sexta-feira, 20 de março de 2026

Susan Sontag

 O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal como está no seu último álbum de originais “Antidepressants”. O artista plástico Francis Bacon fez uma fotografia similar e usou por diversas vezes as carcaças nos seus trabalhos como se fossem peças que de nada tinham de decorativo, antes, lembravam a morte do irracional, de seres que nasceram para serem consumidos. Para além disto, era comum a deformação dos corpos humanos pintados por Bacon, como se fossem elementos que estivessem numa dor inexplicável, colocava-os num redondo que poderia ser um palco. E é deste que surgem os Suede pode-se comparar a entrada em palco de Brettt Anderson a constantes movimentações tanto do género masculino ou do feminino, faz dele uma das personas que tanto Bacon pintava, seguido por Matt Osman (baixo eléctrico), Richard Oakes (guitarra elétrica), Neil Codling (guitarra, teclados, coros). Os Suede iniciam o concerto com duas novas canções “Disintegrate” e “Antidepressants” mas a histeria instala-se no público com “Trash”, “Animal Nitrate”, “We Are The Pigs”, para refrear em “Personality Disorder” ; para retomar a convulsão no público com “Sabotage”, “New Generation”, ou a incendiaria “Filmstar”e no decorrer do concerto a surpresa da noite com “The Wild Ones” com a guitarra de Richard Oakes e a voz sentida de Brettt Anderson a afastar o microfone da sua boca para que o público tenha uma percepção da sua voz sem estar ligada à corrente e esta é belíssima, seguida de “Everything Will Flow” um hino pop, o trio final não poderia ser tão explosivo quanto o inicio do concerto “So Young”, “Metal Mickey”, “Beautiful ones”,  a banda recolhe-se para finalizar com “Dancing With The Europeans”.  

Suede, 19 de Março, “Antidepressants: Dancing With The Europeans Tour”, Super Bock Arena, Porto.


domingo, 21 de dezembro de 2025

 






O Nu

Noite de chuva e frio traz no seu regaço o espetáculo ao Cineteatro Messias de Rui Reininho (harmónica; voz; sinos), e seus pares dos quais se destaca um ex-GNR Alexandre Soares (harmónica/ guitarra elétrica) e Rui Maia nos teclados e na bateria Gil Costa. Nada faria prever que este concerto fosse a antítese dos que têm promovido o “20.000 Éguas Submarinas” a segunda relíquia a solo do cantor e performer do Porto; isto,  porque desde o início que se destacou de canção para canção uma harmonia perturbante alicerçada em códigos sejam rítmicos e ou modulares, mas que dada a complexidade dos acordes do Alexandre Soares, este revira o blues  e ou o noise, como sendo uma segunda alma que se instala e envenena tudo ao seu redor; enquanto o Rui Reininho deambula alegremente canção após canção-- chegaram a sair pessoas e o teatro já meio vazio ainda mais vazio ficava-- como se a música tivesse o poder de afoguentar os que esperavam um alinhamento à GNR destes tocaram “Piloto Automático” e “Sete Naves” naturalmente irreconhecíveis mais uma vez o que se destacam são as cores negras, durante a primeira ainda houve quem fizesse de corista “vodka, vodka”. Numa altura do ano em que as publicações fazem contas aos melhores do ano ao vivo poder-se-á colocar este concerto no top dos primeiros, mas não primeiro por ser primeiro, antes porque foi épico, e este facto não é somenos é antes de mais histórico que dois GNRs ainda tenham a virtude de revelar algo que se encontrava de alguma forma encoberto aos nossos ouvidos. Parabéns.

Rui Reininho, 20 de Dezembro, 20.000 Éguas Submarinas, Cineteatro Messias, Mealhada.    

P.S- Em memória do meu falecido pai.

sábado, 29 de novembro de 2025

A Criança

“A Quarta Parede” assim se denomina o espetáculo decorrente de uma residência artística entre Rui Reininho, Rita Braga e Leonardo Pinto na Casa Varela em Pombal. Usei o termo espetáculo mas poderia ter usado as designações teatro ou happening; mas vamos por partes: é dominante o espetáculo musical, e se inicialmente o público não batia palmas no fim de cada tema, isto devia-se ao facto das canções não terem uma estrutura convencional e limitarem-se a apontamentos dos três elementos que conjugados não se resolviam ou dissolviam em que género musical se encontravam a praticar. Teatro porque cumprem-se as regras do teatro musicado com as duas personagens a serem relegadas para um segundo plano dada a excentricidade do Rui Reininho, e neste capítulo há uma cantoria Rita Braga, e um dueto desta com Rui Reininho em “7 Naves”. Não devo esquecer que estas canções tinham como base o baixo e ou a guitarra elétrica do Leonardo Pinto que era introduzido em loop, para além do momento teatral em que se dirige para o público e quebra a quarta parede.  Happening porque o que decorre da ação teatral é maioritariamente um improviso, e isto é transversal à “Quarta Parede”.

