Ver um ponto de luz no horizonte e persegui-lo é seguir o sentido do infinito. Percorrer uma ambição com a perspectiva de acrescentar ao presente um futuro, espaço ou um trabalho que alimentam a possibilidade de liberdade. No Salão Brazil, na baixa de Coimbra, bar de luzes ténues com um pé direito gigante, as luzes iluminam Ana Deus e Alexandre Soares, unem-se em redor de Osso Vaidoso. A primeira vitima deste duo é o amor, “estropiar”, “cortar-lhe as asas”, “e”, “dormir”, “amarrar-lhe”, a guitarra eléctrica de Alexandre Soares exibe-se a completar os versos de Regina Guimarães, a voz é de Ana Deus, que se divide entre a spoken word e o canto. A segunda canção insere-se na mesma lógica gramatical, “não tenho papá, não tenho trovão, não tenho peso ideal, não tenho conta poupança, nem doutor de confiança, há coisas que são só minhas”, os acordes de Alexandre Soares variam e procuram completar os estilhaços das letras. O solo é longo e circular os versos curtos, Alexandre Soares coloca-se de joelhos numa estranha penitencia, tentativa de se aproximar de uma concentração perfeita, a estranheza do acto da purificação. O terceiro tema é um slow, que ancora num lugar comum: “Chorar não vale a pena, sobre leite derramado”. Sobre a próxima canção Ana Deus, refere: “É a visão deles, dos rapazes da tutoria do Porto”, resultado de leituras com jovens delinquentes, impera a spoken word, e a letra é de auto-comiseração, “eu roubei, poderia ser a minha mãe”, e a lógica que impõe a solidariedade, “ladrão não rouba ladrão”, a guitarra eléctrica ganha protagonismo através de dinâmicas desconstrutivistas. Esta é substituída por uma viola picola, num tema que versa a vida saudosista dos emigrantes em França, o timbre da viola é a peste, é através dela que visitamos as casas com corações de Fátima, velas por Cristo, fotografias em Nazaré, garrafões de vinho da adega da aldeia, mulheres gordas e feias, homens escarram para a sanita, arrotam, e o Benfica está no coração: “Je pleure en regarde la telé”, “Je voudrais mourir chez mois”, é dito tão delicadamente, que se transforma numa pequena angustia. A guitarra eléctrica inicia a canção, “todas as noites são de transição”, “começam pelo céu pelo chão”, a sobreposição de acordes dá lugar a um improviso introvertido. A verão dos Velvet Underground, “Vénus in Furs”, “podia dormir 1000 anos”, “1000 sonhos não me acordariam”, “AAAAAAA”, “que briga na rua escura”, “que o teu mal te cura”, “amor chicote estala”, “estou cansada, estou exausta”, Alexandre Soares desconstrói o tema numa vertente minimal em que as notas são dedilhadas lentamente, a voz é que a retira do andamento fúnebre, “tua sombra, tua luz”, “já não se apaga”, “traga-me a”, “Aaiaiaiaiia”, “morte viva”, “AaiAIAIAIA”. “A próxima chama-se ´Poligamia` escrita pelo Valter Hugo Mãe”, num ritmo rápido como o desejo de qualquer mãe ou pai: “hei-de fazer a minha filha rica, dar-lhe um namorado de cada cor”, a guitarra quando se enfurece ouve-se um génio que a domina de cima abaixo, e lhe rasga as cordas, asfixia-a, num auto-erotismo suicida. “´Cacofonia` é dedica ao Mário Henriques [técnico de som] que é aniversariante”, o gráfico dos acordes é intenso e assimétrico, “tetas”, “drogas”.
