Sunday, July 24, 2016

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A muralha do castelo Wood Rock tem uma reentrância que dá acesso a um recinto dotado de agentes do consumo. Os focos iluminam o alcatrão e as colunas do palco emitem música gravada; para uma adolescente grávida o tempo decorreria tão lentamente que parecer-lhe-ia que jamais passaria. “Nós somos os Big Red Panda e é um prazer estar aqui hoje”. Produzem um composto heterogéneo de canção para canção, e inevitavelmente ressalta a fragilidade na exploração das variações do hard rock. “Estamos só a relembrar a quem está a chegar que somos os Big Red Panda”. O vazio circunda o espaço e inevitavelmente o vento frio toma conta das luzes que anulam a noite. No palco estão três rapazes que se apelidam de 10000 Russos, ditam uma onda de contínua distorção eivada por uma bateria de onde o baterista ecoa uns termos imperceptíveis, pronunciam uma hipnose de salutar com origem num stone/space rock, que delega desalento e beleza. Estão permanente alheados do público como se este fosse somente um elemento passivo; deixam para trás a guitarra e o baixo eléctrico sobre o chão a reverberarem por mais. Os terceiros convidados do Wood Rock são os Dollar Llama que produzem um metal metaleiro, o cantor tem uma postura de front man habituado a lidar com multidões, mesmo que estas tenham origem na sua imaginação: “Cheguem-se à frente; isto é um festival! People façam barulho!”. “Façam barulho caralho!”, nem da praia se ouvem as ondas que banham a praia de Quiaios; deliberam um mix de heavy metal que segue os cânones estipulados na segunda metade do século passado, mas muito eficaz dada a sua fluidez tóxica: “Viemos kikar à séria”, e antes de debitarem as últimas canções informam: “People duas músicas em tempo record”. Dançam à frente do palco duas virgens com barba e o público abana a cabeça e impera uma desordem controlada: “Vamos lá ver essas palmas caralho!”. Sobe ao palco uma mulher que se atira para os braços de uma pequena multidão. “Pessoal para nós dar um concerto é um prazer do caralho!”. O colectivo que se segue são os Switchense e uma voz apresenta-se através do microfone: “Boa noite malta!”; “está-se bem caralho?”, estão encantados por estar a tocar no festival, mas fazem uma proposta irrecusável: “Vamos até ao Woodstock viajar até 1969?”. As canções derivam do punk-hard- (core) e esta moldura cristaliza-os no tempo, “caralho! Até parecemos profissionais e somos!”. Por vezes surge no palco um quarto elemento que se encarrega dos coros; atira-se de costas para o público; que é convidado a “abanar a cabeça”. O cantor confidência: “Fazemos para o ano 15 anos que andamos a patinar…. a patinar não… a fazer amigos…” e é um orgulho… “ao fim de 15 anos vir ao Wood Rock”. Anuncia o novo disco “Flesh and Bone” que se pode conhecer através da “net”; e derradeiramente informa que a próxima canção dura “menos de um minuto” tem “49 segundos vai ser calminha!”. Despede-se a suar de alegria: “Foi do caralho!”. O compasso de espera pelos madrilenos El Paramo, é colmatado a subtrair as pétalas de um malmequer perdido em redor de uma árvore com uma cúpula frondosa. El Paramo apresentam um musical em que estilizam o rock, pop, o rock progressivo, o blues, e por vezes sobredimensionam-se quando se aproximam de uma estrutura jazz, executado com uma consanguinidade divinamente latina. O guitarrista fala através de um microfone instalado na guitarra eléctrica: “Muito obrigado a todos por estar aqui”. Os Plus Ultra têm a honra de encerrar a primeira noite no Wood Rock, as suas canções são predominantemente hard-(punk)- rock, mas as escassas soluções transformam a actuação em algo monótono de tão rotineiro, é certo que há raiva no canto e que por vezes se afastam da mediocridade mas não é suficiente: “Vai para o caralho! Vai toda a gente para o caralho!”.

