segunda-feira, 8 de maio de 2017

Towards the Forest. Knausgård on Munch

Fogo estóico acende-se numa fogueira e o seu fumo é uma barragem intransponível, iluminada por uma lua diáfana que teima em se distanciar da Terra, os campos parecem vazios de qualquer encanto emergidos numa solidão ditada pela noite, as estradas são calcorreadas por peregrinos cativos de uma fé que lhes cega o sofrimento que procuro não atropelar, sigo em sentido contrário porque na adolescência fiz a promessa de amar o Rock and Roll até morrer num dia luminoso de Setembro, e em cinzas a boiar no Atlântico perseguirei o horizonte como se fosse a minha eterna musa. Estaciono o carro nas imediações do Clube União Vilanovense fundado em 1947 em Vila Nova freguesia de Cantanhede, a sala tem um chão em madeira amarela e o palco é pequeno mas tem tecnologia de ponta (very lights, tela para projectar imagens, e colunas que aparentam ser adequadas para o espaço). Os primeiros a subirem ao palco são os Sacaplástica que é um trio que canção após canção demonstra que são incapazes de serem homogéneos-- e para acentuar o desequilíbrio os géneros que abordam não estão devidamente sintetizados-- e tudo soa a versões rockeiras inconsequentes, mesmo que o guitarrista e líder diga algo assim: “A crítica que nos fizeram; é que isto é uma música um pouco esquizofrénica”; a canção mais conseguida é um tema original brasileiro, já a versão do Serge Gainsbourg é sofrível. Os Iguana são uma dupla composta por bateria e guitarra e as suas variações promovem diversas texturas e consequentemente é o elemento que domina, associada a inúmeros universos sónicos transformam as composições em algo complexo e o que daí resulta é da natureza do épico. Os Desert Mammooth decorrem de uma bateria e de um guitarrista e o género musical de praticam é o rock com hard algo que é na essência entediante por ser convencional, as melhores canções são as que remetem para uma estratosfera core-noise e que é de facto sublime. The Black Wizardz é quarteto de músicos (bateria, guitarra/voz, guitarra eléctrica e baixo eléctrico) e são exímios a verter o hard rock datado da década de setenta advindo da América do norte, mas são de tal forma “académicos” que nada pode ser ouvido numa perspectiva da originalidade; nota: a guitarrista-voz canta como se fosse uma vodoo drogada que dedilha a guitarra como se estivesse a degolar o Charles Manson. No exterior num pátio situa-se o palco Efervescente onde está a dupla Cabra cor de rosa, e sobre a música rock oiço que o concerto versa, “uma epopeia gandareza”, acrescenta, “a história ficcional da história da gandara”, e, “quando tu ainda não eras nada”, continua, “conto coisas da memória”, a música prog rock não tem relação com o orador e nem tão pouco com o vídeo que é projectado atrás dos dois músicos, “e entramos na ditadura”, mas a canção não reflecte esta mudança histórica, algo que sucede quando mudam de continente, “ilha de Moçambique”, para uma melodia africana; e regressa a visão de um tempo que ainda não se cumpriu, “bem-vindos à gandara do futuro”; tudo isto é de tal forma sofrível que parece má ficção. O Bode era em tempos a personagem do Cisco Francisco que se apresentava sozinho à guitarra eléctrica com um Mac, hoje surge acompanhado com outro membro do clã e este ocupa a bateria algo que confere ao seu espectáculo sónico uma visibilidade que engrandece as canções terror-rock. No segundo dia não tive oportunidade de ver os Alice; mas os seus sucessores são os Dalla Marta um quarteto de adolescentes liderados por uma jovem alegre e saltitante que ainda tem que desenvolver a sua voz para que esta seja devidamente potenciada, o género em que habitam é o nu metal porém não lhe acrescentam nada de novo, antes aprofundam os seus contornos rítmicos e melódicos; a melhor canção é a versão de “Amor Combate” dos Linda Martini. Os Esfera são um quinteto de rapazes muito bem-intencionados na procura de uma originalidade pop-rock, mas não dissertam convincentemente para que nesta se encontre um instantâneo em que tal suceda, e por vezes perdem-se numa distorção que não as valoriza; e o inglês que usam é sem duvida melhor do que o português; e é inaceitável que o cantor-guitarrista faça a seguinte confissão: “Começamos agora o trabalho de cantar em português, por isso tenham lá calma”, calma? Quem é que se iria insurgir contra as canções cantadas na língua do Fernando Pessoa? Por serem más? Ou por não encaixarem devidamente na métrica que instituem? Nota: se abandonarem a lógica progressiva e instituírem diversas dinâmicas poderão ganhar com a mudança, entretanto mantenham a calma. O Sr. Doutor é um fidalgo que usa uma guitarra eléctrica e as suas letras versam sobre romances com origem no Bairro Alto e são deveras apelativas; mas quando passa para a guitarra acústica e os temas são maioritariamente políticos tudo se desvanece e nem com a pareceria de uma flauta de bizel as salva do lodçal da vulgaridade; há a destacar o convite do Sr. Doutor a Victor Torpedo para que o acompanhe na guitarra eléctrica e essa canção em particular deve ser adjectivada com elogios.Victor torpedo é o crooner dos loosers dos que amaram num tempo em que o kitsch dominava as mulheres que desafiavam safaris em topless à procura de uma fera que apenas haviam conhecido num Zoológico; as canções são debitadas por um Mac e são acompanhadas por vídeos absurdos com as letras respectivas; o cantor decide abandonar o palco e enfrentar o público espalhando uma energia que domina as pessoas que o acompanham hipnoticamente no seu Karaoke; se os portugueses inventaram a saudade, Victor Torpedo dá corpo a uma performance que enobrece o nonsense criado pelos ingleses. O Eduardo Martins dedilha a sua guitarra acústica no palco Efervescente mas o pátio está repleto de convivas que o ignoram e que ao falarem abafam-no; do que oiço parece-me meras deambulações estilísticas e na sua maioria inconsequentes. A dupla Ghost Hunt apresenta um composto químico synth em que moldam o psicadelismo, estilhaçam e enaltecem diversas facetas rítmicas que transformam a sala numa rave incontrolável, não é que os corpos estejam anarquicamente a dominar o espaço, antes, são as mentes que a partir das canções se libertam do jugo da rotina mascarada de realidade e a sua deambulação permitem-lhes a potenciação do pensamento formal, são dominados e paradoxalmente desejam dominar num espaço abstracto onde se relacionam exclusivamente com os Ghost Hunt.

