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domingo, 21 de dezembro de 2025

O Nu

Noite de chuva e frio traz no seu regaço o espetáculo ao Cineteatro Messias de Rui Reininho (harmónica; voz; sinos), e seus pares dos quais se destaca um ex-GNR Alexandre Soares (harmónica/ guitarra elétrica) e Rui Maia nos teclados e na bateria Gil Costa. Nada faria prever que este concerto fosse a antítese dos que têm promovido o “20.000 Éguas Submarinas” a segunda relíquia a solo do cantor e performer do Porto; isto,  porque desde o início que se destacou de canção para canção uma harmonia perturbante alicerçada em códigos sejam rítmicos e ou modulares, mas que dada a complexidade dos acordes do Alexandre Soares, este revira o blues  e ou o noise, como sendo uma segunda alma que se instala e envenena tudo ao seu redor; enquanto o Rui Reininho deambula alegremente canção após canção-- chegaram a sair pessoas e o teatro já meio vazio ainda mais vazio ficava-- como se a música tivesse o poder de afoguentar os que esperavam um alinhamento à GNR destes tocaram “Piloto Automático” e “Sete Naves” naturalmente irreconhecíveis mais uma vez o que se destacam são as cores negras, durante a primeira ainda houve quem fizesse de corista “vodka, vodka”. Numa altura do ano em que as publicações fazem contas aos melhores do ano ao vivo poder-se-á colocar este concerto no top dos primeiros, mas não primeiro por ser primeiro, antes porque foi épico, e este facto não é somenos é antes de mais histórico que dois GNRs ainda tenham a virtude de revelar algo que se encontrava de alguma forma encoberto aos nossos ouvidos. Parabéns.

Rui Reininho, 20 de Dezembro, 20.000 Éguas Submarinas, Cineteatro Messias, Mealhada.    

P.S- Em memória do meu falecido pai.

sábado, 28 de outubro de 2023

O Dever De Deslumbrar

Esta noite no Salão Brazil reúne duas bandas de proveniências distintas, os cabeças de cartaz são da Polónia e denominam-se de Holy Fanda & Friends e os SO DEADE de Coimbra. As bandas não poderiam ser mais opostas na sonoridade pois os SO DEAD são assertivos no post punk mas um post punk em que a agressividade é algo endógena, isto é com a inserção dos acordes do teclado do Miguel Padilha instituem um psicadelismo que não permite a deambulação da imaginação antes uma fixação nos objectos e coisas que nos rodeiam, talvez a agressividade advenha das vocalizações da Sofia Leonor que ecoam numa urgência desmedida dada a sua frontalidade.  

Os segundos deambularam pelo country entre “Jonny Cash e Hank Williams” como referiu o Holy Fanda, isto recorrendo obviamente a instrumentos musicais como o banjo o bandolim, tendo um timbre acústico permite ao ouvinte visitar imaginativamente Nashvile, sendo que as canções foram tocadas com uma perfeição irrepreensível com direito a solos e a improvisos, tudo muito bem estruturado. Na última canção subiram ao palco os “friends” de Coimbra como o Miguel Padilha e o Pedro Antunes dos Wipeout Beat e o Mike dos 5 Punkada, que transmitiram ainda mais risco através do improviso que colectivamente estavam a debitar. 

Holy Fanda and Friends + SO DEAD, 27 de Outubro, Salão Brazil, Coimbra.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Flor de Fumo

 

Realizou-se no passado dia 12 de Setembro o concerto da dupla Ana Deus (voz) e Marta Abreu (samples) no Auditório Madalena Biscaia Perdigão, na Figueira da Foz. O dueto surgiu aquando da exposição “Mulheres que fazem Barulho” na Universidade do Porto onde foram apresentados objectos de diversas figuras da rock e da pop no feminino.

