O indutor que nos faz mergulhar no universo dos BALLA tem uma programação negra com uns acordes repetitivos do teclado são a voz de “Persephone” . Surge Armando Teixeira veste de negro e está acompanhado por quatro músicos: na guitarra eléctrica Miguel Cervini, no baixo eléctrico de Pedro Monteiro, na bateria Duarte Cabaça e nos teclados João Tiago, um dos quais é para o cicerone da noite; a visita de BALLA a Coimbra é a propósito do “aniversário da RUC e dos Santos da Casa”. “Carbono Catorze” tem uma melodia poética que é diluída numa efervescência synth, poderia ser uma canção de embalar num planeta utópico, gradualmente as partes desta máquina são invadidas pela Pop com vozes etéreas que promovem o bem-estar da consciência e que instigam a contemplação. “Submundo” é de um pendor pesado sublinhado pelo baixo eléctrico distorcido de Pedro Monteiro, BALLA instauram um mecanismo Krautrock com uma voz austera acompanhada pelo teclado agudo: “Nós podemos ficar bem/Não é preciso mais ninguém”, destaca-se um recrudescer da sua verve instituída pelo baixo e pelo solo da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira alude a “mentiras esfarrapadas” e agressivamente determina: “Desaperta esse nó”.“Equilíbrio” conjuga um loop sobre o qual se edificam os restantes instrumentos, destaca-se a violência contida do baixo eléctrico de Pedro Monteiro e a omnipresença da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira solta uma voz grave, “não me vais encontrar”, há um requebro dançante, “pensar”, “dançar”, “quantas vidas?”, “saltar antes de tempo”, “a sonhar”, “abraçar e não dançar”, quando a pausa é anulada as tonalidades Krautrock transmutam-se para o Krautpop, sublinhada pelo solo do teclado de João Tiago. Antes da quinta canção “Natureza Humana” Armando Teixeira volta a comunicar com o público: “Já não tocava em Coimbra há anos”; que é um quadro distorcido da realidade com um pendor dramático enunciado pelo solo da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira com um timbre sensual, “a natureza”, “a recordar”, “a natureza manda”, BALLA emanam cores distantes do Blues emergida na Pop, “desta vez não me vou enganar”, “abismo”. “Queda” é mais uma canção “do último disco Arqueologia”, determinada através de uma cadência com breaks da bateria de Duarte Cabaça que os multiplica através de uma métrica Pop, a voz de Armando Teixeira é aromaticamente densa, “o que nos move é”, a melodia é docemente dançante, “vamos falar de…”, “dentro dos teus olhos”, falsa pausa, “e tudo em nós será quebrado” . Armando Teixeira conta a “história: quando eu cheguei aos ensaios dos Ik Mux” um dos músicos tocava o “Parabéns”, este havia visto no programa do “Júlio Isidro o Jorge Lima Barreto que não sabia tocar o ´Parabéns”, e desta forma endereça um feliz aniversário ao “Fausto [da Silva]”. “Contra a Parede” é uma brisa com um hálito predominantemente Pop alicerçada num ritmo slow com um beat suavemente electrónico, uma boneca de luxo “não vou saltar”, a voz de BALLA “sou eu”, o baixo eléctrico é envolvente como uma miragem, “sei ao que vou”, sedutoramente “na tua voz”, o solo da guitarra enquadra-se na melodia visceralmente Pop, “para que fugir?”, “sei ao que vou”, “não quero ouvir a tua voz”, que é um canto quase etéreo e digital. “Perfeito Quadrado” sobrevém o groove distorcido que progride misturando o Kraut com o Rock, com solo do teclado de Armando Teixeira e a resposta do baixo eléctrico distorcido de Pedro Monteiro o negrume que instituem é uma meia de gaze pérola a asfixiar um corpo sedento por prazer, “tentar desenterrar”, reinscrevem um canibalismo Krautrock. “Sobressalto” a sua rugosidade é psicadélica e a voz é quase Punk: “Será tão pouco”, que é representada através da guitarra eléctrica distorcida, “é o sobressalto”. BALLA assumem-se como um organismo electrónico que impõe um tempo paralelo, o teclado de João Tiago sola com a persecução do