segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
La Famille des Saltimbanques (Les Bateleurs)
O Salão Brazil na baixa de Coimbra está lotado para celebrar a vida e a obra de Victor Torpedo que no fim da década de oitenta se emancipou como músico, um dos poucos guitarristas portugueses senão o único, que usa uma técnica em que o riff domina as canções oferendo-lhe uma urgência e vibrações inigualáveis. Para além deste pormenor, Victor Torpedo é uma personagem “larger than life” porque está conscientemente desprovido de preconceitos a que o seu estatuto de guitar hero estaria sequestrado, recebe os seus conhecidos com um enorme sorriso e aos amigos com abraços e beijos de felicidade, a sua solidariedade para com os marginais é de tal forma desconcertante que por vezes é complicado associá-lo a um esteta Pop, se houvesse um trono do Rock em Coimbra decerto que a coroa seria para o Victor Torpedo. O cartaz que publicitou o evento denominado de Special Crimbo + Karaoke é exaustivo ao enunciar as bandas por onde passou ou ainda milita: Tédio Boys, Subway Riders, Planet Jacumba, Blood Safari, Tiguana Bibles, The Parkinsons, Psicotronics. Os convidados desta festa eram os seguintes: Pedro Xau, Carlos Mendes, Susana Jacumba, Toni Fortuna, Sérgio Cardoso, Tó Rui, João Rui, Jorri, Pedro Calhau, Pedro Serra, Augusto Cardoso, Tracy Vandal, Carlos Dias, Paula Nozzari, Marquis Cha Cha, Nakata, Samuel Silva, Miguel Padilha, António Olaio, MC Ruze, Jerónimo, Paulo Eno, Nito, Ricardo Seiça e Zappadada. Há uma surpresa de última hora, Miguel Duarte aluno das sessões de músico terapia administradas por Paula Nozzari, que o propôs para se sentar na bateria dos Subway Riders, é o seu primeiro concerto e a tarefa não é fácil, mas com a cumplicidade e o entendimento de todos os músicos a primeira canção ganha concisão estética. As duas canções que se seguem já contam com Pedro Xau na bateria, os Subway Riders apresentam-se na mais sólida esquizofrenia Pop, decompondo ou vingando estereótipos que se instalaram como géneros. De assinalar que também faltou no cartaz o nome do incontornável Kazuza, que desempenha o papel de apresentador dos convidados, que muitas das vezes ou mesmo quase sempre não conseguirá ler a respectiva cábula, mas não é o caso quando apela pelo “Toni Fortuna” que demora em se reunir a outros ex-Tédio Boys: Kalo, Sérgio Cardoso, que juntamente com Victor Torpedo reavivam a memória de uma banda rock and billy, que na década de noventa conquistou os palcos da América e que tem um culto generalizado em Portugal, que clama por uma reunião dos heróis de Coimbra. Na segunda canção junta-se o incomparável Xerife Nakata e o billy ganha consideravelmente ao hill, algo que provoca na parte fronteiriça do palco uma dança desordenada por parte dos mais acérrimos fãs. Na penúltima o funk com um groove disco sound é elevado ao patamar da perfeição com o solo do saxofone do Calhau. Na última canção sobe ao palco Tó Rui e as guitarras são labaredas de um auto de fé onde se sacrificam bruxas e bruxos, a onda repercute-se pelo público que dança e recebe de braços abertos o stage diving do Toni Fortuna. Surge “Paulo Eno” que enquanto o sampler debita a canção que é entre cortada pela guitarra eléctrica de Victor Torpedo, discursa alheio ao propósito para o qual foi convidado: dar voz às canções dos 77; “em 76 formei os Dada”; “em 77 formei os Curto Circuito”; “87 formei os Objectos Perdidos”, nos quais o cicerone da festa militou “com 14 ou 15 anos”; “em 96 formei os 77”; “acreditem no rock”; “hasta la victoria siempre”. O Paulo Eno voluntariamente ignora os acordes de Victor Torpedo, consequentemente a sua actuação é iníqua, “Viva o Partido Comunista Português”, ostensivamente bebe água e cospe para o público