Saturday, March 1, 2008

Utensílio Moderno

Paulo Pereira é alto, magro e, acrescente-se uma calvície prematura, não o serão todas? O historiador esteve na Faculdade de Letras de Coimbra, no Anfiteatro III, 4º piso, sob a égide, “A História de Arte e a Gestão do Património”. A eficácia de um discurso destituído de formalismos linguísticos, “sim, eu não me lembrei disto por eu ser brilhante”, mete a mão no bolso esquerdo, desloca-se para a direita e abana a cabeça, a instigar constantemente a comicidade. Segundo Paulo Pereira, “esta última Ministra foi devastadora para a Cultura, tem que se começar tudo de novo”.
Coloca como o ponto de saída desta conferência a Revolução Francesa, a partir da qual deixou de existir uma estrutura social, vertical, “mas há muitos países europeus que [ainda hoje] são monarquias, a Finlândia, Dinamarca”. Mas, quando se deu esta equação, que “não foi ao meio-dia de 1789”, desapareceu o “tempo circular”, que até aí era manipulado pelo Clero/Nobreza/Reis, e surge o tempo linear, “onde há uma evolução” económico-social.
De seguida, enumera e explica sucintamente os diferentes tipos de “coisinhas” que foram acrescentadas à História de Arte, e em particular, ao Património, “desde a acústica e o cheiro de um espaço”, há “coisinhas” e mais “coisinhas”, “é por isso que digo que a História de Arte está sempre a receber novas tipologias de estudo”. Consequentemente, aumenta o âmbito da sua universalidade, como se a História fosse vítima do tempo que a produz, por exemplo desde 1990 que se acrescentaram mais de dez disciplinas à História de Arte. A este quadro teremos que “implicar arqueólogos e arquitectos e a História de Arte” para “ avaliar o objecto de estudo”, em todas as suas vertentes. Para Paulo Pereira, “les monuments”, que é como os franceses se referem aos “monumentos”—(e repete, sublinhando a ênfase no sotaque parisiense: “Les Monuments, son notre monuments)-- isto é, representam o passado [patrimonial] que deve ser preservado, não foi por acaso que os museus nasceram em França”. Estes foram os primeiros a lucrar com esta nova deliberação.
Num país pobre como o nosso, é natural “que não consigamos defender o nosso património”, mas “podem criar-se mecanismos”, e exibe em powerpoint-- o conferencista recorreu sempre a este apoio visual-- uma lista de estruturas que foram sujeitas a escrutínio, quando desempenhou o papel de vice-presidente no extinto Instituto Português do Património Arquitectónico. Paulo Pereira defendeu que “os lucros” ganhos nas diversas instituições deveriam ser divididos pelas outras, “que não atraem muitas pessoas”. No entanto, contrapõe com o Palácio Nacional da Pena que: “sofre com a chegada constante de turistas”, “não chegam todos ao mesmo tempo, como é óbvio”. A afluência destes agentes “obrigará ao seu encerramento uma vez por semana, ou mesmo duas, mas depois, isso vai-se reflectir na conta da luz e até nos vencimentos” dos funcionários de toda a rede de monumentos nacionais.
No ecrã, exibe obras que são “impossíveis de preservar pelo Estado” e dá como solução a “semi-privatização dos edifícios”, transformando-os em pousadas, mas “os espaços continuavam a pertencer ao Estado”. Apesar de não lhe agradar, na totalidade, esta solução, sublinha, “que é melhor do que ver os edifícios a degradarem-se”. Como exemplo paradigmático dá o Convento de Mafra, que é o que “tem a maior área coberta” em Portugal, um quarto do seu restauro custou, “um milhão de contos [faz suspense] e quatrocentos mil contos”.
Stockhausen caracterizou o ataque às Torres Gémeas como uma “obra de arte”. Paulo Pereira, vê neste ataque uma guerra entre dois tempos antagonistas, “os terroristas foram extremamente inteligentes, atingiram o coração de algo que representava um bem maior”, ao fazê-lo “estiveram a contrariar um tempo que não é teocêntrico” e logo linear, “que não submete a evolução a um dogma profundamente religioso, fundamentalista”. “Eu não me lembrei disto porque sou um génio, eu estava na cozinha a falar com a minha mulher e comentei com ela: `já não lhes bastam as pessoas?”. E o seu rosto de barba por rapar, ganha contornos de quem está a ver a verdadeira extensão do horror do 11 de Setembro.

Paulo Pereira, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de História de Arte, Utensílios Modernos/ A História de Arte e a Gestão do Património, 27 de Fevereiro.