baixo eléctrico distorcido, “e não serás tu”, “tudo o que te resta, tudo o que te resta”, “é o sobressalto: a roda é estreita”. “Ossos” a lentidão é predominante Pop, “uma pista que te mereça”, sedutoramente, “usar todos os ossos”, na correlação de forças destaca-se a guitarra e o baixo eléctrico, prevalece o slow e disparam estrelas. Armando Teixeira no teclado canta: “Alguém que te mereça”, e as vibrações que introduzem são uma violência distorcida, “mas isso já não posso”, solo épico da guitarra eléctrica de Miguel Cervini, “berço”, “vou dançar para esquecer”. “Segunda Pele” citam a Wall of Sound mas com um ritmo synth Pop, e há uma urgência nas palavras de Armando Teixeira: “Se não saltas eu morro/Não te vou mentir/Viver assim é um logro”, “foi um golpe de sorte apanhei-te no ar”, o seu espelho é o teclado dócil de João Tiago, com a intromissão angustiada da guitarra eléctrica: “Viver assim é um logro”. Armando Teixeira após apresentar os músicos que o acompanham, inscrevem a cólera synth em “Quebro” vilipendiada pela guitarra e do baixo eléctrico distorcido, a melodia advém do teclado de João Tiago, “algo se partiu dentro de mim”, a progressão é um novelo impossível de descodificar o principio e o fim, “nada ficará como deixei”, “nada”, “grande estrondo algo se partiu dentro de mim”, “mais nada há a partir”. “Outro Futuro” é representativa para Armando Teixeira porque as “canções começaram a ser importantes às pessoas, esta canção vem desse tempo”. A bateria de Duarte Cabaça é como uma marcha e é o ponto de partida para delinearem uma melodia Pop sombria mas que paradoxalmente convida à dança, “eu não te dei”, “eu não deixei”, a voz de Armando Teixeira é a de um narrador participante que se consagra num espelho soturno, “nem fiquei a um passo de ti”. “Arqueologia” tem uma estrutura synth Pop mas com contornos fantasmagóricos, provindas de um universo tão negro quanto etéreo, “que vivíamos aqui, que aqui houve uma civilização”, a guitarra eléctrica numa repetição de acordes que lhe incutem o prenúncio de que “nem um sinal divino”, o dramatismo reverbera através de cores abstractas e expressionistas, “ao que sempre transbordou”, “avenidas silenciou”, “o último sinal de fumo veio de ti”, “para bem longe”, a densidade cromática é monocromática transcrita através do Krautrock, “nem uma pedra ficou”. Sobre “Mentir Melhor” Armando Teixeira declara: “É uma nova versão” da que consta em “Arqueologia”. É igualmente Pop mas é colocada na década de oitenta por causa dos sintetizadores, “o que passou”, a personagem deseja “saltar” mas não tem “espaço para fugir”, “prometo que não volto atrás”, durante a pausa surge uma som do oriente, “mentir de novo, mentir melhor”. Sobre a penúltima canção “À Noite em Creta” Armando Teixeira informa que tem “letra de José Luís Peixoto”, confiscam gradualmente as cores da noite distorcida pela reverberação do baixo eléctrico de Pedro Monteiro que permitem visualizar ruínas, “arqueologia da verdade”, numa cadência dolentemente Pop, “estava perdido, estava esquecido de quem eu sou”, domina a progressão perturbante, pausa, “onde estiver serás estrela cadente”. A última canção “Montra” tem “um sample dos UHF”, que se desenrola sobre um ritmo de dança com a guitarra eléctrica kitsch de Miguel Cervini, “vou perder”, “vou escalar é sempre a subir”, aceleram o ritmo e a dedicatória a uma figura distante é presumida através de: “Forte como mais ninguém”, coro: “EiLaLa”, a perspectiva sobre a contemporaneidade: “Não vamos ser mais do que uma montra que nos vê a passar”, eco, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”…
BALLA, “Arqueologia”, 8 de Abril, RUC/Santos da Casa 30 Anos, Salão Brazil @ Coimbra
sábado, 9 de abril de 2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
quinta-feira, 10 de março de 2016
Psicopátria
