sábado, 21 de maio de 2016

M. Train

Bruce Springsteen com a guitarra a eléctrica a tiracolo sobe ao Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa, antes que se apaguem os ecrãs que debitam publicidade, está à sua frente uma plateia de milhares de pessoas espalhadas num parque temático dedicado ao consumo, aos quais se dirige-se: “Olá Lisboa! Olá Portugal!”. “Badlands” tem uma cadência predominante Rock and Roll, com destaque para as guitarras e para a bateria que arquitectam uma estrutura imponentemente raw. O solo da guitarra eléctrica de Bruce Springsteen é sublinhado pelo saxofone; a E. Street Band ganha uma dimensão épica. Bruce Springsteen ergue os braços e despoleta outros tantos à sua frente, “OOOO”, “badlands”; durante a pausa a multidão ovaciona histericamente Bruce Springsteen e a E. Street Band; e determinam um fim rápido e simultaneamente agressivo.“No Surrender” é iniciada após a contagem crescente de Bruce Springsteen: “1-2-3-4”; domina uma dinâmica rock com o piano a remeter para o Rock and Roll, “close your eyes and follow your dreams down”. A seguir ao break da bateria Bruce Springsteen determina: “Portugal out of the streets”; as guitarras acrescentam uma urgência festiva à canção sobre as quais sola o saxofone, com as guitarras rematando-a visceralmente. Em “My Love Will Not Let You Down” sobressai uma tonalidade preponderantemente rock mas adocicada pelo piano Pop, a voz de Bruce Springsteen canta que: “I just can`t sleep”. “Just won`t keep”; “away”; solo do saxofone; “at night I walk the streets looking for romance”. Solo agudíssimo por parte do Bruce Springsteen; e os teclados Pop destacam-se da malha das guitarras eléctricas; e a bateria inscreve um solo épico; quando a finalizam recebem estridentes aplausos. Bruce Springsteen dá início ao quarto tema da noite “Cover Me” com a contagem: “1-2-3-4”. A E. Street Band incorre num blues mesclado com o Rock and Roll, “come on baby”, “cover me”, o baixo eléctrico ganha destaque sublinhando a perspectiva blues enunciada anteriormente, “cover me”. Bruce Springsteen sola numa vertente rock e obtém a resposta do seu parceiro nuns acordes blues. “Cover me baby”. Sobre a progressão Rock and Roll Bruce Sprigsteen sola; sentenciam um fim que é nada mais nada menos que épico. Estas quatro canções foram executadas em regime de quase non stop com o objectivo de cilindrar o ouvinte. Depois de uma pausa prolongada Bruce Springsteen e a E. Street Band introduzem os acordes da “Darkness on the Edge of Town”, que são desenhados pela parcimónia do piano romântico mas que é perturbado pelas guitarras semi-distorcidas. “Now I hear she's got a house up in Fairview”. Associam-se a um negrume que prenúncia dramatismo: “And tell her, there's a darkness on the edge of town/ Everybody's got a secret, Sonny”. O Bruce Springsteen sola a sua guitarra eléctrica como se fosse uma voz feminina, a bateria marca o compasso do drama, “where no one asks any questions”, o piano sobrevém a sublinhar na melodia o seu carácter de tragédia americana. A camisa e o colete negro de Bruce Springsteen estão suados mas aparentemente não está cansado e questiona o público: “Allwright! Are you hungry Portugal?”, e recebe uma resposta desordenada por parte dos portugueses. Bruce Springsteen sem a guitarra eléctrica empunha a microfone e a E. Street Band endossa os acordes de “Hungry Heart”, e o público entoa os versos: “Everybody's got a hungry heart/ Everybody's got a hungry heart”. Bruce Sprinsgteen incita-os a continuarem, “common!”, e desafia-os a cantar mais alto, “I can´t hear you!”. “Everybody's got a hungry heart/ Everybody's got a hungry heart”. A E. Street Band progressivamente torna-se cada vez mais presente, com destaque para o piano que representa a melodia alegre, subsequentemente sola o saxofone e Bruce Springsteen canta: “Got a wife and kids in Baltimore, Jack”, desloca-se pela passadeira e canta junto ao povo, “hungry heart”; o público com Bruce Springsteen: “Everybody's got a hungry heart”, uma guitarra eléctrica sola-rock sobre as notas melodiosas do piano. O saxofonista sola no palco e segue Bruce Springsteen: “Everybody's got a hungry heart”; é a vez de ressoar o Hammond, coro: “Heart, heart”… Já “The Promised Land” tem um violino que não se deixa esvanecer às mãos das guitarras rock, “driving cross the Waynesboro county line”; há uma progressão que lhe incute dramatismo e o coro responde a Bruce Springsteen: “Promise land”. “I get up every morning and go to work each day”. “Take a knife and cut this pain from my heart”. A pausa permite que a bateria surja isolada num lampejo épico, “promise land”, seguido pelo teclado, o saxofone ressoa enquanto persegue o Bruce Springsteen na passadeira, e a sua harmónica intromete-se na canção: “Blow away the dreams that break your heart”; as luzes brancas iluminam a multidão de braços a baloiçar ao ritmo rock; “I believe in a promised land...”; que é finalizada epicamente. “Out in the Street” decorre de uma bateria rock onde os restantes instrumentos se encaixam, exceptuando o dissidente e omnipresente piano. Bruce Springsteen tem uma voz rouca que canta: “Put on your best dress baby”; a progressão que a E. Street Band enceta é predominantemente rock. “When I'm out in the street”. “When I'm out in the street”. Coro: “OOO”. Público: “OOOO”. Bruce Springsteen: “Out of the streets!”