A Quarta Parede, 29 de Novembro, Auditório Municipal de Pombal, Pombal.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Ente Querido

O Coliseu do Porto está com lotação esgotada para celebrar os quarenta e cinco anos de carreira de uma das grandes bandas deste país: os GNR. Mas ao se abrir o tecelão surgem três rapazes a substituir os GNR, Lopo Romão, D. Sancho e o António Machado, acompanhados pela dupla que acompanha o Grupo Novo Rock, Samuel Palitos (há dez anos na bateria) e o recente Ben Monteiro (nos teclados/guitarras); o público passa do êxtase para um nervoso miudinho, pois julgam verem a tocar os membros da banda, e isto sucede durante a primeira canção “Espelho”. Os GNR originais substituem os GNR infantes; e a partir daqui o concerto ganha uma forma nada saudosista, mas é inevitável que assim seja, é impossível fugir aos êxitos, apesar de começarem com “Bem-vindo ao Passado”, que é seguida de “Vídeo Maria” que leva ao rubro o público, posteriormente “Caixa Negra”, e “Eu Não Sou Ninguém” conta com a presença em suspenso no palco no interior de uma rede de um contorcionista; seguem-se três canções extremamente populares, “Sub 16”, “Mais Vale Nunca” e “Efectivamente” que são cantadas em uníssono com o público, rendido desde que Rui Reininho, Jorge Romão e Tóli Cesar Machado surgiram em cena. Rui Reininho dedica “Asas” “para os bombeiros” e o slow pop é acompanhado com imagens do vídeo clip e ouve-se o canto de voz suave: “as asas servem para voar”; seguem-se os acordes de “Pronúncia do Norte” que gera que se acendam os telemóveis e que façam do coliseu um universo estrelado e as vozes suplantam a do cantor, “é a pronúncia do norte”; destaco ainda “Tirana” a esquizofrénica “Popless” ou a esvoaçante “Voos Domésticos” ou a pop “Cais”; “Bellevue” é similar a ferro fundido que vai ganhar uma forma abstracta. “Morte ao Sol” é uma sentença por cumprir mas que é paradoxalmente cantada pela maioria dos presentes, “Sangue Oculto” um portento rock. “Las Vagas” é um transcendente delírio synth pop como se fosse um sonho que gradualmente nos atrofia e subsequentemente nos liberta e por fim é-nos permitido respirar. “Inferno” de Roberto Carlos e de Erasmo Carlos é executada como se estivéssemos em LA; a dupla que encerra a noite é “Ana Lee” e a inevitável “Dunas”, a primeira revela-se através de um exotismo pop (cantada juntamente com o público) e a segunda é uma canção de Verão e ao remeter para este universo é de uma inusitada felicidade.

GNR, “OPERAÇÃO STOP”, 19 de Outubro, Coliseu do Porto, Porto.    


sábado, 14 de junho de 2025

The Comedians

 Wipeout Beat celebram a edição de “It happens because we are, not because we exist” no Salão Brazil, mas a primeira parte coube aos Caustic, Babe! que se estreiam a sua primeira homónima edição discográfica. Caustic Babe! correspondem ou socorrem-se da new wave para estruturar às suas canções mas ficam a ganhar quando transfere o ruido para a distorção.

Os Wipeout Beat são uma entidade que poderia constar no interior de catedrais e faze-las arder, dada a frequência dos teclados que mimetizam de forma naif os órgãos de igreja, e a guitarra eléctrica exasperante aniquila o passado trazido pelos teclados e recoloca as canções no século XXI. É nestes dois polos temporais que emergem as suas canções e desta inter-relação que presente e passado se consomem mutuamente num vigor que não deixa espaço a que imaginação consiga fugir e exilar-se num país distante. Há uma ilha no panorama actual da música portuguesa, mas que não é paradisíaca, antes alicerces contruídos em tempos para aprisionar os que de uma forma ou de outra ignoram os Wipeout Beat.