e não satisfeito com o seu acto ainda lhes despeja parte da garrafa, a canção ganha tonalidades reggae, “Álvaro Cunhal”. Na segunda canção dos 77, Paulo Eno canta um refrão poeticamente punk: “I love you, I fuck you, I kill you”, a melodia é de uma violência rocka billy desmesuradamente hipnótica. Para os Planet Jacumba Victor Torpedo é secundado por Kalo, Pedro Chau e Susana Jacumba, que é dona de uma voz portentosa e de um domínio do palco muito convincente, é uma excelente frontwoman. A primeira canção e a segunda canção versam o indie, a primeira domina a pop e na segunda o rock, mas os holofotes da nossa memória deverão iluminar o rosto e a posse e a voz desmedida da Susana Jacumba, “somebody help me their`s a rock at the road”. A quarta banda que faz parte da história de Victor Torpedo são os Parkinsons, sem o infatigável Afonso Pinto que reside no Reino Unido, onde fizeram sucesso e foram a primeira banda constituída maioritariamente por portugueses a actuar em Glastonbury. A imprensa inglesa apontou-os como a “next big thing”, as suas actuações foram descritas como “the dangerous band on earth”, com a presença regular de inúmeras estrelas Pop como o Brett Anderson. Talvez por estas razões irão executar quatro canções, a primeira é cantada por Victor Torpedo “just another new wave”, com direito a um solo épico tocado no meio do público delirante; a segunda, Victor Torpedo dá a mão a um membro do público, “Cunha, é bom de mais para estar em cartazes”, que segura o microfone: “Common baby you have nothing to lose”; a terceira é de novo cantada por Victor Torpedo, tal como as anteriores é profusamente punk, que dedica ao “Pedro Xau e ao Kalo”, pois estes, “foderam as suas vidas por minha causa”; a quarta canção é a “última dos Parkinsons e chama-se ´Runing`”, “é dedicada ao Afonso Pinto”, que é de um compósito explosivo, um manancial de histeria contra a utopia. A quinta banda a ser evocada são Blood Safari com Victor Torpedo (voz/guitarra eléctrica), Kalo (bateria); Pedro Xau (baixo eléctrico), a única canção que tocam corresponde a um dramatismo pop billy de contornos exóticos. Last but not the least the Tiguana Bibles a jóia da coroa que pertence a Victor Torpedo que chama ao palco, “Pedro Serra, Augusto Cardoso” e “a magnífica Tracy Vandal” e na bateria o Nito. As três canções que apresentam são de uma delicadeza desarmante, se fosse uma película esta remeteria para um deserto onde a fauna não é submissa aos ciclos da natureza, aceitando como determinação suprema uma imutabilidade imune às tempestades. O contra baixo de Pedro Serra e a voz de Tracy Vandal são dois eixos que perpetuam uma irremediável intemporalidade, com as guitarras eléctricas a salpicarem o plateau com cowboys que são meros espectros informes, que estão enclausurados numa dimensão de onde jamais serão resgatados. Após duas horas no palco do Salão Brazil, Victor Torpedo impõe um curto intervalo, quando regressa já é a figura de um astronauta que em Marte encontrou uma fonte de onde brotava um líquido vaporoso e com o qual matava a sede. “Karaoke” advém do seu primeiro álbum a solo denominado de “Raw” editado em Maio deste ano, consiste na anulação dos músicos substituindo-os por canções pré-gravadas predominantemente kitschs, durante as quais são pojectados vídeos com legendas para serem cantadas pelos convidados, e consequentemente dividirem o microfone com Victor Torpedo, que chama paulatinamente ao palco os músicos que já haviam participado na primeira parte do concerto denominado Special Crimbo: Kalo, Carlos Dias, Calhau, Padilha, João Rui, Tracy Vandal, Toni Fortuna, Paulo Eno, Calhau, Marquis Cha Cha; o actor Ricardo Seiça Salgado e o imprevisível MC Ruze ou o artista plástico/ex-Repórter Estrábico António Olaio.
