segunda-feira, 1 de agosto de 2022
domingo, 31 de julho de 2022
A Certain Quantity
É possível que seja uma
questão do foro sentimental que me traz à Praça Guilhermina Suggia em
Matosimhos, onde está instalado um enorme palco com dezenas de cadeiras onde se
irá sentar a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música juntamente com os
míticos GNR no âmbito do festival Matosinhos em Jazz.
Estive presente em duas
ocasiões em que os GNR foram acompanhados por outras bandas: a da Guarda
Nacional Republicana na Expofacic e em que o resultado foi arrebatador porque
dominou um alinhamento que perpassava a carreira dos GNR, e oferecia às canções
uma outra perspectiva por vezes kitsch, ou na sua grande maioria de uma
sobriedade que as dignificava e as colocava num patamar de elegância; a segunda
foi em Matosinhos com a Banda Filarmónica Matosinhos-Leça (da qual Rui Reininho
havia sido eleito presidente, isto em 20019, lugar que ainda ocupa) e o
resultado desta colaboração foi substancialmente inferior que com o da Guarda
Nacional Republicana e as razões prenderam-se com dois factos: a variação e o
número de naipes é inferior na Banda Filarmónica Matosinhos-Leça em relação à da
Guarda Nacional Republicana, para além da inexperiência dos músicos de
Matosinhos comparativamente à da Guarda Nacional Republicana foi notória.
Quanto à relação entre a
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e os GNR equipara-se à da Guarda
Nacional Republicana, porém há algo que os separa-- para além do alinhamento
das canções-- se nestes últimos os arranjos estavam a cargo de três músicos, nos
primeiros o responsável foi Telmo Marques-- músico que acompanhou os GNR,
nomeadamente no concerto em 1992 no Estádio José de Alvalade, e que tocou
teclas em dois temas-- o que proporcionou uma maior homogeneidade ao concerto
para além de uma fluidez e leveza que se reflectiu numa delicadeza nas canções em
que dominava um ritmo lento; ou se associavam ao dramatismo das que tinham uma
variação rítmica como em “Morte ao Sol” (dedicada por Rui Reininho aos idosos
vítimas da pandemia Covid 19) e lhe acrescentavam uma fatalidade digna de uma
peça de teatro do Ibsen; em termos gerais é passível associar os arranjos do
Telmo Marques às orquestrações em “Pet Sounds” dos Beach Boys; já o público
esteve entregue ao espectáculo muitos deles como se estivessem ouvir canções
com mais de trinta anos como se fosse a primeira vez.
GNR & a Orquestra
Sinfónica do Porto Casa da Música, Matosinhos em Jazz, 30 de Julho, Praça
Guilhermina Suggia, Matosinhos.
quinta-feira, 28 de julho de 2022
domingo, 26 de junho de 2022
Diário Do Último Ano
Se fosse uma tarde
quente de Junho seria o ideal e por isso pergunto o porquê desta aragem gélida que
percorre o Parque da Bela Vista e perturba os festivaleiros (fãs de gorros e de
flores nas cabeças e ou pinturas faciais) sente-se uma excitação generalizada
por estarem a participar no RIR (Rock in Rio).
Há quem esteja atento
aos UB 40 com Ali Campbell (este é irmão do anterior vocalista) que tem um
timbre similar a esse seu familiar-- fazendo pensar que é o original algo que
não custa nada a crer --oferecendo à banda uma voz aguda e superiormente
irritante que sobressai a um reggae que é de uma linearidade atroz por se
adaptar maioritariamente a um contexto de socialização onde domina a
festividade, fugindo à canção de intervenção que teve como expoente de representatividade
o Bob Marley, sendo assim a música dos UB40 com Ali Campbell é tão superficial
quanto alienante algo que agrada por norma às multidões.
No palco EDP Music
Valley (que dista do Palco Mundo o suficiente para não se ouvir ecos dos UB 40)
espera-se pela entrada em cena do Ney Matogrosso-- que se apresenta após a
entrada dos músicos que foram apresentados por uma voz off assim como é referenciado
o designer das luzes, etc— e é invadido por uma ovação dos fãs que se deveriam
ajoelhar perante este mito brasileiro que canta como se cada palavra fosse um
organismo vivo que se complementa numa poética que recorre aos Secos &
Molhados e ao seu repertório a solo, e as canções (MPB, rock, bossa nova)
evocam locais onde a emancipação do homem se dá através do momento que toma
conhecimento da razão e está faz crer ao individuo que a liberdade é
fundamental para a sua felicidade, estas canções são tão pertinentes hoje quanto
fizeram quando dominava a ditadura militar no Brasil, que infelizmente continua
manietada às mãos dos militares e dos juízes, tendo como representante alguém
tão néscio quanto Bolsonaro. (Ney Matogrosso não é só um mito da música popular
brasileira é um guerreiro que através dos seu canto de ave de rapina se enuncia
como um corpo livre e assim lhe segue a alma, do primeiro a multidão pediu que
despisse o casaquinho mas recusou: “Está correndo um vento frio nas minhas
costas…”, mas mesmo assim anui e abre-o ligeiramente e a galera delira por o
cantor ser tão complacente quanto simpático).
