Saturday, May 28, 2016

Sobre os Espelhos e Outros Ensaios

Sobem ao palco do Salão Brazil os GQA, constituídos por André Quaresma e Alexandre Valinho Gigas (Gigas), este segura o microfone através do qual comunica: “Boa noite; obrigado por terem vindo ao Salão Brazil”, para presenciar o evento denominado: “Sons da Palavra”. André Quaresma manipula uma turn table que se expressa digitalmente; o Gigas lê: “Vou continuar”, “é preciso dizer palavra”, “enquanto houver é preciso dize-la”, palavra, “vai ser o silêncio”, “silêncio”, “ali onde estás”. “Não posso continuar”. O sons synths ecoam intensamente. “Silêncio não se sabe nada”. “Vou”, sopra para o microfone, “que eu gritasse” . “De um deles de repente”. “Durante a sua existência mais forte”. “Pois o belo não manda mais porque não é mais do que o começo do terrível”. A vertente synth intromete-se na narrativa do Gigas, “ todo o anjo é terrível/Todo o anjo é terrível”; “todo o anjo é belo”, introduz-se o solo de uma guitarra sintetizada que encerra o poema. O André Quaresma troca de lugar com o Gigas; o pano sonoro corresponde a ondas dobrarem-se sobre uma praia invernosa. O André Quaresma diz os versos como se fosse um MC intelectual, “estas cicatrizes frescas todas as manhãs”. “Sou Augusto”, “luz diurna”; a tempestade sythn enuncia-se; “cada vez mais apertadas”, “sinceramente verdadeiramente nossa”, “assim vivemos”, “cabeça nas paredes” de papel florido. O apartheid rural: “Quem gosta de folclore não vem para a cidade”, “gente que nunca escreveu uma linha” nem tão pouco a snifou. O êxodo rural para as cidades impôs-se “à sociedade através de uma atitude ameaçadora”; o MC não consegue transmitir o escárnio que tais figuras lhes provocam, e redunda na comparação: “Como padrões para a vida”. “Amor”. “Não importa”, a sua voz não testemunha qualquer dor. “Não importa”. “De homem para homem”. “Arrumamos os lábios”. “Navalha aos olhos”. A tempestade aumenta de intensidade, e enquanto se dirige para a sua musa é incapaz de revelar o seu rosto aos presentes, “nem desespero que a minha liberdade”. “Excepto tu meu amor”. “Criança”. “Dois anos neste século”, fruto do “meu próprio fluxo”; esperma; “os vivos e os mortos”, “anos e anos ficarão por contar”. A introdução musical do próximo tema fica a cargo de André Quaresma, insere um ritmo denso que gradualmente se agudiza, surgem violinos e um grito de uma figura ausente. Gigas esclarece que é o “grito dos outros”. “As latitudes democratizaram o absurdo”; ouve-se um segundo grito; “as derradeiras guerras”, “tens que aguentar”, “realidade”, “agente”, “dos gatos”. “Um doce quente”, “lugares vagos para sempre”, “as luzes fluorescentes da noite”, e nas ruas “cantar a morte outra vez”. “Outra vez o balanço das cores” que representam “a humanidade sangrenta das melodias”. Gigas tenta libertar-se do: “Fim”. “Fim”. “Fim”. “Fim”. “É continuar”. “Fim”. Eclode um terceiro grito e de seguida ouve-se um timbre de um idoso; “fim”. “Fim”. “Morto no mar”. “AHAHHAH”. “Morto”. Estrebucha: “Fim”. “Fim”. “Fim”. O poema seguinte tem por inicio acordes jazz, que faz dançar no túmulo um ser “que não estava morto”, mas que “nunca viveu”, tão pouco “viu a causa”, imperativamente “morreu à beira da causa”, “na alta, na baixa, no meio”. “Ocupado a aperfeiçoar”. “Ocupado a aperfeiçoar”. “Sem discurso”. Inevitavelmente “à procura da causa”; prepara o caldo que é sugado por uma agulha hipodérmica, enlaça o garrote à veia do braço e injecta-se; posteriormente é “encontrado nos subúrbios de uma OD”. Será que “morreu cego, surdo e mudo?”