O concerto apresentou diversas perspectivas a primeira a heterogeneidade dos poemas escritos por diversas mulheres como: Natália Correia, Nadia Anjuman, Maria Teresa Horta, Judith Teixeira, Lara Lemos, Adelaide Monteiro, Marquesa de Alorna, Virgínia Vitorino. Todas elas, excepto a última viveram em situações de repressão imposta pelo homem, seja como exemplo a Natália Correia censurada pelo antigo regime assim como a Maria Teresa Horta. Nadia Anjuman fora o poema mais doloroso de se ouvir porque a autora morreu por causa dos mesmos, isto inserido numa sociedade afegã, avessa a qualquer liberdade intelectual por parte da mulher. De sublinhar que o canto de Ana Deus foi irrepreensível, para além das introduções aos poemas que de forma sintética explicava a origem da poetisa e do seu poema. Do outro lado a samplagem da Marta Abreu que se dividia em dicotomias, isto é por vezes limitava-se a ilustrar o poema outras entrava em diálogo com Ana Deus, assumindo uma segunda voz que ora construía ora desconstruía. Excelente quer na parte lúdica quer na parte didática, desta forma realçam que o papel da mulher não é o doméstico, mas que há talento e imaginação para contrariar algo que decorre à séculos.

Ana Deus & Marta Abreu, "Eu Fui Silêncio", 12 de Setembro, Auditório Madalena Biscaia Perdigão, Figueira da Foz.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Goth

O Festival EXTRAMURALHAS decorre na cidade de Leiria e o seu cartaz é consignado na totalidade ao gótico e aos subgéneros a ele associados. Os cabeças de cartaz desta noite são os suíços Young Gods que segundo a organização foram precisos “trinta e três anos” para que fosse possível trazê-los à Leiria.

A adjetivação que poderá descrever este concerto é violento e introspetivo, esta relação parece estranha porque o que dominou foi a violência sonora detonada pelos samples que funcionam como uma base plástica que expressa diversos sentimentos perturbantes. A somar aos samples está a guitarra elétrica, a sobressair da massa eletrónica espessa, quase como se fosse lama, a voz segura de si, fosse principalmente nos graves numa segurança que é contagiante mas em simultâneo repelente, um elemento que percorre diversas incidências, na sua maioria trágicas. Orgânico, se tal se pode chamar—à bateria que resplandecia e dava relevo à maquinaria de onde são debitados os samples, que são a base de cada canção. Não há lugar para nada de lúdico ou de belo o que se ouve são canções tão clássicas quanto “Skinflowers” ou “Gasoline Man”, que perturbam por si só, pois são inscritas numa asfixia delirante, dada a complexidade rítmica e melodicamente arrepiantes. Não se conte com os Young Gods para tramas de contos com final feliz, na verdade o que instituíram durante cerca de uma hora de concerto foi uma sonoridade industrial sendo que o gótico decorreria dos samples que de agrestes e violentos provocavam aos mais incautos uma asfixia que poderia ser letal e por isso o concerto foi épico. 

The Young Gods, 24 de Agosto, Jardim Luís de Camões, Leiria.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

As Palavras Interditas

Na tarde de quarta-feira inicia-se o festival Luna Fest, esta primeira edição decorre até Domingo, altura em que os responsáveis do encerramento serão os Gang of Four. A começar a tarde de hoje são os THE DSM IV que têm uma base electrónica muito bem estruturada e que ganha uma dimensão épica quando deambulam e se imiscuem noutras voragens mais abstratas com a cumplicidade do vocalista com uma voz interventiva e uma movimentação dinâmica que fazem deles a grande surpresa do festival. The Speedways um quarteto clássico guitarra-voz, guitarra-solo, baixo e bateria, e são tão clássicos que a estrutura das canções é básica, sem nada a acrescentar a este género de pop/rock tipicamente inglês. Robert Grol and DAF, o primeiro encontra-se acompanhado por uma mulher que se responsabiliza pelo computador de onde são debitadas as canções industriais que são por norma minimais (é a chamada Cold Wave), na essência muito bem delineada, com a voz de Robert Grol grave num contraponto à sedução industrial.  The Undertones sofrem do mesmo mal dos The Speedways com a agravante de serem consideravelmente mais velhos e ocuparem o intervalo das canções para dizerem piadas. John Cale and Band, o mítico John Cale apresenta-se com um baixista angular e com um guitarrista de construtivista e um baterista tão sóbrio quanto assertivo, Cale remete-se ao teclado onde tocou temas do seu novo álbum “Mercy” assim como para “Waiting for The Man”, pode-se caracterizar de equilibrado e de sóbrio, interessante quando tocou guitarra eléctrica e se instalava a jam e as canções ganhavam uma outra dimensão nem pop nem rock, algo intermédio.