Os GNR convocaram os seus conterrâneos para celebrarem o trigésimo aniversário do álbum “Psicopátria” que teve um assinalável sucesso comercial em 1986 (até aqui a banda era reconhecida pelo “Dunas” que ainda hoje faz parte das playlists das rádios nacionais), e os principais responsáveis foram o “Efectivamente” e o “Bellevue” indiscutíveis clássicos da Pop. Para além destes pontos o “Psicopátria” é uma obra nuclear no corpo de trabalho dos GNR por diversas razões: marcou a saída irrevogável de Alexandre Soares; contemplou uma reflexão da condição da portugalidade, nessa medida ganhou uma dimensão universalista veiculada através da suprema ironia; a sua vertente arty que exaltou uma experimentação nas quais alicerçavam muitas das canções; a aparente premonição sobre o futuro da sociedade portuguesa, não é que Rui Reininho tenha o dom de um oráculo, antes através da crítica identificou os pontos podres assim iluminou o percurso que se deveria ter trilhado e que ainda hoje está por cumprir: um país civilizado em que imperasse uma elite que enaltecesse a alta cultura e que fosse propensa a denunciar a censura e a corrupção, que estipulasse como denominador comum o mérito profissional impondo a igualdade social, consequentemente é o álbum mais político dos GNR com a agravante de ter sido editado apenas dez anos após a guerra do Ultramar ter cessado. A sua contemporaneidade é o traço fundamental para não ter sofrido a erosão do tempo Pop, que por norma é apenas a espuma dos dias, institucionalizada segundo ditames comerciais. Por todas estas razões estou sentado no elegantíssimo teatro Rivoli, rodeado por senhoras e senhores que arriscaram a noite fria de quarta-feira para descodificar o “Psicopátria” tocado ao vivo na íntegra pela primeira vez. As luzes acesas prenunciam que a banda irá surgir, mas é falso alarme, a aparelhagem emite “To Miss” (que é a última canção do álbum) que é um loop repetitivo com a voz de Rui Reininho a cantar: “To Miss/ Missing Miss/ Miss Margarida/ Miss Banlieu/ Miss Coitus Interrupto/ Shine, shine, shine, shine” a inserir-se num groove circular que é profundamente kitsch. Por fim, surgem Rui Reininho (voz), Tóli César Machado (teclado, guitarra eléctrica, bateria) e Jorge Romão (baixo eléctrico), que este ano completam trinta e cinco anos sob a designação GNR; e Samuel Palitos (bateria), Paulo Borges (teclados) e Tiago Maia (guitarra eléctrica; harmónica). A canção que abre o lado A de “Psicopátria” é “Pós-Modernos” um hino Pop contra o consumo e em termos estruturais é tão Pop quanto a “Brillo” do Andy Warhol, os sintetizadores remetem para trompetes sopradas por guardiões de um castelo de fadas intoxicadas, a harmónica é como se fosse uma voz de um campo com espantalhos de olhos tapados por panos com botões a substituírem os olhos. “Pós-Modernos” remete para a felicidade que provoca o consumismo mas não provoca alienação, apenas uma instantânea e visceral felicidade, (“compre aqui”). As palmas ecoam e recebem a concordância de Rui Reininho: “Obrigado meninos e meninas”. A valsa “Bellevue” é tão trágica quanto bela, delicada e a espaços frágil e negra algo que a emoldura progressivamente, que acompanha a cadência dos versos que versam “leve levemente como quem chama por mim”, a narrativa tem um poder tal que o ouvinte deixa-se seduzir mesmo que lhe pareça estranhamente absurda, durante a pausa o suspense é percepcionado, quando retomam a melodia negra a um ritmo mais acelerado a viagem não tem retorno mesmo que seja decomposta por Rui Reininho: “Era só para brincar ao cinema negro”. “O Paciente” é um caso em que predomina um ritmo rural providenciado por um anónimo grupo de baile, Rui Reininho dança e o Jorge Romão saltita, o poema tem como personagem um psiquiatra que faz auto-análise ao espelho que “receita o meio campo”; “enfim que pare de beber”, para não se transformar em “outros insectos a mexer”; o baile Pop é definitivamente instituído como se fosse um derrame cerebral provocado por um ácido institucionalizado. As