Wipeout Beat + Caustic, Babe!, 14 de Junho, Salão Brazil.

domingo, 13 de abril de 2025

Fuck the World

Victor Torpedo and The Pop Kids sobem ao palco do Salão Brazil em Coimbra onde apresentam o último álbum “Fuck the World”. E a música versa sobre a decadência a que este mundo tem resvalado, década após década, e que está patente como exemplo em “Society”, o primeiro single a ser extraído do álbum acima descriminado. Não há neste concerto lugar a tristeza ou depressões descontroladas, antes uma alegria que contamina os ouvintes e os leva a dançar, pouco lhes importa se o Mundo vai acabar ou se é feito de esgotos e lixeiras a céu aberto, ou de Ilhas desertas contaminadas com uma fauna de doentes mentais. É certo que a movimentação do Victor Torpedo e do seu saxofonista entrando pelo publico adentro tipo espalha-brasas incita-o a movimentarem-se como que a acorda-los da hipnose que música provoca. A música sublinha a pop mas uma pop que se deixa contaminar por outros géneros musicais como o ska, mas tudo misturado de forma a que haja um equilíbrio entre as diferentes influências, e desta forma pode-se declarar que toda a energia que é imposta pelos músicos é espelhada na música que sofre com a urgência de transformar o Mundo num lugar onde reina a felicidade.

 Victor Torpedo and The Pop Kids, “Fuck the World”, 12 de Abril, Salão Brazil, Coimbra.  


sábado, 22 de março de 2025

Surrender (quarenta canções e uma história)

Gavin Friday apresentou-se na sala 2 do Hard Club no Porto no dia 21 de Março, com um trio de músicos que se dividiam por vários instrumentos como os teclados, baixo, sopros, estes elementos foram fundamentais para oferecer às canções um nível de profundidade assinalável já que os temas primavam por serem construídos através de ritmos dançáveis. Quero com isto afirmar que a sala facilmente se transformava numa pista de dança, mas com ritmos atuais, e letras que versavam sobre o amor assim foi, por exemplo, em “The Church of Love”, ou o afirmar de uma determinada masculinidade em “Ecce Homo” ou “Best Boys in Dublin”.

Na biografia de Bono “Surrender (quarenta canções e uma história)” refere que dos seus amigos de infância um deles era gay; e esse era precisamente Gavin Friday, não deverá ter sido fácil sê-lo na década de setenta numa Irlanda dividida e católica, e nessa altura liderar os Virgin Prunes (dos quais tocou dois temas).

A presença de Gavin Friday preenchia o palco e com a sua voz de tenor oferecia às canções um caracter muito especial, se me permitirem, quase divino. A excentricidade de Gavin Friday liberta os outros dos seus complexos e medos, a sua forma guerreira de se expressar é de confrontação ao outro sobre as implicações que tem em manter a homossexualidade escondida ou encoberta com um manto de medo. É este o fundamento de um alinhamento composto por sucessivas canções que ampliam o desejo de liberdade-- de emancipação de algo que possa estar escondido somente para que o ouvinte se integre facilmente na sociedade.

 Gavin Friday, Ecce Homo, 21 de Março, Sala 2 do Hard Club, Porto.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

The Loved One

Noah Lennox mais conhecido por Panda Bear é um músico americano e membro fundador dos Animal Collective, e que se irá apresentar no Salão Brazil que se encontra lotado. Para meu espanto Panda Bear, traz consigo duas teclistas ou processadoras de som, um baixista e um baterista, e o Panda Bear assegura a guitarra e a voz;  porque dada a complexidade da sua música esta seria apresentada através de um teclado ligado a um computador. As primeiras músicas referem-se à uma electrónica que remete para locais tropicais, mas o género é pop quase com a pretensão de ser psicadélica. A partir daqui o leque vai-se abrindo devagar como se fosse um arco-íris que teve início na mencionada pop, para passar para uma versão que se aproxima da pop-rock mas numa vertente psicadélica que gradualmente se esvai para resultar no rock. Este último raciocínio parece simplista, e é o de facto, mas poderemos criar uma trave mestra que se deveria apelidar de pop psicadélica que se transmuta para outros domínios que sejam mais psicadélicos somados ao rock que por sua vez é indie. Mas estas denominações apenas servem para situar o ouvinte sobre quais os efeitos destas sonoridades têm sobre quem está no Salão Brazil, e estes dançam e gritam ao Panda Bear no intervalo das canções, como se estivessem hipnotizados pela sua música.  

 Panda Bear, 4 de Dezembro, Salão Brazil.  