Osso Vaidoso, 24 de Setembro, Salão Brazil @ Coimbra
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Hell and Heaven
Se o paraíso é uma plataforma épica de glorificação de uma eternidade utópica, então coloquem-se no interior de Peter Murphy, o morcego dos Bauhaus, o homem que nos orienta para o Inferno. Magro, caminha sobre as pontas dos pés, encara o público de Águeda de frente, beija o guitarrista, discute com o técnico do palco, este é o seu inimigo que Murphy tem que degolar e posteriormente violar. A suavidade de “Cuts you Up” é apenas para o registo fonográfico, ao vivo o power trio acompanha a guitarra acústica, em regime distorcido com o baixo a ganhar gradualmente o protagonismo. “You now the way?”. O plano que se inscreve a partir daqui é tétrico, cavernoso, com esqueletos pendurados em árvores, e mulheres obesas a cozinhar cadáveres, com velhos a rezar, “going to hell”, a bateria repete sete vezes como se fosse o prenuncio de um enforcamento induzido pela solidão, extrema unção, “going to Hell”, ecoa pelo recinto devoto ao hominívoro Leitão, com Peter ao lado do baterista corpulento latino americano. “Strange kind of Love, strange kind of feeling”, a sua voz é modular como a língua do Diabo, “broken Hearts”, o foco sobre o rosto emagrece-o, “to Love or to HATE?”, com o teclado a adocicar a cauda de espinhos. “This is a new song”, “wich is about, Magnificent.”. Duas guitarras em distorção, Peter dança como se estivesse sobre uma passadeira de ginásio, “she takes”, com a malha distorcida a soprar violentamente sobre os suicidas a impedi-los de se matarem, “all the cities”. Pausa. Peter, rodopia, como se fosse uma agulha a cair sobre uma teia de aranha. A alma dos Bauhaus é ressuscitada numa vertente niilista, o fundo do fundo, o bicho das sete cabeças e língua de bovino. “I don´t now anymore”, ritmo sincopado, variações rítmicas, “anymore” “anymore”, “anymore”, “anymore”, “anymore”, “anymore”, “anymore”, “anymore”, “anymore.”. A lágrima negra é aspirada, numa distorção revestida a prata pop, “OOOOOOO=OO”, “she is in parties”, parece a antepassada de uma canção dos Suede, mas Peter Murphy dança como um menino tolo de uniforme no recreio de um colégio inglês. “She is in Parties”, é uma premonição violenta num dub claramente dark. Stop. Peter Murphy entra em palco e posiciona-se na boca de cena, coloca os braços ao nível dos ombros e o roadie, segunda guitarra ocasional, enrola-lhe ao pescoço plumas negras, “Ziggy Stardust”, é corrompido longitudinalmente e em latitude, libertando-a da demência contida do original de Major Tom. “Space Oddity”, é apresentada numa sincope em que as teclas do piano são sempre as negras, abissal precipício delicado, cantado, por Peter Murphy e os três músicos deitados, numa encenação do pós-além, o supra-Inferno, “major Tom to run control”, numa, “today”, “no Way to go.”.“Transmission” da Joy Division, “radio”, “live transmission”, ouvem-se as guitarras a deflagar, e bateria a estourar, numa vertente de pura transmissão, diversão, negritude, dark, suicide, “dance”, “dance”, “dance”, dance”, “dance”, “dance”, “dance”, oiço a voz de um suicida, “show”, “dance”. “RADIO”, “dance”. Nine inch Nails e Johny Cash, em simultâneo são cantados pela voz do além, à guitarra eléctrica com as luzes acesas, num último shot de heroína.
17ª Festa do Leitão, Peter Murphy, 09 de Setembro @ Águeda.