cores são continuamente garridas cor de rosas ou azuis floridos, que quase reverberam como pinceladas de um artista plástico tão vanguardista quando Amadeo de Souza-Cardoso, “que os extraterrestres existem e que os fantasmas voltam sintetizados”, Jorge Romão na boca de cena demanda palmas do público e é retribuído, o tempo acelera no sentido de uma “síncope mental colapso cardíaco”. Antes da quarta canção “Dá Fundo”, Rui Reininho confidencia ironicamente que, “eu e o Jorge Romão vamos começar a fazer topless”, há gargalhadas dos fãs dos GNR; a melodia é substancialmente pop-alegre tal como o ritmo que é destinado a festas kitschs dos anos oitenta. Rui Reininho conversa com um ente distante, “sim minha senhora” de Fátima, “pápápá”, a teoria pop-twist é determinista e ganha uma urgência que consequentemente sobrevém em “Dá Fundo” com uma malha providencialmente experimentalista, “e vamos para a piscina”; “todos para a piscina”. Apresenta: “Tóli César Machado” que é aplaudido calorosamente. “Cerimónias” que originalmente tem uma estrutura pop circular é apresentada continuamente sem que se vislumbrem traços familiares, os GNR percorrem uma linha próxima do precipício; a lírica é um diário de um recluso de uma mulher, as clivagens são evidenciadas até que remetem para um absurdo em que está consignada a condição humana… “Coimbra B” é uma pérola injustamente esquecida pelos GNR, complementam-se intercaladamente as teclas densas de Tóli César Machado com a guitarra eléctrica de Tiago Maia, elevando o fado à condição Pop e transcrevendo sinteticamente a alma de um povo e por essa via é potencialmente emotiva, épica.
O lado B do “Psicopátria” começa pelo hino ao direito à diferença “Efectivamente”, a melodia é poeticamente festiva e os versos ludicamente invertem a natureza lógica das coisas, “pássaros estúpidos a esvoaçar”; “adoro as pulgas dos cães/ Todos os bichos do mato”; “cágados de pernas para o ar”; “AAAAAA”; “efectivamente sem moralizar”, “adoro os ratos do esgoto”, uma paisagem Pop que enuncia a chegada de uma Primavera sem a intromissão de uma entidade moralmente ortodoxa, as palmas irrompem acompanhando o crescendo com direito a solo da guitarra eléctrica. “Ao Soldado Desconfiado” com a bateria de Samuel Palitos numa cadencia fúnebre a partir da qual o piano de Tóli César Machado introduz a alma a um cadáver, “diz-me se és o meu espelho ou fonte vulgar?/ Diz-me onde esconder a arma que eu soube enferrujar”; a estátua de António Oliveira Salazar: “de orgulho gelado sobre esta água parada”, um pântano à beira mar plantado, a densidade proposta com a intromissão de um baixo eléctrico omnipresente de Jorge Romão enuncia que vivemos na era nuclear: “A memória da batalha clássica foi-se e a bandeira ser-me-á indiferente: Vim para devolver as cidades aos intoxicados da terra”, em Angola, “sempre que fui combater rastejei pelo chão/ Onde nem a beladona cresce tocando musgo com a mão”, o ritmo da melodia negra cresce dramaticamente, “o vento de amanhã esfuma os viciados do controle”, o refrão contra a guerra: “Nem mais um soldado anónimo dormirá neste caixão”, o crescendo é visceralmente curto, “sonhando arrogante com o nome da sua batalha banal”, com o intercalamento do solo da guitarra e o negrume do piano de Tóli César Machado. “Nova Gente” é “sobre as ilhas”; “Canelas e etc.”, o concerto estava a ser transmitido em directo pela “Antena 3, obrigado” e a locução de Rui Reininho, “prova que não há playback no baixo do Jorge Romão”. A canção tem uma melodia e um pendor predominantemente popular, mas na perspectiva de um compositor que detesta a baixa cultura, e descobre que a única forma de a combater é enaltecer o seu espírito naive radicado na tradição dos grupos de baile. Conjugado com versos que focalizam uma realidade aparentemente distante: “Vivo numa ilha sem sabor tropical”; “não é de origem elevada difícil de recensear/ Quem a rodeia