Segundo dia

A abertura do palco cabe aos valencianos Finale que são como que um murro que esmurraça continuamente o nosso cérebro com disparos punks, complementada por uma voz aguda rápida, o som destes quatro rapazes poderia estar a demolir muros com a sua sonoridade. Oh Gunquit é um conjunto esquisito porque é complicado afiançar que género é que tocam talvez um western spagueti? Talvez. A figura que se destaca é uma loura vestida como as meninas do Moulin Rouge que toca trompete e simultaneamente rodopia um arco nas ancas; quando a guitarra se esfuma por questões técnicas ela convida os presentes a telefonarem para casa através, é o chamado absurdo inglês. Hickoids são uma banda texana e o que toca é um country-hard-rock e pouco mais há acrescentar, talvez que são competentes mas não deixam de ser entediantes. La Elite são um duo espanhol um dedica-se a inserir as melodias e os beats o outro a discorrer sobre a sua realidade social, isto tudo com muita adrenalina. Black Lips são assertivos quando se limitam ao rock, mas perdem esse poder quando o misturam com outros géneros musicais. Buzzcoks apresentam um power pop reminiscente da década de setenta do século passado, cantaram hinos e fizeram levantar muita poeira.

Terceiro dia

The Phobics não têm nada a acrescentar a outras bandas punk inglesas, é curioso que  quando desaceleravam é que ganhavam mais interesse estilístico. The Star Spangles são uma mistura de pop-punk, quando tocam as canções com duas guitarras ficam menos entediantes. The Fleshtones datam de 1976 e estão excitados ao ponto de declararem inúmeras vezes que eram os “Fleshtones”, não se destacam da pop clássica assinada em Inglaterra. Fora do cartaz surge Victor Torpedo and The Pop Kids que delineiam canções de alto teor pop que são viciantes; estes são substituídos pelos The Parkinsons (em substituição dos The Damned) e não poderiam estar tão electrizantes e até disponíveis a instalar a loucura no público seja através da guitarra eléctrica do Victor Torpedo ou as investidas sobre o público do Afonso Pinto. La Femme conjunto de homens e mulheres com os seus teclados vestidos de forma elegante que debitam um trip-hop de linhas elegantes e bem delineadas.

Quarto Dia

Os 5ª Punkada, banda pop/rock da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), tocaram na essência blues de forma tão assertiva quanto elegante. Eel Men tocam um pop/rock tipicamente inglês mas são encantadores da forma como executam as canções. Onde Robert Grol é frio e distante Martin Dupont é quente e lúdico. Os escoceses The Rezzilios praticam um rock and roll básico, repleto de clichés. Dissidenten praticam um som tipicamente indiano ou próximo dessa região, quando anulam a parte acústica as canções ganham uma densidade estética aprazível. A Certain Ratio apresentam o seu último álbum “1982”, e é estruturado em épicas linhas de baixo associado a uma bateria segura e inteligente, ganham grandiloquência quando instituem o psicadelismo.

Quinto dia

Bruno And The Outrageous Methods Of Presentation pratica um rock and roll indie, as canções não têm mais de dois minutos, no intervalo das mesmas há a ironia do Bruno, que veste à Elvis Presley e canta desalmadamente. Ruts DC são punks da velha guarda devem tocar as mesmas notas musicais desde 1977, tiveram em palco na voz para duas canções o Captain Sensible (dos Damned, que estiveram anunciados para o festival mas tiveram que cancelar por motivos de saúde do seu vocalista). Yummy Fur produzem um rock indie sem grandes soluções de canção para canção; assim como os The Only Ones com a diferença de tocarem pop indie. Gang of Four são militantes contra o capitalismo com diversos slogans a serem projectados para o palco como por exemplo “Make Proverty History”, em termos músicas são uma bomba de new wave, com excelentes músicos a debitar as canções repletas de frases políticas, contra um sistema político e social que consideram obsoleto. A determinada altura do concerto, trazem ao vocalista um taco de basebol e um micro-ondas que é literalmente e simbolicamente destruído, a imagem é óbvia: marchar contra o capitalismo.