17ª Festa do Leitão, Peter Murphy, 09 de Setembro @ Águeda.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Money
Manzanera, Ferry, Mackay, ocupam o palco da esquerda para a direita, nos jardins do Palácio dos Marqueses de Pombal, espaço de uma elegância neo-classica, mergulhado na noite o seu perfil esvai-se. Roxy Music são acompanhados por coristas de vestido curto, bateria, teclados, uma segunda guitarra, há uma pianista de fato prateado, rabo-de-cavalo, que se remexe como se fosse uma serpente egípcia. As primeiras músicas do alinhamento, prevalece uma progressão constante com o saxofone a solar e a sobrepor-se ao todo, “While my Heart is still Beating” tem esse código genético. Bryan Ferry desloca-se para a direita do palco a bater palmas, repete o gesto na esquerda, é sinal que o líder dos Roxy Music quer-se divertir, apesar do frio de Verão. “More Than This” é sensual, e a sua lírica é uma suave simulação, recebida por parte do público de forma entusiasta. Mas as canções seguintes conduzem a multidão a um adormecimento ilusório, “Ladytron”, ou, “A song for Europe”; “but yesterday”; “these cities may change”, a voz por vezes não se faz ouvir. Estas duas canções, têm o sangue envenenado, surgem como se fossem banais e gradualmente transformam-se numa trip digna dos anos setenta, o ácido repercute-se pelas nossas almas. É o estabelecer de um psicadelismo neo-kitsh, que podem ser ouvidas num Casino, onde uns tipos vestem fato com camisa de seda, compradas em Oxford Street numa tarde de Verão, abafada, acompanhados, pelas namoradas, como a Jerry Hall. “My only sorrow”: “yeasterdaAY”; “jamais”. “There is no time for us!”, é contra o tempo, que o separa de manter o sentimento que o prendeu no instante em que o alvejou. O saxofone entrega a sua cor de elemento aglutinador, a partir do qual tudo se transforma num hino psico-progressista, dedicatória à Europa: “Song for Europe.” Bryan Ferry senta-se ao piano e ouvimo-lo a dedilhar, “only my”, “my only love”; “my oonly Love”, o solo da guitarra é executado por um jovem de cabelo louro, que nunca olha os portugueses de frente, numa timidez perturbante. “More than words can`t save us”; “there`s a river”; “only love” repete o coro de quatro mulheres, que raramente se faz ouvir. “Jealous Guy” é sublime, acrescenta ao original a voz ondulante de quem está a cantar para uma multidão de mulheres e não exclusivamente para a Yoko Ono. “I was dreaming about the past”; “I began to loose control”; “I didn´t mean to hurt you, I `m just a jealous guy”. “I Didn`t mean to hurt you, I sorry”; “I`m just jealous guy” o saxofone enrola-se na melodia, tão insuportavelmente kitsh quanto bela? Sim. A ponta final da canção é assobiada por Bryan Ferry como se fosse um pavão a passear por este jardim, com as asas a irradiar fantasia. "Thank you Lisboa!”. “Virginia Plain”, é honky tonk. “”Love is the Drug”, é uma droga com duplo sentido, “OOO”, “can you see?” “love is the drug for ME!”, snifamos cada nota como se fosse o último risco vertido sobre a mesa de tampo com vidro. “OOO”, “love is the drug, that I´m thinking of!”, “love is the drug”, “LOVE THE DRUG FOR ME”; “OOOO”, soul-pop. Quando os acordes de “Let´s stick Together”, soam, num ritmo onde se assegura uma country-psico-killer, inapropriada para show girls, perversa, suprema, “common, common, let´s stick together”, o sax despe as portuguesas, com o seu ritmo penetrante. Bryan dança, como Elvis, as ancas, os pés, o riso, o seu rosto de revista de negócios artísticos, fato escuro, com uma calça justa, e camisa branca. Quando se ouve a sua harmónica, a canção ganha um fraseado metálico, “common”, a ironia atinge o topo da sua realização numa obra de arte.
Oeiras Sounds, Roxy Music, 22 de Julho @ Jardins do Palácio dos Marqueses de Pombal.