Victor Torpedo, Special Crimbo + Karaoke, 26 de Dezembro, Salão Brazil @ Coimbra
Victor Torpedo, Special Crimbo + Karaoke, 26 de Dezembro, Salão Brazil @ Coimbra
domingo, 25 de outubro de 2015
Caixa Negra
Em Portugal haviam-se passado seis anos sobre o vinte e cinco de Abril de 1974, quando se dá a revolução Pop/rock que replicou culturalmente a do Reino Unido com vinte anos atraso, finalmente existiam adolescentes abertamente contrários aos pais salazarentos, há uma mudança de paradigma social, o povo já não saia à rua somente para trabalhar, a liberdade empurrou-os para os bares e discotecas. Os GNR fizeram parte da revolução denominada por rock português (o rock ou a música clássica não têm nacionalidade, são disciplinas que podem ser manipuladas com os mais diversos fins, somente assim é que devem ser perspectivadas), mas o que este título demonstrava é que existia o cuidado, pelos diversos agentes culturais, de usar a língua portuguesa como meio de comunicar com os portugueses, por clara oposição às bandas Ié-Ié que conquistaram Portugal na década de 60. Os GNR destacaram-se desde 1981 através destes três pontos deveras importantes: pautaram o seu percurso com constantes investidas em línguas estrangeiras, que por vezes misturavam com o português, nessa medida não fazem parte totalmente do rock português; uma lírica que é mais abstracta do que naturalista, por vezes estes dois conceitos artísticos encontravam-se discorridos numa mesma canção; a procura de uma fórmula da canção Pop perfeita, quando a almejavam propunham-se a subir a parada e consequentemente reinventavam-se. Os GNR eram uma ilha no quadro artístico Pop português, que sofreu diversas alterações na sua composição, que foram alvo de censura por uma rádio agregada à religião católica, e de chacota e discriminação por parte da imprensa pouco ou nada especializada, à qual não agradava que numa cidade distante e quase “medieval” existisse um foco de criatividade impregnado de originalidade. O vanguardismo Pop era, e ainda é dominado pelos GNR, as características congénitas mantêm-se inalteradas mesmo que tenham sido bafejados pelo sucesso, a sua relevância cultural é mais importante do que o número de cópias vendidas, por exemplo, pelo “Rock in Rio Douro” de 1992. Há uma fronteira entre o passado e o futuro na noite de 10 de Outubro de 1992, na qual os GNR encheram o Estádio de Alvalade, que até aí somente servia para que as estrelas Pop internacionais jogassem à bola, opera-se assim a ocupação de um “território estrangeiro”. Nessa noite, a utopia cedeu por força da imagética dos GNR, consequentemente criaram a sua própria revolução que transformou Portugal num país moderno e em que a geração que os aplaudia desejava ser um GNR. Eu fazia parte desse grupo que delirava com as suas canções, que se revia na mestria melódica que foram delineando ao longo dos anos e que hoje é dominada por Tóli César Machado, e se identificava com a poesia de Rui Reininho que transformava cada concerto na emulação do efémero. Apesar de escrever no pretérito passado, cada uma das palavras acima transcritas, têm o mesmo valor hoje, vinte e três de Outubro de dois mil quinze do século vinte e um, passaram trinta e quatro anos desde que se reuniram sob a designação de GNR, marcaram a convocatória para o Coliseu do Porto a pretexto da edição de “Caixa Negra”, onde me encontro ansiosamente à espera de Rui Reininho (voz), Tóli César Machado (guitarras, percussão, acordeão), Jorge Romão (baixo eléctrico), são recebidos de braços abertos pela multidão, acompanhados por Samuel Palitos (bateria), Paulo Borges (teclados) e Tiago Maia (guitarra eléctrica, harmónica). As duas primeiras canções, “Caixa Negra” e “Triste Titan”, revelam uma bipolaridade que sempre fez parte da consciência Pop dos GNR, a primeira é um portento que reinscreve continuamente a melodia, evitando qualquer princípio de tédio, antes incutindo um vício impossível de desintoxicar. “Triste Titan” é um excedente de beleza que hipnotiza através da sua extremada delicadeza, um malmequer que em vez de pétalas brancas tem raios da lua, que uma criança arranca enquanto ouve a ladainha: “E tu vais a banhos a