segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Eu Hei-de Amar uma Pedra

A minha mãe dá-me a mão e descemos a estrada que dá acesso à praia da Zambujeira do Mar, o meu irmão ficou com o meu pai no Rita enquanto esperava que acaba-se o segundo café da manhã, na curva cruzamo-nos com uma senhora alta e imponente que empurra um carrinho de bebé cor-de-rosa, e pede-lhe para espreitar para o interior e quando se inclina vê uma bebé rechonchuda de olhos bem fechados a sonhar com o futuro que sorri, “que bonita es su hija”; a minha mãe adora recém-nascidos e crianças aos quais descobre motivos para se deslumbrar continuamente, e é por esta razão que eu nunca desejei crescer apesar dos meus doze anos fazerem de mim um “homem” aos olhos orgulhosos do meu pai, que me incentivava a esquecer a infância e a ambicionar a idade adulta mas infelizmente ficarei retido na adolescência; “como se llama?”, encontrava-se em Portugal há quatro anos e ainda não dominava o português e pede-me ajuda, “como é o seu nome?”; na praia pontuavam guarda-sóis como azulejos num padrão heterogéneo e o sol cavava na areia uma brilhantina prateada onde cintilavam conchas e migalhas de restos das lágrimas do atlântico, e a maré destapava o que pareciam ser bustos de africanos contornados por um punhado de peões; sentado num sofá preto inscrevo num caderno as ondas sonoras de uma guitarra eléctrica tocada por um americano baptizado de Hudson Ritchie, que tem a honra de estrear o palco diurno do Festival Gliding Barnacles instalado à frente da praia do Cabedelo, e o seu som é monótono e desprovido de chama que seja capaz de alguma estilização; o segundo é um jovem que não nasceu O Gajo é Parvo que manipula uma guitarra eléctrica acompanhada de loops e o resultado é de um anacronismo exasperante; quanto à dupla Urso Bardo divididos entre bateria e a guitarra eléctrica misturam o rock e o psicadelismo e quando este tem um maior pendor as canções ganham dimensão sónica; o segundo palco está instalado na garagem Auto-Peninsular no Bairro Novo da Figueira da Foz, o horário é noctívago e o indutor sonoro é da responsabilidade dos Drunks on The Moon que apresentam canções de teor delicado e soturno, a luz advém da voz da Manon Capelline que serena qualquer alma perturbada, a viagem entre o universo rural americano e o vaudeville parisiense é dolorosamente bela; os Subway Riders inscrevem um conjunto de canções que ora são versões de clássicos ou originais que sofrem com uma decomposição implementada de forma visceral que conduz a amar o absurdo como se fosse o centro da consciência humana; a minha mãe ouviu a resposta e instantaneamente reage, “que hermoso nombre!”; e delira por a bebé perfazer hoje um mês de nascida, “feliz cumple años baby!”, e obriga-me a espreitar para o interior do carrinho e a sombra enquadrava-a numa beleza de anjo puti a soprar um sopro como se estivesse a devolver a fantasia à realidade ou como se fosse Isolda e Julieta siamesas, “maravilloso mama”, e é feliz por ter visto um milagre que somente ela e eu testemunhara-mos e continuamos o nosso percurso até à praia, onde atravessamos um caudal de água doce que julgava suja e obriga-me a lavar as sandálias e os pés ao mar; e besunta-me de Nívea apesar dos meus protestos, “Jimmy el sol puede matarte!”, contra este argumento restava-me ficar calado mas tenho vontade de rebolar-me na areia como um caniche com sarna mas encontrava-se a escaldar e ficaria salpicado de varicela; no palco da praia do Cabedelo está Calcuta que tem uma voz poeticamente envolvente e a sua guitarra eléctrica é de uma flutuação assertiva que evoca um bucolismo pop que não se espelha neste dia ventoso que o sol teima preguiçosamente em aquecer, quando deriva para um esoterismo bíblico quase resvala no ridículo; Red Italian Hunter executam as canções num contínuo e perpassam diversos géneros musicais: rock, rock psicadélico, jazz, reggae, new wave, surf rock, as que sobressaem devido ao seu pendor sónico são as rock; quanto aos Daltonic Zebra dividem-se entre o decalque ao grunge e à soul/blues e são estas canções que devem ser ouvidas com atenção porque demonstram laivos de originalidade; no palco da garagem da Auto-Peninsular estão os Ditch Days que são um conjunto indie-pop mas que são naturalmente descartáveis porque se resumem a clichés; a dupla Ghost Hunt confisca uma sonoridade synth rock e ou kraut rock e a relação entre o baixo eléctrico do Pedro Chau e dos sintetizadores e da mesa de mistura do Pedro Oliveira erigem uma