domingo, 29 de maio de 2022

La Semiologie

Tarde quente na Alfandega do Porto onde está a decorrer o último dia do North Music Festival, que convidou a subir a um enorme palco os GNR, Waterboys e os Jesus and Mary Chain; e os primeiros a comparecer às 20h20 não são os Guns and Roses antes o Grupo Novo Rock—precedidos por duas entidades que não irei detalhar por não me encontrar nessa altura no recinto à beira Douro plantado-- que são recebidos com uma ovação e durante a hora em que estiveram em palco demonstraram que os quarenta e dois anos de carreira representam pouco ou nada para a qualidade e capacidade em transpor os clássicos (que são muitos) para o palco, “Vídeo Maria”, “Pronúncia do Norte” foram amplamente cantadas em uníssono com Rui Reininho que tal como os seus colegas teve uma performance imaculada, quase perfeita de tão eloquente tanto quando discorriam pela pop ou transgrediam no rock, decerto há que ainda que assinalar a irreverência do cantor que por diversas vezes provocou o público.

Os Waterboys são em exclusivo Mike Scott (o único membro original) e é ele que conduz a banda com a sua guitarra semi-distorcida e é essa a essência do problema: o se limitarem a apresentar um rock sem qualquer rasgo de criatividade, pois pejado de inúmeros lugares comuns que entorpeciam quem os estava a ver, tecnicamente excelentes mas isso não foi suficiente para elevar a fasquia da qualidade, para além de se sentir a falta do violinista que abria o leque para  as raízes da banda que são irlandesas.

Jesus and Mary Chain ou “Jesus and Mary Chatos” segundo Rui Reininho algo que levou o público a apupa-lo e de facto ou infelizmente o cantor portuense tinha razão, já que o que sobrevém do concerto dos escoceses é a distorção que de uma destrutiva tornava as canções em meras sequências similares umas às outras, este embrulho apenas confirmou que foram em simultâneo a escolha acertada e a errada para encerrar o festival: acertada porque as suas canções estão pejadas de universos densos quase lúgubres e deprimentes, errada porque a forma como foram apresentadas foi de tal forma unidimensional que o que se obteve foi um ruído perturbador (não o noise que é um género que aqui foi meramente desenhado).

North Music Festival, 28 de Maio, Alfândega do Porto, Porto.

sábado, 23 de abril de 2022

Stoner

O Teatro Aveirense apresenta os Três Tristes Tigres que no total são seis músicos ligados electricidade (excepto a harpista) dos quais se destacam os mentores: Alexandre Soares (guitarra eléctrica) e Ana Deus (voz) a linha que fluentemente apresentam é a da electrónica que progressivamente se torna ora incomodativa ora sedutora mas é nesta dualidade que se encontra um centro sonoro que se espraia com o intuito de se dividir entre o bonito e o belo e é este último que tem ascendência sobre o primeiro, mas esta beleza é incomodativa porque provoca inquietação que se de uma forma ou de outra é acutilante porque recorre à repetição para que assim seja passível de ser assimilada e nessa medida ter cabimento como estética que se liberta das suas condicionantes formativas (ou assim o pretende) e procura evolucionar num sentido que se estava proibido seria por falta de experiência por quem tentou bater nessa porta blindada e construir um fluxo que se corre para o mar (como sucede com os rios que nasceram para desembocar numa área bem maior e complexa), a amplificação de elementos que parecem ter origem numa tribo que consigna ao coração o seu poder supremo e que a partir do qual reconhecem à realidade um contexto que se imerso nessa complexidade detona numa violenta extroversão e que pretende revelar algo de novo que transmutará o espaço e o tempo em outros espaços e tempos que sucessivamente são o futuro e o passado num vórtice que não consegue fazer desaparecer o contexto em que a música faz ressurgir um outro presente, a documentação do tempo psicológico é um compasso que se reporta a inúmeras texturas numa continua circularidade que incute dois binómios: um segue por uma melodia que é (por vezes) de uma aspereza cruel e que detona um mal-estar que ninguém pretende prender ou segurar e segunda uma maliciosa melodia pulsante que irriga o corpo das canções, se há dissonância é num organigrama em que o organismo se contrai e desconstrui como se fosse o apelo sedutor da autocombustão deste efeito poderiam surtir diferentes sinónimos para justificar esse emaranhado distorcido que discorre no interior do absurdo, a lentidão liderada pela harpa consigna a algumas canções um misto de volúpia onírica pop que revela uma delicadeza que se fosse um sentimento seria o amor ou a perda desse (aparente) eterno sentimento mas a crueldade é revelada pela fragilidade da condição humana, o rock apresentasse segundo ditames que revelam a sua raiz é por sistema invertido e alterado para um registo que se revela numa máscara que é a da angustia ou do desespero que deliberadamente se entranham como se fossem um misto de veneno com água baptismal: esta viscosidade escorre tal ácido sobre um espelho e retalha-o segundo uma estrutura que faz emergir uma beleza profunda, se há espaço para que se reflicta numa turbulência pop/rock e surja um outro entendimento quer seja com os sentimentos seja com a realidade que a rodeia com a perspectiva de que há esperança para lá do reflexo…

Três Tristes Tigres, “Mínima Luz”, 22 de Abril, Teatro Aveirense, Aveiro.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Let Us Compare Mythologies