milhares de anos”, as palmas do público retiraram-na pontualmente do seu universo tão belo quanto utópico. Rui Reininho lamenta o facto de o Coliseu do Porto não ter lotação esgotada, por escassos oitocentos lugares, “não temos uma casa cheia”, nem “gunas” à porta. Esta sua irreverência, despoletou continuamente uma linha de portugueses anti- Reininho, uma seita de moralistas que esgrimiam diversas considerações, através de diversos meios de comunicação; veja-se o exemplo do jornalista da Lusa que declarou publicamente, após o concerto dos GNR no Super Bock Super Rock de 1995, o fim da banda, “lá vai aço”. “Telefone Pecca” é apresentada num colorido rock mas que advém de uma linha melódica kitsch, Rui Reininho canta como se estivesse aparentemente a brincar ao telefone estragado, com uma violência contida segura de cada uma das palavras que descrevem “uma máquina que fala”, os coros: “pá, pá, pá”, respondem-lhe absurdamente, em cada acorde ganha actualidade, e devido à sua urgência surrealista jamais cristalizará. “Efectivamente” perdeu o início imposto pelo teclado, substituído pelas guitarras de Tóli César Machado e Tiago Maia, que em crescendo impõem aos restantes elementos os seus acordes alegres de tão saltitantes, o hino à liberdade de expressão ou à comunhão de opostos e dessa forma reafirmar através da fábula que a realidade é uma fantasia. Rui Reininho sentencia: “Espera-nos uma longa noite”; “quando estou com vocês é sempre Sábado”. “Homens Temporariamente Sós” é uma das canções dos GNR em que se evidencia a fragilidade dos homens, que não encontram no seu espelho um outro rosto que os acarinhe, uma lírica que impõe uma dor que marginaliza a razão e a agrega a uma solidão eterna. Dominada por um teclado noctívago, este centro impõe densidade cromática, quando embalada pelo baixo eléctrico de Jorge Romão e a bateria de Samuel Palitos a dor cresce, a guitarra eléctrica de Tiago Maia em regime de slide guitar, é o gemido de uma orca assassina por ter sido relegada ao ostracismo. Pausa. “Não há qualquer tragédia, mas um vinho a beber”. A sexta canção, “Pós-Modernos”, comporta um ritmo curto delineado pelo sintetizador que lhe apraz uma constante exaltação kitsch, a que se soma a uma poesia anti-consumista com direito a um refrão rap actualizado: “Ipod”, “Ipad”, “High Tech”. “+ Vale Nunca” combina uma música Pop alegre com ditames que afrontam o envelhecimento, há histeria na sala, as pessoas batem palmas e dançam como se tivessem dezasseis anos, e como Peter Pan personificam o eterno estágio do desenvolvimento em que impera a inocência. Rui Reininho apresenta Helton: “O melhor homem do mundo a seus postes, e compatriota de Roberto Carlos!”, que irá cantar com os GNR “Inferno”. O brasileiro discursa: “Muito obrigado pelo convite GNR, é a maior satisfação estar junto a vocês”, ele que toca bateria numa banda de inspiração cristã, não terá lido a lírica de “Vídeo Maria”? “Inferno” é explanada seguindo a melodia dengosa do rock tropical, a melodia não se encontra totalmente dominada pela guitarra eléctrica (como sucedia com a intervenção de Andy Torrence), ganhando uma amplitude estética mais actual, menos anos sessenta, quando era um dos porta-estandartes neo-decadentes de um Brasil dominado por uma elite urbana que festejava uma vida cheia de glamour, defendida pela ditadura militar. Tanto Rui Reininho quanto Helton complementam-se, o primeiro concentrado na dor vã de um garoto rico, o outro dá pulos como se tivesse snifado coca dos peitos de uma menina. Quando a canção ganha um andamento acelerado reverberando as cores de um palácio, que tem como pano de fundo cortinados cor de vinho, reina a diversão e a loucura por parte do público. Rui Reininho e Helton abraçam-se, este toma de novo a palavra: “Obrigado Coliseu! Obrigado GNR! Obrigado Porto!”, sai com um sorriso assoberbado. “Sub-16” é a canção dos GNR que os revela multiplamente: tem um corpo Pop que é vilipendiado pela guitarra eléctrica de Tiago Maia criando uma máscara rock, as variações rítmicas e pausas oferecem-lhe um elixir da eterna juventude; a lírica é o retrato de um adolescente que reage instintivamente ao mundo mutável à sua volta, “à