. “Ele era a causa”. A música são uns seixos a roçarem um no outro e assinalam que Gigas vai relatar mais um poema: “A noite”, “tudo é negro, vermelho por dentro”, “as línguas rentes”, “tudo envolve os vermelhos dentro”. “A noite era vermelha”. “OOOO”. A introdução de um ritmo marcial enuncia a mudança de poesia; Gigas num lamento: “Yes you are”. “Ave-maria”, (“laços de divindade”), instalada em “vãos que são penhascos”, iluminada pela “luz dos logradouros”, “aquecem os corpos”, “uma ideia de naufrágio”, “da mesma raça”. “Emanam os pés que se desprendem da mesma rua”. “Um silêncio eterno”. “Respirar”. “Inteiro”. “Mortal”. “Como tudo o que importa”. “Então sou um rio sem medo da morte”. “Ave-maria”. É a vez de André Quaresma segurar o microfone e o Gigas lança um som sustenido digital. O Outono parece enquadrar a descrição: “Silencioso”. “Passam os carros”. A monotonia acicata-lhe “a vontade de fugir”; mas subitamente cai em si e procura a sua figura no espelho: “Errei, errei”. Reflecte sobre o seu rosto: “Nada disto é a minha vida”. A moldura sonora é crescente e sublinha a aversão do narrador pelo “dinheiro”, e como um peregrino desprovido de ganância sobre os bens materiais percorre “a simplicidade dos caminhos”. Desanimado não se encontra no reflexo: “Ao fim da tarde ficou tudo igual”, “ficou tudo igual”, na prisão perpétua, “na província”.

Sobe ao palco o Flak, senta-se e coloca sobre as pernas uma guitarra eléctrica ligada a pedais e a um Mac; introduz acordes pontuais e espaçados com delay, alterna as notas agudas com as graves. Fim. O músico introduz uma textura esotérica sobre a qual declama Tiago Gomes: “Mil saxofones infiltram-se na cidade”, acompanhados por “cem contrabaixos”, “quinhentos”, “avançando”, seguem “cinco generais congregados na galeria”, que levantam o braço aos soldados e sinalizam que “agora é a hora!”, do “ataque!”. A guitarra de Flak agudiza a perspectiva sobre o passado e revela um outro tempo indeterminado: “Vem noite antiquíssima”, “noite com as estrelas, lantejoulas rápidas”. “Saline”. “Para as árvores próximas”, e “apaga todas as diferenças de longe”, “e deixa lá uma vez”, “vagamente perturbadora”. “Noite reunida”, “no teu vestido trajado de infinito”. “Talvez porque a alma é grande o corpo pequeno”. “Noite dolorosa”, a “sabor de água”, “vem lá do fundo”, “intestinal”, “vem sobre os mares, vêm horizontes precisos”, “vem noite silenciosa e estática”, “(tranquilamente)”,“vem cidade maternal”. “Ficava”. “Porque tudo é falso…”. O segundo poema tem como princípio a guitarra de Flak, que é um elemento omnipresente que lentamente ganha uma estética que está relacionada com a rotina: “São horas de ir para casa fazer o jantar”, “e continuar a caminhar”, por entre “jornais, gravatas”, “pelo homem pela mulher”, “e os seus apressados movimentos pelas avenidas”; a guitarra é exuberante nas tonalidades do fado pop. Tiago Gomes dirige-se directamente ao público: “É um prazer estar aqui”, apresenta o terceiro poema, “Sweet Dada”. A guitarra manipulada por Flak em loop parece uma onda sonora, ouve-se o canto de baleias, “if it is a moustache”, “true”, “cute”, “general”. “Snakes”, “out of the envelope”, que dão lugar a um ritmo synth, “wings”; a guitarra transpõe o espectro tonal das baleias dentadas. “A supermarket”, “like a butterfly”, “true”, “everyone”, sobrepõe-se o ritmo synth, “moment”, “such a beattyful day”. “Eleonora”. A base sonora é tão envolvente quanto sedutora, “bizarre”, que gradualmente se aproxima de uma complexidade sonora épica, “bizarro”, “musicians”, “flowers”, “fingers”, “living is a lifestyle”. O quarto poema tem como preponderância a guitarra blues jazz-pop do Flak; sola sobre um loop lento, “newspaper”, “satellite”, “a canção do simplista”, com a guitarra a escalar a escala numa profusão de solos introvertidos. O quinto poema é “a história de um guitarrista que faz amor com uma guitarra”: É “ligeiramente