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O Meu País Inventado

Vivencio uma daquelas tardes de Setembro em que o calor é algo ténue e por essa razão efémero. No palco da Praça da Canção em Coimbra a ensaiar as suas canções está a Lene Lovich, o que previa um atraso de uma hora, porém com o acumular de diversos atrasos corresponderia a duas horas (já de madrugada) e por essa razão não vi os M`As Foice. Assim, os Carrion Kids-- já passava há muito das dezanove—tomam de assalto o palco do Luna Fest, o vocalista está vestido à lutador de luta livre; o som é um exasperante punk que se move em blocos destruidores que de tão agressivos são irritantes, há o espectáculo de trocarem de garrafa de tequila que lhes libertam os espíritos para serem ainda mais indecentes. The Twist Connection  são segundo Kalo ou Carlos Mendes uma “local band” que se dedica ao rock and roll mas de onde escorrem largos lastros de pureza, que convertem os mais incautos, e que têm como convidado, nada mais nada menos que Boz Boorer  um prodígio da guitarra eléctrica que trabalhou com “Morrissey or Edwyn Collins”; e desta forma os The Twist Connection passam de trio a quarteto e o som fica ainda mais preenchido, aprofundam as virtudes do rock and roll, e oferecem um excelente concerto. Theatre Of Hate apresentam um rock and roll pleno de subtilezas em que o ritmo lento é simultaneamente denso e leve, e com palavras cantadas em versos abstractos, por vezes o saxofone surge a rasgar toda uma solidão que normalmente está associada à tristeza, são tão profundos quanto inteligentes na forma expressiva de um carrocel fantasmagórico. Lene Lovich surge com um véu pesado a cobrir-lhe a cabeça quando o retira recebe uma pequena ovação por parte do público, as suas canções parecem que derivam das que assolaram Paris durante a segunda guerra mundial, operáticas mas actualizadas e por isso circunscritas a um âmbito pop, é nesse jogo que se espraiam os temas que umas vezes acentuam esta última parte (pop) outras a primeira. The Legendary Tigerman tem uma primeira parte atmosférica ou eletrónica que se funde com o rock and roll-- este é por si só a raiz de grande parte do concerto-- e que irá compor a segunda parte do espetáculo. É neste binómio que a primeira parte fica a ganhar dada a imperial miscelânea, já a segunda parte sofre com uma encenação por parte dos músicos em que se aproximam de um “rock and roll” (repetido até à exaustão) mas que gradualmente se vai anulando a si mesmo; de realçar o facto do Paulo Furtado ter atirado um microfone para o público, algo que poderia ter tido consequências de maior. The Psychedelic Furs, entram em palco, tocam uma canção, recebem uma salva de palmas, tocam a segunda mas a ligação do som da banda com o PA do Luna Fest não se dá e a banda é informada do desastre, e abandonam o palco para não mais voltarem.

Dia 2

Os Birds Are Indie estão a fazer o teste de som dos seus instrumentos musicais que se resumem à bateria, guitarra, baixo e vozes e as suas canções são predominantemente pop, sem grandes preconceitos, aliás é este o facto que os torna numa banda inteligente, reivindicam as regras da pop da mesma forma (por exemplo) que os The Twist Connection às do rock and roll. Johnny Throttle são um quarteto de rapazes de londres que têm por premissa o punk mas um punk que se aproxima perigosamente dos ditames do pub, sem grandes refrões ou riffs distinguem-se pela vontade dos seus elementos em se divertirem, o que já não é mau. Selma Uamusse tem como ponto de partida a música africana mais especificamente a produzida em Moçambique, onde é preponderante o ritmo; de realçar a performance da cantora, que no intervalo das canções discursa continuamente, com o objectivo de evangelizar o público, que não para de dançar; e a Selma dança no meio do público e  convida-o para subir ao palco e este fê-lo; quase no fim reiterou “não acreditem em tudo o que vos disse.” Os Belle Chase Hotel demonstram que são uma das bandas mais inventivas que a cidade de Coimbra viu surgir, a sua pop é de um exotismo delirante, e a juntar a isto estão as invectivas do cantor JP Simões que são de uma ironia atroz, e por essa razão merecem o prémio para melhor concerto da noite. Kid Congo and The Pink Monkey Birds apresentaram um rock and roll repleto de maneirismos vintage, sem lhes ser possível associar-lhes algo que pudesse ser apelidado de novo, mas verdade seja dita que dado o seu currículo não se esperaria que estivesse determinado a uma revolução musical ao género que explorou. Jon Spencer espraia um continuo psicadelismo rock and roll em que brilha a bateria/baixo, mas é a guitarra eléctrica do cantor norte americano que impõe o delírio ao espectador como se fosse uma visita a um hospital psiquiátrico, alguém a que a medicação não lhe controla os delírios que são vozes que se multiplicam e que não são silenciadas pelos medicamentos. Sobre Natty Boo And The Top Cats não há muito acrescentar pois apresentou o género musical misto afro-caribenho calipso excelente para um fim de tarde a ver o sol a pôr-se.

