segunda-feira, 7 de julho de 2008


Fim-de-Semana Lusitano

Matadero é um conjunto de várias estruturas concebidas no início do século passado, onde eram abatidos os animais que posteriormente seriam distribuídos pelos talhos madrilenos, encontrava-se no exterior de Madrid, hoje faz parte do perímetro da capital espanhola. São diversos os módulos de carácter pré-industrial que a Câmara Municipal esta a converter em teatro, café, galeria, etc. Neste último espaço encontra-se a dupla portuguesa João Mário Gusmão e Pedro Paiva, que apresentam peças carregadas de um simbolismo filosófico, mergulhadas numa sala escura, os focos incidem sobre uma caveira que sobressai de um bloco de pedra; filmes de 60 milímetros projectam imagens de homens à procura de algo inenarrável; uma rocha de várias toneladas encontra-se suspensa, através de um jogo complexo de luzes o seu reflexo surge reduzido em miligramas. Predomina o paradoxo em “Horizonte de Acontecimentos”, como se cada obra fosse um foco de perturbação e de desconcerto.

Matadero- PhotoEspaña, patente de 17 de Julho a 24 de Junho

Thomas Demand apresenta um conjunto de fotografias de médio porte nas quais surgem interiores com telefone e fax, folhas A4 desorganizadas, numa clara alusão a uma utilidade do espaço e ao mesmo tempo a uma desumanidade que é sublinhada pelas cores cinzentas, branca, azul. Realça uma uniformidade global da época digital onde tudo é muito similar de espaço para espaço, monótono, incómodo, rotineiro, há um filme com um carro que ouvimos e vemo-nos a entrar na garagem velozmente mas nunca conhecemos as características do carro. A “Cámara” é um elemento meramente presencial quase omnipresente.

Fundación Telefonica- PhotoEspaña, patente de 5 de Junho a 24 de Agosto

Numa sala soturna semi-circular projecta-se uma sequência de imagens em slide acompanhadas pelas notas de um piano bem comportado. Vemos quatro adultos e uma criança a passarem uma bola uns aos outros, ao ar livre, rodeados de edifícios habitacionais. Durante a projecção os planos vão variando, aéreo, americano, meio plano. Através desta sequência David Claerbout imprime movimento à família japonesa que apenas se concentra num jogo banal, num dia filtrado por um cinzento que ilude a presença de uma luz solarenga.

Circulo de Bellas Artes (Sala Minerva)- PhotoEspaña, patente de 5 de Junho a 27 de Julho

A repetição de um mesmo rosto de quadro para quadro, ao qual apenas é alterada a cor do fundo. O autor Roni Horn demonstra a obsessão pela perfeição que fez sempre parte de todas as sociedades, para alcançar uma pequena evolução é obrigatória a repetição do mesmo gesto, a leitura de um texto, o ensaio da peça de teatro, o desenho de um rosto adormecido, etc.

Circulo de Bellas Artes (Sala Picasso)- PhotoEspaña, patente de 5 de Junho a 27 de Julho

As fotografias são de grandes dimensões e os planos aéreos, posteriormente manipuladas em computador por Florian Maier-Aichen, que lhes altera a cor, instalando uma realidade artificial que oferece às cidades ou às paisagens marítimas uma adjectivação cibernética. Através do repintar da realidade com cores negras ou de crómio, como se a realidade fosse queimada e transformada num outro espaço que diverge com a sua base. São obras extremamente sedutoras que sobressaem das paredes como se de elementos lunares se tratassem, produto de uma visão mergulhada em LSD que é traficado numa Los Angeles de urbe negra e céu azul.

Madrid, 04 de Junho. Museu Carmen Thyssen- Bornemisza- PhotoEspaña, patente de 3 de Junho a 27 de Julho.

O Prado é um museu que tem uma colecção muito vasta que passa pela escola Flamenga, por artistas como Goya, Rubens, Velasquez, são séculos e séculos de obras marcantes e popularizadas por reproduções como o são “As Meninas”, que ainda hoje são objecto de teses sobre o jogo de espelho. As salas são incontáveis e o acervo é de tal forma vasto que é impossível fazer uma escolha do que é mais belo ou representativo, há tendência para que se fique com uma ideia vaga do que está exposto, seguir cronologicamente as salas nem sempre é fácil. O Prado é a catedral da beleza ainda subjugada a mecenas reais ou à igreja, que impunham os temas que os pintores tinham que executar, dai os motivos serem na sua maioria religiosos ou de cariz cortesão. Através deles podemos perceber as inquietações de cada época, as técnicas usadas, as paisagens onde passeavam os reis à cavalo numa caçada pela tapada do Palácio. São testemunhos precisos sobre um passado alicerçado numa sociedade piramidal, que tinha como fundamento filosófico a Bíblia que impunha uma moral e por conseguinte os costumes. Há obras de fantasia que representam o inferno, ou Adão e Eva com folhas a tapar delicadamente as partes sensíveis, o inferno é local onde a dor é fruída de forma sanguinária, no céu os anjos fazem-nos companhia enquanto dedilham a harpa, ou cupido dispara a seta que nos infecta com amor.