13º Rock Of—Mostra de Música Moderna, 5 e 6 de Maio, Vila Nova

terça-feira, 25 de abril de 2017

The Beach Boys

Está um dia luminoso de Abril no Cabedelo (Figueira da Foz) que se encontra junto a uma praia onde se bronzeiam náufragos e naufragas que escondem os seios nas toalhas dos chineses, e brincam anões evadidos de circos de usam animais em números grotescos; no paredão as figuras parecem sombras que desaparecem num horizonte que é inatingível, há quem passeie um animal de estimação que tem uma máscara de quem foi esmurrado ao nascer; e por vezes surgem surfistas que passam vestidos de borracha com as suas pranchas bicudas ansiosos por se imiscuírem no movimento perpétuo das ondas, alimento a esperança secreta de que a temperatura aumente e as nuvens sejam tufos de algodão soprados pelas almas dos piratas que soçobraram em combate ou que foram enforcados em ínsulas habitadas por macacos bicéfalos; numa estrutura em madeira sede da iSurf Academy está instalado sobre um estrado em madeira um órgão e uma bateria, no primeiro senta-se uma jovem tímida e num banco um rapaz que formam os Drunks on the moon, e a voz da jovem é melodiosa e quente que se irmana preciosamente com as canções que são delicadas e melancólicas, que ganham um dramatismo americana quando o jovem toca guitarra e dá-lhe no bombo, que produzem uma tepidez que entra em choque com os raios do sol que teimam em contornar as pessoas que batem palmas efusivamente quando encerram cada uma das canções; estranhamente este é o primeiro concerto dos Drunks on the moon porque na essência parecem que tocam há anos e como tal merecem que sejam avaliados segundo o critério da excelência. Antes dos próximos convidados musicais o microfone é tomado pelo Capitão Segundo que discursa em morse um slogan revolucionário: “Não!”, “não!”, “não!”, parece um ditador filho de Neptuno que nunca se adaptou à vida terrena, “e nós não queremos isso!”, aponta a mão direita para as ondas alheias ao seu reboliço verbal; quem tem o privilégio de apresentar a próxima banda é o infatigável Kazuza, que viera expressamente para comer o porco no espeto que fora servido à hora do almoço, segura no microfone como se fosse um objecto com vida: “E agora Cavemen(a)”, di-lo através de um grave omisso que é impossível de compreender mas mesmo assim é agraciado com palmas, que ocupam o estrado e a fúria que implementam tem origem numa demência incontrolável, liderados por Paul Cavemen de tronco nu com um colar com ossos de plástico com origem nos antípodas que inúmeras vezes abandona o estrado --chega a deslocar-se até uma rotunda onde importuna o busto do artista plástico Mário Silva-- e com as suas botas dandy enfrenta o público numa afirmação clara e concisa de que está decidido a levantar poeira e que está os domine, os seus parceiros nesta viagem punk correspondem a Jack Caveman na guitarra eléctrica semi-distorcida que é responsável por rifts e solos minimais que lhes pespega uma originalidade visceral, e o baixo eléctrico semi-distorcido do turbulento Nick Cavemen que associado ao imberbe Jake Cavemen solidificam a base de uma estrutura irrepreensível, e as pessoas gritam e dançam enfurecidas pelas suas canções com o dom de os rejuvenescer e retratá-los numa rebeldia em que se insurgiam contra as regras do capitalismo.

