domingo, 24 de abril de 2022
sábado, 23 de abril de 2022
Stoner
O Teatro Aveirense
apresenta os Três Tristes Tigres que no total são seis músicos ligados
electricidade (excepto a harpista) dos quais se destacam os mentores: Alexandre
Soares (guitarra eléctrica) e Ana Deus (voz) a linha que fluentemente apresentam
é a da electrónica que progressivamente se torna ora incomodativa ora sedutora
mas é nesta dualidade que se encontra um centro sonoro que se espraia com o
intuito de se dividir entre o bonito e o belo e é este último que tem
ascendência sobre o primeiro, mas esta beleza é incomodativa porque provoca
inquietação que se de uma forma ou de outra é acutilante porque recorre à
repetição para que assim seja passível de ser assimilada e nessa medida ter
cabimento como estética que se liberta das suas condicionantes formativas (ou
assim o pretende) e procura evolucionar num sentido que se estava proibido
seria por falta de experiência por quem tentou bater nessa porta blindada e
construir um fluxo que se corre para o mar (como sucede com os rios que
nasceram para desembocar numa área bem maior e complexa), a amplificação de
elementos que parecem ter origem numa tribo que consigna ao coração o seu poder
supremo e que a partir do qual reconhecem à realidade um contexto que se imerso
nessa complexidade detona numa violenta extroversão e que pretende revelar algo
de novo que transmutará o espaço e o tempo em outros espaços e tempos que
sucessivamente são o futuro e o passado num vórtice que não consegue fazer
desaparecer o contexto em que a música faz ressurgir um outro presente, a
documentação do tempo psicológico é um compasso que se reporta a inúmeras texturas
numa continua circularidade que incute dois binómios: um segue por uma melodia
que é (por vezes) de uma aspereza cruel e que detona um mal-estar que ninguém
pretende prender ou segurar e segunda uma maliciosa melodia pulsante que irriga
o corpo das canções, se há dissonância é num organigrama em que o organismo se
contrai e desconstrui como se fosse o apelo sedutor da autocombustão deste
efeito poderiam surtir diferentes sinónimos para justificar esse emaranhado
distorcido que discorre no interior do absurdo, a lentidão liderada pela harpa
consigna a algumas canções um misto de volúpia onírica pop que revela uma
delicadeza que se fosse um sentimento seria o amor ou a perda desse (aparente)
eterno sentimento mas a crueldade é revelada pela fragilidade da condição
humana, o rock apresentasse segundo ditames que revelam a sua raiz é por
sistema invertido e alterado para um registo que se revela numa máscara que é a
da angustia ou do desespero que deliberadamente se entranham como se fossem um
misto de veneno com água baptismal: esta viscosidade escorre tal ácido sobre um
espelho e retalha-o segundo uma estrutura que faz emergir uma beleza profunda, se
há espaço para que se reflicta numa turbulência pop/rock e surja um outro
entendimento quer seja com os sentimentos seja com a realidade que a rodeia com
a perspectiva de que há esperança para lá do reflexo…
Três Tristes Tigres,
“Mínima Luz”, 22 de Abril, Teatro Aveirense, Aveiro.
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
Let Us Compare Mythologies
Dela Marmy é o nome
artístico de Joana Sequeira Duarte que surge no palco do Salão Brazil
acompanhada por três músicos, a música que executam é de uma vertente que se
alicerça à pop mas com inúmeros pormenores dos teclados que lhe oferecem uma
delicadeza esotérica que transpõe ou recoloca o ouvinte num universo quase
infantil, essa parcela nas canções é a porta para a abstracção que é de certa
forma encantatória por aprofundar algo que é somente uma memória mas a mais
pura, certamente que os quadros pop são delineados de forma a evitar qualquer
cliché salvaguardando assim um índice elevadíssimo de originalidade que revela
um mundo repleto de uma beleza insofismável em que a tragédia é de um
romantismo tão profundo e delicado que se rebela contra a efemeridade a que
estão condenados os seres vivos e é essa esperança que é um íman que prende o
melómano, por outro lado há um propósito maior que se prende à fantasia que
delicadamente se constitui como subtexto das canções e não é que seja meramente
contemplativa antes é associada a uma pop que no seu âmago deslumbra e gera uma
felicidade contida mas paradoxalmente plena de esperança para com o caos que
por vezes faz movimentar o Mundo e ao demonstrar esse efeito descobrem-se
pontos cardeais que dominam e se espraiam e cativam a quem esteja presente e de
momento a ausência deve ser compreendida como um despertar em direcção de algo
divinalmente belo e que por conseguinte é uma soma intransponível, a melancolia
mistura-se intermitentemente com a felicidade como se a primeira fosse dominada
pela segunda e assim inversamente e a isso deve-se a voz da Joana Sequeira
Duarte que é de uma clareza imaculada que assoberba as canções a um patamar de
uma inexplicável doçura ou assertividade no que canta seja a tragédia ou noutras
a evocação de algo que por si só é suficiente para elevar as canções a um pináculo
de beleza mas que é ideal e não a que transborda de páginas de manuscritos
antigos antes dos dias em que domina o Outono e se encaminham para o Inverno e
a única companhia para conquistar a próxima estação do ano é Dela Marmy.
