Monday, April 7, 2008

Manuelino

As cordas do baixo são esculpidas por João Aguardela, a orientar as velas da Nau que se despede do Portal Sul dos Jerónimos. Na proa está Maria Antónia Mendes, ela possui uma auréola semelhante à esfera armilar, o seu canto desvia as tempestades da viagem e cospe nos Velhos do Restelo: “ensinar-te em meu amor a praticar a caridade, nunca digo saudade, ligo pouco ao que se diz, mas nunca levo a mal a ideia de ser feliz”. Do lado esquerdo do portal estão os quatro grandes Profetas da Igreja, no lado oposto simétrico, os quatro Doutores da Igreja que ladeiam a Nossa Senhora com o Menino Jesus: “uma rima obsessiva, indecente nas suas maneiras, desligado o motor do carro, as criadas tornavam-se indisciplinadas”, o seu canto está pejado de anjos puti a dançar a ritmo do groove, que anula o tenebrismo das cores do fado popular. Durante a viagem para a Índia, as embarcações seguem o canto da Mãe de Deus, que profetisa que “todo o amor do Mundo não foi suficiente”. A guitarra portuguesa: “um dia, um dia tão bonito e eu não fornico!”, as notas das doze cordas são apertadas por Luís Varatojo, “um dia tão bonito…”. A gestualidade da Santa é escassa, o seu rosto imaculado é a certeza de uma beleza exaltante, que vê o futuro caminho para a Índia uma intencionalidade Manuelina. “O ferro de engomar” fora de descanso, “ a velha telefonia mal sintonizada”, é uma marcha sanguinária sobre os que nos afrontaram em Mazagão, as cores saltitam ao iluminar o palco instalado no Teatrão. A primeira data da digressão “Uma Inocente Inclinação para o Mal”, d` A Naifa que rasga o teu “pequeno retrato”, onde se inserem os portugueses. Fomos “o povo de marinheiros”, que um dia vestiu as Naus de cravos benzidas na chegada com as especiarias, tecidos, animais exóticos, proventos do nosso tectónico feito. Abandonam o palco e a cantora questiona-se: “porque tenho eu arranhões se os meus gatos são tão meigos?”, a guitarra portuguesa acompanha-a e insere-se como um eco de uma ambivalência portuguesa. “Quero ser amada só por mim e não por andar enfeitada”, como as senhoritas que dessacralizamos em cada invasão, mães e filhas, avós e netas. Numa desfolhada estética, que imortalizou o panteão do omnipresente, criou uma distante Belém fora da Palestina, o erigir do mito lusitano.

“Uma Inocente Inclinação Para o Mal”, A Naifa, Teatrão (Coimbra/Museu dos Transportes), 3 de Abril