. Público: “OOO”. Bruce Sprignsteen: “Yeah! Yeah!”. “When I'm out in the street, girl”. A violinista canta: “Out of the street”. Público: “OOOO”. Fazem um intervalo prolongado antes de tocarem “Downbound Train”. Bruce Springsteen domina a guitarra eléctrica semi-distorcida que é a guia da E. Street Band, seguida por uma bateria assumidamente pop, “our love went bad, times got hard”. “Don't you feel like you're a rider on a downbound train?”. As cores que emanam da E. Street Band são inconfessadamente Pop, “she packed her bags left me behind”; o Hammond adensa a melodia pontualmente; “last night I heard your voice”. Bruce Springsteen dolorosamente: “The room was dark, our bed was empty”. “Rain”. A canção seguinte “I'm on Fire” tem por base um groove do órgão em loop, Bruce Springsteen está fixo com o microfone no tripé e narra a vida de uma: “Hey, little girl, is your daddy home?/ Did he go and leave you all alone?/ I got a bad desire/ Oh-oh-oh, I'm on fire”. O baixo eléctrico destaca-se suavemente do groove dando-lhe profundidade e dessa forma institui a tridimensionalidade: “Tell me now, baby, is he good to you?/ And can he do to you the things that I do? Oh, no/ I can take you higher/ Oh-oh-oh, I'm on fire, I'm on fire”. O teclado serpenteia melodicamente sobre o groove repleto de uma contenção hipnótica: “Sometimes it's like someone took a knife, baby/ Edgy and dull/ And cut a six-inch valley/ Through the middle of my soul”. O psicadelismo enuncia-se através do ondular da melodia negra, a sua voz confessa: “Only you can cool my desire/ Oh-oh-oh, I'm on fire/ Oh-oh-oh, I'm on fire/ Oh-oh-oh, I'm on fire”. A “Atlantic City” é dominada pela guitarra eléctrica de Bruce Springsteen, em redor da qual gravita a E. Street Band numa cadência lenta; “in Philly last night”; “boys can do”; “the D.A.”; “promenade”; “put your makeup on fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City”; sobre a melodia tristonha intromete-se o violino da violonista que nada acrescenta de positivo à canção. “Well I got a job and tried to put my money away”. “OOOO”. Bruce Springsteen introduz o “1-2-3-4”, e o ritmo passa do slow rock romântico para um marcial, “meet me tonight in Atlantic City”, com a adição do violino incapaz de lhe introduzir o dramatismo, o crescendo rítmico enuncia o seu fim. “Darlington County” tem uma introdução country rock, as guitarras semi-distorcidas subtraem parcialmente o country e realçam o rock, “driving in to Darlington City”; e antes do refrão: “Sha la la, sha la la la la” com direito a coro: “Sha la la, sha la la la la”, resvalam para o pub rock; “hey little girl, standing on the corner”. Bruce Springsteen encontra-se a cantar junto ao público, oferecendo à canção um epíteto festivo; “our pa's each own one of the World Trade Centers”; “Sha la la, sha la la la la”; coro: “Sha la la, sha la la la la”. Na “Working on the Highway” sobrevém o pressuposto rítmico de uma batida alegre, que encontra ressonância na guitarra acústica do Bruce Springsteen: “Guys fresh out of work”; sobressai o country; “some looking to get hurt”. Há um crescendo em que o todo ganha dimensão sónica e é maximizado o country: “Working on the highway, laying down the blacktop”; e o violino ancora-a numa paisagem redundantemente country. “Johnny 99” é apresentada através dos acordes repetitivos da guitarra eléctrica de Bruce Springsteen que indicam que estamos perante uma canção rock, a sua voz é rude: “He got a gun shot a night clerk now they call 'm Johnny 99”. A E. Street Band emoldura os seus acordes: o piano é o representante de um tipificado Rock and Roll, assim como o violino ou a slide guitar, mas o saxofone é divinamente refrescante. Pausa. Sobre o batuque da bateria Bruce Sprigsteen canta: “Away”. “The bank was holdin' my mortgage and they was takin' my house away”. A harmónica de Bruce Springsteen introduz “The River”, toca lentamente a guitarra acústica e canta premeditadamente: “I come from down in the valley”; “when she was just seventeen”; a E. Street Band assume uma balada de tonalidades tristonhas; “We'd go down to the river”. “And for my nineteenth birthday I got a union card and a wedding coat”. Bruce Springsteen reintroduz a harmónica e tem à sua frente milhares de telemóveis ondulantes acompanhando-o no seu drama negro. O coro: “OOO down to the