estrutura que subliminarmente se impõe em ângulos tão diversos quanto complexos, as novas canções não têm como objectivo a dança mas antes a dos neurónios intoxicados com tal procedimento épico; no palco instalado no Jardim Municipal, que em tempos patinhos feios mergulhavam num charco enquanto as crianças desciam do escorrega, os Cosmonauts têm uma secção rítmica tão poderosa quanto a dos Stone Roses e este groove permite a que as guitarras sejam de um psicadelismo estonteante e quando a dupla de guitarristas dividem as vozes instituem um romantismo de adolescente dominado pela libido, alucinante; o meu pai está deitado de barriga para baixo com o EXPRESSO dobrado numa mão a ler a crónica do MEC e a rir a espaços como se encontra-se na perspectiva irónica do jornalista sobre os portugueses a sua, pergunto-lhe se quer ir até a outra ponta da praia onde os rochedos formam uma piscina natural, mas não tira os olhos do jornal e resta-me acompanhar o meu irmão a lavar os pés numa poça de água para o proteger da corrente ténue, e não foge à creme da minha mãe que nos acarinha preferencialmente quando nos sente vulneráveis num espaço que estávamos a iniciar a descobrir; no palco na praia do Cabedelo, El Bastard realizam demoradamente o sound check; e as suas canções derivam do hard rock ao qual não conseguem injectar insulina para lhes dar outra perspectiva que ainda não tenha sido derramada para um vinil com mais de três décadas de edição; YGGL somente com uma guitarra eléctrica e uma caixa de ritmos institui um percurso que passa pelo rock, psico-billy, kraut rock, pós-rock, rock industrial, efectivamente perturbante; e os Moon Preachers oferecem um compêndio que tem como princípio o psicadelismo que segregam através do rock de forma tão equilibrada quanto subtil; na garagem da Auto-Peninsular os 800 Gondomar libertam-se da raiva da adolescência com canções rápidas e distorcidas que são de um pragmatismo canibal (pena que o público não tenha correspondido a este chamamento); seguem-se The Twist Connection que canção após canção estabelecem uma lógica de rock and roll tão sólida quanto vibrante e urgente e o público responde ao Carlos Mendes instituindo a anarquia; no palco do jardim onde se passeavam na Primavera reformados cabisbaixos que procuravam o dominó, estão os TT Syndicate e a sua estrutura musical é assumidamente o blues que ganha outros parasitas que o revigoram, porém há um academismo que os coloca num passado que não conseguem revitalizar; e passeamos por entre os africanos talhados a cinzel e a escopro pela força das marés e suponho que seja triste serem encavalitados por gaivotas que lhes cagam nos ombros caspa, procuramos em desfiladeiros caranguejos que lentamente se deslocavam para trás num suave movimento de quem vislumbrou dois dinossauros que os queriam devorar enquanto palitavam os dentes; e sentamo-nos numa sombra mortiça que gradativamente se emagrece numa lenta contracção perante os raios de sol oblíquos que nos aquecem as cabeleiras, passam senhoras que mencionam o “Platini” numa língua estranha que lhes oferecem um mistério que me instiga a olhar para os seus seios nus como se fosse a primeira vez, e um pescador trepa um preto e fica sentado a inspirar a maresia que exala uma pureza de pérolas luzidias num sentido olhar das marés sobre o céu, em que os peixes descobrem uma força que os conduz aleatoriamente por entre limos e algas que se emaranham como se fossem cabelos da terra a tingir-se com as cores amargas da velhice, o anzol com chumbo e a minhoca esperam desvia-los da corrente para gáudio dos seus amigos e familiares num repasto para celebrarem a pescaria demolhada em vinho carrascão; no palco da praia do Cabedelo estão os Wipeout Beat que têm como base sonora teclados que implementam melodias lo-fi mas de um romantismo ao qual está inerente um kitsch decadente, as novas canções poderão ser avaliadas segundo o parâmetro da excelência; o Rapaz Improvisado com a sua guitarra eléctrica introduz um universo predominantemente western com variações que por vezes são citações de clássicos de filmes de Hollywood; e os surfistas do Gliding Barnacles com os fatos de gala escolhem-no para realizar uma parada em que se colocam lado a lado com as long boards empinadas de costas para o horizonte como se fossem descendentes do louco do Neptuno; El Senor discorre pelo surf-pop-rock e neste triângulo amoroso delimita fronteiras que as impregnam de um equilíbrio pronunciável; Tigre y Diamante é uma dupla dividida pela voz/guitarra