segunda-feira, 27 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
O Claustro dos Corvos
Os RAMP são um remoinho de esquizofrenia bruta, liderados por um Minotauro de cabelos encaracolados que o vestem da cabeça até aos ombros. Quando abre a boca as chamas incendeiam o Alfa Bar, repleto de adolescentes que se acotovelam, abanam a cabeça a seguir o ritmo de “Blind Enchantment”, o primeiro tema de Visions, o álbum que se distribuiu à entrada. Ou se atropelam, empurram, ao instalar a desordem, surge o reduto da demência, onde o grotesco é a nota que impera como fio condutor de duas horas de terror sonoro, nunca encontraremos o início ou fim do novelo, o labirinto é um claustro onde os corvos devoram os cadáveres dos cães atropelados por Mercedes descapotáveis. “Esta música, queria dedica-la a quem fez parte de mim, faz parte de mim, e continua a fazer parte de mim. Apesar de já não estar cá!”, “Alone”, “OoooooOOOOOO”, “vocês:”, “OOoooOOOOo”, “MAIS ALTO!!!!”, “OOoooOOOOO”. Os miúdos atiram-se sobre o palco, o roadie manager, a Velha, entra e tenta segura-los com a paciência de uma idosa amante do croché, “CALMA!!!!”, “CALMA!”. A tensão dissipa-se gradualmente mas paradoxalmente o Minotauro encaminha-os para o clímax. “Anjo da Guarda” de António Variações é revisto sobre uma palete de solos distorcidos e em ritmo arrítmico, são as frequências de um coração à beira do ataque de nervos, a voz: “eu tenho anjo, anjo da guarda que me protege de noite e de dia!”. “Nesta altura recuamos ainda mais no tempo, o próximo tema chama-se ´Thoughts`”. A sequência de solos entre os dois guitarristas transformam, “Walk Like an Egipcian” da girls band mais sensual do planeta, as Bangels, num bordel onde o pagamento se efectua através de escárnio e de gozo, “Lá, lá, lá, lá, lá, lá”. “Vocês não são nossos fãs, mas nossos amigos. Este é o momento em que recuamos vinte anos, este é o momento em que partilhamos o nosso Inferno!”
Visions Tour, RAMP, 25 de Abril, Alfa Bar.
Visions Tour, RAMP, 25 de Abril, Alfa Bar.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Colhões Felpudos
Os Mão Morta são originários da Roma portuguesa, Braga, e o seu nome deriva de imposto cobrado na Idade Média. A cabeça cantante é Adolfo Luxúria Canibal que lidera o quinteto de músicos, três guitarras, baixo, bateria, os "Ventos Animais" sopram do palco do Cine-Teatro de S. Pedro, Abrantes. “As noites de Budapeste são noites de rock and roll”, é um tema gingão, que transpira noitadas com prostitutas embriagadas, o solo da guitarra é contraponto a tudo o resto, “as tardes de Budapeste são tardes de rock and roll”, a voz de Adolfo rasga a melodia pop, “mulheres lindas de morrer”. “As Tetas da Alienação” assume-se como uma premissa que se concretizou com a actual crise mundial, “e com isso ocultar a pobreza real”, “são as tetas da alienação”, as tetas que alienam mas também matam a fome, e os dependentes viciam-se na alienação que lhes impõe felicidade. “E se depois o fogo te perseguir?”, as guitarras assumem-se como as artérias das canções, é delas que verte a cor indecisa de “corre atrás dele!”, “e se depois?”. Adolfo começa a distanciar-se da sua persona para encarnar as palavras, as sílabas, as consoantes, o ritmo, a voz é garrida de sangue ou de distorção, “e se depois?”, “e se depois!”, “e se depois?”, “o fogo te perseguir?”. A voz adensa o “silêncio”, “ninguém dizia nada”, “o silêncio”, “ninguém dizia nada”, o solo angular sobressai por entre as guitarras e o baixo em distorção. “Um dia”, “o que é que isso interessa?”, “tu disseste: nada”, “um bater de asas”, “o que é que isso interessa?”, “tu disseste: nada”, o baixo equilibra a hipnose impregnando-a de adjectivação dos blues, perigosa, desalinhada, “o que é que é isso interessa?”, “vocês disseram:”, público: “nada!”