Oeiras Sounds, Roxy Music, 22 de Julho @ Jardins do Palácio dos Marqueses de Pombal.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
The Unabomber Weekend
À entrada do recinto do Festival Super Bock, Super Rock no Meco, sou impedido de entrar com canetas, que um policia descobre na minha mochila, ele alega que são como armas brancas. Percorro o recinto à procura do Multibanco, deparo-me com o palco EDP, estão a tocar os Godmen, um power-trio com um vocalista expedito, e uma secção rítmica segura, são a primeira e única surpresa sónica portuguesa. Estão trinta cinco graus, e sempre que dou um passo levanto pó, que me entra pelas narinas que são limpas pela Super Bock, a dois euros o copo. Jamie Lidell, está no palco principal, é rodeado por músicos de uma destreza eléctica, o Jamie é branco mas a sua voz é negra, assim como o funk que produzem, com um beat boy genial. Jamie é de uma simpatia extrema, e faz uso da sua ironia: “I feel Good! Do you feel Good?” St. Vincent, é um trio de uma pobreza geral, liderado por uma voz inexpressiva. Já Mayer Hawthorne & The County, são o oposto do Jamie Lidell, americano branco a ser um monge copista de escrita soul, o Jamie seria o mais indicado para abrir para sua Majestade Prince. Encontro, ocasionalmente rostos conhecidos, um dueto como os Beach House, em palco têm um baterista, falam devagar para a multidão os compreender, a cantora dedilha o teclado alinhada com os seus colegas, mas se ela estivesse na linha da frente, as canções seriam muito melhores. A noite, há pouco se estabeleceu como denominador comum, escurece os pinheiros e os corpos perdem os rostos. Cut Copy são um agrupamento soft-pop-electronico, eficazes e muito cantaroláveis. Uma mulher, dá-me um beijo, ela mete a mão sobre a objectiva da minha máquina fotográfica, “eu estava a brincar”, ri. Keane, tão básico quanto elementar, ouvem-se os hits da rádio e tudo o resto é vazio, por muito que se empenhem em lutar contra a mediocridade, é-lhes impossível. Pandemonium é o nome da tournée dos Pet Shop Boys, uma dupla acompanhada por cinco bailarinos com diversos figurinos, como por exemplo: rectângulos que encaixam na totalidade sobre a cabeça, reproduzindo uma movimentação robotizada. Neil Tenant e Chris Lowe, transformam o recinto numa disco em Ibiza com modelos a oferecer Cristal à beira de uma piscina turqueza. “Go West” derruba o muro que se encontra atrás da dupla, é o hino gay do século XX, assim como, “New York City Boy”, uma coisa é certa: “Always in my mind” é uma travessia tecno-pop. A relação imagem som é interactiva, com o Chris Lowe a emitir toda a base sonora do seu teclado. “Suburbia”, “What have I done to deserve this?”, são recordações emitidas numa alegria contagiante. O Brasil diz-nos: “Se a vida é”, com o ritmo das escolas de carnaval brasileiras com mulheres bronzeadas a dançar despidas pelo Sambodromo. Para cantar “Viva la Vida”, dos Coldplay, Neal tem na cabeça uma coroa, enquanto no ecrã passeia com um guarda-chuva pelos parques londrinos. “Being Boring” é tocado com uma sobriedade notória, “creo que voy a chorar”, emocionada, beijo-a.
Escondo, antes de entrar no recinto, a caneta na sapatilha, revistam-me a mochila descobrem uns comprimidos, refiro que são inofensivos, mas não me livro do véu da desconfiança, posso matar-me? Tiago Bettencourt é de uma boçalidade arrepiante, pauta cada nota com uma palavra, como se tivesse horror do vazio, avisa: “Amanhã também estou desse lado para ver Prince.” O Julian Casablancas entra em palco no lusco-fusco, nervoso, vestido de Thriller, com sapatilhas brancas e uma t-shirt de cavas de uma equipa de basquetebol americana. A sua voz é constantemente sequenciada e colocada numa frequência inferior aos restantes músicos, que se dividem entre o rock e a tecnologia, o resultado é uma massa sonora sem qualquer pigmentação. Dou-lhe a minha mão e recebo um copo de cerveja, tem o corpo efervescente, tão quente que se derrete na minha boca e as línguas enrolam-se formando um nó cego. Hot Chip, são uma companhia de músicos que se dividem entre a electrónica e as guitarras, uma mistura perfeita de Happy Mondays com New Order, incendeiam a sala principal do Super Rock, a nuvem de areia sobe para ser inspirada por nós. Encontro uma loura esculpida em raios solares, sigo-a, e dou-me conta que estou no palco EDP a ouvir a Rita Redshoes, a chamar uma ex-estrela do folclore, que desempenha as funções de roadie: “Jorge Buco apanha a palheta”, o ex-Sitiados entra em palco e recolhe o utensílio que se encontra nos pés da Redshoes. É este pormenor que faz um artista em alguém mesquinho e medíocre, que ignora o ridículo do seu acto, e faz jus a um poder exibicionista. Vampire Weekend tocam perfeitamente cada uma das canções, uma tem dois minutos e durante esse tempo vamos estar todos conectados, é o desejo de Ezra Koenig, as músicas mais interessantes são as que constam do último “Contra”, se no futuro se decidirem entrar no território dos Talking Heads, os Vampire serão eternos.