river”. Bruce Sprignsteen: “OOOO”. A E. Street Band debita mais aceleradamente a canção na expectativa de que o público responda mais assertivamente ao demando do líder. “OOO”. A canção que Bruce Springsteen escreveu com a Patti Smith “Because the Night”; tem um serpentear melódico instituído pelo piano sobre o qual Bruce Springsteen canta: “Take me now baby here as I am/ Pull me close, try and understand”; e a E. Street Band intromete-se em vão ao tentar inculcar-lhe um ceptro épico, a poesia perde-se no cântico rock: “Come on now try and understand/ The way I feel when I'm in your hands”; por instantes demonstram uma urgência de salutar: “They can't hurt you now/ Can't hurt you now, can't hurt you now”. E o refrão é cantado com raiva: “Because the night belongs to lovers/ Because the night belongs to us”; parece que a E. Street Band não acerta com o compasso e a melodia perde-se num frágil contorno. Redimem-se ao se apropriarem de uma densidade dramática, “the way I feel”; “can´t hurt you now”. “Because the night belong to lovers”. Bruce Springsteen insere um solo magistral que oferece à canção uma vertigem impossível de ignorar; é seguido pelo saxofone que sublinha o seu carácter épico; e o guitarrista da cartola sola enquanto rodopia e as luzes brilham e apagam-se e as palmas eclodem. Antes da canção “Spirit in the Night”, Bruce Springsteen encarna num missionário americano: “Can you feel the spirit now?”, resposta imediata da multidão: “YEAH!”. “Can you feel the spirit now?”. “YEAH!”. Bruce Springsteen levanta os braços e abana as mãos para que o público sinta a sua alma e baptiza-os com a cruz do Rock and Roll. “1-2-3-4”, o que parece um espiritual negro transforma-se num Rock and Roll, com o saxofone a solar de forma suprema; após a pausa domina o blues; os braços do público dançam aleatoriamente. “All duded up for Saturday night”. “I got a bottle of rosé so let's try it”. “And I'll take you all out to where the gypsy angels go”. “And they dance like spirits in the night (all night), in the night (all night)”. Há uma festividade nos acordes do refrão que sublinham a sua preposição soul: “Spirits in the night (all night), in the night (all night)”. A “Lonesome Day” é dominada pelo violino e marcada pelo compasso rock da bateria; a E. Street Band dá continuidade em crescendo à melodia que emana do violino e inscrevem uma festividade continuamente épica. “Everything I needed to know about you”. “But I didn't really know that much”. Após o: “If I can just get through this lonesome day”, a música ganha um fim libertário que contagia o público. “It's allright? It's allright? It's allright”. A “The Rising” tem o Hammond a repetir uns acordes tristonhos que são repetidos pelo violino e que em crescendo enunciam uma canção alegre; a batida da bateria tem o poder de inserir-lhe um pulsar contido: “Come on up for the rising/ Com on up, lay your hands in mine”. Coro: “Come on up for the rising tonight”. E ganham uma dimensão hiperbólica de pop-rock, “left the house this morning”, erguem-se os braços da multidão em comunhão com a E. Street Band. “Thunder Road” é iniciada pela harmónica de Bruce Springsteen e o piano ressalta uma melodia triste: “The screen door slams/ Mary's dress waves/ Like a vision she dances across the porch/ As the radio plays”. A balada ganha um contorno de drama com o acompanhamento do violino: “Darling you know just what I'm here for”; o público atento à sua lamúria entoa com Bruce Springsteen: “So you're scared and you're thinking/ That maybe we ain't that young anymore”. Somente Bruce Springsteen: “Oh and that's alright with me”. A bateria retira-a do seu reduto negro e remete-a para uma festividade manchada por um bucolismo lacónico, acompanha-a a E. Street Band erguendo uma tocha do Rock and Roll, e o palco transforma-se num quadro monocromático azul e ressaltam os solos das guitarras e do piano e do saxofone que sobressaem de forma épica. Bruce Springsteen agradece as palmas: “Thank you! Obrigado! Obrigado! Obrigado Lisboa! Thank you for asking us back”. A canção “Born in the U.S.A.” tem o Hammond como elemento que propaga a melodia que é marcada por uma batida espaçada: “Born down in a dead man's town/ The first kick I took was when I hit the ground/ You end up like a dog that's been beat too much/ Till you spend half your life just covering up”; a melodia do Hammond com a complementaridade da bateria corresponde ao refrão: “Born in the U.S.A./ I was born in the U.S.A./ I was born in the U.S.A./ Born in the U.S.A.”