terça-feira, 31 de julho de 2007

Dallas

"Say it Right" abre a contenda e as luzes seguem o rosto sedutor de Nelly Furtado: "Boa noite Cantanhede! Estou muito contanta de estar aqui hoje," sempre que se dirige directamente ao público, lança uma gargalhada de Cinderela. Ora enverga o vestido de virgem violada "Em tudo o que o Vento Levou", ou, exibe as jóias para visitar o namorado que está hospedado no parque de Campismo da Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Cantanhede. "Turn of the lights" é um convite para embarcar numa festa de adolescentes alienados, tentam em "Showtime" aproximar-se da versão que consta em "Loose", em vão. O palco está dividido, na vertical, em três partes, que são ocupadas pelos músicos: "Este é o meu director musical", e por bailarinas lascivas acompanhadas por um traceur, que se atira às luzes como se fosse uma mancha que vai animar a multidão, inútil. A estrela dos Açores ocupa o segundo degrau e debita o seu timbre cristalino como se fosse a narradora das tramas sentimentais, na América latina ou num gueto Sul-africano em Los Angeles. Diz-se "Sozinha" e veste umas calças cinzentas apertadas que dramatizam o seu papel de: "Porque você me deixa tão solta? /Porque você não cola em mim? / Tô me sentindo muito sozinha" com top cor-de-rosa. A magia inflama os ecrãs e ouvem-se os acordes acetinados de "All Good Things (Come To An End)" que é transformado em "SexyBack" interpretado pela corista que é rodeada pelos bailarinos hiperactivos. "Conhecem Timbaland?" a multidão responde afirmativamente numa onda de reconhecimento, ao ritmo de "Promiscuos" assume-se malandra e matreira e que somente acompanha o rapper se este despir a "t-shirt", apresenta o seu partner: este "é Saucrates, podutor, Dj, ahha". Dá aquela "Força", e bolas são lançadas para o público pelos dançarinos equipados a rigor, a Nelly assina uma e oferece-a à primeira fila. A árbitra avisa: "O meu nome é Nelly Furtado e gostei muito de estar em Cantanhede! Hello Cantanahade! Foi uma noite muito special! Foi? Não, mas está quase! Ahahhaha."

Loose Tour, Nelly Furtado, 28 de Julho, Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Cantanhede.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Dirty Stage

No ecrã desenvolve-se uma sucessão de imagens animadas que culminam num estoiro pirotécnico e os acordes de “Star me Up” acendem-no num turbilhão de luzes, o Demo abre a sua boca e canta a consanguinidade do rock and roll. Enfrenta a plateia deflagrando um hálito tempestivo, que reconhece no público o preconceito católico, “I`m so hot!” Preenche o púlpito de gestos lascivos e incita os seus dois colegas de palco a abandonar o triângulo que desenham junto à bateria de Charlie Watts, revelando uma alienação lúdica. Mick Jagger impõe-se em cada gesto, onde fervem as palavras: “Boa noite Lisboa!” As línguas trocadas em “No Expectation”, cantada com uma pin up do fado, revela-se o momento trágico-cómico: “maybe some portuguese flavor, ããã?”, apresentou-a o flamejante e híbrido cantor. O microfone por vezes não resiste às labaredas saídas de “Can´t Your Hear Me Knocking?”, impõem-se às fronteiras da justiça sexual, libertando o líbido dos portugueses que dançam no Alvalade XXI sob o signo “A Bigger Bang Tour.” As cores das torres que emolduram o inferno capitalista viram-se, reviram-se e por vezes inflamam-se num gingar encantatório num destino nos trópicos “It`s Only Rock`n`Roll” com vista para o mar de topázio. O irmão gémeo de Mick, insurge-se contra si, e sublinha as canções com solos desdenhosos num harpear epicurista. O andor penetra a multidão, concentram-se num rectângulo de onde expelem: “Satisfaction” to “Honky Tonk Women”, num coito ininterrupto. O Diabo roça a cauda no varandim e apresenta-se num uivar que dilacera as almas utentes da reencarnação, “uuuuu” e “i guess..” que “you now my name!” “Paint it Black” anuncia-se como o testamento mais breve da história do rock. “Esta noite muito especial”, e ele concretiza a profecia transformando o carril do andor numa passadeira chispa chamas. Os Rolling Stones reúnem-se em redor do fogo de artifício que queima “Brow Sugar” que infecta os portugueses: “Brown sugar how come you taste so good, now? Brown sugar just like a young girl should, now - yeah!.”