Dia 3

So Dead poderão apelidar-se de post-punk, mas um post-punk em que o que domina é algo venenoso e que se for consumido diariamente pode causar mal-estar psíquico, o único antidoto é paradoxalmente ouvi-los com atenção para que a dor se esvaia ou que rasgue o aparelho auditivo. Weird Omen-- sofreram durante a sua actuação de problemas de som-- dominados pelos acordes brutos de um saxofone, mas a métrica que implementam é de certa forma repetitiva apesar de bafejarem rasgos exemplares de uma elegante pop/rock indie. Club Makumba dominados por uma africanidade tipificada e surripiada a outras bandas do género, para além de ainda se dividirem pelo jazz também ele estereotipado. DEADLETTER-- foram a revelação do festival-- e isto deve explicar-se dada a intensidade do fluxo dos acordes tensos, a entrega em palco de um vocalista em tronco nu que se imiscui no público, a sua voz falada e ou cantada é como uma bandeira que assinala uma revolução, canção após canção elevaram a fasquia e tornam-se irrepreensíveis transformando ou melhor aniquilando a pop indie associando-se a um post-indie, em síntese: excelentes quer na forma quanto no conteúdo. Em substituição dos Mão Morta subiram ao palco os The Parkinsons  (que já haviam marcado presença na edição anterior deste festival) que estão carregados de excelentes riffs com refrões explosivos que misturados dão um cocktail punk mas de teor festivaleiro que incita o público a dançar ou a gritar as letras em inglês cantadas pelo Afonso Pinto, naturalmente explosivos é essa a sua natureza mais profunda; de realçar o facto do Victor Torpedo ter dedicado uma canção à Rita Mano Lopes, por se encontrar doente. The Gories não passaram da década de cinquenta em que o que dominava eram os cânticos dos campos pejados de afro-americanos, que se lamentavam do seu amargo destino, por vezes parece que emulam uma perspectiva fúnebre mas nunca é verdadeiramente alcançada. La Élite é um duo de espanhóis (repetentes da última edição deste festival) que se limitam através de um computador e com a voz ao vivo de debitar canções destinadas para as noites quentes das discotecas de Ibiza.   

Luna Fest, 6, 7 e 8 de Setembro, Praça da Canção, Coimbra.


sábado, 13 de julho de 2024

Poemas de Amor

Tarde luminosa na Praça de Comércio em Coimbra onde estão a tocar sobre um palco metalizado os Três Tristes Tigres a banda debita canções de carácter pop, mas não uma pop condicionada às demandas das rádios, antes apresentam um espectáculo sóbrio onde se destaca a voz melodiosa da Ana Deus e ainda a guitarra eléctrica do Alexandre Soares para além das letras das canções serem da Regina Guimarães.

Apesar da Ana Deus ter dito que o concerto era um “ensaio”; não se notou qualquer registo que tenha manchado negativamente o concerto, antes pelo contrário as dinâmicas entre os cinco músicos estiveram equilibradas, mas um dos pontos que se deve destacar é a introdução dos solos por parte do Alexandre Soares, que pontuavaí os temas com uma intensidade delicada quase como se estivesse a tirar pétalas de um girassol. Outro facto indesmentível é a luz que se transforma numa espécie de felicidade que transborda de canção para canção, sem lugar para cenários obscuros ou outros de similar teor, e as letras visam sobre uma perspectiva crítica sobre a sociedade.

A segunda convidada da tarde foi a Garota Não acompanhada por um coro de sessenta mulheres, que foram mais do que um coro, pois tiveram uma performance que coincidia com aquilo que cantavam e que eram leras que versavam sobre a rotina de uma ou várias mulheres. Mas o foco deve recair sobre a Garota Não, que curiosamente praticamente era também um membro do coro, que apoiada na guitarra eléctrica ou nos adufes foi cantando com um timbre quente, as suas observações e ou preocupações sociais; e a relação entre o coro versus a Garota Não teve momentos arrebatadores… 

 

Três Tristes Tigres + A Garota Não, 13 de Julho, Praça do Comércio, Coimbra.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...