Luna Fest, 16-20 de Agosto, Praça da Canção, Coimbra.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Hamletmachine

O Auditório Municipal da Figueira da Foz recebeu dois históricos do rock and roll bracarense, António Rafael e Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta que apresentam “cancioneiro” enquadrado nas Terças de Leitura.

A primeira parte do cancioneiro correspondeu a uma conversa interessante sobre os diferentes poetas e géneros poéticos que influenciaram o então jovem Adolfo Luxúria Canibal, desde a beat geneation passando pelos poemas/textos de Heiner Müller. A trama poética dos Mão Morta passa por géneros marginalizados e por autores malditos, destas fontes criaram um universo particularmente sujo em que as palavras/versos são meros pontos de referência incisivos e acutilantes associados por um escuro proposto pelas guitarras e pelo baixo possante.

Os Mão Morta seriam mais uma banda esquecida que passou pelo Rock Rendez-Vous pelas suas características niilistas e comportamentos auto-destrutivos, num país como Portugal onde quem entra pela marginalidade adentro via às artes ficará eternamente esquecido, e ou, recluso dos seus interesses e dos seus contactos com uma sub-cultura tão exígua, que contam-se pelos dedos os que se assumiram cabeças de série do seu malogrado destino. Luiz Pacheco será o caso ou o exemplo socialmente mais conhecido, o do João César Monteiro ou do Mário Cesariny, mas estes três exemplos lograram cumprir-se mesmo num meio adverso que continuamente os rejeitou. Assim como os Mão Morta volvidos quatro décadas gravam discos e dão concertos, algo improvável, não vos parece? E a postura do Adolfo Luxúria Canibal poder-se-á descrever de alguém desprendido da sociedade que conversa sobre livros como se estivesse a falar com uns velhos amigos.  

A segunda parte deste cancioneiro é iniciado pelo António Rafael ao piano, e a primeira composição é simples, algo que por vezes a relega para o simplismo da repetição do mesmo fraseado musical, numa variação um tanto ou quanto monótona; a segunda eleva a fasquia já que há diversos centros que posteriormente são misturados com outras frases melódicas bem mais intensas. A terceira parte conta com o Adolfo Luxúria Canibal na voz a acompanhar o piano do António Rafael, e os temas foram: “Entre 2x2 e B-A ba”, “Ontem Comecei”, “Floresta em Sonho”, que se encontram plasmadas no álbum conceptual “Müller no Hotel Hessischer Hof”, e que foram interpretadas, se tal fosse possível, por uma voz simultaneamente quente ou fria. “É um Jogo” do álbum “Há Muito Se Tornou Irrespirável Nesta Latrina”, numa toada quase seca que pretende o inumano onde há laivos de esperança que a humanidade seja mais justa, mas tal não passa de algo utópico, pois há que jogar nem que seja por razões do foro agregado à mortalidade. “Aum” do Lp “Mão Morta” é uma narrativa que segue um percurso tétrico, tudo é-o, ou mesmo a perseguição de um criminoso ou a sua caminhada de um suicida, que tem o tempo contado pois este “não espera por mim”. Quanto à última desconheço o nome e poder-se-á inscrever numa narrativa que vive na “penumbra” e “no espelho” e numa máquina de escrever, que decorre numa vivenda que para os Mão Morta poderia ser uma casa de fantasmas ou uma casa mortuária, há beleza no teclado que lhe incute esperança.  