. O cabaret delicado de uma bailarina que procura dominar o equilíbrio num bar onde lhe pagam copos para a apalparem, e ela dança de colo em colo, “olha a menina a dançar”, “da sorte e do azar”, “xadrez”, “jogo para nunca, nunca mais acabar”, “olha a menina a rodar”, “mistérios da sorte e do azar”, Adolfo dança sozinho como se tivesse um corpo no qual coloca a mão no ombro e na cintura. “Este tema foi tocado pelos Mão Morta muito antes de terem qualquer disco editado”, as guitarras digladiam-se e o baixo é a única voz que mantém o discernimento, “pé”, “pontapé”, “só sangue”, “sangue”, sangue”, “AAAAAHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!AAAAAHAAAAA!AAAA!HA!AAAAAH!AAH!”. O discurso contra a manipulação dos meios de comunicação sobre a população: “Em directo para a televisão”, “ahahah”, “a confusão, é a guerra sem quartel, de empresas locais. Ou então, ou então, encena-se o directo para a televisão. Em busca do controlo, de mercados locais”, “chamem a ambulância por favor”, “chamem a ambulância por favor”, “ahahahah”. “Penso que penso” é circular com a guitarra em regime de slide, “penso, e penso que vou flipar”, “estou farto de mim”, “penso que penso, penso que penso”, a origem do falso pensador, que se vê no beco da alienação porque o seu pensamento está viciado a inúmeros jogos de auto-elevação e superação de si próprio, a resposta é sempre a mesma, “murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar, murmurar”, a agonia, a origem do suicídio “estou farto de mim, estou farto de mim, estou farto de mim!”. A voz de Adolfo contrai-se e puxa os cabelos como se fossem fios eléctricos, “estou farto de mim, estou farto de mim” e o choro irrompe. O “Primeiro de Novembro”, é iniciado pelo público, “lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá”, “solidão, saudade!”, “lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá”, em ritmo marcial, mas dos que provocam vertigem. “Guarda civil”, “divertiam-se que nem doidos”, “a ver o sol a nascer no Mediterrâneo”, o noise é visceral e Adolfo dança durante o solo e liberta-se do super-ego. “Quero morder-te as mãos”, “ahahahha”, “respiração de foda”, “auauauauauaua”. “Lisboa, Cais do Sodré”, “com as suas caras fugidias”, “o fantasma de luz e de cor”, “fantasias”, é o hino das vias por onde circulam os corpos que decoram as ruas, são apenas elementos orgânicos viciados e presos a uma situação que os subjuga a um fatalismo, “o dealer roubou-me, roubou-me a alma, raios partam! O deaaaleeeer”, “enorme letargia”, “Táxi!!!!” e a distorção é um vómito de ressaca, que suja a calçada portuguesa com bílis, “Casal Ventoso se faz favor!”. “Cão da morte”, “beleza no teu rosto”, “a foder até ao osso”, “morder no meu…”, “sinto um cão da morte a bafejar no meu rosto”, “aaaAAAaaaaAAAaaaAAAa”. “Vamos tocar uma música muito linda, para quem gosta de músicas lindas, chama-se ´Chabala`”, “uma pistola na algibeira”, “a fria noite envolta em nevoeiro”, “chabala”, o refrão é em falsete a imitar a voz de um chabala tonta, daquelas que dançam numa caixa à qual damos à corda para a ver dançar, o agudo de “Chabala”, é o canto de uma sereia que se prostitui aos marinheiros “Chabala”, a síncope e um solo atmosférico irrompe de blues tétrico, “chabala”, “chabala”, “chabala”. “Caídos”, “duas garrafas”, “onde as cinzas e os mortos repousam crescem flores”, “onde os anjos pernoitam”, ruído, “e as mulheres que eles amaram”, “rigorosamente”, “escondidos”, “nascida dos ratos”, “as mulheres que eles amaram jamais se despertaram”, “os demónios fervorosamente escondidos”. “Sou”, semeia o caos e a destruição, “meu nome”, “sabes quem eu sou? Uma miragem”, “Anarquista Duval”, “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA”.