eléctrica e bateria, se inicialmente usam o castelhano sobre amores frustrados e que por vezes são pirosas, quando o substituem pelo inglês e o agrupam ao rock transformam-se numa força de cariz indominável ao qual se associa o desejo pelo risco através de pontuais e soberbos improvisos; quando o lusco-fusco cobre o mar de cinzento atiram as peças da bateria para a praia onde se amaram dois estranhos em Junho, memorável; no palco da garagem Auto-Peninsular os Miami Flu não conseguem estabelecer um fio estético homogéneo com a agravante de as referências serem a fonte primordial das suas composições, salva-se a versão dos Deep Purple; quanto aos Thee Eviltones são uma constante deflagração de géneros que têm como centros, o punk, o rock garage e o rock and roll, isto com uma violência atroz que é inegavelmente vital, há a realçar a performance do Rambllin Erikk que desafia o público a reagir violentamente às suas ordens/investidas, épico; no palco do jardim onde os pombos se encontravam para copularem atrás de arbustos de papelão, está quase a surgir o Legendary Tigerman; e o concerto tem uma primeira parte em que predomina o rock/blues e confisca a consciência dos presentes, e uma segunda onde domina o rock que liberta o corpo dos fãs; e quando a multidão está hipnotizada Legendary Tigerman atira-se para os seus braços que o transportam para o palco sem um único arranhão, assim perde-se o sentido do risco a que está inerente um concerto de rock and roll e apresenta-se um espectáculo devidamente encenado para as massas; regressamos para junto dos nossos pais e o meu progenitor surpreendentemente toma a iniciativa de seguirmos “numa corrida” até ao tanque de rochas; onde entramos lentamente ofegantes um a um através de uma racha que nos refresca com uma brisa ténue e por entre os seixos que caíram do tecto entro na água que me encobre gradualmente até ao peito e mergulho e volto a mergulhar a experienciar a liberdade que somente a natureza é capaz de ofertar, e deixo-me em suspenso no fundo com os braços a prenderem as pernas como no ventre da minha mãe na esperança secreta de jamais ser expulso por mau comportamento, sinto o que cheira e o que come alimenta-me e se ri eu rio e se dorme e acorda a chorar eu choro copiosamente como se estivesse a ser abandonado pela sua doçura ancestral, oiço um eco longinquamente a gritar: “Jimmy! Jimmy!”, mas pouco me importa e a mão de um guindaste puxa-me abruptamente para fora do teu útero, “estás louco! Que é que te passa pela cabeça?”, e expiro e não percebo a agressividade do meu pai; e na nossa praia sob o guarda-sol a minha mãe olha para mim a censurar-me pelo acto que julga tresloucado para uma criança, que guarda para si o que me tem para dizer e assim não acicatava a vontade do meu pai em pespegar-me uma palmada, e dou-lhe um beijo para lhe pedir desculpa e leva-la a crer que me irei corrigir e que jamais terei a tentação de me imiscuir novamente no seu útero com o aroma do mediterrâneo de onde nasci; sentado num sofá preto observo no palco da praia do Cabedelo o surfista Beau Young que com a guitarra acústica canta alguns clássicos e nos intervalos fala como se estivesse em sua casa num lugar remoto da Austrália, muito relaxante e dou a mão à Sagres que me beija com hálito à THZ…; antes do meio-dia somos obrigados a abandonar a praia por causa “del cáncer” e eu dou-lhe a minha mão e o meu irmão dá-a ao nosso pai e seguimos para o “chiringuito”, isto é, um café que distava uns míseros oitenta passos e na esplanada estava sentado o António Tavares-Teles (que foi quem nos convidou a conhecer a Zambujeira do Mar), e tem a seus pés um galgo branco afegão deitado numa posse imperiosa a dominar o espaço à sua volta, o nome do cão é-me impronunciável já que me dividido diariamente entre o português e o castelhano, algo que irrita o jornalista desportivo: “Afegasthan!”, e não esconde que está em vias de exaltar-se mas contém-se depois de beber um trago do seu “fino”, estava nervoso porque logo o Futebol Clube do Porto entra em campo para defrontar uma equipa da segunda divisão nacional para o primeiro jogo de preparação da época 1984-1985, “já liguei ao Jorge Nuno Pinto da Costa a desejar boa sorte!”, e o salitre que ainda se encontrava nas minhas narinas causa-me uma comichão desmedida e não consigo conter um espirro violento que assusta o animal que atira duas cadeiras e uma mesa para o chão e saltita pela praia como um espanador de bailarina por entre as toalhas dos banhistas em direcção ao mar.

