Monday, April 18, 2011

The Gift of Death

O piano de cauda preta está colocado sobre a boca de cena do palco do Teatro José Lúcio da Silva em Leiria. Diamanda Galás entra pela direita alta, tem uma estatura baixa, cabelos negros compridos até aos ombros, os aplausos eclodem. Quem está sentado na primeira fila, do lado direito do palco, como é o meu caso, apenas vê um quarto do rosto de Galás, o piano deveria encontrar-se no centro do palco, para melhor usufruir da sua performance. Os fotógrafos aglomeram-se próximo do local onde Galás se senta para cantar. O piano é dedilhado em sequências não lineares de agudos e graves, uma nuvem de fumo é insuflada sobre o palco, projectando um nevoeiro azul escuro, os graves impõe-se, a voz é um grito contínuo e decadente, e o cântico de uma sereia que suga a alma aos marinheiros que se enamoraram indevidamente por uma promessa celestial. “AAEIEEAEAEAAA”, “EAEAEEEEEEE”, “Not believe OOOOOO”, “IOOOOOOO”, “IOOOOOOOE”, “AEEEAAAAAAA ”, “OOOOOOO”, “OOOOOO”. Galás faz uma pequena pausa no seu chamamento, e educadamente tenta repelir os fotógrafos: “Allez!”. Aplausos. Contudo, os intrusos continuam a disparar as suas máquinas, sem flash, sobre o rosto da cantora nova iorquina. “AAAAA”, “OOOOOOOO”, “BUAAAAAAAA”, “AAAAAAA.” Galás, perde a compostura, levanta-se do banco do piano, as suas botas de cabedal preto com salto alto dão um passo em direcção aos fotógrafos, aponta com as sua mão direita de unhas longas sobre os prevaricadores: “OK! Fuck OFF! OUT!”, estes desaparecem. Aplausos. “OOOOOOOOO”, “AAAAAAAAAA”. No final deste tema Galás desculpa-se, “llo prefiero escutar a música, quando canto, no me gusta las maquinas”, a sua voz é incisivamente suave, afasta-se do dramatismo do canto que se aproxima das entranhas dos seres vivos vítimas de um parasita, que os encaminha para um fim premeditado. Uma brisa mediterrânica invade este lugar, impõem-se os agudos: “Tengo que subir al puerto AAAAA”, “Aunque vengas, vivo o muerto”, “me espera”, “AAAAI”, “se van las mas hermosas”, “AIAIAI AMOR”, “AAAAAAAAA”, “puerto”, “la guerra”, “puerto”, muito suavemente “me quiera”, “la niña que tengo”, “la nieve”, “ai amor”, o slow tem um ritmo dois por dois que lhe confere um trágico travo a kitsch. O início do terceiro tema é construído a partir da métrica da música contemporânea, onde imperam os graves que gradualmente se deixam invadir pelos agudos, a sua voz é um continuo choro de quem vê o seu amor engolido pela garganta da tempestade, o vento cria braços de ondas que em remoinho levam o grito para o interior do inferno.”EEEEEE”, os acordes de música clássica aparentemente servem para dar esperança ao afogado, que as correntes o puxam pelo pé para o fundo, grave “EEEEE”, falseto “OOOOOOOOOOOOOOOOO”, agudo/vibrato “EEeEEEeEeE”, voz infantil e distorcida “AAAAAAAAA”, “AAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAA”, “belong”, em remoinho “OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO”, distorção, loucura, demência cancerígena, “you don` t know!”, “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA”, voz infantil “feel”, falseto “EEEEEE”, “OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOAAAAAAAAEEEEAAAAA, “OOOAAAA”, em eco, grave e distorcido “OOOOOOOOOOOOOOOO”, “How, How”, “How, Haw”, “How, AAAOOO”, “OOAA”, fim seco. A quarta canção é um tema flamenco, isto é, transforma o estereótipo numa luta desigual entre o touro e o homem, o irracional tem a força nos cornos e estes servem para perfurar a carne do homem que se sacrifica em nome da morte. “EEAAEE”, “finale”,”EEEEEUAAAAAMAMA”, “AAA”, grave “AMOR”, “diz-me”, “finale”, “A TI”, “AAAA”, “EAOOO”, “AAAAA”. Na quinta canção a escala sobe e os graves sobrepõem-se continuamente, quando a escala desce, surgem os agudos mas são tão tímidos que o instante fá-los desaparecer: “Dans le port d`Amesterdam”, é transcrito numa lógica dramatica-irónica, a sua voz tem um trinado que parece o de um homem a cambalear por uma rua repleta de bares de mala muerte, na Ilha de Malta. “Dans le port d `Amesterdam”, e se no original a canção ganha dramatismo sensivelmente a meio, Galás apenas