Museu do Prado

O Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia é consignado a uma época pós-Revolução Francesa, quando o tempo deixa de ter um carácter circular para se instituir uma linearidade que ainda hoje está vigente. Os nomes mais sonantes são Dali e Picasso, o primeiro pintou todos os estilos até se estabelecer no surrealismo onírico. Picasso foi o constante perturbado, que explorava cada pincelada como se fosse criar uma nova estética, a síntese encontra-se na “Guernica”, ode épica às vítimas da Segunda Guerra Mundial. Mas há mais artistas como: Carlos Saura, Bacon, Juan Muños, Harun Fracrok, Sachiko Kodama, Ben Rubin e Mark Hansen, Magrite, Tapies, etc, uma overdose que perpassa a história da arte contemporânea.

Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia

A colecção permanente do Museu Carmen Thyssen- Bornemisza começa no século XIII e acaba no século XX. É uma mistura condensada do Prado e do Reina Sofia, numa sequência temporal agrupada esteticamente, o que prevalece um didactismo latente. Desde os retábulos em edícula passando por Rodin, John Constable, Salomon van Ruysdael, Alfred Sisley, Paul Gaugin, Edgar Degas, Van Goth, Edward Hopper, Picasso, Dali, os impressionistas, expressionistas, o cubismo, surrealismo, simbolismo, etc. Um conjunto soberbo e em simultâneo eloquente, que emociona os sentidos como se cada sala fosse um atentado à nossa ignorância, é deste terrorismo que as sociedades carecem.

Madrid, 05 de Junho. Museu Carmen Thyssen-Bornemisza.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Vieira da Silva

Desde os primeiros trabalhos de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) que é visível a inquietação. No início esse elemento está contido nas formas que pinta, numa projecção com o defeito da mão, enraizada no expressionismo. Maria Helena Vieira da Silva pintava o que via, aproximando-se da “realidade” de forma gradual, mas paradoxalmente evidenciava dúvidas e indefinições, como elementos predominantes. Enquanto criança dividiu a sua educação artística entre o piano e a pintura, instruída em casa, algo que lhe permitiu desenvolver a capacidade psico-motora que articula o pensamento com o gesto. A sua observação do espaço e o seu domínio é devedora de uma herança que representava o real, vemos as figuras esguias, a paisagem, o retrato de Arpad, o seu auto-retrato de contornos negros e solitário. A figura era incorporada numa moldura que sublinhava a sua expressão corpórea e expressiva. Há uma infantilidade perversa no gesto, na contenção suprema de não ver tudo ou representar o facto mas antes o significante. É este o epicentro do nascimento de Vieira da Silva: apresenta um conjunto de sinais que o espectador procura agrupar sobre um único entendimento. Do expressionismo passa por um surrealismo lírico, muito sedutor, consequentemente sóbrio e austero, as figuras ganham um anonimato simbólico, e o que antes era real agora é fantasia, que questiona o inconsciente. Procura libertar-se do passado, mas mantém o contorno, tenta inflectir contra as regras que lhe impunham a herança expressionista, romper com o espaço, através da perversão da perspectiva e subversão da profundidade. Este ponto marca o fim da década de 1940; em 1928 instalara-se em Paris, onde havia descoberto o amor de “Arpad-o-português” como Cessariny o denominou, um exilado hungaro judeu, da aprendizagem em sua casa passa para a escola francesa de Bissière, convive com os surrealistas, intelectuais e poetas que acompanham o seu crescimento. As rupturas estilísticas serão uma constante ao longo da sua vida, recusou a imobilidade, questionou o espaço e consequentemente a arquitectura, elaborou programas complexos de decomposição de estruturas que se suportavam na irrealidade que a abstracção nunca resolveu. A ambiguidade do seu trabalho será cada vez mais presente, nomeadamente de 1940 em diante, a partir do qual jamais será capaz de se sobrepor à realidade, mas antes, aprofundar uma invisibilidade que pretende impor uma nova conceptualidade do vazio.

segunda-feira, 23 de junho de 2008


Violência Institucional e Poética

A porta habitual da Fundação Serralves encontrava-se encerrada, somente nos é permitido entrar através do portão principal do Parque Serralves, que comemora vinte anos, com inúmeras actividades: vôos fixos em balão quente no prado Serralves, actuação da Fanfarra Orquestra da Escola Profissional de Música de Espinho no Ténis ou oficinas em família na clareira das azinheiras.