 

António Rafael & Adolfo Luxúria Canibal, Cancioneiro, 28 de Março, Auditório Madalena Perdigão, Figueira da Foz.

domingo, 26 de março de 2023

Eco e Narciso, leituras de um mito

 

Se fosse uma noite de inverno daquelas noites que os poetas de espírito tão nobre quanto negro fazem uso para delinear os seus poemas românticos, muitos dos quais fora de moda, alguns até representativos de outras eras que não esta em que vivemos. Caso se confirmasse que há tempestade como da a última vez que BALLA passou pelo Salão Brazil e teve direito a uma plateia exígua, justiçava-se o grupo de desconhecidos e amigos que deixam muito espaço vago na sala de concertos mais popular da cidade de Coimbra. E quais ou qual poderá ser a justificação? Para mais o músico lançou “Cãs” talvez referente ao facto de que ultrapassou os cinquenta anos e os trinta de carreira durante a qual se foi desmultiplicando em outras personagens que correspondiam a outras sonoridades. Mas BALLA resistiu às mudanças talvez porque augura de certa forma algo que move muitos artistas pops: a canção perfeita a que se repete na rádio sem cansar o ouvinte e por outro lado o faz querer voltar a ouvi-la, talvez seja isto ou o facto da música pop movimentar multidões que histéricas descobrem nelas episódios que marcaram a sua vida e lhe deram um reconhecido valor. Dos compositores de música electrónica talvez Iánnis Xenákis seja preponderante na obra de Armando Teixeira (BALLA), isto inserido na música pop oferece às canções um sinfonismo que foi ostensivamente utilizado por exemplo por Jean-Michel Jarre (um discípulo do Mestre grego/francês); e confere às do músico português uma inquietação desmedida como se fosse um despertar não só do corpo mas da sua consciência e dessa forma oferece ao ouvinte a possibilidade de elaborar um outro universo. Há a excelente “Natureza Humana” ou a “Lixo” ou a oportunidade de dançar ao som da ritmada “Sobressalto”; sem esquecer o clássico “Construi Ruínas” que revela a pop synth delicada e ostensivamente angustiante; já “Segredos” (o single de avanço de “Cãs”, o seu último Lp) é uma balada com direito a distorção da guitarra eléctrica e por fim a dupla de pérolas pop “O Fim Da Luta” e  “Outro Futuro”. Por estes exemplos foi triste de ver o Salão Brazil a receber um dos nossos génios da pop electronica vazio ou meio vazio despendendo da perspectiva.

BALLA, "Cãs", 25 de Março, Salão Brazil, Coimbra.


sábado, 29 de outubro de 2022

On The Road

Concerto marcado às dezanove horas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), mais concretamente no Teatro Paulo Quintela onde John Mercy (isto é, João Rui dos a jigsaw) and the Dead Beats apresentam “West of the American Night” inserido no colóquio “Kerouak 100” organizado pela Secção de Estudos Anglo-Americanos do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras que celebra os sessenta e cinco anos da publicação deste clássico americano.

É o Jazz que em 1957 dominava os bares bafientos de Nova Iorque, onde se ouvia Charlie Parker ou Miles Davis, que dá sinal de entrada para os músicos que acompanham John Mercy como por exemplo Victor Torpedo, Pedro Antunes, Raquel Ralha, Tracy Vandal e Miguel Cordeiro, e à leitura de excertos do clássico do Kerouak por parte de entre outros Manuel Portela (poeta e docente da FLUC) e das actrizes Margarida Sousa e Isabel Craveiro (da companhia de teatro “O Teatrão); e enquanto decorre o concerto irá dominar a projecção de imagens da América no que aparenta ser o suporte Super 8. O que ocupa os intervalos entre as canções são o jazz e a leitura da obra, ambas estão interligadas já que foi a partir do bebop, isto é, através da sua estrutura de cortes abruptos e criação de novas linhas melódicas ou rítmicas que traduzidas para literatura poderão ser comparáveis ao redireccionamento do raciocínio para assuntos similares e ou próximos ao que estava a narrar Jack Kerouak. Este assimilou o que se poderá denominar uma outra forma de narrativa, ou de estabelecimento de um novo estilo de contar uma história, de alguém que se encontra num quase permanente movimento perpétuo, trata-se assim de uma nova forma de ver o mundo e tudo o que nele cabe e que é passível de ser transcrito para o papel. 

