Sunday, May 21, 2017

Eu Falo em Chamas

Observo um quadro que regista o tempo numa paisagem árida e questiono a sua relação com a noite de cobalto que cobre um homem que se transmuta em animal do qual fogem diversos crentes que mergulham num mar de seda negra e se relegam para as trevas onde prevalecem indefinidamente, de um alçapão surgem sereias que no areal deitadas abanam as suas barbatanas para inspirar os poetas a escreverem poesia Dada para que transformem perpetuamente os dias em noites numa declaração judicial de pena de morte ao Sol, da esquerda para a direita da tela passeia um pajem que guia o seu amo cego que apenas sente a intensidade do calor que o cobre de dourado que lhe confere um perfil de estátua andante que persegue um horizonte onde se sacrificará em nome de Alá; interrompo a sequência desta imagem porque ecoam no Sítio das Artes na Figueira da Foz os acordes de um trio com a designação de Daltonic Zebra, que transcrevem fielmente as bandas denominadas de power trio que surgiram na década de sessenta do século passado tanto na América quanto no Reino Unido, as soluções que apresentam já dobram os cinquenta anos e consequentemente há um escassa dose de originalidade antes remetem para um exercício de estilos; há a acrescentar que a secção rítmica é excelente em especial o baixista, mas quem denota inúmeras limitações é o guitarrista-vocalista algo que os fere de morte porque historicamente eram estes que tinham um papel predominante seja a cantar e ou a debitar riffs majestosos; há uma canção que se chama “Nobody Wants to Die”, o vocalista traduzia: “Ninguém quer morrer”, como se fosse uma declaração de guerra à mortalidade ou um slogan para prevenir os suicidas de idealizarem a sua morte; numa outra tela um homem sentado iluminado por uma lua bicéfala e o seu corpo é da cintura às pernas um livro dobrado onde inscreve com um aparo um poema em hebraico, surge uma carruagem com cavalos com as crinas a arder de onde espreita um cadáver esquisito filho de diversos pais incógnitos que nasceram a uma Sexta-feira 13 e jamais a uma Quinta-feira 12; esta corresponde à designação de cinco rapazes deveras profissionais no domínio da electrónica misturada com as guitarras eléctricas, porém quando estas ganham em predominância à synth perdem o fulgor estilístico que se agrava com as diversas limitações do cantor em expressar-se emocionalmente em português, e das letras há a condenar as que redundam num romantismo que vai de encontro à excitação do público e em especial das mulheres, o palco é pequeno para os Quinta-feira 12 que demonstram a ambição pop de conquistar Portugal; um objecto configura uma trompete da sua trompa sai um pêlo sedoso e sobre esta encontram-se colados uns óculos do século XXI através dos quais me intrometo num cosmos que espectralmente me circunda e recorro ao poder do infinito para personificar uma estrela.

Woodrock In Town VI, 20 de Maio, Quinta Feira 12+Daltonic Zebra, Sítio das Artes-Figueira da Foz

In loving memory of Chris Cornell