Wednesday, May 13, 2009

One Night Stand

A noite está cálida, as luzes de Aveiro iluminam a ria que é uma piscina de canais de corpo de serpente, a maresia estagna-se no ar e em cada rua há um cartaz: Rui Reininho & A Companhia das Índias. É a estrela do Norte que ilumina o centro do palco do Teatro Aveirense, veste prateado e sapatos pretos de baile de finalistas, a melena cinzenta e o rosto magro e sem rugas não contam nenhuma novela do Paulo Coelho ou de outro farsista qualquer, é a luz, é o Rei. “Ryders on the Storm” dos Doors, surge em regime de síncope circular com os instrumentos a mimetizarem o original, não numa de monge copista, antes de chacota soturna e envolvente, a tensão instala-se, e onde era L.A, agora é Ribeira. “Tank you very mouch”, “pobre flor no terramoto”, é reposto tepidamente ao ritmo de uma frequência breve, “peito aberto”, do naturalismo a lírica é transposta para a metáfora, que nos esconde a eminência da interrupção, “sem ninguém”, “S”, “O”, “S”, o suspiro que é um alerta que não obterá resposta. “Eu um homem de AVeiro, eu um homem de MAtosinhos. É assim que se fala na capital do Império, não sei se sabiam?”. O hino punk, “Anarcky in the U.K”, é mutilado na essência, uma bala para os ouvidos das burguesas que enchem a sala, “my name is anarchy”, ao ritmo de um metrónomo electrónico, com solo de teclado, Sex Pistols num transatlântico construído para voar embriagado. “Socorremo-nos de um clássico como ´Morremos a Rir´”, a canção pró-imigração, que enobrece a ironia e retira as fronteiras que nos separam de mulheres exóticas: “Vamos todos a Paris se o esperma o permitir”. O blues electrónico do “Caso Estranho do Amante Preguiçoso”, que nos convida a conhecer a capital, “cheiras bem? Então vem, então vem, vem até Lisboa”, “Cheiras bem? Ganhas mal? Então vem até Lisboa”, Reininho revela (pontualmente) desconcentração e algum desacerto. “Estamos perto de Fátima, tanta gente com as velas…”, sussurra num assomo de respeito, mas em simultâneo enaltece o ridículo da celebração, que tem esta madrugada o seu clímax. “Faz parte do meu show meu amooor, amooor”, é o tropicalismo que já pontuava o Psicopátria, assinado pelo famigerado Cazuza, e com arranjo de sax que o Reininho imita, “meu amor”, sax-voz, “meu amor”, sax-voz, “meu amor”, “meu amor”. Relembra os dias de saudade “da Vagueira” uma praia que serve Aveiro no Verão, e ao Rei falha a memória: “ Esta música chama-se…”, “o John Lennon, ahhaha”. O minimalismo de “Yoko Mono” é delineado perfeitamente pela banda de quatro músicos, mas o criador e artista, perde metade do andamento e quando segura a Yoko, não é tarde de mais, mas já é tardiamente, “há um médico na sala?”. As palmas acompanham o tema das arábias, que transpira a deserto riscado por tuaregues enrolados em lençóis de cetim e hálito de haxixe mascado “fakir, aqui e mais além”, Reininho pontua-a com campainhas que tilintam compassadamente, criando um vácuo por onde desaparece o Emir para se deitar com o seu sequito de cativas. “Bem Bom” das Doce é massajado pelo cravo, mas para além deste apontamento, não é melhor ou pior que o original, “não sei se repararam mas depois vieram os Abba e copiaram, ahhahah”. “Esta música é tão difícil, tentei toca-la quando era pequenino e não consegui”, pausa, “vou precisar da vossa ajuda nos lá, lá, lá, lás”, pausa, “I Will Rock You”, a banda inicia os míticos acordes de “Space Oddity” de David Bowie e o Rei “goza” como diriam as brasileiras: “Enganei-me!”. “Do you really make the Play?”, numa toada fadista, “stars, are very diferent today”, com solo de teclado a sujar os acordes crescentes que transpõe a primeira parte da canção para a segunda quando a nave de Major Tom se despede ciberneticamente da mulher e os reactores afirmam “she nows”, na canção há dois narradores um é o Major Tom o outro clama por Major Tom: “Can you hear me Major Tom?, Can you Hear me Major Tom?”, a resposta é um vácuo onde cada um deve preencher com imaginação, abstraindo-se da angustia da interpretação de Reininho. “Dr. Optimista” é apresentado sem mácula, “então vá!”, “Sável da treta!”, “até pelos olhos!”. “Heart Break Hotel”, cantado à capella, e apoiado subsequentemente pelo baixo, de seguida juntam-se as teclas e por fim a bateria, compõe o resto do retrato, “I feel so lonely, I could die”, “I could die”, é o slow do Rei, abafado num ritmo ao qual lhe retiraram a ansiedade do original e colocaram uma mascara trip-pop. “Esta é uma música que nos acompanha desde a primeira hora”, “Sympathy for the Devil” de Jagger/Richards, é uma bomba de um erotismo sublime, de tão equilibrada, ao se acercar de uma vertente disco-sound que lhe parecia alérgica, mesmo assim é perfeita, “do You Now my name?”, com o jogo de luzes vermelhas, “Who killed the Kennedys?”, “Pleased to meet you”, geme, “UooUUooUUUooUU”, “ I guess you know my name?” UoouuUUooUUUooUU. Os Clash irrompem numa frequência neo-kitsch, “all my corazon”, “all my corazon”, “te quiero all my corazon”, a música versa sobre a guerra civil espanhola na qual venceram os que destruíram La Guernica.

Rui Reininho & A Companhia das Índias, 12 de Março, Teatro Aveirense.