A temperatura ambiente está ao rubro, a sombra pesa como se fosse um outro corpo, e o pó é um companheiro fiel, cada passo uma snifadela. Jorge Palma apresenta-se com o seu Gang: Kalu, Alexandre Cortez, Flack, Zé Pedro, que revisitam os clássicos do bardo português distorcidamente e com ritmo mais acelerado. Palma arrasta as palavras, como se estivesse a lê-las naquele instante, mas começa sempre adiantado e acaba cada verso atrasado. A cerveja é bebida como se fosse o único elemento que mata a fome, o espaço é composto por um conjunto não estipulado de stands que vendem, ou, oferecem viagens e preservativos, ou, bilhetes pela Santa Casa da Misericórdia para o Festival Sudoeste. Enquanto a escuridão vai ganhando à luz, a lua discretamente ensimesma-se, os Stereophonics apresentam o seu rock incaracterístico, nos discos é mais comercial, live é rude. Nada a declarar sobre os Spoon, apenas que estão colocados no alinhamento erradamente, após a banda de Kelly Jones. “Hight Violet”, é o novo álbum dos National, que mais os representa mas em simultâneo os separa, é uma encruzilhada, que apenas fortalece a perspectiva: The National, gostam de viver na vertigem de se colocarem constantemente em questão. Mas Matt Beringer não se encontra motivado para cantar os seus devaneios existências, não descobre inimigos no público, nem se consegue revoltar contra si mesmo, os seus companheiros seguem imperturbáveis, mas também não se excedem para além do que está pré-estabelecido. Colocam em palco os instrumentos do séquito de Prince, que surge e exibe o seu rosto imberbe, vestido de branco, sem salto alto. A histeria apodera-se do público, que delira com a presença do mais distinto representante de Litle Richards e James Brown, funk, “1999” é acelerado como se estivéssemos atrasados para a passagem de ano em Mineapolis, estabelece-se uma ligação de loucura entre Prince e os portugueses. “Little Red Corvete”, é um gingar funk viciante, o condutor é dono e senhor do nosso corpo. “I love you Portugal!”, “let´s go!”, resposta: “Yeah”. “Nothing Compares to U”, é uma balada púrpura, com Prince a dividir a canção com uma cantora vestida de verde, gorda, careca, as vozes dos portugueses percorrem o refrão cor-de-rosa: “COS NOTHING COMPARES TO U.” “Cream” é apresentado com o beat a suar lascívia, Prince pertence ao universo dos que devoram solos, ou, se enlouquece com a entrega de pó por parte do público quando, “U Got The Look” é arrasado com tufões de energia rítmica e com os acordes a saírem pungentemente da guitarra do génio, lado a lado com o pirómano Jimy Hendrix. “What´s my name?