Gliding Barnacles, 30 e 31 de Agosto; 1, 2 e 3 de Setembro, Praia Mário Silva (Cabedelo), Garagem Auto-Peninsular; Jardim Municipal--Figueira da Foz

Dedicado ao António Tavares-Teles; e em memória da Sílvia Freitas

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Tratado das Paixões da Alma

Num campo de futebol na Batalha as pessoas ruminam cadáveres confeccionados por cozinheiras gordas de bata e touca para cobrir as falhas na penugem; e há uma senhora num palco mínimo a cantar sobre um groove kitsch, “você me deixa louco”, tiro-lhe uma fotografia para o Instagram; uma doçura acutilante transportava-me para um tempo em que a sua luz guiava-me por entre crisântemos e me cobria com uma felicidade instantânea mas quando tomava consciência da sua influência desvanecia-se num suspiro que me confiscava a noção da realidade e os meus passos eram como as gaivotas ou as andorinhas e os grifos que lutavam contra a nortada, “você me deixa louco”; estou no backstage dos exuberantes GNR que se preparam para subir ao palco “às dez e vinte”, o Rui Reininho está a conversar com o Paulo Carvalho e o Tóli César Machado e o Jorge Romão estão a relaxar antes de enfrentar a multidão que os espera ansiosamente; e ainda são gravados pela Joana Sequeira Duarte para promoverem o concerto que se irá realizar no Barreiro; a sua gargalhada libertava-me da toxicodependência que me obrigava a vogar numa jangada de haxixe sobre as ondas atlânticas e a ocidente o sol estava suspenso em vermelhos e amarelos tórridos como se o fim nunca tivesse fim e como se fosse o momento mais bonito do dia, “você me deixa louco”, e as rochas eram paredes de aço em que o mar encontrava um reflexo difuso e as algas e os limos substituíam as folhas da sua cabeleira solta que emoldurava o seu rosto num retrato psicológico naturalista que não era somente um incêndio de chamas canibais que me consumiam em cada labareda ou um manancial de ciprestes que cresciam selvaticamente em meu redor como se fossem prenúncio de que terei que voltar para a caverna onde grafitava desenhos rupestres e saltava para cima de um potro que me encaminhava para um destino que tinha uma direcção indeterminada e que era incapaz de dominar; sobem ao palco os três cúmplices dos GNR: Tiago Maia (guitarra eléctrica/voz); Samuel Palitos (bateria/voz); Paulo Borges (teclados/voz) e é este que insere os acordes do poema-canção “Bem-vindo ao Passado” que é um convite irresistível à multidão para entrar num universo em que domina uma contínua e elegante Pop: “Vídeo Maria”; “Efectivamente”; “Popless”; “Cadeira Eléctrica”, executadas com um domínio supremo e que tecnicamente são transportas para um subtexto predominantemente rock; a minha memória era um constante lapso e relapso de imagens e de frases desconexas que me confiscavam os restos da sanidade mental, “você me deixa louco”, por vezes acordava às quatro da manhã e enfrentava o pavor de ficar para tia velha e frustrada como as beatas que rezavam na capela da Zambujeira do Mar por um Deus desconhecido e o ar era tão espesso quanto a areia quente de uma tarde de Verão rodeado por figuras disformes que se desmembravam em cada passo como leprosos que entoavam insistentemente numa ladainha doentia, “você me deixa louco”; e o público tem-se demonstrado deveras receptivo e participativo com a actuação excelente dos GNR que se revelam dramáticos em “Dançar SOS”, pop em “Cais” e “Asas”, palpitantes e urgentes em “Impressões Digitais”, e rock “Sangue Oculto”, esquizofrénicos em “Las Vagas”, as palmas ecoam heterogeneamente num excesso de satisfação; percorria insistentemente um mapa com países inexistentes e golpeava as ilhas perdidas onde se enclausuravam virgens vigiadas por um círculo de castratis que navegavam à deriva num cruzeiro onde os ouviam cantar, “você me deixa louco”, e por vezes encontrava num retrovisor convexo a minha inocência a morrer e não sei se estava no futuro no passado se no presente sujeito às mãos de um “círio cintilante”, ou num xadrez em que a rainha era a última a soçobrar perante as investidas dos cavalos; parecia que a tempestade se estava a impor num coalhar de nuvens cinzentas que se coagulavam no meu rosto como se fossem borbulhas de um eterno adolescente que se representa através do meu corpo; o Jorge Romão discursa para a multidão sobre os técnicos que os acompanham e que são fundamentais para o “espectáculo” e lamenta que Jorge Jacinto (roadie) não esteja presente devido ao falecimento do seu pai durante o dia de ontem em que os GNR tocaram no Douro Rock e este estoicamente não abandonou as suas funções; e os GNR continuam a desfilar o seu acervo de sucessos como a macabra “MACabro”, o hino “Pronúncia do Norte”, a popular-kitsch “Nova Gente”, a dramática “Morte ao Sol”, e a eterna “Dunas”; o público quer de volta os GNR e as salvas de palmas sucedem-se e os músicos surgem para a pop-irónica, “Quando o Telephone Pecca”, à qual se segue a rock-kitsch: “Quero que Tudo vá para o Inferno”; e as luzes do palco denunciam que os GNR irão voltar mas as pessoas afastam-se como se fossem pombos a depenicar migalhas de pão duro que a minha avó lhes ofertava em nome da generosidade; “Sub 16” trá-los ansiosamente de volta e as palmas e o delírio sucedem-se semelhante a uma peste benigna como o amor que em ciclone anula todos os outros sentimentos deixando o escravo do escravo do escravo feliz: “+ Vale Nunca”.

