Saturday, May 16, 2015

Death of a Salesmen

A discoteca States em Coimbra tem como cartaz da noite: “Victor Torpedo” e o seu espectáculo “Karaoke”, que celebra a edição do duplo “Raw”, primeiro trabalho a solo de Victor Torpedo. O músico de Coimbra passeia-se entre os presentes como se fosse mais um conviva, para quem tem no currículo bandas como os Parkinsons ou Tiguana Bibles seria perfeitamente normal que estivesse no camarim a concentrar-se para enfrentar o palco, isto revela uma atitude profundamente punk. Victor Torpedo vai “tocar” dezasseis canções, o “tocar” não é ingénuo pois na verdade as canções serão debitadas de um computador directamente para as colunas da States. O primeiro tema é um instrumental denominado “Congo”, corresponde a uma melodia exótica vinda de África, “stereo”, enquanto Victor Torpedo dança fora do palco. “So dead” abre a porta a uma melodia que advém da cidade de Manchester mas quando na década de noventa foi invadida pelos Stone Roses ou Happy Mondays. A Pop com contornos clássicos melancólicos são devidamente delineados em “Ways to Go”, que encontra Victor Torpedo a cirandar pelo público a cantar: “Sick of myself”; senta-se no palco: “I`m sick of the world”. Antes da quarta canção “About Life”, Victor Torpedo faz a declaração da noite sobre um dos seus heróis de infância: “O B.B King morreu e eu não posso fazer nada”. O que emitem as colunas é uma canção Pop que é preponderantemente low fi, isto oferece-lhe um carácter efectivamente kitcth, os versos versam “pictures of you”; no ecrã passeiam-se descapotáveis em L.A, “you can dream”, ouve-se o feedback do microfone, este som é provocado pela agressão do Victor Torpedo, “like you and me”, retira do bolso do casaco um pente e penteia a poupa Elvis Presley. Antes de “By Me”, Victor Torpedo revela algum desconforto: “Daniel isto está estranho; tá tudo bem por aí?”; o baixo eléctrico é de uma relevância constante, doseado numa frequência próxima à dos Joy Division, no ecrã surge uma manifestação gay com as suas bandeiras coloridas. Victor Torpedo canta: “They are calling for us”; “tonight”; “ride”, finaliza a canção fixando-se no palco como uma estátua que se sente tolhida pela realidade. A sexta canção é “Control”, remete melodicamente para a Pop em que as guitarras dengosas ressoam sobre o baixo grave e assertivo, uma celebração negra que instaura gradualmente uma alegria insuspeita, “take me to a place that I know”; no ecrã surge um rapaz tímido e solitário, “you control me”; “show”; “you control me”. Victor Torpedo agride o microfone que projecta um estardalhaço. O psicadelismo Pop domina “Confessions”, disso são exemplo as guitarras progressivas sobre um ritmo repetitivo, “cry”, algo que obriga à dança, “I`m sick of the world”; “life of lust”. Sobre o seu currículo de galã rockabilly Victor Torpedo é assertivo: “Nos anos oitenta eu e o Pedro papávamos tudo; era diferente nos anos oitenta!”. Na oitava canção “Out of Fasion”, o ritmo dançável mistura-se com um baixo corpulento, “or take your style”, Victor Torpedo encontra-se no meio do público a incitá-lo para que cante, há uma jovem que arrisca: “Fohografa”; Victor Torpedo: “Their`s time”. A nona canção “Beautiful Violence” é dominada por guitarras semi-distorcidas mas remetidas para uma produção low fi: “I`m never alone”; “sad”; “you and me”; “scream”; “love and hate”. A décima canção da madrugada é “I Agree”, que prolonga a vertente low fi decadente da anterior, com as guitarras a pronunciarem-se na vertente Pop.“Only Ghosts” tem um groove repetitivo que se instala em loop. “Meet my Tribe” é alicerçada num beat africano, “tribe”, que tem uma progressão Talking Head, “meet my tribe”; Victor Torpedo encontra-se próximo de uma jovem empunha-lhe o microfone e esta uiva: “AAAAA”. Antes da décima terceira canção “Oh ah Yoush”, Victor Torpedo questiona o público: “Querem mais? Eu toco mais quatro ou cinco, estou-me a cagar!”. A melodia Pop é imposta pelas guitarras eléctricas que se impõem como denominador comum e sobre as quais Victor Torpedo repete: “Oh ah youh”, num dueto absurdo divide o microfone com uma loura que enverga um vestido negro que não lhe encobre o colo bronzeado. Victor Torpedo faz vibrar o público com a sua determinação: “Tenho que cantar mais cinco!”. “Common” é dominada por um twist kitsch, Victor Torpedo empunha o microfone a Carlos Subway que grita: “AUIUI”. Victor Torpedo coloca o micro na boca e exercita o corpo através de flexões ao ritmo do twist, o dueto improvável mantém as suas coordenadas no grito latino: “UUU”; Victor Torpedo: “Common”; Carlos Subway: “AIAU”. Victor Torpedo repentinamente despe a camisa, “uuu”, atira-se novamente ao chão para completar as flexões; Carlos Subway: “AIAI”. Victor Torpedo em pé coloca o microfone sobre o coração como se estivesse perante um pelotão de fuzilamento. Antes da penúltima canção “Dawn of the Day”, Victor Torpedo veste o blazer escuro sobre o tronco nu, a Pop é orientada pelo baixo eléctrico a partir do qual flui a melodia low fi, no ecrã surgem militares a marchar, a bandeira dos Estados Unidos dança ao sabor do vento quente. “Bring your poison”. Por fim Victor Torpedo comunica: “Toco mais quatro?”; dedica, “Il est dejá Trop Tard” ao “B.B King que morreu hoje”. Composta por um ritmo dançável a partir do qual emerge o blues com origem nas alucinações de Tom Waits. Victor Torpedo de tronco nu: “Il est dejá trop tard”, é correspondido pela loura de decote que o perseguiu durante a apresentação de “Raw” na States. Victor Torpedo é taxativo quanto aos seus intentos de incansável crooner: “Vou tocar mais quatro, e vocês vão para o caralho!”. Repete: “So dead”. E finalmente assume: “Não sei se está é a última” e “queria dedicar esta canção ao Pedro Antunes e ao Chau e ao Carlos Dias [Subway]”.

Victor Torpedo, “Raw”, 15 de Maio, States @ Coimbra