Ventos Animais, Mão Morta, Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes, 03 de Abril.
Ventos Animais, Mão Morta, Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes, 03 de Abril.
terça-feira, 24 de março de 2009
Um Homem na Cidade
Entra em palco um trio de músicos, guitarra portuguesa (de Lisboa), a viola e o baixo, todos de natureza acústica, começam por afinar os instrumentos e de seguida iniciam a canção, surge Carlos do Carmo de fato escuro camisa branca, assim como a sua melena que apenas lhe cobre parte do crânio, que tem rosto de menino que relata a vida alheia: “Talvez a mãe fosse um rameira de bordel e o pai um aristocrata em decadência”, talvez o tenham educado “entre navalhadas”, “nasceu assim, cresceu assim, chama-se fado”. Carlos do Carmo, tem um timbre aveludado que não precisa de exibir-se em subidas e descidas de escala, é um sopro quente do antigo. “Certa noite, vi o meu destino nos teus olhos fatais e fiquei tão pequenino”, o ritmo é lento e Carlos do Carmo segura o microfone como se fosse uma cruz, “não sei voltar ao passado nesta noite derradeira”, “vejo-te ainda ao meu lado neste fado bailado”, “vou contigo, coração a morrer dentro de mim. Se ainda bates sem razão”. “Boa noite Figueira, foi com muita alegria, que quando aqui cheguei às cinco da tarde, vi que a sala estava esgotada. Foi muito bom! Assim como é encontrarmo-nos no início da Primavera e no Dia Mundial da Poesia”, em Lisboa deram-lhe a alcunha do Charmoso, é o último fadista contemporâneo da Amália. “Traz as rosas mais frescas do jardim”, “põe o vinho no copo”, “cruza as mãos no regaço”, “prova depois o vinho como o pão”. “Até agora só cantei homens, agora vou cantar uma mulher: Maria do Rosário Pereira, andei com ela ao colo”: “são as línguas das mulheres que vinham lamber-me a ferida se me virares as costas”, “não sei se me traíste, mas eu senti-me traído, mesmo sem ter a certeza”, “tens de perder a mania de deixar as pontas soltas na história do nosso amor”. Ao referir-se ao trio de músicos “parecem engenheiros hidráulicos, era o sonho da minha mãe que eu fosse engenheiro". O próximo poema é da Maria Teresa de Noronha, “revejo tudo e reduzo o meu amor de toda a hora, minha amante, minha amiga, na manhã à toda hora”, “um amor quase perfeito”, “não sei se é contigo se é comigo que me deito”, “coração quase morto”, “fado longe, fado perto, fado destino de mim”, “às vezes é um deserto outras vezes um jardim”, “só este fado de amoooor”. Sobre Dean Martim do qual se diz amigo: “ele estava com uma bebedeira tão grande. Perdoem-me este parêntesis”, “um chuto”, “um céu no olhar”, “os putos”, “mas quando a tarde cai senta-se no colo do pai”, “os putos”, “as carícias brilhando na mão”, “parecem bandos de pardais à solta”, o público: “os putos”, “são os putos deste povo a aprender a ser homens”. Desce do palco para a plateia: “o prazer de cantar, tem algo de narcísico. Os meus filhos já não se recordam de me ouvir cantar a brincar”, “a vida já passou um bom bocado”, e lembra, “fez vinte e cinco anos em Janeiro que morreu José Ary dos Santos”, “era a tarde mais longa que me acontecia”, “surgiste na tarde”, “meu amor”, “já não tenho a certeza se és a alegria ou a tristeza”, “foi a noite em que os nossos corpos cansados não adormeceram”, “meu amor”, “minha estrela da tarde”, “meu amor”, “é por ti que acordo”, “essa noite que nasceste despida de magoa e de espanto”, finaliza a pedir uma ovação ao “Dia Mundial da Poesia, palmas! Para o nosso Ary! Sempre!”
