"Say it Right" abre a contenda e as luzes seguem o rosto sedutor de Nelly Furtado: "Boa noite Cantanhede! Estou muito contanta de estar aqui hoje," sempre que se dirige directamente ao público, lança uma gargalhada de Cinderela. Ora enverga o vestido de virgem violada "Em tudo o que o Vento Levou", ou, exibe as jóias para visitar o namorado que está hospedado no parque de Campismo da Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Cantanhede. "Turn of the lights" é um convite para embarcar numa festa de adolescentes alienados, tentam em "Showtime" aproximar-se da versão que consta em "Loose", em vão. O palco está dividido, na vertical, em três partes, que são ocupadas pelos músicos: "Este é o meu director musical", e por bailarinas lascivas acompanhadas por um traceur, que se atira às luzes como se fosse uma mancha que vai animar a multidão, inútil. A estrela dos Açores ocupa o segundo degrau e debita o seu timbre cristalino como se fosse a narradora das tramas sentimentais, na América latina ou num gueto Sul-africano em Los Angeles. Diz-se "Sozinha" e veste umas calças cinzentas apertadas que dramatizam o seu papel de: "Porque você me deixa tão solta? /Porque você não cola em mim? / Tô me sentindo muito sozinha" com top cor-de-rosa. A magia inflama os ecrãs e ouvem-se os acordes acetinados de "All Good Things (Come To An End)" que é transformado em "SexyBack" interpretado pela corista que é rodeada pelos bailarinos hiperactivos. "Conhecem Timbaland?" a multidão responde afirmativamente numa onda de reconhecimento, ao ritmo de "Promiscuos" assume-se malandra e matreira e que somente acompanha o rapper se este despir a "t-shirt", apresenta o seu partner: este "é Saucrates, podutor, Dj, ahha". Dá aquela "Força", e bolas são lançadas para o público pelos dançarinos equipados a rigor, a Nelly assina uma e oferece-a à primeira fila. A árbitra avisa: "O meu nome é Nelly Furtado e gostei muito de estar em Cantanhede! Hello Cantanahade! Foi uma noite muito special! Foi? Não, mas está quase! Ahahhaha."
Loose Tour, Nelly Furtado, 28 de Julho, Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Cantanhede.
terça-feira, 31 de julho de 2007
quinta-feira, 28 de junho de 2007
terça-feira, 26 de junho de 2007
Dirty Stage
No ecrã desenvolve-se uma sucessão de imagens animadas que culminam num estoiro pirotécnico e os acordes de “Star me Up” acendem-no num turbilhão de luzes, o Demo abre a sua boca e canta a consanguinidade do rock and roll. Enfrenta a plateia deflagrando um hálito tempestivo, que reconhece no público o preconceito católico, “I`m so hot!” Preenche o púlpito de gestos lascivos e incita os seus dois colegas de palco a abandonar o triângulo que desenham junto à bateria de Charlie Watts, revelando uma alienação lúdica. Mick Jagger impõe-se em cada gesto, onde fervem as palavras: “Boa noite Lisboa!” As línguas trocadas em “No Expectation”, cantada com uma pin up do fado, revela-se o momento trágico-cómico: “maybe some portuguese flavor, ããã?”, apresentou-a o flamejante e híbrido cantor. O microfone por vezes não resiste às labaredas saídas de “Can´t Your Hear Me Knocking?”, impõem-se às fronteiras da justiça sexual, libertando o líbido dos portugueses que dançam no Alvalade XXI sob o signo “A Bigger Bang Tour.” As cores das torres que emolduram o inferno capitalista viram-se, reviram-se e por vezes inflamam-se num gingar encantatório num destino nos trópicos “It`s Only Rock`n`Roll” com vista para o mar de topázio. O irmão gémeo de Mick, insurge-se contra si, e sublinha as canções com solos desdenhosos num harpear epicurista. O andor penetra a multidão, concentram-se num rectângulo de onde expelem: “Satisfaction” to “Honky Tonk Women”, num coito ininterrupto. O Diabo roça a cauda no varandim e apresenta-se num uivar que dilacera as almas utentes da reencarnação, “uuuuu” e “i guess..” que “you now my name!” “Paint it Black” anuncia-se como o testamento mais breve da história do rock. “Esta noite muito especial”, e ele concretiza a profecia transformando o carril do andor numa passadeira chispa chamas. Os Rolling Stones reúnem-se em redor do fogo de artifício que queima “Brow Sugar” que infecta os portugueses: “Brown sugar how come you taste so good, now? Brown sugar just like a young girl should, now - yeah!.”
