Tuesday, September 28, 2010

Contra Mundum

O intro que assinala a entrada dos Pop Dell `Arte no palco do Teatro Aveirense é tribal, as luzes estão estáticas. As palmas eclodem quando surge o colectivo de João Peste e José Pedro Moura, o primeiro encontra-se magro, veste jeans e uma camisa branca, gravata vermelha e um casaco de marinheiro errante. As primeiras canções versam sonoramente o universo de Brech/Kurt Weil, acentuadas pela vocalização grave e a expressão corporal do cantor é mínima: encontra-se sentado num banco alto e levanta os braços acima da cabeça e deixa-os estáticos enquanto é fotografado pelos fãs. O terceiro tema é um slow circular, a voz de Peste assinala palavras-chave: “real”, “I`m a ancient tunel”, “man”, “friend”, a tragédia: “end of times”, com solo do baixo de José Pedro Moura. O ritmo africano resurge em regime de break beat, “I´m sorry, Mr. Worry”, “Mr. Guilty”. João Peste canta por vezes como se fosse um relógio ao qual é necessário dar corda, a questão é: em que tempo é que ele se encontra? “You are my real life”, “life”, retorna a atoada de cabaret visitado por marinheiros à procura de marinheiros que fumam liamba antes de atracar em terra firme. A incursão pela década de oitenta é perceptivel através do uso da guitarra, oferendo à canção uma perspectiva naive, “não sei”, “não sei o que fazer de mim”, “não sei o que viver”, “ainda tenho um sonho ou dois”, “não sei como viver sem ti”, “não quero mais sofrer”, “não sei como chegar ao fim”, a voz é grave e dissonante que impesta a canção numa pop esquisita, a banda faz uma pausa e Peste continua numa deambulação que espanta o auditório: “é triste viver de iluções”, “recordar é viver”, “sim eu sei”, os acordes da guitarra reintroduzem a canção, “estou preso neste elevador”, “ainda tenho um sonho ou dois”. O electro-afro-kitsh surge, mas a equação é árida e o chamamento é longínquo, “telhados desertos”, “ao longe oiço os passos de um marinheiro louco”. A bateria perde acidentalmente o pedal do bombo, o que obriga a uma pausa prolongada. Peste improvisa à capela: “a tua sombra abraçou-me, implorou-me”, “numa noite de chuva em Campo de Ourique”, “beijou-me, implorou-me que a minha sombra e a tua fosse só uma nessa noite de chuva em Campo de Ourique”. Palmas. “Godnight”, é delicado, fantasmagorico, pontuado por um coro de crianças, que se despedem antes de se irem deitar. “I`m a slave”, “S. Fancisco”, o baixo é quem domina o groove e o distribui pelos colegas, numa vertente blues, mas dark, “EEEEEEE”, a onomatopeia pontua-a, “I `m a slave”, “DTURUURURUUU”, “S. Francisco”. Os violinos apresentam melodicamente, a tragédia “I don´t want to see you”, o baixo elimina as cordas, “URSURURUSURRUR”; “OOOOOO”, “teus sonhos não têm coração”, “sedução”, “eu apenas sou uma mentira”, “LARAIRARARAIRARA”, “passa os dias à frente do espelho”, “quando me venho na tua boca”, “abraça-me lentamente”, “ATARATATRA”. Peste ri fantasmagoricamente, adensando o nível de ironia das suas palavras enquanto coloca os dedos longos sobre o rosto. “Aveiro foi um dos primeiros locais onde tocamos em 1985, foi a nossa primeira incursão pelo Norte. Depois tivemos o famoso concerto nas Catacumbas”. “XX Century Boy” de Marc Bolan, marco do glam rock inglês é distorcido até ao limite permitido por lei, sendo que esta (LEI) foi esquartejada ao longo de vinte e cinco anos à procura de uma quimera que teima em zarpar sempre que os Pop Dell`Arte a pretendem alcançar.

Contra Mundum, Pop Dell`Arte, 25 de Setembro, Teatro Aveirense @ Aveiro