“, resposta: “PRINCE” berram os pulmões extasiados, estamos perante um mito. “My name is Prince and I ´m your Dj tonight.” “It´s time time to get funcky”, a extensão de delírio que projecta sobre o Meco é incomensurável. Pausa. Prince veste calça preta e casaco amarelo-torrado, mune-se da guitarra. Chama o “irmão” de “Ana Moura”, ele toca piano ela é a fadista preferida dos Rolling Stones, Prince dedilha a guitarra eléctrica, como se fosse uma guitarra portuguesa psicadélica ondulante, Prince personifica a nossa natureza. “Oh POTUGAL! OH PORTUGAL”, e desfere um “kiss” de delírio absoluto desafiando a loucura que pode prevalecer entre a perfeição e a perfeição. “COS I ONLY WANT YOUR EXTRA TIME OF YOUR KISS”, ooooyh yeah! “Do you love ME?”, “I LOVE YOU PORTUGAL!”, “DO YOU LOVE GOD?” YEAH! As músicas são partilhadas em regime de soundsystem, com TODOS os instrumentos, seja harmónica, ou, a bateria a seguirem milimetricamente a dança de Prince, a gritar: “TURN ON THE LIGHTS”, é olhos nos olhos que se transmite “love”, “Do you love me!”. Atira-se ao chão numa farsa ensaiada, entram os roadies e os músicos não param de tocar, é o êxtase, a afirmação de que Prince é a encarnação de uma alucinação extravagante, Prince desmaia perante a massa que lhe responde com laivos de incontornável demência. O símbolo, nasceu antes do mito? Prince.
Festival Super Bock, Super Rock, 17, 18, 19 de Julho @ Meco.
Escondo, antes de entrar no recinto, a caneta na sapatilha, revistam-me a mochila descobrem uns comprimidos, refiro que são inofensivos, mas não me livro do véu da desconfiança, posso matar-me? Tiago Bettencourt é de uma boçalidade arrepiante, pauta cada nota com uma palavra, como se tivesse horror do vazio, avisa: “Amanhã também estou desse lado para ver Prince.” O Julian Casablancas entra em palco no lusco-fusco, nervoso, vestido de Thriller, com sapatilhas brancas e uma t-shirt de cavas de uma equipa de basquetebol americana. A sua voz é constantemente sequenciada e colocada numa frequência inferior aos restantes músicos, que se dividem entre o rock e a tecnologia, o resultado é uma massa sonora sem qualquer pigmentação. Dou-lhe a minha mão e recebo um copo de cerveja, tem o corpo efervescente, tão quente que se derrete na minha boca e as línguas enrolam-se formando um nó cego. Hot Chip, são uma companhia de músicos que se dividem entre a electrónica e as guitarras, uma mistura perfeita de Happy Mondays com New Order, incendeiam a sala principal do Super Rock, a nuvem de areia sobe para ser inspirada por nós. Encontro uma loura esculpida em raios solares, sigo-a, e dou-me conta que estou no palco EDP a ouvir a Rita Redshoes, a chamar uma ex-estrela do folclore, que desempenha as funções de roadie: “Jorge Buco apanha a palheta”, o ex-Sitiados entra em palco e recolhe o utensílio que se encontra nos pés da Redshoes. É este pormenor que faz um artista em alguém mesquinho e medíocre, que ignora o ridículo do seu acto, e faz jus a um poder exibicionista. Vampire Weekend tocam perfeitamente cada uma das canções, uma tem dois minutos e durante esse tempo vamos estar todos conectados, é o desejo de Ezra Koenig, as músicas mais interessantes são as que constam do último “Contra”, se no futuro se decidirem entrar no território dos Talking Heads, os Vampire serão eternos.