A Bigger Bang Tour, The Rolling Stones, 25 de Junho, Estádio Alvalade XXI
A Bigger Bang Tour, The Rolling Stones, 25 de Junho, Estádio Alvalade XXI
domingo, 27 de maio de 2007
terça-feira, 15 de maio de 2007
Gilbert and George
Abrem o pano metalizado e aparece do além George Michael, vestido de escuro com uns óculos espelhados para esconder o olhar que pousa sobre o Estádio Cidade de Coimbra. Absorve as palmas e tenta ganhar a multidão insinuando-se para o público como uma relíquia: “When you go outside these building, you will not feel time pass by!” Faz o apelo do sexo livre “Fast Love”, e conduz pelas artérias de Manhatan num táxi onde transporta uma amante à qual promete: “will be your father figure (oh baby)/Put your tiny hand in mine (I love to)/ I will be your preacher teacher (be your daddy) Anything you have in mind (it would make me).”As cores à sua volta são sóbrias, a banda está instalada na vertical, sendo peças de decoração do cenário futurista. O palco ilumina-se exuberantemente na queixa persistente de muitos homens: “And now you tell me that your having my baby” e o refrão é mordaz: “Somebody tell me/ Why I work so hard for you? (To give you money)." Presenciamos ao surgimento do Bush, vindo de uma Casa Branca travestida de Soho, a dar de mamar ao Blair: “Shoot the Dog” soa mecânico e violento. Intervalo de vinte minutos, “see you”, o ecrã faz a contagem decrescente: seis, cinco, quatro, três, dois, um, ZERO! Surge o rebelde de cabedal que empunha a guitarra com luvas que marcam o ritmo soul de “Faith.” A chuva refresca a emissão e o artista não se esquiva de cantar próximo do público, que aparecem nos ecrãs debilitados pela sua presença ubíqua. Senta-se e embala nos seus braços uma prece que é tão suave quanto breve “Jesus to a Child”, é inscrita na lista dos milagres por canonizar. Rejuvenesce quando está “Outside” a consumar um acto perverso nas vias públicas, o cenário transforma-se em arranha-céus, que escondem na sombra o sexo esquivo. Por vezes recuamos no tempo, e vemo-lo: num veleiro ao largo de Cannes com a namorada, que o abandona, e a sua ausência fê-lo perder a noção do ritmo, “youooooo” o saxofone ecoa como se fosse o epicentro da paixão “the way I dance with youuuuuu.” O cantor alerta-nos para: “Today is the birthday of my dady!” e a multidão de casais tomam a iniciativa de retribuir os parabéns a você ao pai do ex-Wham, “dear dady”. Anuncia “Freedom” é “something very important” no mundo de hoje, os braços erguem-se subitamente como se os espectadores tivessem encontrado o seu destino. A sua despedida é aplaudida: “You are beautiful!”, a banda mantém-se em palco para acompanhar a projecção da ficha técnica dos músicos e do restante pessoal que acompanha George Michael na digressão 25Live. Como se o concerto ganhasse um fundo cinematográfico e a ficção encerrasse no seu âmago a realidade.
25 Live George Michael, 12 de Maio, Estádio Cidade de Coimbra
25 Live George Michael, 12 de Maio, Estádio Cidade de Coimbra
terça-feira, 1 de maio de 2007
domingo, 22 de abril de 2007
O Ícaro da Lua
Um piano gravado sustém as luzes apagadas que esperam pelos Cult of Luna, que entram gradualmente no palco instalado num Convento em ruínas. A distorção é proporcionada pelas guitarras que dançam no ar como se fossem machados a cortar a carne que rodeia os tímpanos. As credenciais que os dominam conspurcam as paredes com sede pelo pecado original, como se fosse uma espiral de terror perante a fragilidade da mortalidade. O útero da lua é conciso e frequentemente sustenido numa delicadeza esotérica com pormenores electrónicos que lhes presta uma melodia Kafkiana. A hipnose é cinemática e ultrapassa o negro que se apodera dos corpos dos espectadores, que sangram fluentemente. No proscénio instala-se uma voz cavernosa que emite a partir de um megafone directamente para as nossas almas, jorra-mos em direcção ao Mondego. Um feedback inadvertido assinala o único traço humano de uma besta que transmite um holocausto sonoro que se quebra com a saída de três elementos da banda. O palco fica mutilado. Quando regressam, a epopeia infecta o altar de cores sombrias que é inundado por um delírio sónico da envergadura de lua eclipsada.
Coimbra, Convento de São Francisco, Cult of Luna 21 de Abril
Coimbra, Convento de São Francisco, Cult of Luna 21 de Abril
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Susan Sontag
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