Aparecem os músicos da Sinfonieta de Lisboa, que em nada acrescentam aos temas, por vezes alguns apontamentos não são redundantes, mas apenas servem para realçar o trio de músicos em particular a guitarra portuguesa. “Os amantes infelizes deveriam ter coragem para mudar de caminho, o amor dá-nos tudo”, “mas quando a vida se acalma”, “se estás a tempo amordaça o coração”, “mas se não estas contínua, diz-me isto a minha mãe, ao ver-me chorar por ti”. Discursa: “os puristas não gostam que nós cantemos com orquestra. Todos os meus êxitos, foram sempre com orquestra, e se me perguntarem se eu me sinto fadista a cantar com orquestra? Eu digo que sim”. E canta como se fosse um cauteleiro embriagado, “perfeito coração, no meu peito”, “esse olhar que era só teu, amor que fostes o primeiro”, “morreria no meu peito”, “meu amooor”, “na tua mão, mas a mão bateu no coração”. Sobre a Sinfonieta, Carlos do Carmo é taxativo: “são todos músicos portugueses, todos!”; “pela manhã vi como dormem os silêncios”, “e na ternura do meu quarto a loucura”, “só vejo a manhã do dia”, “só agora é que não estou perdido por ser de noite”, “procuro o sol da meia-noite nesta tarde”, “só agora a voz faz sentido”, “por ser de noite”, “canto o fado ou estou perdido?”. De seguida apresenta o autor da décima primeira canção, este tema é de “um dos maiores melodistas que o fado já teve: Max”, “e gravar na minha pele as fontes da minha dor”, “a noite continua…”, a amplificação da sala é anulada, Carlos do Carmo improvisa sem o microfone, “que se estendia no mar”, “noite, céu dos meus casos perdidos”. O cantor justifica o erro, “estas coisas podem acontecer”, “lá vai no mar da palha o cacilheiro”, “pouco tempo e muita mágoa”, “parece um barco lançado no Tejo por uma criança”, “Bairro Alto, tu cá, tu lá, um barco de brincar”, “e parte de um cais que cheira a jornais”, “fica mais triste o coração da água”, “pouco Tejo, pouco Tejo e muita água!”. A guitarra portuguesa inícia um clássico que a orquestra acompanha com respeito, “agarro a madrugada como se fosse um criança”, “uma videira de esperança”, “tal como o corpo da cidade”, “que desagua no Rossio”, “sou um homem na cidade, que de manhã acorda”, “vou pela estrada deslumbrada”, “sou gaivota que derrota toda a tempestade”, “agarro a madrugada como se fosse uma criança”, “o malmequer dessa cidade que me quer bem”, “a falar sem medo”, “como aroma que o mar tem!”. O trinar do fado vadio, “vou cantar o Bairro Alto”, “tristes bizarras em comunhão, andam guitarras a gemer de mão em mão”. A flauta respira em surdina prolongando os acordes das guitarras, “tu deixas-te de ser minha”, “por morrer a andorinha não acaba a Primavera”, “se deixaste de ser minha, não deixei de ser quem era”, “e os dias passam bem”. Os violinos e a flauta dão continuidade à melodia da guitarra portuguesa: “No castelo ponho o cotovelo, em Alfama descanso o cotovelo”, “a almofada na cama do Tejo”, “tão pura”, “teus seios são as colinas”, “cidade a ponto luz”, “cidade da minha vida”, “és mulher de rua”, “Lisboa menina e moça”, “seios”, “cidade a ponto luz”, “amada”, “cidade da nossa vida”, “cidade por minhas mãos despidas”, “cidade da minha vida”. A acentuar os acordes circulares, “canoa de vela erguida, que vens do cais das colinas”, “sem encontrar companheira”, “canoa de vela em banda, que vens da boca da barra, os gemidos de uma guitarra”, “agora muita cautela, não vá o mar acordar”, “nunca, nunca, nunca mais”, “canoa por onde vais?”, “nunca mais voltas aos cais?”