por vezes é a força policial”--os sintetizadores de Paulo Borges carregam o seu efeito kitsch-- “Baby Dock Papa Dock nunca vi/ Nem qualquer ditador da América central”; “é tudo a mesma fruta a mesma caldeirada”; os GNR transformam o popular em pop num jogo de espelhos que subvertem a realidade e Rui Reininho dança sobre a campa de Portugal. Para “Choque Frontal” Tóli César Machado toma conta da bateria e a canção tem um pendor quase marcial, a melodia deriva da manipulação dos teclados agregando-lhe um negrume kitsch, com a introdução da guitarra eléctrica raios Pop psicadélicos, que é devidamente representada com uma urgência a subscrever um futuro que nunca caducou: “60-70-80-90- A hora/ 90 a década vamos embora vamos embora!”; a viagem é um fluxo dilacerantemente apelativo, “e as frustrações levam ao choque frontal” e o “tráfico nas cidades leva ao choque frontal”, a guitarra em combustão reproduz um lupanar iconoclasta que introduz uma ansiedade desmedida, “os sulcos do viaduto nessas unhas de verniz negro/ Brilhando nos lábios cereja cristalizada”, vorazmente críptica e essencialmente épica, “choque frontal”. Rui Reininho despede-se em nome dos GNR: “É um projecto do Grupo Novo Rock e não temos mais canções”, e as palmas ecoaram e mostram-se entusiásticas quando os músicos regressam para tocar “Cadeira Eléctrica” de “Caixa Negra (2015) que é delineada com traços grossos e que encerra a noite histórica no Rivoli que aplaude de pé o “Psicopátria”.
GNR, “Psicopátria”, Teatro Rivoli, 9 de Março @ Porto
O lado B do “Psicopátria” começa pelo hino ao direito à diferença “Efectivamente”, a melodia é poeticamente festiva e os versos ludicamente invertem a natureza lógica das coisas, “pássaros estúpidos a esvoaçar”; “adoro as pulgas dos cães/ Todos os bichos do mato”; “cágados de pernas para o ar”; “AAAAAA”; “efectivamente sem moralizar”, “adoro os ratos do esgoto”, uma paisagem Pop que enuncia a chegada de uma Primavera sem a intromissão de uma entidade moralmente ortodoxa, as palmas irrompem acompanhando o crescendo com direito a solo da guitarra eléctrica. “Ao Soldado Desconfiado” com a bateria de Samuel Palitos numa cadencia fúnebre a partir da qual o piano de Tóli César Machado introduz a alma a um cadáver, “diz-me se és o meu espelho ou fonte vulgar?/ Diz-me onde esconder a arma que eu soube enferrujar”; a estátua de António Oliveira Salazar: “de orgulho gelado sobre esta água parada”, um pântano à beira mar plantado, a densidade proposta com a intromissão de um baixo eléctrico omnipresente de Jorge Romão enuncia que vivemos na era nuclear: “A memória da batalha clássica foi-se e a bandeira ser-me-á indiferente: Vim para devolver as cidades aos intoxicados da terra”, em Angola, “sempre que fui combater rastejei pelo chão/ Onde nem a beladona cresce tocando musgo com a mão”, o ritmo da melodia negra cresce dramaticamente, “o vento de amanhã esfuma os viciados do controle”, o refrão contra a guerra: “Nem mais um soldado anónimo dormirá neste caixão”, o crescendo é visceralmente curto, “sonhando arrogante com o nome da sua batalha banal”, com o intercalamento do solo da guitarra e o negrume do piano de Tóli César Machado. “Nova Gente” é “sobre as ilhas”; “Canelas e etc.”, o concerto estava a ser transmitido em directo pela “Antena 3, obrigado” e a locução de Rui Reininho, “prova que não há playback no baixo do Jorge Romão”. A canção tem uma melodia e um pendor predominantemente popular, mas na perspectiva de um compositor que detesta a baixa cultura, e descobre que a única forma de a combater é enaltecer o seu espírito naive radicado na tradição dos grupos de baile. Conjugado com versos que focalizam uma realidade aparentemente distante: “Vivo numa ilha sem sabor tropical”; “não é de origem elevada difícil de recensear/ Quem a rodeia por vezes é a força policial”--os sintetizadores de Paulo Borges carregam o seu efeito kitsch-- “Baby Dock Papa Dock