No hall de entrada do interior do Museu de Arte Contemporânea estão estacionados cinco carros a cheirar a sucata, orientados para um ecrã onde a emissão é o cinzento quando as televisões procuram um canal que lhes proporcione imagens, programas, paisagens. O autor desta instalação é Erik Van Lieshout e intitulou este drive in decadente de “Rock”.

Os peixes, uma profusão de peixes castanhos com tubos espetados nos seus corpos expelem água, são mais de cem suspensos no ar, torcidos, com bigodes, a boca e os olhos abertos, a água jorra sobre o tanque negro. Esta “One Hundred Fish Fountain” de Bruce Nauman é uma fonte de onde flutuam peixes e destes água, a circulação normal da água? É através dela que respiram, pelas guelras, mas eles estão mumificados. São apenas elementos decorativos pescados pela memória cognitiva do autor, poderia ter mais luz, mas a tragédia seria maximizada, poderia variar de espécie, mas já não seriam um cardume ao qual lançamos as redes do olhar.

“One Hundred Fish Fountain/Fonte de Cem Peixes”, patente de 18 de Abril a 6 de Julho.

“Linhas, Grelhas, Manchas, Palavras” reúne um compêndio extenso e inesgotável do minimalismo que apresenta as suas características hereditárias: a austeridade dos materiais, a monocromia, o risco, a mancha, a tensão, o ponto, etc, numa repetição tão extenuante quanto fatigante. As obras pertencentes ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, não representam nada de novo ou extravagante, didáctico é certo, aparentemente matéria revista e aumentada. De sublinhar o “diálogo” entre este corpo expositivo com as obras da Fundação, maioritariamente composto por autores portugueses.

“Linhas, Grelhas, Manchas, Palavras”, patente de 09 de Maio a 22 de Junho.

The Rolling Stones, Kraftwerk, Eric Satie, Black Flag, Allen Ginsberg, Music Barbarie, Fluxus, Wiliam S. Burrougs, Sonic Youth, Einstuerzende Neubauten, Philip Glass, Laibach, Velvet Underground, Lou Reed, The Beatles, John Cale e muitos outros fazem parte da colectiva: “Vinil – Gravações e Capas de Discos de Artista”. O exterior das obras são objecto de discriminação autoral que passa por artistas como Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Jaroslaw Kozloeski, Robert Rauschenberg, elaboraram o design gráfico, e é deste que o melómano usufrui primeiramente a obra, entre ambos tem que existir uma conecção minima de empatia. Há música concreta a manchar o espaço, um ponto de escuta, e pautas riscadas por mãos à procura do acto criativo que nos permita ouvir o silêncio. Esta exposição perpassa as décadas de sessenta à noventa.

“Vinil – Gravações e Capas de Discos de Artista”, patente de 10 Maio a 13 Julho.

Três nomes reunidos sob a designação “Violência Institucional e Poética” com opções diversas mas não opostas no seu âmago: subverter a irreverência. Erik van Lieshout apresenta uma enorme tenda de bombeiro suspensa a partir do tecto no interior uma televisão, elemento que unifica esta instalação com a “Rock”, onde é apresentada capítulos pitorescos da sua vida privada.

Numa outra sala as paredes são ocupadas de baixo para cima com folhas coladas, nestes trabalhos à acrílico, nada há de infantilidade ou necessidade de se apoiar a esse rótulo, são manchas criadas e colocadas num âmbito narrativo cromático, tão só, ou palavras de ordem soltas como “merde à la police”, ou, “je t`aime”, assinadas por Anne-Lise Coste.

Foco de perturbação pelo tamanho das obras de Tatjana Doll e pelo tratamento pictórico. Em termos de estrutura são obras de dimensões extravagantes, uma parede é longitudinalmente ocupada por várias carruagens de Metro, que passam num segundo por uma estação de Toquio, azuis, brancos, vermelhos, levados à distorção pictórica. Numa das salas um camião de cem toneladas está parado à berma da estrada, à espera de reboque, falta o triângulo, e o colete fluorescente mas são pormenores que nada acrescentariam ou iriam contribuir para a subservidade destas telas delirantes e exorbitantes que fazem parte da paisagem moderna, onde a sucata é o seu maior poluente.

"Violência Institucional e Poética”, patente de 18 de Abril a 13 de Julho.

Museu Serralves- Museu de Arte Contemporânea (Porto), 22 de Junho.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...