. Carlos do Carmo conta uma história da sua juventude, “o Sammy Davies Jr., veio a Lisboa, o Monumental não encheu. O Sammy veio com baixo, bateria, guitarra, e com uma orquestra que veio de Londres. Estava na plateia uma senhora americana que lhe pediu uma canção que não estava no alinhamento, o Sammy olha para o Maestro, e este abana a cabeça positivamente. E ele cantou a canção que a senhora queria ouvir e no fim disse: “You see, I `m very nice boy, I do what I`m told”. A guitarra e o baixo abrem espaço à voz: “sagrado é este fado que te canto. Do fundo da minha alma tecedeira”, “e passei por tantas portas já fechadas”, “que dão a liberdade ao passarinho”, “encho o meu vazio de coragem”, “a fome de estar vivo é tão intensa”, “paixão que se alimenta de perigo”, “só ter por garantia ser antigo”. “Este fado que vou cantar a seguir é mesmo o último. Esta terra é muito bonita, muito especial”, a viola faz um dueto com Carlos do Carmo, “sob a luz de um candeeiro está ali um fado inteiro”, “um certo ar fadistão, que qualquer homem assume”, por entre o público e sem microfone, “mas o fado nunca é o que se pensa”. E no penúltimo tema versa um acontecimento histórico do baixo Mondego, “eu podia chamar para mim, esse amor de Pedro por Inês”, “como dizer, coração fora do peito”, “não há flor, não há flores de verde pinhoo”, “gostar de ti é um poema que eu não escrevo”, “este fogo de amor”, “como dizer este coração fora do peito”, “não há guitarras nem cantares de amigo”, “não há flor, flores de verde pinhoo”.
Carlos do Carmo e Sinfonieta de Lisboa, 21 de Março, Centro de Artes e espectáculos da Figueira da Foz.
Aparecem os músicos da Sinfonieta de Lisboa, que em nada acrescentam aos temas, por vezes alguns apontamentos não são redundantes, mas apenas servem para realçar o trio de músicos em particular a guitarra portuguesa. “Os amantes infelizes deveriam ter coragem para mudar de caminho, o amor dá-nos tudo”, “mas quando a vida se acalma”, “se estás a tempo amordaça o coração”, “mas se não estas contínua, diz-me isto a minha mãe, ao ver-me chorar por ti”. Discursa: “os puristas não gostam que nós cantemos com orquestra. Todos os meus êxitos, foram sempre com orquestra, e se me perguntarem se eu me sinto fadista a cantar com orquestra? Eu digo que sim”. E canta como se fosse um cauteleiro embriagado, “perfeito coração, no meu peito”, “esse olhar que era só teu, amor que fostes o primeiro”, “morreria no meu peito”, “meu amooor”, “na tua mão, mas a mão bateu no coração”. Sobre a Sinfonieta, Carlos do Carmo é taxativo: “são todos músicos portugueses, todos!”; “pela manhã vi como dormem os silêncios”, “e na ternura do meu quarto a loucura”, “só vejo a manhã do dia”, “só agora é que não estou perdido por ser de noite”, “procuro o sol da meia-noite nesta tarde”, “só agora a voz faz sentido”, “por ser de noite”, “canto o fado ou estou perdido?”. De seguida apresenta o autor da décima primeira canção, este tema é de “um dos maiores melodistas que o fado já teve: Max”, “e gravar na minha pele as fontes da minha dor”, “a noite continua…”, a amplificação da sala é anulada, Carlos do Carmo improvisa sem o microfone, “que se estendia no mar”, “noite, céu dos meus casos perdidos”. O cantor justifica o erro, “estas coisas podem acontecer”, “lá vai no mar da palha o cacilheiro”, “pouco tempo e muita mágoa”, “parece um barco lançado no Tejo por uma criança”, “Bairro Alto, tu cá, tu lá, um barco de brincar”, “e parte de um cais que cheira a jornais”, “fica mais triste o coração da água”, “pouco Tejo, pouco Tejo e muita água!”