Thursday, September 3, 2009

Pintura e Poesia

Henri Fantin-Latour (1836-1904) foi um artista plástico que tinha um domínio profundo sobre a poética romântica. Era esta a raiz do seu trabalho, que se dividia em três temáticas: o lirismo suportado na música clássica, a natureza-morta, e o retrato. O primeiro ponto, é realizado através da inspiração proporcionada pela Ópera, em que a técnica aplicada é de pinceladas individuais policromáticas, a intenção é transpor cenas lúdicas, em que as figuras surgem esotericamente. A natureza-morta é levada ao extremo da delicadeza que o pormenor permite, são pequenas composições de um realismo desarmante, pela sua representação de um género que tinha tanto de académico quanto de obrigatório a qualquer artista do século XIX. No retrato, Fantin-Latour, excedia-se através de figuras de corpo inteiro, ou, de meio corpo, sentadas ao piano ou a ler, os fundos— tal como na natureza-morta— são meios-tons invariavelmente pardos, as figuras sobressaem, e a perspectiva criada é a partir destas por contra-posição do fundo. É neste capítulo que Fantin-Latour se transcende ao representar o exterior dos seus familiares e amigos como Baudelaire, mas simultaneamente incute-lhes uma gestualidade “invisível”, quase passiva, estática, mas que obriga o olhar a incidir e a tentar perscrutar o seu carácter.
No catálogo consignado à exposição da Fundação Calouste Gulbenkian e que será também publicado no Museo Thysen-Borneisza, para onde seguirá a mostra. Eduardo Lourenço intitula a sua dissertação de “Pintura e Melancolia”, e inicia a sua tese da seguinte forma: “Diz-se do génio que é como os anjos, uma espécie num só individuo. Pelo menos foi assim que o Romantismo o teorizou e o mitificou. Só na nossa memória como pura legenda os génios vão aos pares para a Arca de Noé. Nos meados do século XIX, Baudelaire, num poema famoso, dedicou aos génios da pintura ocidental um retábulo mítico onde a sua visão romântica do génio inventa a genealogia da própria Modernidade. Baudelaire desce ao limbo da aventura pictural menos para resgatar quem o não precisa—de Rubens a Delacroix—que para assinalar à pintura mesma o estatuto sublime por excelência.
O reservado Fantin-Latour não figura nesse cânone poético destinado a influenciar o discurso estético desde Élie Faure a André Malraux. Nem pela idade, nem pelo estatuto discreto, o futuro autor de Le Coin de Table podia pretender aos olhos do poeta de As Flores do Mal essa consagração. O seu lugar na cena pictural da sua época e na sempre viva memória dela que ainda conservamos, é mais modesto. Quase frisa o apagamento. Como se tivesse escolhido adoçar a luz ofuscante do génio, segundo Baudelaire, semelhante à dos “´faróis`” que aclaram por intermitência a vaga sinistra que de “´idade em idade vem morrer à beira da eternidade`”.

Henri Fantin-Latour (1836-1904), Fundação Calouste Gulbenkian, 02 de Setembro. Patente de 26 de Junho- 6 de Setembro.