aumenta uma oitava e a sua voz mantém-se imperturbável a narrar a vida de um marinheiro que se faz ao mar a sonhar com as putas do porto, que lhe são mais carinhosas do que a mulher infiel. “Dans le port d`Amesterdam, il y a des marins”, “dans le port d`Amesterdam, il y a des”, os graves espalham-se sobre o piano como se fossem trepadeiras com espinhos, o sangue pinga ao ritmo descontínuo imposto pela ilógica: “plus”, black-blues, “danse”, o ritmo acelera, gargalhada“AAHAAA”, suave “mort”, “sante”, “putains d`Amesterdam”, “bien bú”, “pisser comme je pleure sur leur femme infidel”. O sexto tema tem o ritmo básico de dois por dois, mas os acordes são obviamente blues, “Oh! YEAH” é cuspido quatro vezes, “OH! YeahyeahyeahyeahyeahyeahyeahyeahAAAAA”, “Oh! Yeahyeahyeahyeahyeah”, “AAAAAAAAAAHAHHAHAH”, “YEAH”, “I can see”, a intensidade aumenta e deflagra chamas nos campos de algodão do Missisipi, “you wait to call me”, canta sequencialmente “you can talk”, “I can do” é repetido dez vezes. Os agudos estridentes surgem e imolam-se: “AAAAAA”“OOOOOOOOO”, “OOOOOOOO YEAHH”. Gritos: “OHYEAHOHYEAHOYEAHOYEAH”. Grito longo e comprido vertido da boca de um cadáver: “OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO”. Distorção vocal: “AAAAAAAAAAAAA”, “EEEEEEEEEEEEEE”. A toada blues regressa, mas somente assumindo-se como uma memória antiga, voz suave e insinuante: “AAAAEAA”, “OOOEE”, “OOOOOOOO”. Insurge-se uma voz do além, mas de uma mártir que faz da sua vida a noite “All night long”, com o piano a contorcer-se de dor. Palmas: “Obrigado”. A sétima canção é iniciada com acordes de música clássica que lentamente transformam-se numa doce opereta, relatada em hebraico, a melodia contrasta com a voz funda e grave, a narrativa é triste e violenta, é a voz de Maria do Egipto que nos pretende receber de braços abertos logo que consigamos atravessar o rio numa barca negra de cartolina queimada. A tempestade é o obstáculo para as nossas almas, “EEEEEEEE”, “EEEEEEEEEEEEEEE”, agudos “OOOOOEAAAAAAAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO”, incendeiam a nossa barca. As três músicas finais traduzem o universo da Segunda Guerra Mundial, ou pelo menos é a indicação do início da primeira: “It`s not your sister”, “me pergunto”, “lonely”. Surge o inferno do Holocausto: “AAAAAAAAAAAOOOOOO” num falseto de boneca que se auto-mutila, “only with poison”, “AAAAAAOOOOO”, gargalhadas: “AHAHAHAHAHA”, “AHHAHAHAHHAHAHA”. O segundo tema é um tratado em francês: “C`est le rêve”, “Je veux chercher”, “pourquoi”, “passer”, “vous”, “trés”, “le rendez-vous”, com um fim de música contemporânea. No terceiro tema, os acordes de música clássica subjugam-se à contemporânea numa progressão aguda que se abandona nas mãos dos graves, o canto é másculo: “No more”, “no more pray”, “no more”, “nothing left”, “and my lover is gone”, “my eyes”, “empty hands”, “I remember the guns”, “just like mine”, a voz sobe a escala como se esta não tivesse um fim imposto pela lógica humana: “My lovers”, “Stop”. Diamanda Galás levanta-se do banco e sai pela esquerda baixa, a multidão aplaude, Galás regressa e coloca-se ao lado do piano e recebe uma ovação. O blues toma de novo posse da sua voz, “I rescue”, “flavour”, “They are two horses”, “Two wild horses”, “two wild horses”, “TwoOOOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUÁÁÁÁÁÁÁÁUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU”, “take”, “Don`t believe”, “lonely, lonely”, “HAAAAAAAAAAAAAAAA”, “OOOOOOOOOOOOOO”, “they never”, piano distorcido, “Have you ever?”, “Have you ever AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA”, “touch me!”. Galás sai enquanto as palmas caem sobre si, ela recolhe-se e regressa, para junto ao piano, levanta os braços paralelamente até ao cimo da cintura e atira a sua energia negra sobre nós. “One”, voz funda, “I wait”, “With flowers in my arms”, “dream”, “like my heart broken”, “the flowers”, “and the hands”, “the grief”, “my heart AAAAAAAAA”, “let`s open”, “When you came to find, I left you behind me”, “me”, “and the window”, “show me”.

The Refugee, Diamanda Galás, 16 de Abril, Teatro José Lúcio da Silva @ Leiria