CBGB presents Happy Days, 23 de Abril, Cabedelo-Figueira da Foz

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Manifeste du Surréalisme

À entrada do Texas Bar numa localidade com uma designação deveras sugestiva pois amada pelos humanos: Amor, onde tenho encontro marcado com os Parkinsons e os Cavemen, a senhora ao balcão estranha o bloco de notas e a minha questão, “os concertos já começaram?”, a resposta é reticente, “já, começaram agora mesmo”; no interior oiço uma música que não associo aos dois grupos (que no cartaz que circulava na internet se adjectivaram de “savages”) ao procurar o palco de onde vem a música encontro um homem de negro com umas listas brancas de índio numa cabeça careca que se baptizou de mARCIANO, as suas canções são predominantemente synth pop que são transmitidas por um Mac, e as letras versam amores perdidos ou frustrados mas primam por lógicas românticas que não se conseguem afastar de lugares comuns, e a sua voz não acompanha o dramatismo da sua gestualidade algo que lhe oblitera a dor, mas há uma ambição desmedida em atrair a atenção do público, porém falta-lhe a ousadia de instituir mistério à sua persona que deveria exaltar como centro a ambiguidade e apresentar-se-ia através de um universo de lantejoulas ou plumas e se esta excentricidade fosse sonoramente coincidente mereceria um palco maior que não tivesse uma pipa e umas redes de pesca sobre a sua cabeça e não estaria uma jovem a ser tatua a escassos metros do mARCIANO; há a censurar a versão de um fado da Maria da Fé e o histerismo canino no último tema “Cães”. Num outro palco surge os Cavemen quatro rapazes que se dividem pela voz, guitarra eléctrica, baixo eléctrico e bateria e que apesar do som abafado das colunas procuram ganhar a atenção do público, e quem assume esse papel é o Paul Caveman que se insurge continuamente contra a apatia dos presentes e canta como se o amanhã fosse apenas uma ficção determinada por alguém demente, as canções são curtas e rápidas sem que haja lugar para que o ouvinte tenha tempo de as distinguir, e a semi-distorção é um elemento comum que dominam exemplarmente e que com o decorrer do concerto faz balançar os corpos dos cépticos; o único ponto negativo foi uma canção que principiaram e que não conseguiram finalizar assertivamente. Os selvagens que se seguem são os míticos Parkinsons que sob as luzes que variam entre o azul o amarelo e o vermelho descarregam uma força sonora que de canção após canção se transforma numa massa rude e grotesca da qual sobressai a voz em delírio do Afonso Pinto e os solos épicos do Victor Torpedo, há pessoas que sobem para o palco mas o tumulto é vivido pela plateia como se estivessem sob o efeito de uma droga que os pôs em transe, acompanhados por um baixo eléctrico irrepreensível do Pedro Chau e a bateria da Paula Nozzari, que se levanta no intervalo das canções para relaxar os seus músculos dos braços e das pernas cobertas por meias rendadas; sensivelmente a meio do concerto são acompanhados pelo teclado do Jorri que introduz uma perspectiva esquizofrénica a um muro pejado com cartazes pró-abjecionismo.

CAPITÃO VI Embarcação, 22 de Abril, Texas Bar

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...