nunca vi/ Nem qualquer ditador da América central”; “é tudo a mesma fruta a mesma caldeirada”; os GNR transformam o popular em pop num jogo de espelhos que subvertem a realidade e Rui Reininho dança sobre a campa de Portugal. Para “Choque Frontal” Tóli César Machado toma conta da bateria e a canção tem um pendor quase marcial, a melodia deriva da manipulação dos teclados agregando-lhe um negrume kitsch, com a introdução da guitarra eléctrica raios Pop psicadélicos, que é devidamente representada com uma urgência a subscrever um futuro que nunca caducou: “60-70-80-90- A hora/ 90 a década vamos embora vamos embora!”; a viagem é um fluxo dilacerantemente apelativo, “e as frustrações levam ao choque frontal” e o “tráfico nas cidades leva ao choque frontal”, a guitarra em combustão reproduz um lupanar iconoclasta que introduz uma ansiedade desmedida, “os sulcos do viaduto nessas unhas de verniz negro/ Brilhando nos lábios cereja cristalizada”, vorazmente críptica e essencialmente épica, “choque frontal”. Rui Reininho despede-se em nome dos GNR: “É um projecto do Grupo Novo Rock e não temos mais canções”, e as palmas ecoaram e mostram-se entusiásticas quando os músicos regressam para tocar “Cadeira Eléctrica” de “Caixa Negra (2015) que é delineada com traços grossos e que encerra a noite histórica no Rivoli que aplaude de pé o “Psicopátria”.
GNR, “Psicopátria”, Teatro Rivoli, 9 de Março @ Porto
domingo, 6 de março de 2016
1984
Surge um homem de cabelo branco é magro e tímido veste casual, chama-se Manuel Göttsching e segura um microfone timidamente como se o uso da palavra em público fosse algo tão intimidante quanto desnecessária, havia sido recebido com palmas no Teatro Académico Gil Vicente, “good evening”, “it`s a great pleasure” estar em Coimbra a convite da “RUC”, “I never performed in Portugal before”, julga que apenas tocou “eleven times ´e2-e4`” mas teve o cuidado de preparar uma “original version” (uma actualização da obra editada em 1984); “I hope you enjoy it”; “and thank you”; senta-se numa secretária com um Mac iluminado por foco austero, e os sons que as colunas projectam têm uma batida dançante com profundidade provinda do baixo, no ecrã os quadrados vermelhos movimentam-se constantemente da esquerda para a direita, algo que se torna hipnótico e consequentemente obriga a consciência produzir um sonho acordado-- o minimalismo é um ponto transversal às canções apresentadas em regime de non stop providenciando inúmeras texturas dinamicamente sobrepostas-- mas não pretende evocar a alienação de uma felicidade artificial, introduz pequenos apontamentos da flauta, ou o som concreto de um pássaro a chilrear para criar disruptivas narrativas que nos permitem viajar num habitat natural como as instalações da Yayoi Kusama. Gradualmente a música perde o seu pendor dançante e ganha uma amplitude pesada, como se fosse a origem do tecno, no ecrã os quadrados formam um muro que poderia ser o de Berlim em 1984, grafitado com versos do “Heros” de David Bowie, que é destruído por notas paradoxais de loops do baixo e do bombo; o teclado é manipulado ao vivo por Manuel Göttsching que o introduz paradoxalmente no fluxo minimal; durante o qual insere uma guitarra eléctrica, que sola diversas vezes mas como se fossem apontamentos blues (instaurados a partir de um único centro melódico) que enaltecem o kitsch, que colonizam o minimalismo pesado resultando no vanguardista krautrock, são posteriormente substituídos por um quarteto de cordas como o grasnar de pássaros cegos, que alternam com a guitarra prog-rock-- paralelos à batida poético minimal-- os violinos ondulam e reintroduz a guitarra eléctrica que é na essência punk, a máquina reprodutiva de sonhos psicadélicos anuncia gradualmente aos passageiros que o desaparecimento do padrão vermelho do ecrã aponta para o esvaziar de um corpo camaleónico alimentado pela mais puras das energias eléctricas: “e2-e4”.