volta do quarto, nuvem de cabelo em pé”. Para além de Rui Reininho conferir a Tolkien um pedestal Pop, não será o sonho de qualquer escritor? Antes da décima canção, “Popless”, Rui Reininho revela o seu carinho para com esta balada Pop luminosa: “A próxima música, nunca conseguimos abandonar, é como aquelas doenças de pele”; uma clara referência à vitiligo que pigmentou Michael Jackson de uma brancura marmórea? “Popless” é delineada lentamente e gradualmente e os GNR vão pincelando-a com uma densidade cromática que transcreve uma mulher sensual, “linda”, “bela”, e cada um pode ver no espelho a sua cara-metade. Para cantar, “Dançar SOS”, Rui Reininho convida a subir ao palco do Coliseu do Porto a “magnífica, portentosa, Rita Redshoes”, surge com um vestido preto. A canção é dotada de uma lógica negra marcada pelo teclado de Tóli César Machado e pelo baixo eléctrico de Jorge Romão; no dueto há uma clara troca de papéis Rui Reininho com um timbre quente e sofrido expressa uma dor contida, a sua corresponde tem uma voz seca ou mesmo fria, mas que paradoxalmente se complementam na contra cena, e quando se cruzam, “viver com mais gente”, parecem um casal de estranhos a compartilhar uma nesga do televisor ou da mesa ou da cama ou mesmo do caixão. A viagem por entre a história dos GNR prossegue com “Honolulu”, dominada por um teclado negro que nos remete para um universo pautado por figuras efémeras do Noronha da Costa, um feixe de luz vermelho rasga a tela negra ou ainda uma mulher dissolve-se sobre um rochedo onde se esmigalham ondas que nos salpicam com a eterna saudade, “quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”? “A chupar rebuçados”, o bombo em vez de a retirar do seu estado dilacerante impinge-lhe mais dor, “vai tu, vou eu”, aumentam uma oitava e a ferida abre-se numa queimadura de um cigarro tortuoso, “bye, bye”, “Honolulu”. Antes do clássico, “Vídeo Maria”, Rui Reininho homenageia Tóli César Machado e Jorge Romão, os seus companheiros de sempre, por lhe terem ofertado “esta vida maravilhosa”. “Vídeo Maria” é uma súmula Pop que fervilha num leito pecaminoso, o baixo eléctrico de Jorge Romão desenha toda uma cadência que remete para a dança, “entro numa igreja fria”, a guitarra Tóli César Machado apropria-se de tonalidades profundamente kitsch assim como os sintetizadores de Paulo Borges, as pessoas batem palmas e acompanham o ritmo com breaks de Samuel Palitos que institui cores brilhantes, “que é casta eu sei, virgem ou não…”. Rui Reininho não esquece o raper luso angolano que se encontrava em greve de fome, aliás numa maratona da greve de fome, “aos nossos colegas na prisão”, o público vibra com a menção, bate palmas e grita. “Las Vagas” polvilha o Coliseu do Porto com uma contenção incontida do Rock, com diversas e rápidas alterações rítmicas tudo devidamente encenado para que seja perfeita a hipnose que instituem a letrados psiconautas. Rui Reininho convida, “Tim… Timóteo”, que é nada mais nada menos que o homem forte dos seculares Xutos & Pontapés, onde milita como cantor e enverga normalmente um baixo eléctrico, porém surge com uma guitarra acústica, e é educado para com os portuenses: “Boa noite Rui, boa noite GNR, boa noite Porto”. Os GNR preparam-se para tocar “Quando eu Morrer”, que gravaram para um tributo aos Xutos & Pontapés denominado “XX Anos, XX Bandas” (1999). “Quando eu Morrer” é lentamente tocada com um crescendo que se vai adensando como se fosse um pó desértico que cobre um fragmento de pedra, a letra versa sobre a proibição de se oferecer “flores a quem morre de cancro”, que de facto é, se for, uma metáfora vazia de sentido. O dueto entre Rui Reininho e Tim decorre de uma relação de parcimónia, cada um ocupando o seu lugar na canção, isto, repercute-se nos restantes músicos. “Explosão nuclear”. A décima sexta canção é “Bellevue”, um torneado tão delicado quanto negro, música para o carrossel idealizado por Basky na edílica Dismaland, quem canta é Tim e o seu timbre é subtil como se tivesse medo de enunciar o percurso que toma a personagem principal da canção, distante do seu timbre grave e monocórdico que usa recorrentemente com os Xutos & Pontapés, “salto à janela