteiras que as impregnam de um equilíbrio pronunciável; Tigre y Diamante é uma dupla dividida pela voz/guitarra eléctrica e bateria, se inicialmente usam o castelhano sobre amores frustrados e que por vezes são pirosas, quando o substituem pelo inglês e o agrupam ao rock transformam-se numa força de cariz indominável ao qual se associa o desejo pelo risco através de pontuais e soberbos improvisos; quando o lusco-fusco cobre o mar de cinzento atiram as peças da bateria para a praia onde se amaram dois estranhos em Junho, memorável; no palco da garagem Auto-Peninsular os Miami Flu não conseguem estabelecer um fio estético homogéneo com a agravante de as referências serem a fonte primordial das suas composições, salva-se a versão dos Deep Purple; quanto aos Thee Eviltones são uma constante deflagração de géneros que têm como centros, o punk, o rock garage e o rock and roll, isto com uma violência atroz que é inegavelmente vital, há a realçar a performance do Rambllin Erikk que desafia o público a reagir violentamente às suas ordens/investidas, épico; no palco do jardim onde os pombos se encontravam para copularem atrás de arbustos de papelão, está quase a surgir o Legendary Tigerman; e o concerto tem uma primeira parte em que predomina o rock/blues e confisca a consciência dos presentes, e uma segunda onde domina o rock que liberta o corpo dos fãs; e quando a multidão está hipnotizada Legendary Tigerman atira-se para os seus braços que o transportam para o palco sem um único arranhão, assim perde-se o sentido do risco a que está inerente um concerto de rock and roll e apresenta-se um espectáculo devidamente encenado para as massas; regressamos para junto dos nossos pais e o meu progenitor surpreendentemente toma a iniciativa de seguirmos “numa corrida” até ao tanque de rochas; onde entramos lentamente ofegantes um a um através de uma racha que nos refresca com uma brisa ténue e por entre os seixos que caíram do tecto entro na água que me encobre gradualmente até ao peito e mergulho e volto a mergulhar a experienciar a liberdade que somente a natureza é capaz de ofertar, e deixo-me em suspenso no fundo com os braços a prenderem as pernas como no ventre da minha mãe na esperança secreta de jamais ser expulso por mau comportamento, sinto o que cheira e o que come alimenta-me e se ri eu rio e se dorme e acorda a chorar eu choro copiosamente como se estivesse a ser abandonado pela sua doçura ancestral, oiço um eco longinquamente a gritar: “Jimmy! Jimmy!”, mas pouco me importa e a mão de um guindaste puxa-me abruptamente para fora do teu útero, “estás louco! Que é que te passa pela cabeça?”, e expiro e não percebo a agressividade do meu pai; e na nossa praia sob o guarda-sol a minha mãe olha para mim a censurar-me pelo acto que julga tresloucado para uma criança, que guarda para si o que me tem para dizer e assim não acicatava a vontade do meu pai em pespegar-me uma palmada, e dou-lhe um beijo para lhe pedir desculpa e leva-la a crer que me irei corrigir e que jamais terei a tentação de me imiscuir novamente no seu útero com o aroma do mediterrâneo de onde nasci; sentado num sofá preto observo no palco da praia do Cabedelo o surfista Beau Young que com a guitarra acústica canta alguns clássicos e nos intervalos fala como se estivesse em sua casa num lugar remoto da Austrália, muito relaxante e dou a mão à Sagres que me beija com hálito à THZ…; antes do meio-dia somos obrigados a abandonar a praia por causa “del cáncer” e eu dou-lhe a minha mão e o meu irmão dá-a ao nosso pai e seguimos para o “chiringuito”, isto é, um café que distava uns míseros oitenta passos e na esplanada estava sentado o António Tavares-Teles (que foi quem nos convidou a conhecer a Zambujeira do Mar), e tem a seus pés um galgo branco afegão deitado numa posse imperiosa a dominar o espaço à sua volta, o nome do cão é-me impronunciável já que me dividido diariamente entre o português e o castelhano, algo que irrita o jornalista desportivo: “Afegasthan!”, e não esconde que está em vias de exaltar-se mas contém-se depois de beber um trago do seu “fino”, estava nervoso porque logo o Futebol Clube do Porto entra em campo para defrontar uma equipa da segunda divisão nacional para o primeiro jogo de preparação da época 1984-1985, “já liguei ao Jorge Nuno Pinto da Costa a desejar boa sorte!”, e o salitre que ainda se encontrava nas minhas narinas causa-me uma comichão desmedida e não consigo conter um espirro violento que assusta o animal que atira duas cadeiras e uma mesa para o chão e saltita pela praia como um espanador de bailarina por entre as toalhas dos banhistas em direcção ao mar.

Gliding Barnacles, 30 e 31 de Agosto; 1, 2 e 3 de Setembro, Praia Mário Silva (Cabedelo), Garagem Auto-Peninsular; Jardim Municipal--Figueira da Foz

Dedicado ao António Tavares-Teles; e em memória da Sílvia Freitas

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...