explícita”. Flak maneja “a capacidade da guitarra e transmite ilusão”, “pelas ondas sonoras do seu grito”. A personagem snifa “um pouco de coca”, ao medir erradamente o perímetro circundante “cai sobre a guitarra”. É de madrugada: “Lá fora os camiões do lixo trituram o lixo”; a guitarra sola luminosamente; que é como os gemidos “de uma mulher”, “um broche”. “Yardbirds”. Sente-se anestesiado “não sinto bem os dedos”, levanta-se, “estava-se bem no chão”. “Brecht sabia que tinha talento”. “Na lírica dos seus discos antigos”. “Voguem”, “não tem importância”. O narrador olha para o corpo da personagem: “A coisa começou a inchar”, “cresceu”, mas “ele estava tão cansado” e como tal “não lhe apetecia foder”; a guitarra geme agudamente, “Jimi Hendrix”; “cona”, e “ferrou as cordas”, “como se estivesse a foder uma vagina a valer”; a guitarra de Flak inscreve-se no rock; “em cada esfregadela fazia a guitarra gemer”, e a “guitarra parecia gostar”; a guitarra entra em processo orgástico; “mordiscou-lhe as cordas”; e “no momento em que se vinha um choque eléctrico percorre” a sua coluna e “vêm-se no cimo da guitarra”, e o coito “terminou”; solo blues de Flak; “deitou-se de costas”, e “depois desatou a rir”. Tiago Gomes elogia o público: “Vocês aguentaram bem; já vi que é pessoal com a guitarra no sítio”; chama ao palco a dupla a Jigsaw, o Jorri senta-se ao piano e o João Rui tem a guitarra acústica ligada à corrente. Tiago Gomes informa: “Ensaiamos hoje à tarde”, e acrescenta que o próximo tema reporta ao “´Pela Estrada Fora`” do genial “Jack Kerouac”. Os três músicos instauram uma métrica lenta em crescendo, “Terry e eu olhamos as estrelas”, mas o tempo decorria à solta, “mañana era sempre mañana”, que seguiriam para o “paraíso”, tenta numa “cabine de um hotel” telefonar aos pais. Segue numa caixa aberta de um “ruidoso camião”, e embebeda-se acompanhado por marginais, “homem, homem, eu quase morri”; a música marca o compasso de um blues de cores negras; a viagem passa por “buracos”, “rios”. A certeza que o faz seguir viagem: “Mañana tudo estará bem”. Olha à sua volta e surpreende-se, “estamos em New York”; é mentira: “Bullshit!”. Acena para “os nossos amores pessoais”. “Planos de trabalhos específicos”. “Planos de trabalhos específicos”. “Planos de trabalhos específicos”. A música continua consignada ao blues negro porém carregada de um dramatismo crescente; na caixa aberta: “Terry e eu olhamos para as estrelas e beijamo-nos”. “Roda”. “Anywhere”. “I want to be…” na tua “mind”; Flak sola num lampejo de raios soalheiros a despedirem-se da Primavera: “I want to see the Niagara Falls”. “Trucks”. “Dust”. “Highways”; a canção intensifica o seu pendor lúgubre; “Palm trees”. “Moons”. “Burn”. “Cross the stars”. “My friend” Terry. “Weird tatoos, oceans of blood”, “today a little bit confused”; o Jorri repete as notas graves no piano oferecendo à narrativa uma tonalidade fatalista. “Road”, “empty sky”, “all in drugs”, “same kind of drug”, “I don`t need cocaine high”. A música cria um quadro do deserto Joshua Tree, com destaque para o poder sónico da guitarra de Flak, “addiction to move”, “like yelow light”, “is the beginning of a great invention”, “cities and planes”; há um crescendo por parte dos músicos numa métrica progressiva; “keep on moving”.“Sacramento”. “Ohio”, “cowboy song”. Tiago Gomes canta: “Dying”; a massa sonora é dramaticamente progressiva e sustenida; o Jorri com a mão esquerda toca nas teclas do piano e com a restante nas suas cordas sublinhando o seu carácter trágico. “I love creation”, “sun”, “easy”; canta, “burn me now”, enquadrando-se nos acordes negros; Flak sola umas notas western, “burn me now”.

Sons da Palavra: Flak e Tiago Gomes + GQA, 27 de Maio, Salão Brazil