com muita atenção”. Rui Reininho responde-lhe num canto de quem conhece o fim da narrativa, “um foco de luz no último estertor”, no qual descobre uma cama, “salto para cima experimento o colchão”, mas, mesmo que diariamente compareça no mesmo local à mesma hora: “Ninguém comparece ao meu rendez-vous”. A décima sétima canção é a suavizante e encantadora “Asas”, que liberta os presentes da angústia provocada pela “Bellevue”, um tónico perfumado com um éter dissolvido numa pipeta volumétrica. “MacABRO”, o nevoeiro que a circunda é como uma valsa composta para ser cantada no porão de um navio fantasma, há dois comandantes: Tóli César Machado ao piano que mente em cada nota enunciando uma nefasta festividade Pop e Rui Reininho a voz das almas penadas, “cá em casa é tudo feito à mão; que nos sirva de lição”, as palmas eclodem a festejar um milagre inexplicável, um coro de bêbados respondem-lhe: “Lalalala”, quando a maré ganha balanço julgam que estão a andar sobre água ao lado de Jesus Cristo. “Cá em casa é tudo feito à mão”. Dois desses coristas alcoolizados são uns “mariachis”, vestidos com fatos escuros com brilhantes e chapéus de dez galões sobre a cabeça, “que viva México”, que poderiam constar como figurantes numa película do Sergio Leone. Estes empunham trompetes e os restantes GNR iniciam “Nova Gente”, que tem uma métrica curta e repetitiva que lhe oferece uma dinâmica de baile Pop, na qual se tentam encaixar os metais e tal somente sucede quando o ângulo da melodia ganha elasticidade, elevando-a à condição de vanguardismo kitch; a perspectiva sobre Portugal encontra-se espelhada no verso: “Vivo numa ilha tropical”, é o elogio irónico a um país em que tudo se encontra ao contrário, e consequentemente põe em causa um Estado que naturalmente devora os seus filhos. Antes de “Pronúncia do Norte”, Rui Reininho comete uma “inconfidência, fui curado esta semana” da Hepatite C que o achacava há duas décadas, as pessoas aplaudem e gritam. O piano é dedilhado por Paulo Borges, “Pronúncia do Norte” é o hino não somente de uma região mas de um sentir, que é impossível de transcrever através das palavras, “é a pronúncia do norte os tontos chamam-lhe torpe”, o público entoa: “É a pronúncia do norte”, quando o bater do coração deste corpo abstracto emerge com a devida conivência dramática do acordeão de Tóli César Machado, relegam-na para o domínio do épico. Para, “Morte ao Sol”, os GNR convocam a gaita-de-foles de Gonçalo Marques, devidamente fardado de gaiteiro, que sopra o blowpipe que remete para uma terra remota que alberga uma caixa negra, desloca-se para a boca de cena, enquanto Tóli César Machado marca compassadamente o ritmo sobre uma precursão digital que se intromete na divagação esotérica do gaiteiro, associados no teclado de Paulo Borges. Rui Reininho: “Estou contente se a luz de esvai”, o baixo eléctrico de Jorge Romão dá continuidade ao festim negro, e é a vez de Rita Redshoes interferir na narrativa: “Metamorfoses de horror”; Rui Reininho: “vão demorar”-- se em “Dançar SOS” o dueto foi de facto equilibrado-- em “Morte ao Sol” a força que a desequilibra é a cantora lisboeta, a espaços encontra-se devidamente enquadrada com o ritmo; e não revela através do seu timbre feminino os versos, e a única forma de se livrar das fraquezas é elevar a voz antecedendo-se a Rui Reininho que outorga: “outra voz”. Quando, “Morte ao Sol”, ganha o seu pico dramático Rui Reininho agradece a presença da Rita Redshoes, que lhe responde: “É uma honra estar aqui com os GNR”. A vigésima segunda canção, “Sangue Oculto”, é uma soberba incandescente exultação de um rock latino, aprofundada pela inserção dos sopros dos mariachis alcoolizados, a lírica explora o paradoxo como fundamento estético. “Cadeira Eléctrica” revela-se através de um composto power Pop, dominada por um ritmo dengoso e curto, procurando dessa forma uma ambiguidade que se fosse uma textura seria a peruca do Andy Warhol, “há na China uma barragem suicida, para quem quer mudar de vida”. A primeira canção do encore, “Corpos”, tem uma estrutura Pop com diversas e alternadas variações rítmicas, a lírica é o espelho da dicotomia entre o corpo humano e a moda, que não é nada pacífica, “a moda é tão periférica”; “a moda é passageira”; “o corpo pega como um tractor”; “o corpo é porco porque quer”. A vigésima quinta canção, “Morrer em Português”, é apresentada numa vertente em que os decibéis são rejeitados das guitarras eléctricas são associados a um ritmo quase punk, a tomarem a dianteira desta ode à morte, decepando-a gradualmente da sua original efervescência Pop/Rock; Rui Reininho canta excluído desta inesperada agressividade, “tentaram-te engatar sabendo que és fria?”