A Bigger Bang Tour, The Rolling Stones, 25 de Junho, Estádio Alvalade XXI

terça-feira, 15 de maio de 2007

Gilbert and George

Abrem o pano metalizado e aparece do além George Michael, vestido de escuro com uns óculos espelhados para esconder o olhar que pousa sobre o Estádio Cidade de Coimbra. Absorve as palmas e tenta ganhar a multidão insinuando-se para o público como uma relíquia: “When you go outside these building, you will not feel time pass by!” Faz o apelo do sexo livre “Fast Love”, e conduz pelas artérias de Manhatan num táxi onde transporta uma amante à qual promete: “will be your father figure (oh baby)/Put your tiny hand in mine (I love to)/ I will be your preacher teacher (be your daddy) Anything you have in mind (it would make me).”As cores à sua volta são sóbrias, a banda está instalada na vertical, sendo peças de decoração do cenário futurista. O palco ilumina-se exuberantemente na queixa persistente de muitos homens: “And now you tell me that your having my baby” e o refrão é mordaz: “Somebody tell me/ Why I work so hard for you? (To give you money)." Presenciamos ao surgimento do Bush, vindo de uma Casa Branca travestida de Soho, a dar de mamar ao Blair: “Shoot the Dog” soa mecânico e violento. Intervalo de vinte minutos, “see you”, o ecrã faz a contagem decrescente: seis, cinco, quatro, três, dois, um, ZERO! Surge o rebelde de cabedal que empunha a guitarra com luvas que marcam o ritmo soul de “Faith.” A chuva refresca a emissão e o artista não se esquiva de cantar próximo do público, que aparecem nos ecrãs debilitados pela sua presença ubíqua. Senta-se e embala nos seus braços uma prece que é tão suave quanto breve “Jesus to a Child”, é inscrita na lista dos milagres por canonizar. Rejuvenesce quando está “Outside” a consumar um acto perverso nas vias públicas, o cenário transforma-se em arranha-céus, que escondem na sombra o sexo esquivo. Por vezes recuamos no tempo, e vemo-lo: num veleiro ao largo de Cannes com a namorada, que o abandona, e a sua ausência fê-lo perder a noção do ritmo, “youooooo” o saxofone ecoa como se fosse o epicentro da paixão “the way I dance with youuuuuu.” O cantor alerta-nos para: “Today is the birthday of my dady!” e a multidão de casais tomam a iniciativa de retribuir os parabéns a você ao pai do ex-Wham, “dear dady”. Anuncia “Freedom” é “something very important” no mundo de hoje, os braços erguem-se subitamente como se os espectadores tivessem encontrado o seu destino. A sua despedida é aplaudida: “You are beautiful!”, a banda mantém-se em palco para acompanhar a projecção da ficha técnica dos músicos e do restante pessoal que acompanha George Michael na digressão 25Live. Como se o concerto ganhasse um fundo cinematográfico e a ficção encerrasse no seu âmago a realidade.


25 Live George Michael, 12 de Maio, Estádio Cidade de Coimbra

domingo, 22 de abril de 2007

O Ícaro da Lua

Um piano gravado sustém as luzes apagadas que esperam pelos Cult of Luna, que entram gradualmente no palco instalado num Convento em ruínas. A distorção é proporcionada pelas guitarras que dançam no ar como se fossem machados a cortar a carne que rodeia os tímpanos. As credenciais que os dominam conspurcam as paredes com sede pelo pecado original, como se fosse uma espiral de terror perante a fragilidade da mortalidade. O útero da lua é conciso e frequentemente sustenido numa delicadeza esotérica com pormenores electrónicos que lhes presta uma melodia Kafkiana. A hipnose é cinemática e ultrapassa o negro que se apodera dos corpos dos espectadores, que sangram fluentemente. No proscénio instala-se uma voz cavernosa que emite a partir de um megafone directamente para as nossas almas, jorra-mos em direcção ao Mondego. Um feedback inadvertido assinala o único traço humano de uma besta que transmite um holocausto sonoro que se quebra com a saída de três elementos da banda. O palco fica mutilado. Quando regressam, a epopeia infecta o altar de cores sombrias que é inundado por um delírio sónico da envergadura de lua eclipsada.

Coimbra, Convento de São Francisco, Cult of Luna 21 de Abril

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...