GNR, Tour 2017, 12 de Agosto, Festas da Batalha

Em memória do lendário produtor australiano Tony Cohen e do pai do Jorge Jacinto

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Obscenity and Arts

A lua é uma prostituta que se vende graciosamente à terra que depende da natureza para existir e que é indispensável à fruição dos dias luminosos de Verão como o que se extinguiu há horas e que me dilacerou o coração que se inundou de sangue como se estivesse a ser vítima de uma overdose de cocaína; as lágrimas estão acumuladas nas minhas pupilas à espera que o dique ceda à pressão da mais violenta e inexpugnável dor; ergo uma arma de plástico e aponto-a sobre a minha cabeça derretida e quando carrego no gatilho oiço um estoiro que me perfura os neurónios que entram em curto-circuito e os olhos fecham-se e vejo uma estátua de luz que abre os braços à espera da minha alma que nunca coube no meu corpo de anão e entrego-a num envelope selado com baton transparente e esvaneço-me num vácuo onde estou em lista de espera para incorporar num ser vivo mais belo e inteligente do que eu e que não tenha sido amante de virgens vãs; estou numa mata contígua ao parque de campismo de Quiaios e ao recinto onde irá decorrer o Festival WoodRock que estoicamente cumpre cinco anos de estrondos, e que é responsável pelo convite aos Desert Mammooth que estão a tocar sob um toldo num estrado ladeado por focos coloridos, o rock é a raiz das canções que embrulham com o psicadelismo ou o stone, não há nada a apontar à sua execução mas domina um problema transversal que é a falta de soluções que as individualize algo que é redundante e induz ao tédio; quanto aos Legendary Flower Punk inserem-se num quadro heterogéneo que passa pelo funk, rock, psico-rock, flower dance pop, jazz, e transcrevem com primor as diferentes geografias sem que haja percepção por parte do ouvinte, esta elegância é medida segundo o equilíbrio em relação à guitarra eléctrica e à trompete que intercaladamente assumem-se como os centros de um fulgor estilístico épico; os Tau são compostos por dois freaks que se dividem por precursão/teclado/voz e voz/guitarra acústica ligada a pedais e evocam o mantra que misturam com blues e o rock e a pop como se fossem discípulos de George Harrison quando foi para Índia aprender a tocar sitar com Ravi Shankar, e que induzem a um hipnotismo de tal forma sedutor que é capaz de libertar a consciência dos wood rockers, do domínio do m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o; estou sentado ao lado do espírito da Alice que é tão leve quanto o meu e o seu perfume inebria-me e acaricio-lhe o cabelo escuro imaterial como os sentimentos a que as almas estão proibidas de aceder, beijo-lhe o rosto de pedra lapidada num estaleiro de onde zarparam navios com piratas fantasmas e o seus olhos verdes moram nos meus castanhos e partilhamos o amor volátil e irreal que se esvai num tempo paralelo onde seremos felizes a alterar a lógica da vida; encontro-me no recinto do Festival WoodRock e os Duvida 431 esforçam-se por expurgar um hard rock que se limita à sua vertente