. A penúltima canção a ser tocada pelos GNR é “Ana Lee”, a guitarra acústica insere os acordes Pop exóticos, o público canta: “Ana Lee, Ana Lee”; Rui Reininho: “Ópio do povo”, quando o pêndulo de Foucault se movimenta, “e ao vir-me, enfim em verde tónico, no país onde reinam as cigarras”, o público bate palmas e canta o refrão, por fim Rui Reininho é peremptório sobre quem o está a amar, “são unhas que cravam na pele em mim”. Os portuenses quando ouvem o bombo do Samuel Palitos, batem palmas e entram numa histeria incontrolável, como se estivessem a ouvir pela primeira vez “Dunas”, ou, através desta reviverem momentos idílicos da sua vida sentimental, é arrebatador o poder desta canção, que inquestionavelmente criou nos portugueses a noção do que é o Verão. Rui Reininho nem precisa de cantar, é substituído pelas vozes dos presentes, Tóli César Machado tem ao peito o acordeão que está em suspenso e Jorge Romão recusa dar persecução a “Dunas”, quando tal sucede não encobrem o coro do povo, “dunas”. Surgem no palco os convidados que entoam o refrão, quando os GNR dão por encerrada a sua caixa negra, abraçam-se e vergam-se numa enorme vénia perante o público no Coliseu do Porto, que tal como eu, os venera.
“Caixa Negra”, GNR, 23 de Outubro, Coliseu do Porto.
“Caixa Negra”, GNR, 23 de Outubro, Coliseu do Porto.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
The Sound and the Fury
A Super Nova está à um dia de se revelar monstruosamente bela, prevê-se que seja uma bola de fogo que de tão morna ilumine o que resta do Planeta Terra. O ar transpira a um salitre húmido que tem um travo tóxico provindo de duas fábricas trituradoras dos assassinos eucaliptos que colonizaram Portugal, da mesma forma que o português no Brasil criou o mulato símbolo vivo da eloquência da alma que emancipou a saudade. As gaivotas planam eternamente insatisfeitas por a pesca da sardinha ter sido interdita aos pescadores, grasnam como se fossem espantalhos a apelar por misericórdia para com a escravidão a que a natureza lhes impôs. As ruas da Figueira da Foz estão numa sangria de figuras que passeiam o passeio de ontem e se hoje fosse ontem, que razão para existir valeria a pena, pergunto, se o passeio não fosse ontem o que seria de nós, que vazio nos alimentaria para dessa forma darmos sentido à vida, dá-me a tua mão e o teu beijo de madressilva patrocinado pelo Báton comprado no Rock and Vintage FleaMarket. Entramos atrasados numa garagem que não disfarça o infortúnio de ter sido pasto a carros durante diversas décadas, das suas veias ainda jorra o óleo que é acesso e propagado pelos demoníacos Parkinsons, força bruta de Brutus de guitarra dilacerantemente distorcida, o Minotauro tem o tronco esquálido nu, “caralho”, vocifera para o microfone ordens de combate contra os amores frustrados, mas sob uma perspectiva irónica de quem está habituado a ser um looser, à sua esquerda está um homem de bigode de chulo da revolução dos cravos que executa o baixo com uma pulsão rock, a sua companheira é Jackie la Feline que bate nos pratos e no bombo como se estivesse a impor o coma a um psiquiatra, por fim uma figura de óculos como lupas, barba, e mãos sensíveis que teclam poeticamente inscrevendo na barbárie uma harmonia negra, negra, negra. Os Parkinsons são um colectivo de psiconautas que escarram uma violência incomensuravelmente desmedida que durante uma hora impôs um estremecimento aos dias em que a rotina cega os corpos e lhes impõe uma insensibilidade para com o passeio para a morte, essa sombra que é o negativo da vida. A garagem fervilha de entusiasmo revelando rapazes gordos e magros depilados a dançarem no palco e atirando-se