. A guitarra portuguesa inícia um clássico que a orquestra acompanha com respeito, “agarro a madrugada como se fosse um criança”, “uma videira de esperança”, “tal como o corpo da cidade”, “que desagua no Rossio”, “sou um homem na cidade, que de manhã acorda”, “vou pela estrada deslumbrada”, “sou gaivota que derrota toda a tempestade”, “agarro a madrugada como se fosse uma criança”, “o malmequer dessa cidade que me quer bem”, “a falar sem medo”, “como aroma que o mar tem!”. O trinar do fado vadio, “vou cantar o Bairro Alto”, “tristes bizarras em comunhão, andam guitarras a gemer de mão em mão”. A flauta respira em surdina prolongando os acordes das guitarras, “tu deixas-te de ser minha”, “por morrer a andorinha não acaba a Primavera”, “se deixaste de ser minha, não deixei de ser quem era”, “e os dias passam bem”. Os violinos e a flauta dão continuidade à melodia da guitarra portuguesa: “No castelo ponho o cotovelo, em Alfama descanso o cotovelo”, “a almofada na cama do Tejo”, “tão pura”, “teus seios são as colinas”, “cidade a ponto luz”, “cidade da minha vida”, “és mulher de rua”, “Lisboa menina e moça”, “seios”, “cidade a ponto luz”, “amada”, “cidade da nossa vida”, “cidade por minhas mãos despidas”, “cidade da minha vida”. A acentuar os acordes circulares, “canoa de vela erguida, que vens do cais das colinas”, “sem encontrar companheira”, “canoa de vela em banda, que vens da boca da barra, os gemidos de uma guitarra”, “agora muita cautela, não vá o mar acordar”, “nunca, nunca, nunca mais”, “canoa por onde vais?”, “nunca mais voltas aos cais?”. Carlos do Carmo conta uma história da sua juventude, “o Sammy Davies Jr., veio a Lisboa, o Monumental não encheu. O Sammy veio com baixo, bateria, guitarra, e com uma orquestra que veio de Londres. Estava na plateia uma senhora americana que lhe pediu uma canção que não estava no alinhamento, o Sammy olha para o Maestro, e este abana a cabeça positivamente. E ele cantou a canção que a senhora queria ouvir e no fim disse: “You see, I `m very nice boy, I do what I`m told”. A guitarra e o baixo abrem espaço à voz: “sagrado é este fado que te canto. Do fundo da minha alma tecedeira”, “e passei por tantas portas já fechadas”, “que dão a liberdade ao passarinho”, “encho o meu vazio de coragem”, “a fome de estar vivo é tão intensa”, “paixão que se alimenta de perigo”, “só ter por garantia ser antigo”. “Este fado que vou cantar a seguir é mesmo o último. Esta terra é muito bonita, muito especial”, a viola faz um dueto com Carlos do Carmo, “sob a luz de um candeeiro está ali um fado inteiro”, “um certo ar fadistão, que qualquer homem assume”, por entre o público e sem microfone, “mas o fado nunca é o que se pensa”. E no penúltimo tema versa um acontecimento histórico do baixo Mondego, “eu podia chamar para mim, esse amor de Pedro por Inês”, “como dizer, coração fora do peito”, “não há flor, não há flores de verde pinhoo”, “gostar de ti é um poema que eu não escrevo”, “este fogo de amor”, “como dizer este coração fora do peito”, “não há guitarras nem cantares de amigo”, “não há flor, flores de verde pinhoo”.
Carlos do Carmo e Sinfonieta de Lisboa, 21 de Março, Centro de Artes e espectáculos da Figueira da Foz.
terça-feira, 17 de março de 2009
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