Nas ameias do castelo Wood Rock há hippies com monóculos apontados para o palco onde os Soleil Noir tocam canções cinéticas, projectam paisagens abstractas e ou concretas, remetem para um universo em vão, tudo é em vão, consequentemente permitem aflorar na consciência a mortalidade e a dor não é vã. Épico. Seguidamente é a vez dos “Miura da Figueira [da Foz]”, deste quinteto destaca-se uma secção rítmica poderosa; é o baixo que institui a melodia que é exacerbada pelas guitarras rock; o cantor assume-se um mestre-de-cerimónias que procura constantemente o élan com o público: “Pessoal estão a gostar ou não?”. Este usa dois microfones em frequências diferenciadas que alterna durante as canções incutindo-lhes profundidade; que gradualmente ganham uma tonalidade hard-rock com laivos de nu-metal. A terceira banda a arriscar o palco do Wood Rock são os The Grand Astoria, que canção após canção decalcam o hard rock da década de setenta do século passado, e os figurinos dos músicos vão de encontro a esta época, mas contrariamente aos seus homólogos drogados estão compenetrados em tocar com exactidão as suas composições pomposas. Dos The Grand Astoria sobressai, por ser o menos tímido, o percussionista/cantor; assim como o jovem do baixo eléctrico que sola sem qualquer intromissão dos seus colegas, levanta as mãos do público que aplaude e o acompanha na sua épica dissertação; nem o mais sério dos profetas poderia prever tal milagre. “Thank you! We are going to play a last song for you”. A lua cimeira é objecto de estudo por parte dos hippies que acendem cigarros que são tochas da paz e do amor; “be yourself” como diria Jesus ao tentar converter os reis do Wood Rock a uma música celestial. “Boa noite somos os Killimanjaro de Barcelos”, resumem-se a três rapazes que executam canções rápidas e semi-distorcidas, é um rock que por vezes é repetitivo mas outras é visceral e lúdico. Passa um anjo com assas de borboleta e com uma tiara intermitente, será o Messias? “É um prazer estar de volta à Figueira. A última vez que cá estivemos foi para aí em 2013 no festival Pingo Doce o Fuzing”. Os Killimanjaro tocam uma versão de Chris Issac, “Wicked Game”, e transpõem a delicadeza e a sensualidade do original, mas numa concepção raw pop. A história dos Keep Razors Sharp começa bem: “Então Figueira está-se bem?”, o repertório é composto por composições das quais ressaltam um rock espacial, as guitarras jogam entre si numa lógica quase minimal para instituir um princípio psicadélico, mas a secção rítmica é um actor meramente expectante. O público é ignorante: “Podem aplaudir, eu sei que não conhecem as canções”, silêncio, “estão com tristeza? Frio?”. A expectativa de elaborarem algo mais complexo do que a repetição de acordes similares canção após canção vai-se agudizando, transformando o concerto dos Keep Razors Sharp em algo soporífero, somente assim justifico o grito do porta-voz: “Obrigado Figueira!”. Tenta redimir-se: “São muito gentis; obrigado; um brinde à organização, fomos muito bem recebidos”. Porém o número de circo continua: “Esta canção não é nossa roubamo-la! Mentira! Mentira! Isto dá muito trabalho!”. A versão da “Can't Get You Out Of My Head” de Kylie Minogue deve ser a única que o vulgo eventualmente conhece, abrem fissuras na synth pop e reinscrevem-na no stone rock. “Então o nosso baterista faz o corridinho da Madeira”. Finalmente o adeus: “Já tocamos todas! Não vamos repetir canções man!...”. Os Spectral Haze promovem um metal que é por vezes tão negro quanto gótico, as guitarras têm o poder que somente as trevas detêm e a voz é um canto dilacerante. De certo que não são emissários de Deus, e o anjo coloca a sua cabeça sobre uma almofada na baia que o separa do palco para os converter à paz e ao amor, para sempre, sempre, sempre: “You guys want a party?”.

Wood Rock, 22 e 23 de Julho.