“Holding On” é uma balada rural em que a voz de John Mercy alterna com a da Tracy Vandal e é de uma profundidade exasperante dada a perspectiva que lança sobre a América, o country será substituída pela americana, à qual se somarão outras canções com um recrudescer do ritmo e uma rudeza na forma como são apresentados os seus acordes aproximando-se do country rock. Isto é, apenas uma súmula do foi apresentado neste espectáculo que assinala o aniversário de uma das obras mais importantes do século XX que retrata gente como William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Neal Cassady (pertencentes à beat generation).

Apensar de a obra do Kerouak se assumir como uma obra onde o que reina é a mais profunda da liberdade estética, há que contrapor uma realidade de um país dividido entre brancos e pretos onde se viviam inúmeros tumultos sociais, e os polícias se vestiam de Ku Klux Klan para combater manifestações de paz organizadas por Malcolm X (que viria a ser vitima da sua inteligência e tenacidade) assim como do seu congénere Martin Luther King Jr.

Esta América dividida é um traço geral na obra que procura realçar os diversos episódios que foi escrevendo Kerouak descrevendo-a através de uma ruralidade exasperante mas predominantemente é nas metrópoles é que se encontra o olhar de alguém que se detém para transcrever o que lhe sucede e nessa medida dar a conhecer ao leitor o porque de tal lhe atrair à atenção. Viva “On the Road!”, Viva Jack Keouak!.

John Mercy & The Dead Beats, “West Of The American Night”, 28 de Outubro, Teatro Paulo Quintela, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra.


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A Maneira Fácil e Rápida de Falar com Eficácia

O festival Jazz ao Centro que se realiza no Salão Brazil (Coimbra) propõe para a sua noite inaugural: Rodrigo Brandão & Sun Ra Arkestra e para quem gosta de jazz este último nome é fundamental dada a sua áurea de génio que assinou cem álbuns, e tornou-se fundamental no carácter vanguardista das suas propostas seja no free jazz ou no jazz modelar, seja sentado ao piano ou nos sintetizadores. A sombra de Sun Ra ainda perdura através Sun Ra Arkestra liderada por um dos seus pupilos o saxofonista Marshall Belford Allen (que não se encontra na banda que irá actuar daqui a pouco, antes há somente dois músicos que pertenceram à Arkestra e que tocam sopros).

O denominador comum do concerto consiste no free jazz mas dada a repetição constante do mesmo mecanismo rítmico este acaba por se ir anulando para se tornar em algo entediante, pois não há uma surpresa vibrante quando ecoam os solos dos metais --aos quais se deve juntar aos dois americanos o Rodrigo Amado no saxofone— e acabam-se por se perder no caldo ainda composto por bateria e contrabaixo, tambor e teclados (que não se ouviram). Por outro lado e esta talvez seja a questão fulcral que faz reflectir qualquer melómano: é a impossibilidade e ou a incapacidade de criarem meios termos ou intervalos de tempo em que fosse possível haver um maior discernimento dos músicos para recriarem de forma criativa o free jazz, antes o que sucede é a sua cristalização nos domínios há muito determinados por outros músicos como por exemplo o Miles Davis. Não há respiração apenas e somente uma contínua (arrisco-me acrescentar) forma trágica (quase) perpétua circularidade por decair numa redundância que é exasperante que transforma o free jazz num pantanal, que inicialmente pretendia elevar as consciências a domínios que lhe estão vedados através da pura observação (por exemplo) da natureza e ou da arquitectura, somente essa música tem o poder de o realizar de forma instantânea para que nada fique igual, para que nada fique pedra sobre pedra  e permitir ao ouvinte estabelecer raciocínios mais complexos (algo que a música pop/rock raramente o consegue); mas o free jazz produzido por este colectivo é inócuo da mesma forma que o é a literatura de cordel ou os romances de cariz científicos ou de fantasia medieval ou fantásticos.