académica e não são capazes de o transformar em algo urgente e nessa medida revelador de originalidade; os Oddhums executam um metal contido que é interessante mas a repetição de um único mecanismo rítmico infecta as canções de uma monotonia redundante; os Lâmina implementam um metal gótico e aqui inscrevem-se as composições compassadas com as guitarras ora a dilacerarem ou a planarem, mas nestas dinâmicas algo falha e que não é totalmente perceptível ao ouvinte, talvez estas não estejam devidamente equilibradas o que produz um vazio sonoro; já os The Black Willows têm como premissa o hard rock que por vezes roça o metal, de sublinhar que as canções predominantemente lentas ou a que surge a partir da delicadeza da guitarra e do baixo eléctrico são de facto intrusivas; os Correira são um caso do mais puro e sincero rock and roll com origem na década de setenta do século passado mas através de uma vitalidade desarmante; pena que tenham tocado somente duas canções algo que se prendeu com problemas irremediáveis com o bombo; !bah!; os Mr. Niyagi são uns adolescentes que deveriam estar a ensaiar o seu hardcore primata numa garagem próxima, o palco merecia um outro desfecho; a Alice está cada vez mais distante e tenho que me aproximar lentamente para lhe sussurrar que a adoro mesmo que tenha nascido numa casa invertida que irremediavelmente a consignou à infância e nessa medida exerce um poder estranho sobre mim que me faz rastejar “onde nem a bela dona cresce tocando o musgo com a mão” e ela sorri e lança uma gargalhada que ecoa na minha cabeça perfurada com um calibre pernicioso que me libertou da vida; não sou um suicida ou somente um outro suicida como quase todos os suicidas que se suicidaram por não suportarem a merda da solidão; o palco está vazio à espera dos míticos Mão Morta; que o ocupam e vertem as suas canções que estão pejadas de um negrume tétrico que têm um programa político que visa alertar as consciências para a sua escravização por parte dos diferentes lobys que se canibalizam, a postura dos diversos elementos é na sombra deixando o centro do palco para o bailado desarticulado do Adolfo Luxúria Canibal que se expressa através de um canto/falado/sussurado/cuspido quase gutural que induz o suicídio aos que amam o quotidiano, inequivocamente tão violento quanto um punhal a perfurar um coração a palpitar de prazer; os Vodum são um composto afro com um groove tribal que é perniciosamente refrescante e nem a saturação destes elementos os anula, há ainda a destacar a voz potentíssima assim como a postura dominante da cantora negra de vestido de cetim e cabeleira encaracolada; Bala são duas jovens, uma loura a outra morena, a primeira na voz e na guitarra distorcida e a outra na bateria e na voz e as suas descargas são de uma violência tão atroz quanto cruel, e as vozes são um contínuo grito punk que é capaz de libertar a dor a quem a sinta na alma; Alice partiu para um outro corpo onde possa dar continuidade às suas diabruras intelectuais e temo que jamais voltarei para os seus braços compridos de mãos elegantes com as unhas pintadas de luto.