sobre o público; um dos quais mede forças com o Minotauro e esfregam os peitos suados e separam-se antes de se engalfinharem publicamente; o público recebe com redobrado entusiasmo as investidas do Minotauro que carinhosamente estende a mão a uma criança de vestido de noiva cor-de-rosa, assim como as deambulações épicas de Brutus com a sua guitarra que por vezes deflagra das chamas do Jimi Hendrix ou é snifada pela de Keith Richards. A apoteose é perfeita pois coloca os Parkinsons no pedestal dos hereges supremos veiculadores do punk. As pranchas de surf que me separaram do palco são as mesmas que me impedem de ver pormenorizadamente Los Black Jews, há uma belíssima long board de que são fãs os tubarões que têm como fetiche bocanhar umas pernas cobertas por fatos da Billabong, para matar a rotina de dias a sondar a presença de corpos e de preferência que seja o de um black jew, que beija com submissão a fotografia de Netanyahu. Este quinteto tem uma jovem na guitarra que “faz” coros, os restantes rapazes dividem-se por um teclado, bateria, guitarra eléctrica/voz e baixo, a música que promovem é quente e ritmadamente dolente, como se fossem raios de sol a incidir sobre a Califórnia da década sessenta do século XX em que a América transformou a praia e o surf numa indústria em que os jovens usavam melenas wax e elas defendiam a virgindade da investida das ondas que espargiam esperma. A maioria das canções são um tónico que nos remete constantemente para um universo sonoro ao qual não acrescentam soluções inolvidáveis, verdade, que quando impuseram um ritmo acelerado a uma das canções esta ganhou contornos psicadélicos deveras entusiasmante já que nesse instante conseguiram transformar o palco numa ilha do pacífico com um mar revolto em topázio sob um céu rupestre. As vozes que me acompanham dão as mãos para comunicar através da energia produzida pelo corpo humano, ditado pelo imortal coração que desconhece o véu que o impede de rever-se no seu espelho, Super Nova foi ontem e marcou o passeio do passado, como deves estar entendido através das notícias nos jornais, e é certo que as gaivotas são riscos brancos que riscam a noite como se fossem aviões à jacto, o cheiro a madressilva desapareceu e impera o odor fresco dos ciprestes que anunciam o fim do mês do Agosto quando somos invadidos por emigrantes. Se houvesse justiça no mundo a carta teria sido respondida selada com um beijo com Báton, mas ela jamais foi entregue pelo carteiro do Pablo Neruda. Hoje não há os mistérios extravagantes da lua nem tão pouco a sombra sobrevive, o silêncio não é mais do que a ausência de som, um é a solidão o outro a companhia. Sobre o palco encontra-se um marinheiro a ler uns nomes imperfectíveis, é uma figura que poderia figurar no elenco do “Love Boat”, estou certo que Michael Jackson o levaria para a sua “Never Land”, os D3Ö estão pacientemente à espera que o marinheiro cesse o seu discurso. A violência que implementam é contínua e constante num revirar de páginas de um diário escrito por uma mãe suicida, um bloco sonoro a espaços dilacerado pelas guitarras que são tão incandescentes quanto um tiro solar; quando sobe ao palco um homem que enverga um baixo eléctrico embrulhado no jornal “O Crime” as canções são salteadas numa visceralidade incorruptível; se por instantes surge um gigante dos teclados o compromisso é o da delicadeza e equilíbrio melódico; a harmónica imprime um blues que é gradualmente estilhaçado nas malhas distorcidas do rock, com direito a um spoken word demoníaco. Há invasões constantes do palco e o caos é gerido por uma caveira que é naturalmente demente e se deixa levar em braços por entre o público, uma óbvia encenação orientada por um Deus que não é imune ao Rock and Roll.
Gliding Barnacles, 27, 28, 29 de Agosto, Garagem Auto-Peninsular @ Figueira da Foz
Gliding Barnacles, 27, 28, 29 de Agosto, Garagem Auto-Peninsular @ Figueira da Foz
domingo, 16 de agosto de 2015
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Susan Sontag
O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...
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O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...