Dela Marmy, Captured
Fantasy, 5 de Dezembro, Salão Brazil, Coimbra.
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
domingo, 7 de novembro de 2021
The Flame
HHY & The Macumbas
apresentam-se sob diferentes prismas: a música ora se decompõe em estruturas
tribais ora se compõe num hipnotismo que resulta numa ode operática que coloca
o ouvinte em contacto com o divino e com o profano como se fosse a mistura num
copo de vinho amargo que transmutaria os peregrinos em seres cornudos e outros em
anjos dançantes em redor do fogo profano as almas sumptuosamente divagam
entrecruzando-se e se digladiam ou se transmutam numa só peça de escultura
erguida para que seja adorada ao som das variações rítmicas umas vezes
profundas e hereges e outras celestiais; parece que o que domina no contexto
sonoro dos HHY & The Macumbas são bifurcações que se encontram num mesmo
leito de rio de sangue fruto de um sacrifício e este ponto é fundamental para
que a música corra sem que seja questionada a sua origem; se fossem recolocados
num terreno inóspito seriam reveladores de maravilhas de diamantes ou
brilhantes de sangue porque se existe progresso isso deve-se à exploração da
matéria prima que enriquece os países pobres, tal como a música que advém do
palco que é rica (não no sentido literal do termo) porque tem origem nesses
tais países africanos e onde se encontra o berço castrado dominado por
elefantes moribundos e rinocerontes em fuga dos seus carrascos; o concerto que
dura uma hora não há qualquer pausa o contínuo é revelador de que a relação do
pensamento tem inúmeros níveis de entendimento que se entrecruzam e são
potenciadores de atar um outro estado de espírito ao ouvinte que tem que ter
confiança na narrativa sonora deixar-se levar de olhos vendados por uma
floresta ou pela savana e não ter medo que qualquer ser estranho possa aparecer
de repente de forma a que seja suficientemente forte para instalar a anarquia e
a demência porque é esse estado de transe quase demencial que se situa a
tragédia dos HHY& The Macumbas se há esperança é apenas no limiar da mesma
se há felicidade é porque os corpos podem transpirar e libertar o mal que por
si só é o primórdio daquilo que se pretende exorcizar e somente o mal para que
daqui em diante seja o bem como advir de um outro universo mais amplo e belo
que recusa as trevas e faz delas cinzas somente destas é possível que algo seja
eterno e que desmontado o cenário seja o bem a dominar os corpos cegos perante
a montra do escuro ou obscurecido que relata o pormenor e transformam em algo
maior o que não é domesticável; os ecos de uma nova civilização estão
proscritos em cada acorde porque é quase do tempo em que as ligações entre os
seres vivos eram composta exclusivamente por sons que gradualmente simbolizaram
a coisa em si e que sustentou uma nova forma de comunicar; a música é o seu
elemento mais revelador que de outra forma seria impossível transmitir HHY
& The Macumbas que são um manancial que despertam os sentidos para um outro
mundo que inconscientemente é reconhecível para quem se presta a ouvi-los com
atenção e dessa forma possa perspectivar quiçá algo similar ao que Picasso
descobriu com a arte africana o cubismo é nessa perspectiva de transposição do
sagrado para um nível de contexto contemporâneo que estes músicos se enquadram
haja felicidade por uma hora sonora deslumbrante.
HHY& The Macumbas,
6 de Novembro, Teatro José Lúcio da Silva, Leiria.
segunda-feira, 18 de outubro de 2021
Susan Sontag
O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...
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