Manuel Göttsching, “e2-e4”, 30 anos de RUC, Teatro Académico Gil Vicente, 4 de Março @ Coimbra
Manuel Göttsching, “e2-e4”, 30 anos de RUC, Teatro Académico Gil Vicente, 4 de Março @ Coimbra
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
A Long Way To Nowhere
Coimbra tem as paredes dos edifícios pintados de chuviscos, há uma pacatez deprimente que é institucionalizada pelo cair de uma sombra própria das dezoito horas de um Sábado travestido do mais sujo Domingo, poderia ser Janeiro mas nesse caso já estaria mergulhado na escuridão, antes é Fevereiro. O Teatro Académico Gil Vicente, casa onde as tunas e o fado ecoam durante a Primavera, tem no cartaz o documentário: “A Long Way To Nowhere”, sobre a carreira dos Parkinsons que se encontram na plateia assim como a realizadora Caroline Richards. A obra revela um potencial narrativo tão assertivo quanto equilibrado, na essência seria viável sem o discurso directo de qualquer membro da banda ou a esta ligada, o segredo está na fantástica montagem que é fundamental para instituir uma narrativa que segue a linha do princípio meio e fim, mas que é apresentada tão sub-repticiamente quanto intuitivamente, o resultado é um documentário que evoca o ano de 2000 como ponto explosivo dos Parkinsons pelos clubs da entediante Old London Town. Há uma caracterização aprofundada das suas performances auto-destrutivas, vorazmente apresentadas como se a efemeridade estivesse a corromper a carne que perfaz o ego, a violência é estipulada como denominador comum, a nudez que é a última fronteira que cerca a moralidade é constantemente violada. O punk que criaram e recriam num infindável círculo obsessivo compulsivo advêm da distorção da guitarra eléctrica de Victor Torpedo e do canto canibal de Afonso Pinto, que paradoxalmente encontravam no baixo eléctrico de Pedro Xau, um tímido que tem o culto da introversão, uma segurança inesperada, quanto ao quarto e último membro da banda que era o baterista alternou periodicamente. Por entre este torpor de violência emerge um constante humor, decorrente das situações absurdas em palco dos Parkinsons, ou das perspectivas dos diferentes e diversos intervenientes que procuraram compor ou decompor os factos que pareciam ter ocorrido a personagens criadas para chocar ou destruir. No Reino Unido passaram pelos festivais mais importantes e emblemáticos; a digressão pelo Japão contou com trinta concertos em vinte e dois dias, algo que nenhuma outra banda ocidental igualou até à data. Em Londres gravaram dois registos, o segundo já sem a prestação de Afonso Pinto e quem o substituiu foi Victor Torpedo que era o cérebro da banda em termos artísticos. “A Long Way To Nowhere” é uma obra que intencionalmente se afasta do cliché sexo drogas e Rock and Roll e surpreendentemente evoca o sangue suor e lágrimas, transforma os Parkinsons em pessoas sensíveis e inteligentes, que tinham um ideal que passava por instituir a beleza através do ruído, consecutivamente abolir a alienação da consciência para que esta reagisse perante o presente.
