Wednesday, April 2, 2008

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Há uma reconversão de matérias que foram cuspidas pelo mar: cartão, pneu, paus, tudo convertido num novo utensílio carregado de uma outra utilidade: a representação de gôndola, canas de pesca, túmulos. É este o feito de Robert Rauschenberg: reequacionar a realidade e transpô-la para uma outra dimensão, um jogo austero, que é o espelho de uma sociedade industrializada que não reciclava os matériais (as peças datam de 1970/76) e acumulava o lixo como se fossem troféus de uma nova época. Rauschenberg questiona a evolução e confronta-a com a sujidade, com a morte presente nos sudários e nos sarcófagos. Arrepia a clarividência e a coragem de converter o perecível em algo eterno e com valor patrimonial.

“Em Viagem 70-76” patente de 26 de Outubro de 2007- 30 de Março.

“Cadeia da Relação”, é afinal uma cadeia sensual e exótica onde as ilhas são órgãos erógenos, pénis cavalgam lábios suculentos, há banhos turcos, toalhas manchadas de sémen, vaginas equiparam-se a vulcões em erupção. Júlio Pomar, reúne obras da década de setenta, quando a idade já lhe estava a secar o desejo e as rugas começavam a cravar o rosto. As telas são dotadas de cores suaves por contra-posição aos motivos representados, este paradoxo dão-lhes um carácter duplo: por um lado o que é imaginado (o acto), por outro o resultado que se assemelha a um paraíso suave e leve.

“Cadeia da Relação” patente de 22 de Fevereiro- 20 de Abril.

Alvess (Manuel Alves, radicado em Paris) é o mestre da ironia, o realista anti-realista, o verdadeiro e o seu oposto, o objecto sempre a questionar o que é a arte e as suas consequências e responsabilidades. Há um frasco com insectos de papel, telas recortadas, desenhos automáticos a tinta da china, um pneu a pisar uma tela branca. As dimensões picturais predominantes são o preto e o branco, como as páginas de um jornal antigo, ou, a forma como os que ignoram a arte vêm o Mundo.

Alvess patente de 22 de Fevereiro- 20 de Abril.

Museu Serralves- Museu de Arte Contemporânea (Porto), 30 de Março.