. A E. Street Band aumenta o seu ritmo e o que parecia ser apenas uma fatalidade da natureza humana, ganha uma dimensão de hino rock para os americanos: “Got in a little hometown jam/ So they put a rifle in my hand/ Sent me off to a foreign land/ To go and kill the yellow man”. Infelizmente das colunas sai uma constante distorção que compromete severamente a audição para quem se encontra a escassos metros do palco (como é o meu caso), que não é fruto de um problema técnico de algum dos músicos mas tem origem numa deficiência grave do sistema de som. Quando é corrigido Bruce Springsteen canta heroicamente: “I had a brother at Khe Sahn fighting off the Viet Cong/ They're still there, he's all gone/ He had a woman he loved in Saigon/ I got a picture of him in her arms now”. O público delira com a canção, levanta os braços e canta: “Born in the U.S.A./ I was born in the U.S.A.”. A vigésima segunda canção “Born to Run” é iniciada com um break da bateria, a heroicidade é inserida pelo piano que se impõe como denominador comum da melodia; o crescente é consideravelmente rápido com as guitarras a inscreverem-na no Rock and Roll. “In the day we sweat it out on the streets of a runaway American dream/ At night we ride through the mansions of glory in suicide machines”, o piano reintroduz os acordes heróicos, “sprung from cages out on highway 9”. O palco do Rock In Rio Lisboa incendeia-se quando a E. Street Band eleva a canção a uma alegria contagiante. “We gotta get out while we're young/ Cause tramps like us, baby we were born to run”. “OOO”. Por sua vez “Glory Days” tem as quatro guitarras (três eléctricas e uma acústica) associadas a uma batida sustenida; e a E. Street Band exulta uma gramática Rock and Roll para ser consumida num estádio de futebol; destaca-se o Hammond que acompanha a multidão a entoar o refrão. “I had a friend was a big baseball player”. “Saw him the other night at this roadside bar”. “But all he kept talking about was”. A E. Street Band sintetiza epicamente os acordes festivos: “Glory days well they'll pass you by/ Glory days in the wink of a young girl's eye/ Glory days, glory days”. Na vigésima quarta canção “Dancing in the Dark” ressalta o violino que com a E. Street Band edifica uma composição extraordinariamente eloquente; os acordes são rápidos e assertivos como se fossem uma locomotiva de vidro em chamas. “I get up in the evening/ And I ain't got nothing to say/ I come home in the morning/ I go to bed feeling the same way/ I ain't nothing but tired/ Man I'm just tired and bored with myself/ Hey there baby, I could use just a little help”. E no refrão o rock tem um ritmo dançante: “You can't start a fire/ You can't start a fire without a spark/ This gun's for hire/ Even if we're just dancing in the dark”. O saxofonista acompanha Bruce Springsteen pela passadeira e sola epicamente, enquanto a multidão bate palmas e dança; ao susterem o ritmo retomam os acordes magnânimes da canção. Antes de “Tenth Avenue Freeze-Out”; Bruce Springsteen dirige-se à multidão: “Lisboa!”, e esta responde-lhe: “EEEEEAA”. “Lisboa”. “1-2-3-4”. A melodia do piano é o fio condutor da canção que se sobrepõe ao ritmo que é meramente uma testemunha; “let`s go!”. Bruce Springsteen encontra-se no fosso que o separa do público, enquanto a E. Street Band inscreve um blues rock: “Teardrops on the city”. Coro: “Tenth Avenue freeze-out”. O ritmo que impera é pausado com requebros rock, quando a E. Street Band o acentua como que destroem a harmonia; e o piano sola, “oh, oh yeah,! Oh yeah!”. “Obrigado”. A “Twist and Shout” dos Beatles é-lhe reforçado o seu carácter melódico e rítmico, o público delira com o decalque; o palco emana cores claras que acentuam a sonoridade da década de sessenta do século XX em que inicailmente os Beatles delapidavam o património do rock americano. Bruce Springsteen acompanhado pelo saxofone a solar desloca-se para junto do público que entra em êxtase com a sua presença de lenda do Rock and Roll. Bruce Springsteen apresenta os músicos da E. Street Band e após a ovação incorrem na “La Bamba”, uma música popular mexicana da qual fazem uma versão popularizada por Ritchey Valens, “Lisboa you say..”. Bruce Springsteen assume-se um mito através da: “The legendary E. Street Band”, que por fim erguem os instrumentos na boca de cena, “thank you! We love you! Thank you Rock in Rio!”, abandonam o palco. Ainda sob as palmas e os assobios surge Bruce Springsteen com uma guitarra acústica, é iluminado por um foco branco que o torna minúsculo e gigante em simultâneo, informa que vai tocar: “One more for Lisboa”. A “This Hard Land” tem uma harmónica e uma guitarra que introduzem uma imagética rural, e a voz de Bruce Springsteen questiona: “Well, hey there mister, can you tell me what happened to the seeds I've sown?”. A intimidade que decorre da sua voz congrega as atenções do vulgo, como se fosse um cantor country foragido da pena de morte: “Where they fall from, from my hand back into the dirt of this hard land”, “fields”; e a harmónica transporta-nos para o universo dos agrilhoados ao álcool e às drogas que cantavam canções de embalar a musas que se prostituíam para ganhar a vida.