No Palco Mundo surgem
os noruegueses a-ha que são compostos por um trio no qual se insere o vocalista
Mortem Harket que apresentam um conjunto de canções predominante pop com laivos
de uma sobriedade que é somente assoberbado pelos teclados que lhes incutem uma
característica synth mas afincadamente kitsch, mas o centro das atenções não é
somente Mortem Harket com o seu timbre em falseto (e que esteve irrepreensível durante
a hora que esteve em palco), mas também o guitarrista Paul Waaktaar que fez
solos épicos mas contidos que introduziram uma urgência rock às canções que
disso precisavam, há ainda a realçar que apesar de transporem fielmente os
originais que lhes deram fama na década de oitenta (principalmente) estas
tinham inúmeros pormenores lhes ofereciam laivos de alguma contemporaneidade. De
realçar o discurso de Magne Furuholmen sobre o atentado a um grupo de gays em
Oslo, sublinhando que todos têm o direito de se relacionarem livremente.
Duran Duran (também no
Palco Mundo) iniciam com “Wild Boys” e aparentam uma coesão soberba que ganha e
domina o público que acompanha na gritaria do Simon Le Bom, porém há um
retrocesso quando arriscam as músicas do novo disco “Past/Present” (e que
alternam com os clássicos) pois parecem uma outra banda porque os cinco
elementos não se encontram passando de banda a um grupo de músicos que mal ou pouco
ensaiaram as novas músicas, algo que é tão desconcertante quanto frustrante para
quem como eu está em pé numa ribanceira (e o vento que me acompanha desde o
inicio e que está cada vez mais gélido), a somar a isto está a voz de Simon Le Bon
que inexplicavelmente ao fim de uma hora de concerto dá o berro (isto é cana
rachada) e que é mero ruído (nem o Auto-Tune consegue resolver), e de negativo
acrescenta-se a postura do vocalista que é um tanto ou quanto sobranceira e arrogante:
para que o acento cockney Simon? Se tanto ele como os restantes membros da
banda (excepto o guitarrista que está com eles há dezoito anos) são de
Birmingham onde não se fala com tal sotaque. De elogiar a canção que Simon Le Bon
dedica ao povo da Ucrania.
Rock
In Rio, 25 de Junho, Parque da Bela Vista, Lisboa.
segunda-feira, 6 de junho de 2022
domingo, 5 de junho de 2022
Werther
A associação entre a
Orquestra Jazz de Matosinhos e Rui Reininho encontra o seu segundo capítulo na
Praça Real Vinícola (antes havia decorrido na Casa da Música) inserido no
conjunto de concertos Jazz Na Real Vinícola; o cantor dos GNR traz consigo o
Alexandre Soares e o Paulo Borges que juntamente com a orquestra
(maioritariamente constituída por metais) executam as canções que decorrem do
segundo álbum de originais de Rui Reininho “20000 Éguas Submarinas”. A relação
que estabelecem é a de acentuarem os elementos estéticos que se evidenciavam em
cada um dos temas do álbum, isto sem serem meramente retratistas, mas na
procura de evidenciar pormenores que se encontravam no subtexto da linha melódica
dos originais: onde há delicadeza e profundidade acentuam-se as mesmas, onde há
excesso e opulência acrescenta-se ainda mais a densidade; destas ondas sonoras
(o que remete para que esteja inerente uma ondulação que não afecta somente
“Fartos do Mar” mas também as suas congéneres) provém universos abstractos e
outros oriundos-- de e por exemplo-- do flamenco a sua coexistência confere às
canções uma profundidade extravagante pois se encaixam sequencialmente ora
derivadamente e tendencialmente criando um “big picture”. Porém e
comparativamente quando Rui Reininho se apresenta somente com os seus quatro
comparsas há um aprofundar senão mesmo um denso sublinhado sobre o psicadelismo
que confere uma dimensão “inconsciente” às canções, mas dado o facto de a
orquestra ser composta por metais a que se juntam uma bateria e um baixo eléctrico, as opções teriam que passar
obrigatoriamente por esse conjunto de músicos, logo essa dimensão psicadélica
está alienada dando espaço a arranjos que complementam as canções noutros domínios
(como o aqui evidenciado flamenco),-- resolvendo assim-- o que em quinteto era
uma constante enunciação que se insinuava e se exprimia para além da moldura do
tal “big picture” extravasando as suas fronteiras mas sem se perder a narrativa
sónica. A surpresa final é “Sete Naves” --original dos GNR e uma das
composições co-escritas com o Alexandre Soares, um dos membros fundadores do Grupo
Novo Rock-- e que a Orquestra Jazz de Matosinhos transforma numa tempestade,
mas em vez de soprarem ventos adversos sobre embarcações fantasmagóricas há uma
felicidade destemida contra toda e qualquer perturbação que se torna numa
esperança que enche de força os marinheiros que usam a voz do Rui Reininho para
se vingarem de residirem no além, e o único desassossego é ouvirem-se através
da sua voz e por essa e somente por essa razão sentirem-se vivos.
Rui Reininho & A
Orquestra Jazz de Matosinhos, 04 de Junho, Jazz Na Real Vinícola, Matosinhos.
segunda-feira, 30 de maio de 2022
Susan Sontag
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