Adoraria esquecer a presença de Rodrigo Brandão, sentado numa mesa, que é o MC que lê um manifesto que tem a duração de três ou quatro horas (isto no tempo psicológico), na realidade tem a duração total do concerto (aproximadamente sessenta minutos). Este mestiço originário do Rio de Janeiro produz uma leitura sobre diversos temas especialmente focalizados na união entre religiões, na dança dos “cérebros” ou na questão de género ou na discriminação racial, há somente um momento em que a leitura se alinha com o ritmo da banda e num outro declama, chega a levantar-se para dançar dando uma movimentação às pernas similar às das gaivotas e noutra ocasião desce o palco deita-se no chão a uivar para o microfone. É verdade que transpira felicidade por ter uma plateia tão obediente aos seus ditames, que são meras observações morais e ou críticas retiradas de jornais, o seu contraditório limita-se afunilar através da censura da desunião entre religiões, à incapacidade dos cérebros de serem livres ao ponto de dançarem, à impotência perante a diversidade ou à questão racial que ele julgava que era menos densa em Lisboa do que no “Rio, onde o céu é mais pesado”, mas um dia acordou e viu um nome na comunicação social, “Bruno Candé”, que fora assassinado algo que o fez reflectir sobre algo central: “Como é possível no século XXI, gente nois estamos no século XXI, haver ainda racismo? Como é possível?”. Meu caro Rodrigo Brandão tal deve-se ao seguinte (e pode perguntar a historiadores que conheça), há diferentes níveis de tempo na ciência que estuda os povos, e dividem-se em três pontos: na estrutura, na conjuntura e revolução, e esta última ainda não surgiu para categoricamente anular o racismo das mentes dos brancos (cor de pele do assassino do Bruno Candé). Por fim, Rodrigo Brandão agradece a “Rui Miguel Abreu”…

Jazz ao Centro, Rodrigo Brandão & Sun Ra Arkestra, 22 de Setembro, Salão Brazil, Coimbra.

sábado, 10 de setembro de 2022

Íbis

Noite de Verão em Coimbra mais precisamente na Praça do Comércio local onde está instalado um palco onde recentemente actuaram os Wipeout Beat, numa prestação inequivocamente assertiva na qual dedicaram uma canção ao dj Afonso Macedo (recentemente falecido). A mesma lembrança trará Carlos “Kaló” Mendes dos Twist Connection que juntamente com os seus dois comparsas se encontra a tocar um rock que tanto se inscreve numa angulosidade repetitiva quanto numa propensão crónica às raízes mais primárias do rock and roll, e é nessa mistura em que umas vezes é mais preponderante a primeira em relação à segunda e ou vice-versa que emerge o som dos Twist Connection, algo que poderão comprovar no quarto álbum de originais “Anywhere But Here”, hoje editado. Será este raciocínio algo simplista e consequentemente redutor em relação a essa realidade estética em que ao que parece há um objectivo implícito, como qualquer banda de rock The Twist Connection defendem uma verdade ou talvez uma moral e essa é tão só o de fazer os corpos dançar, não foi essa uma das premissas do Elvis Presley? Há pessoas a dançar em frente ao palco assim como o Samuel Silva (guitarrista da banda) movimenta-se continuamente enquanto dedilha os solos e ou as notas repetitivas (muito do poder sónico dos Twist Connection passa pelo incansável poder sónico deste músico). Quanto à bateria esta é da responsabilidade do Kaló, que em pé controla o andamento das canções fazendo (por vezes) pausas ou sustendo a nota, que poderiam ser limitadas mas que o cantor/baterista faz questão que sejam muitas e largamente ocupadas com diversos discursos, muitos dos quais sem qualquer interesse correndo o risco de quebrar com a urgência que as suas canções transparecem provocando a quem se encontra na bela Praça do Comércio algum enfado. Assessorado por Sérgio Cardoso no baixo eléctrico que se mantém sobriamente ao lado da bateria. O resultado do concerto não deixa de ser uma celebração primeiramente à possibilidade de libertar as consciências das suas rotinas escalonadas por outros, ou, à eloquência com que através de gestos primários se evoca uma desmistificação dos maus rapazes e das más raparigas, porque se fosse pelos Twist Connection somente existiram rebeldes dos que viram costas à sociedade para se agrilhoarem ao prazer exclusivo que o dizer não gratuitamente é capaz.

The Twist Connection, “Anywhere But Here”, 9 de Setembro, Praça do Comércio, Coimbra.


Dedicado ao Dj Afonso Macedo.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...