“The River”, Bruce Springsteen and the E. Street Band, 19 de Maio, Rock in Rio Lisboa.

In loving memory of Prince.

sábado, 9 de abril de 2016

Der Prozess

O indutor que nos faz mergulhar no universo dos BALLA tem uma programação negra com uns acordes repetitivos do teclado são a voz de “Persephone” . Surge Armando Teixeira veste de negro e está acompanhado por quatro músicos: na guitarra eléctrica Miguel Cervini, no baixo eléctrico de Pedro Monteiro, na bateria Duarte Cabaça e nos teclados João Tiago, um dos quais é para o cicerone da noite; a visita de BALLA a Coimbra é a propósito do “aniversário da RUC e dos Santos da Casa”. “Carbono Catorze” tem uma melodia poética que é diluída numa efervescência synth, poderia ser uma canção de embalar num planeta utópico, gradualmente as partes desta máquina são invadidas pela Pop com vozes etéreas que promovem o bem-estar da consciência e que instigam a contemplação. “Submundo” é de um pendor pesado sublinhado pelo baixo eléctrico distorcido de Pedro Monteiro, BALLA instauram um mecanismo Krautrock com uma voz austera acompanhada pelo teclado agudo: “Nós podemos ficar bem/Não é preciso mais ninguém”, destaca-se um recrudescer da sua verve instituída pelo baixo e pelo solo da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira alude a “mentiras esfarrapadas” e agressivamente determina: “Desaperta esse nó”.“Equilíbrio” conjuga um loop sobre o qual se edificam os restantes instrumentos, destaca-se a violência contida do baixo eléctrico de Pedro Monteiro e a omnipresença da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira solta uma voz grave, “não me vais encontrar”, há um requebro dançante, “pensar”, “dançar”, “quantas vidas?”, “saltar antes de tempo”, “a sonhar”, “abraçar e não dançar”, quando a pausa é anulada as tonalidades Krautrock transmutam-se para o Krautpop, sublinhada pelo solo do teclado de João Tiago. Antes da quinta canção “Natureza Humana” Armando Teixeira volta a comunicar com o público: “Já não tocava em Coimbra há anos”; que é um quadro distorcido da realidade com um pendor dramático enunciado pelo solo da guitarra eléctrica de Miguel Cervini. Armando Teixeira com um timbre sensual, “a natureza”, “a recordar”, “a natureza manda”, BALLA emanam cores distantes do Blues emergida na Pop, “desta vez não me vou enganar”, “abismo”. “Queda” é mais uma canção “do último disco Arqueologia”, determinada através de uma cadência com breaks da bateria de Duarte Cabaça que os multiplica através de uma métrica Pop, a voz de Armando Teixeira é aromaticamente densa, “o que nos move é”, a melodia é docemente dançante, “vamos falar de…”, “dentro dos teus olhos”, falsa pausa, “e tudo em nós será quebrado” . Armando Teixeira conta a “história: quando eu cheguei aos ensaios dos Ik Mux” um dos músicos tocava o “Parabéns”, este havia visto no programa do “Júlio Isidro o Jorge Lima Barreto que não sabia tocar o ´Parabéns”, e desta forma endereça um feliz aniversário ao “Fausto [da Silva]”. “Contra a Parede” é uma brisa com um hálito predominantemente Pop alicerçada num ritmo slow com um beat suavemente electrónico, uma boneca de luxo “não vou saltar”, a voz de BALLA “sou eu”, o baixo eléctrico é envolvente como uma miragem, “sei ao que vou”, sedutoramente “na tua voz”, o solo da guitarra enquadra-se na melodia visceralmente Pop, “para que fugir?”, “sei ao que vou”, “não quero ouvir a tua voz”, que é um canto quase etéreo e digital. “Perfeito Quadrado” sobrevém o groove distorcido que progride misturando o Kraut com o Rock, com solo do teclado de Armando Teixeira e a resposta do baixo eléctrico distorcido de Pedro Monteiro o negrume que instituem é uma meia de gaze pérola a asfixiar um corpo sedento por prazer, “tentar desenterrar”, reinscrevem um canibalismo Krautrock. “Sobressalto” a sua rugosidade é psicadélica e a voz é quase Punk: “Será tão pouco”, que é representada através da guitarra eléctrica distorcida, “é o sobressalto”. BALLA assumem-se como um organismo electrónico que impõe um tempo paralelo, o teclado de João Tiago sola com a persecução do baixo eléctrico distorcido, “e não serás tu”, “tudo o que te resta, tudo o que te resta”, “é o sobressalto: a roda é estreita”. “Ossos” a lentidão é predominante Pop, “uma pista que te mereça”, sedutoramente, “usar todos os ossos”, na correlação de forças destaca-se a guitarra e o baixo eléctrico, prevalece o slow e disparam estrelas. Armando Teixeira no teclado canta: “Alguém que te mereça”, e as vibrações que introduzem são uma violência distorcida, “mas isso já não posso”, solo épico da guitarra eléctrica de Miguel Cervini, “berço”, “vou dançar para esquecer”. “Segunda Pele” citam a Wall of Sound mas com um ritmo synth Pop, e há uma urgência nas palavras de Armando Teixeira: “Se não saltas eu morro/Não te vou mentir/Viver assim é um logro”, “foi um golpe de sorte apanhei-te no ar”, o seu espelho é o teclado dócil de João Tiago, com a intromissão angustiada da guitarra eléctrica: “Viver assim é um logro”. Armando Teixeira após apresentar os músicos que o acompanham, inscrevem a cólera synth em “Quebro” vilipendiada pela guitarra e do baixo eléctrico distorcido, a melodia advém do teclado de João Tiago, “algo se partiu dentro de mim”, a progressão é um novelo impossível de descodificar o principio e o fim, “nada ficará como deixei”, “nada”, “grande estrondo algo se partiu dentro de mim”, “mais nada há a partir”. “Outro Futuro” é representativa para Armando Teixeira porque as “canções começaram a ser importantes às pessoas, esta canção vem desse tempo”. A bateria de Duarte Cabaça é como uma marcha e é o ponto de partida para delinearem uma melodia Pop sombria mas que paradoxalmente convida à dança, “eu não te dei”, “eu não deixei”, a voz de Armando Teixeira é a de um narrador participante que se consagra num espelho soturno, “nem fiquei a um passo de ti”. “Arqueologia” tem uma estrutura synth Pop mas com contornos fantasmagóricos, provindas de um universo tão negro quanto etéreo, “que vivíamos aqui, que aqui houve uma civilização”, a guitarra eléctrica numa repetição de acordes que lhe incutem o prenúncio de que “nem um sinal divino”, o dramatismo reverbera através de cores abstractas e expressionistas, “ao que sempre transbordou”, “avenidas silenciou”, “o último sinal de fumo veio de ti”, “para bem longe”, a densidade cromática é monocromática transcrita através do Krautrock, “nem uma pedra ficou”. Sobre “Mentir Melhor” Armando Teixeira declara: “É uma nova versão” da que consta em “Arqueologia”. É igualmente Pop mas é colocada na década de oitenta por causa dos sintetizadores, “o que passou”, a personagem deseja “saltar” mas não tem “espaço para fugir”, “prometo que não volto atrás”, durante a pausa surge uma som do oriente, “mentir de novo, mentir melhor”. Sobre a penúltima canção “À Noite em Creta” Armando Teixeira informa que tem “letra de José Luís Peixoto”, confiscam gradualmente as cores da noite distorcida pela reverberação do baixo eléctrico de Pedro Monteiro que permitem visualizar ruínas, “arqueologia da verdade”, numa cadência dolentemente Pop, “estava perdido, estava esquecido de quem eu sou”, domina a progressão perturbante, pausa, “onde estiver serás estrela cadente”. A última canção “Montra” tem “um sample dos UHF”, que se desenrola sobre um ritmo de dança com a guitarra eléctrica kitsch de Miguel Cervini, “vou perder”, “vou escalar é sempre a subir”, aceleram o ritmo e a dedicatória a uma figura distante é presumida através de: “Forte como mais ninguém”, coro: “EiLaLa”, a perspectiva sobre a contemporaneidade: “Não vamos ser mais do que uma montra que nos vê a passar”, eco, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”, “passar”…