A festa comemorativa da exibição de “A Long Way To Nowhere” continua no Salão Brazil e os convidados dos Parkinsons são os The Dirty Coal Train um trio composto por Kalo (bateria); Jesse Coltrane (voz/guitarra); Conchita de Aragón Coltrane (guitarra eléctrica/voz). O concerto está a decorrer com um groove agressivo visceralmente sujo, açambarcando um cromatismo garrido que retira as canções da moldura garage. Há que salientar que a Conchita de Aragón Coltrane, para além da sua irrepreensível prestação com o infatigável Jesse Coltrane, tem um rosto tão exótico e enigmático quanto o da Frida Kahlo, as suas pernas que espreitam do seu vestido cinzento replicam espingardas que disparam recorrentemente uma beleza inebriante, este efeito especial tem origem na batida quase animal do Kalo. Os Parkinsons estão a debitar a sua cornucópia de sons que instala a anarquia associada à loucura no público, que faz do palco um lugar-comum sem que haja uma distinção clara entre o que é sagrado e o que é profano: há troncos nus; uma mulher senta-se no palco para jamais o abandonar, por vezes dança e meneia os seios entaipados no top branco; o Kazuza é um eco oco de tanta repetição da mesma entoação; há quem carregue o Victor Torpedo nos braços enquanto executa um dos seus únicos e por isso magistrais solos; Afonso Pinto é roubado do palco como se fosse uma carcaça de um ser que se recusa a seguir para o corredor de abate; a Paula Nozzari e Pedro Xau são a viga onde tudo assenta suportando o ricochete das canções. As paredes negras do Salão Brazil escorrem uma lava de suor fumegante transformando-o num espaço suspenso num tempo marginal, que através da violência sonora provoca uma sedução inebriante, e o sangue que mancha o chão é poeticamente punk.
“A Long Way To Nowhere” realizado por Caroline Richards, Teatro Académico Gil Vicente, 6 de Fevereiro @ Coimbra.
The Parkinsons + The Dirty Coal Train, Salão Brazil, 6 de Fevereiro @ Coimbra.
In loving memory of David Bowie
A festa comemorativa da exibição de “A Long Way To Nowhere” continua no Salão Brazil e os convidados dos Parkinsons são os The Dirty Coal Train um trio composto por Kalo (bateria); Jesse Coltrane (voz/guitarra); Conchita de Aragón Coltrane (guitarra eléctrica/voz). O concerto está a decorrer com um groove agressivo visceralmente sujo, açambarcando um cromatismo garrido que retira as canções da moldura garage. Há que salientar que a Conchita de Aragón Coltrane, para além da sua irrepreensível prestação com o infatigável Jesse Coltrane, tem um rosto tão exótico e enigmático quanto o da Frida Kahlo, as suas pernas que espreitam do seu vestido cinzento replicam espingardas que disparam recorrentemente uma beleza inebriante, este efeito especial tem origem na batida quase animal do Kalo. Os Parkinsons estão a debitar a sua cornucópia de sons que instala a anarquia associada à loucura no público, que faz do palco um lugar-comum sem que haja uma distinção clara entre o que é sagrado e o que é profano: há troncos nus; uma mulher senta-se no palco para jamais o abandonar, por vezes dança e meneia os seios entaipados no top branco; o Kazuza é um eco oco de tanta repetição da mesma entoação; há quem carregue o Victor Torpedo nos braços enquanto executa um dos seus únicos e por isso magistrais solos; Afonso Pinto é roubado do palco como se fosse uma carcaça de um ser que se recusa a seguir para o corredor de abate; a Paula Nozzari e Pedro Xau são a viga onde tudo assenta suportando o ricochete das canções. As paredes negras do Salão Brazil escorrem uma lava de suor fumegante transformando-o num espaço suspenso num tempo marginal, que através da violência sonora provoca uma sedução inebriante, e o sangue que mancha o chão é poeticamente punk.
“A Long Way To Nowhere” realizado por Caroline Richards, Teatro Académico Gil Vicente, 6 de Fevereiro @ Coimbra.
The Parkinsons + The Dirty Coal Train, Salão Brazil, 6 de Fevereiro @ Coimbra.
In loving memory of David Bowie
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