Festival WoodRock, 20, 21, 22 de Julho, Quiaios

Por razões do foro pessoal foi-me impossível ver no dia 22 os Mr. Mojo e Her Name Was Fire, peço desculpa aos músicos e aos leitores.

In loving memory of Chester Bennington


terça-feira, 18 de julho de 2017

Homenagem à Realidade

A luz difusa ilumina dois corpos distantes que dão as mãos em direcção a um horizonte diáfano, onde andorinhas construiriam ninhos de espinhos e assobiariam “Bem-vindo ao Passado” e estátuas transportariam corações feridos por punhais bicéfalos que explodiriam num rasgo exangue; guardo num cofre o sonho induzido pelo ópio; e mergulho numa vertigem invertida onde me espelho num torpor que me divide em personagens que têm em comum uma caixa de ritmos que bate fielmente pelo futuro, entrelaço-me nos braços de uma ninfa que fora abusada por Camões num canto dos “Lusíadas” e segredo-lhe que eu não sou eu nem um outro e nem tão pouco o meu reflexo que se transmuta consignado ao passado, oiço o seu murmurar enigmático em que não me descubro como um ser humano condenado a uma sombra tímida contaminada pela tristeza; encontro-me no OOD (bar) onde confluem os loosers de Coimbra a propósito do aniversário do poeta Alexandre Valinho Gigas que se encontra atrás da mesa do Dj ladeado por Carlos Dias (teclado) e Pedro Antunes (teclado) o primeiro inscreve um contínuo sustenido e o segundo é dissonante a instituir a distopia, o poeta verte o fumo do cigarro pela sua boca e desfere para o microfone: “Um punhal a arder”; “uma pomba a arder”; “conseguirás chegar à praia?”, os teclados inscrevem-se agudamente e angustiantemente e surge um beat de uma caixa de ritmos que lentamente marca a métrica do verso: “Encontrei-me aqui entre mim e a enorme sombra”; “poesia”; o ritmo acelera e “cheguei por isso”, “a mexer cá dentro”; “na distância de ser poeta/ Na distância de ser poeta”; “sou um poeta da vida”; “sou um poeta que grita calado”; “falas da morte”, “quero falar de paixão”, ouvem-se os teclados a suprimirem os silêncios do poeta e o beat é ainda mais acelerado, “sonho inquieto que se vai perder de vista”, “fraterno”, “fixo os olhos”; “uma”, “amor”, “respira respira futuro”, a cadência melódica e rítmica é ondulada mas contida como se fosse a areia de um deserto soprada por Cronos, “o teu futuro está nas tuas mãos”, “solitárias”, “respira o futuro”, “acredita no futuro”, “futuro”, “acredita nos outros”, “mordes nos que acreditam em ti”, e o ritmo sobrevém e não há uma secura na dor do poeta, “como é o futuro?/ Como é o futuro?”; silêncio; e as máquinas retomam uma outra canção seguindo uma cadência lenta; e encontro o meu reflexo no verso: “À frente dos olhos, malvada obra-prima”, a envolvência dos teclados lo-fi induzem à atenção, “carnes gordas”, “obra-prima não sabe nada”, “frio”, há uma aparente dissonância dos teclados que parecem agulhas pontiagudas num urso de peluche, “o inferno é o meu alimento”, “amor”, “o inferno é o amor/ O inferno é o amor”.

Aniversário do Alexandre Valinho Gigas com Carlos Dias e Pedro Antunes, 16 de Julho, ODD

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...