BALLA, “Arqueologia”, 8 de Abril, RUC/Santos da Casa 30 Anos, Salão Brazil @ Coimbra

quinta-feira, 10 de março de 2016

Psicopátria

Os GNR convocaram os seus conterrâneos para celebrarem o trigésimo aniversário do álbum “Psicopátria” que teve um assinalável sucesso comercial em 1986 (até aqui a banda era reconhecida pelo “Dunas” que ainda hoje faz parte das playlists das rádios nacionais), e os principais responsáveis foram o “Efectivamente” e o “Bellevue” indiscutíveis clássicos da Pop. Para além destes pontos o “Psicopátria” é uma obra nuclear no corpo de trabalho dos GNR por diversas razões: marcou a saída irrevogável de Alexandre Soares; contemplou uma reflexão da condição da portugalidade, nessa medida ganhou uma dimensão universalista veiculada através da suprema ironia; a sua vertente arty que exaltou uma experimentação nas quais alicerçavam muitas das canções; a aparente premonição sobre o futuro da sociedade portuguesa, não é que Rui Reininho tenha o dom de um oráculo, antes através da crítica identificou os pontos podres assim iluminou o percurso que se deveria ter trilhado e que ainda hoje está por cumprir: um país civilizado em que imperasse uma elite que enaltecesse a alta cultura e que fosse propensa a denunciar a censura e a corrupção, que estipulasse como denominador comum o mérito profissional impondo a igualdade social, consequentemente é o álbum mais político dos GNR com a agravante de ter sido editado apenas dez anos após a guerra do Ultramar ter cessado. A sua contemporaneidade é o traço fundamental para não ter sofrido a erosão do tempo Pop, que por norma é apenas a espuma dos dias, institucionalizada segundo ditames comerciais. Por todas estas razões estou sentado no elegantíssimo teatro Rivoli, rodeado por senhoras e senhores que arriscaram a noite fria de quarta-feira para descodificar o “Psicopátria” tocado ao vivo na íntegra pela primeira vez. As luzes acesas prenunciam que a banda irá surgir, mas é falso alarme, a aparelhagem emite “To Miss” (que é a última canção do álbum) que é um loop repetitivo com a voz de Rui Reininho a cantar: “To Miss/ Missing Miss/ Miss Margarida/ Miss Banlieu/ Miss Coitus Interrupto/ Shine, shine, shine, shine” a inserir-se num groove circular que é profundamente kitsch. Por fim, surgem Rui Reininho (voz), Tóli César Machado (teclado, guitarra eléctrica, bateria) e Jorge Romão (baixo eléctrico), que este ano completam trinta e cinco anos sob a designação GNR; e Samuel Palitos (bateria), Paulo Borges (teclados) e Tiago Maia (guitarra eléctrica; harmónica). A canção que abre o lado A de “Psicopátria” é “Pós-Modernos” um hino Pop contra o consumo e em termos estruturais é tão Pop quanto a “Brillo” do Andy Warhol, os sintetizadores remetem para trompetes sopradas por guardiões de um castelo de fadas intoxicadas, a harmónica é como se fosse uma voz de um campo com espantalhos de olhos tapados por panos com botões a substituírem os olhos. “Pós-Modernos” remete para a felicidade que provoca o consumismo mas não provoca alienação, apenas uma instantânea e visceral felicidade, (“compre aqui”). As palmas ecoam e recebem a concordância de Rui Reininho: “Obrigado meninos e meninas”. A valsa “Bellevue” é tão trágica quanto bela, delicada e a espaços frágil e negra algo que a emoldura progressivamente, que acompanha a cadência dos versos que versam “leve levemente como quem chama por mim”, a narrativa tem um poder tal que o ouvinte deixa-se seduzir mesmo que lhe pareça estranhamente absurda, durante a pausa o suspense é percepcionado, quando retomam a melodia negra a um ritmo mais acelerado a viagem não tem retorno mesmo que seja decomposta por Rui Reininho: “Era só para brincar ao cinema negro”. “O Paciente” é um caso em que predomina um ritmo rural providenciado por um anónimo grupo de baile, Rui Reininho dança e o Jorge Romão saltita, o poema tem como personagem um psiquiatra que faz auto-análise ao espelho que “receita o meio campo”; “enfim que pare de beber”, para não se transformar em “outros insectos a mexer”; o baile Pop é definitivamente instituído como se fosse um derrame cerebral provocado por um ácido institucionalizado. As cores são continuamente garridas cor de rosas ou azuis floridos, que quase reverberam como pinceladas de um artista plástico tão vanguardista quando Amadeo de Souza-Cardoso, “que os extraterrestres existem e que os fantasmas voltam sintetizados”, Jorge Romão na boca de cena demanda palmas do público e é retribuído, o tempo acelera no sentido de uma “síncope mental colapso cardíaco”. Antes da quarta canção “Dá Fundo”, Rui Reininho confidencia ironicamente que, “eu e o Jorge Romão vamos começar a fazer topless”, há gargalhadas dos fãs dos GNR; a melodia é substancialmente pop-alegre tal como o ritmo que é