Dela Marmy é o nome artístico de Joana Sequeira Duarte que surge no palco do Salão Brazil acompanhada por três músicos, a música que executam é de uma vertente que se alicerça à pop mas com inúmeros pormenores dos teclados que lhe oferecem uma delicadeza esotérica que transpõe ou recoloca o ouvinte num universo quase infantil, essa parcela nas canções é a porta para a abstracção que é de certa forma encantatória por aprofundar algo que é somente uma memória mas a mais pura, certamente que os quadros pop são delineados de forma a evitar qualquer cliché salvaguardando assim um índice elevadíssimo de originalidade que revela um mundo repleto de uma beleza insofismável em que a tragédia é de um romantismo tão profundo e delicado que se rebela contra a efemeridade a que estão condenados os seres vivos e é essa esperança que é um íman que prende o melómano, por outro lado há um propósito maior que se prende à fantasia que delicadamente se constitui como subtexto das canções e não é que seja meramente contemplativa antes é associada a uma pop que no seu âmago deslumbra e gera uma felicidade contida mas paradoxalmente plena de esperança para com o caos que por vezes faz movimentar o Mundo e ao demonstrar esse efeito descobrem-se pontos cardeais que dominam e se espraiam e cativam a quem esteja presente e de momento a ausência deve ser compreendida como um despertar em direcção de algo divinalmente belo e que por conseguinte é uma soma intransponível, a melancolia mistura-se intermitentemente com a felicidade como se a primeira fosse dominada pela segunda e assim inversamente e a isso deve-se a voz da Joana Sequeira Duarte que é de uma clareza imaculada que assoberba as canções a um patamar de uma inexplicável doçura ou assertividade no que canta seja a tragédia ou noutras a evocação de algo que por si só é suficiente para elevar as canções a um pináculo de beleza mas que é ideal e não a que transborda de páginas de manuscritos antigos antes dos dias em que domina o Outono e se encaminham para o Inverno e a única companhia para conquistar a próxima estação do ano é Dela Marmy.

Dela Marmy, Captured Fantasy, 5 de Dezembro, Salão Brazil, Coimbra.

domingo, 7 de novembro de 2021

The Flame

HHY & The Macumbas apresentam-se sob diferentes prismas: a música ora se decompõe em estruturas tribais ora se compõe num hipnotismo que resulta numa ode operática que coloca o ouvinte em contacto com o divino e com o profano como se fosse a mistura num copo de vinho amargo que transmutaria os peregrinos em seres cornudos e outros em anjos dançantes em redor do fogo profano as almas sumptuosamente divagam entrecruzando-se e se digladiam ou se transmutam numa só peça de escultura erguida para que seja adorada ao som das variações rítmicas umas vezes profundas e hereges e outras celestiais; parece que o que domina no contexto sonoro dos HHY & The Macumbas são bifurcações que se encontram num mesmo leito de rio de sangue fruto de um sacrifício e este ponto é fundamental para que a música corra sem que seja questionada a sua origem; se fossem recolocados num terreno inóspito seriam reveladores de maravilhas de diamantes ou brilhantes de sangue porque se existe progresso isso deve-se à exploração da matéria prima que enriquece os países pobres, tal como a música que advém do palco que é rica (não no sentido literal do termo) porque tem origem nesses tais países africanos e onde se encontra o berço castrado dominado por elefantes moribundos e rinocerontes em fuga dos seus carrascos; o concerto que dura uma hora não há qualquer pausa o contínuo é revelador de que a relação do pensamento tem inúmeros níveis de entendimento que se entrecruzam e são potenciadores de atar um outro estado de espírito ao ouvinte que tem que ter confiança na narrativa sonora deixar-se levar de olhos vendados por uma floresta ou pela savana e não ter medo que qualquer ser estranho possa aparecer de repente de forma a que seja suficientemente forte para instalar a anarquia e a demência porque é esse estado de transe quase demencial que se situa a tragédia dos HHY& The Macumbas se há esperança é apenas no limiar da mesma se há felicidade é porque os corpos podem transpirar e libertar o mal que por si só é o primórdio daquilo que se pretende exorcizar e somente o mal para que daqui em diante seja o bem como advir de um outro universo mais amplo e belo que recusa as trevas e faz delas cinzas somente destas é possível que algo seja eterno e que desmontado o cenário seja o bem a dominar os corpos cegos perante a montra do escuro ou obscurecido que relata o pormenor e transformam em algo maior o que não é domesticável; os ecos de uma nova civilização estão proscritos em cada acorde porque é quase do tempo em que as ligações entre os seres vivos eram composta exclusivamente por sons que gradualmente simbolizaram a coisa em si e que sustentou uma nova forma de comunicar; a música é o seu elemento mais revelador que de outra forma seria impossível transmitir HHY & The Macumbas que são um manancial que despertam os sentidos para um outro mundo que inconscientemente é reconhecível para quem se presta a ouvi-los com atenção e dessa forma possa perspectivar quiçá algo similar ao que Picasso descobriu com a arte africana o cubismo é nessa perspectiva de transposição do sagrado para um nível de contexto contemporâneo que estes músicos se enquadram haja felicidade por uma hora sonora deslumbrante.

HHY& The Macumbas, 6 de Novembro, Teatro José Lúcio da Silva, Leiria.

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...