A temperatura ambiente está ao rubro, a sombra pesa como se fosse um outro corpo, e o pó é um companheiro fiel, cada passo uma snifadela. Jorge Palma apresenta-se com o seu Gang: Kalu, Alexandre Cortez, Flack, Zé Pedro, que revisitam os clássicos do bardo português distorcidamente e com ritmo mais acelerado. Palma arrasta as palavras, como se estivesse a lê-las naquele instante, mas começa sempre adiantado e acaba cada verso atrasado. A cerveja é bebida como se fosse o único elemento que mata a fome, o espaço é composto por um conjunto não estipulado de stands que vendem, ou, oferecem viagens e preservativos, ou, bilhetes pela Santa Casa da Misericórdia para o Festival Sudoeste. Enquanto a escuridão vai ganhando à luz, a lua discretamente ensimesma-se, os Stereophonics apresentam o seu rock incaracterístico, nos discos é mais comercial, live é rude. Nada a declarar sobre os Spoon, apenas que estão colocados no alinhamento erradamente, após a banda de Kelly Jones. “Hight Violet”, é o novo álbum dos National, que mais os representa mas em simultâneo os separa, é uma encruzilhada, que apenas fortalece a perspectiva: The National, gostam de viver na vertigem de se colocarem constantemente em questão. Mas Matt Beringer não se encontra motivado para cantar os seus devaneios existências, não descobre inimigos no público, nem se consegue revoltar contra si mesmo, os seus companheiros seguem imperturbáveis, mas também não se excedem para além do que está pré-estabelecido. Colocam em palco os instrumentos do séquito de Prince, que surge e exibe o seu rosto imberbe, vestido de branco, sem salto alto. A histeria apodera-se do público, que delira com a presença do mais distinto representante de Litle Richards e James Brown, funk, “1999” é acelerado como se estivéssemos atrasados para a passagem de ano em Mineapolis, estabelece-se uma ligação de loucura entre Prince e os portugueses. “Little Red Corvete”, é um gingar funk viciante, o condutor é dono e senhor do nosso corpo. “I love you Portugal!”, “let´s go!”, resposta: “Yeah”. “Nothing Compares to U”, é uma balada púrpura, com Prince a dividir a canção com uma cantora vestida de verde, gorda, careca, as vozes dos portugueses percorrem o refrão cor-de-rosa: “COS NOTHING COMPARES TO U.” “Cream” é apresentado com o beat a suar lascívia, Prince pertence ao universo dos que devoram solos, ou, se enlouquece com a entrega de pó por parte do público quando, “U Got The Look” é arrasado com tufões de energia rítmica e com os acordes a saírem pungentemente da guitarra do génio, lado a lado com o pirómano Jimy Hendrix. “What´s my name?“, resposta: “PRINCE” berram os pulmões extasiados, estamos perante um mito. “My name is Prince and I ´m your Dj tonight.” “It´s time time to get funcky”, a extensão de delírio que projecta sobre o Meco é incomensurável. Pausa. Prince veste calça preta e casaco amarelo-torrado, mune-se da guitarra. Chama o “irmão” de “Ana Moura”, ele toca piano ela é a fadista preferida dos Rolling Stones, Prince dedilha a guitarra eléctrica, como se fosse uma guitarra portuguesa psicadélica ondulante, Prince personifica a nossa natureza. “Oh POTUGAL! OH PORTUGAL”, e desfere um “kiss” de delírio absoluto desafiando a loucura que pode prevalecer entre a perfeição e a perfeição. “COS I ONLY WANT YOUR EXTRA TIME OF YOUR KISS”, ooooyh yeah! “Do you love ME?”, “I LOVE YOU PORTUGAL!”, “DO YOU LOVE GOD?” YEAH! As músicas são partilhadas em regime de soundsystem, com TODOS os instrumentos, seja harmónica, ou, a bateria a seguirem milimetricamente a dança de Prince, a gritar: “TURN ON THE LIGHTS”, é olhos nos olhos que se transmite “love”, “Do you love me!”. Atira-se ao chão numa farsa ensaiada, entram os roadies e os músicos não param de tocar, é o êxtase, a afirmação de que Prince é a encarnação de uma alucinação extravagante, Prince desmaia perante a massa que lhe responde com laivos de incontornável demência. O símbolo, nasceu antes do mito? Prince.
Festival Super Bock, Super Rock, 17, 18, 19 de Julho @ Meco.
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