destinado a festas kitschs dos anos oitenta. Rui Reininho conversa com um ente distante, “sim minha senhora” de Fátima, “pápápá”, a teoria pop-twist é determinista e ganha uma urgência que consequentemente sobrevém em “Dá Fundo” com uma malha providencialmente experimentalista, “e vamos para a piscina”; “todos para a piscina”. Apresenta: “Tóli César Machado” que é aplaudido calorosamente. “Cerimónias” que originalmente tem uma estrutura pop circular é apresentada continuamente sem que se vislumbrem traços familiares, os GNR percorrem uma linha próxima do precipício; a lírica é um diário de um recluso de uma mulher, as clivagens são evidenciadas até que remetem para um absurdo em que está consignada a condição humana… “Coimbra B” é uma pérola injustamente esquecida pelos GNR, complementam-se intercaladamente as teclas densas de Tóli César Machado com a guitarra eléctrica de Tiago Maia, elevando o fado à condição Pop e transcrevendo sinteticamente a alma de um povo e por essa via é potencialmente emotiva, épica.
O lado B do “Psicopátria” começa pelo hino ao direito à diferença “Efectivamente”, a melodia é poeticamente festiva e os versos ludicamente invertem a natureza lógica das coisas, “pássaros estúpidos a esvoaçar”; “adoro as pulgas dos cães/ Todos os bichos do mato”; “cágados de pernas para o ar”; “AAAAAA”; “efectivamente sem moralizar”, “adoro os ratos do esgoto”, uma paisagem Pop que enuncia a chegada de uma Primavera sem a intromissão de uma entidade moralmente ortodoxa, as palmas irrompem acompanhando o crescendo com direito a solo da guitarra eléctrica. “Ao Soldado Desconfiado” com a bateria de Samuel Palitos numa cadencia fúnebre a partir da qual o piano de Tóli César Machado introduz a alma a um cadáver, “diz-me se és o meu espelho ou fonte vulgar?/ Diz-me onde esconder a arma que eu soube enferrujar”; a estátua de António Oliveira Salazar: “de orgulho gelado sobre esta água parada”, um pântano à beira mar plantado, a densidade proposta com a intromissão de um baixo eléctrico omnipresente de Jorge Romão enuncia que vivemos na era nuclear: “A memória da batalha clássica foi-se e a bandeira ser-me-á indiferente: Vim para devolver as cidades aos intoxicados da terra”, em Angola, “sempre que fui combater rastejei pelo chão/ Onde nem a beladona cresce tocando musgo com a mão”, o ritmo da melodia negra cresce dramaticamente, “o vento de amanhã esfuma os viciados do controle”, o refrão contra a guerra: “Nem mais um soldado anónimo dormirá neste caixão”, o crescendo é visceralmente curto, “sonhando arrogante com o nome da sua batalha banal”, com o intercalamento do solo da guitarra e o negrume do piano de Tóli César Machado. “Nova Gente” é “sobre as ilhas”; “Canelas e etc.”, o concerto estava a ser transmitido em directo pela “Antena 3, obrigado” e a locução de Rui Reininho, “prova que não há playback no baixo do Jorge Romão”. A canção tem uma melodia e um pendor predominantemente popular, mas na perspectiva de um compositor que detesta a baixa cultura, e descobre que a única forma de a combater é enaltecer o seu espírito naive radicado na tradição dos grupos de baile. Conjugado com versos que focalizam uma realidade aparentemente distante: “Vivo numa ilha sem sabor tropical”; “não é de origem elevada difícil de recensear/ Quem a rodeia por vezes é a força policial”--os sintetizadores de Paulo Borges carregam o seu efeito kitsch-- “Baby Dock Papa Dock nunca vi/ Nem qualquer ditador da América central”; “é tudo a mesma fruta a mesma caldeirada”; os GNR transformam o popular em pop num jogo de espelhos que subvertem a realidade e Rui Reininho dança sobre a campa de Portugal. Para “Choque Frontal” Tóli César Machado toma conta da bateria e a canção tem um pendor quase marcial, a melodia deriva da manipulação dos teclados agregando-lhe um negrume kitsch, com a introdução da guitarra eléctrica raios Pop psicadélicos, que é devidamente representada com uma urgência a subscrever um futuro que nunca caducou: “60-70-80-90- A hora/ 90 a década vamos embora vamos embora!”; a viagem é um fluxo dilacerantemente apelativo, “e as frustrações levam ao choque frontal” e o “tráfico nas cidades leva ao choque frontal”, a guitarra em combustão reproduz um lupanar iconoclasta que introduz uma ansiedade desmedida, “os sulcos do viaduto nessas unhas de verniz negro/ Brilhando nos lábios cereja cristalizada”, vorazmente críptica e essencialmente épica, “choque frontal”. Rui Reininho despede-se em nome dos GNR: “É um projecto do Grupo Novo Rock e não temos mais canções”, e as palmas ecoaram e mostram-se entusiásticas quando os músicos regressam para tocar “Cadeira Eléctrica” de “Caixa Negra (2015) que é delineada com traços grossos e que encerra a noite histórica no Rivoli que aplaude de pé o “Psicopátria”.

GNR, “Psicopátria”, Teatro Rivoli, 9 de Março @ Porto



domingo, 6 de março de 2016

1984

Surge um homem de cabelo branco é magro e tímido veste casual, chama-se Manuel Göttsching e segura um microfone timidamente como se o uso da palavra em público fosse algo tão intimidante quanto desnecessária, havia sido recebido com palmas no Teatro Académico Gil Vicente, “good evening”, “it`s a great pleasure” estar em Coimbra a convite da “RUC”, “I never performed in Portugal before”, julga que apenas tocou “eleven times ´e2-e4`” mas teve o cuidado de preparar uma “original version” (uma actualização da obra editada em 1984); “I hope you enjoy it”; “and thank you”; senta-se numa secretária com um Mac iluminado por foco austero, e os sons que as colunas projectam têm uma batida dançante com profundidade provinda do baixo, no ecrã os quadrados vermelhos movimentam-se constantemente da esquerda para a direita, algo que se torna hipnótico e consequentemente obriga a consciência produzir um sonho acordado-- o minimalismo é um ponto transversal às canções apresentadas em regime de non stop providenciando inúmeras texturas dinamicamente sobrepostas-- mas não pretende evocar a alienação de uma felicidade artificial, introduz pequenos apontamentos da flauta, ou o som concreto de um pássaro a chilrear para criar disruptivas narrativas que nos permitem viajar num habitat natural como as instalações da Yayoi Kusama. Gradualmente a música perde o seu pendor dançante e ganha uma amplitude pesada, como se fosse a origem do tecno, no ecrã os quadrados formam um muro que poderia ser o de Berlim em 1984, grafitado com versos do “Heros” de David Bowie, que é destruído por notas paradoxais de loops do baixo e do bombo; o teclado é manipulado ao vivo por Manuel Göttsching que o introduz paradoxalmente no fluxo minimal; durante o qual insere uma guitarra eléctrica, que sola diversas vezes mas como se fossem apontamentos blues (instaurados a partir de um único centro melódico) que enaltecem o kitsch, que colonizam o minimalismo pesado resultando no vanguardista krautrock, são posteriormente substituídos por um quarteto de cordas como o grasnar de pássaros cegos, que alternam com a guitarra prog-rock-- paralelos à batida poético minimal-- os violinos ondulam e reintroduz a guitarra eléctrica que é na essência punk, a máquina reprodutiva de sonhos psicadélicos anuncia gradualmente aos passageiros que o desaparecimento do padrão vermelho do ecrã aponta para o esvaziar de um corpo camaleónico alimentado pela mais puras das energias eléctricas: “e2-e4”.

Manuel Göttsching, “e2-e4”, 30 anos de RUC, Teatro Académico Gil Vicente, 4 de Março @ Coimbra

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...