Sunday, March 11, 2012

Sob Escuta

O piano é uma malha fina de tecido de seda, “numa selva sem leões”, a declaração de amor carnal: “cheira-me a fêmeas fatais”, o espicaçar do violino dedilhado por uma mulher angular, magra e maquilhada de boneca do leste. “Ideias originais”, a banda vem à superficie , o pedido de clemência: “rei da rádio dá-me a voz”, sintonizamos o transistor e o “rei da pop compõe para nós”, pausa, banda respira, a merda das “cidades tão iguais” . O piano de Antonio Machado numa cadência neo-pop, com o sujeito poético a encarnar “tripas coracões” , no centro, o narrador ficcionado “indiferentes orações” , baixo submerso na malha melódica a puxar pela estrutura óssea do “rei da rádio dá-me a voz” , banda, a lei “compõe para nós” , a fatalidade da lógica institucional que somente o “rei do roque morreu por nós” , “por nós” (eco), o piano e o baixo surgem e o vilino expande-se rasgando o tecido do piano, que fez nascer a canção. “Rei da rádio dá-me a voz”, a voz da rádio portuguesa: “compõe para nós”, “cantam por nós” em inglês. “Morreu por nós” , o teclado de Hugo Novo, salpica o sangue essencial para encontrar o fim. “Obrigado boa noite, bom dia! É maravilhoso voltar aos palcos especialmente aqui em Estarreja” . O teclado volta dimensionar-se como uma malha de metal a partir da qual irrompem as cores do pecado: “tarde inteira a chorar” o que faz uma mulher numa casa portuguesa “fumando em frente ao altar”, será a a nossa irmã ou irmão? O ritmo engrandece a canção. A castidade revista em “um anjo fumegante” , violino cortante derrapante agressivo vivo a imputar a morte à morte, aborto, “profano desejo a crescer” , e o acordo ortográfico: “até sinto a língua morta” , o ritmo sincopado, mas numa vertente crescente e decrescente, remoinho, “estará a meditar”. O violino abre espaço entre a cadência ritmica para ser o transmissor da acção: “AAI! UI!” (Eco!) “Ao inferno de Dante, atirem-me água benta”. O Estado: “com ela lá vai a caixa de esmolas”, “atirem-me água fria”, solo hammond, sobre a sincope, o vilonio reverbera uma última vez: “Ai!UI! Atirem-me água benta, por ela assalto a caixa de esmolas” , “por ser cinquentona o nome dela é Madonna. AiUi! Sexy eu sei!”, “ depende da sua”, “ atirem-me água friaaaAAA”. “Um tema luso”, teclado fúnebre, dedilhado na barca do anjo, o hino à sangria que está ocorrer em Portugal. Baixo de Jorge Romão: “Leve Levemente como quem chama por mim”, a banda sublinha as vogais do objecto poético, mimético, “a tensão o medo”. Reininho sobe o pé e “a mão” , uma flauta emerge como um guarda rios suspenso numa cascata, o Rei de POPortual: “encosto no vidro o anel de brilhantes”, “ Ai! O meu coração!”, “sabem que me escondo na bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, somos todos cadáveres adiados: “um sorriso cruel atrás da última porta cama de dossel”, solidão,”sabem que me escondo na Bellevue”. Jorge Romão ergue o baixo: “as minhas amigas no jardim” das camélias “agora mais ninguém confia em mim”. Pausa. Palmas. Violino mais teclado submisso , violino impositivo, abre o prisma para a banda, as luzes acendem-se e apagam-se , estabelece-se a progressão, pausa, “sonho que me escondo na Bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, o espaço onírico onde “os meus amigos enterrados no jardim agora mais ninguém confia em mim”. Rei de PoPortugal veste a pele do Conde Lautréamon , a pericia de um membro em constante mutação, através da deglutição, a promesa: “desemprego” o murro no estômago e o vómito a espumar. “Uma mais positiva para fazer crescer as pedras da calçada” portuguesa. Mais vale um violino e teclado sobre o ritmo binário mais vale palmas mais vale baixo mais vale o bombo que marca o ritmo e o baterista faz correr areia num instrumento cilíndrico, é prenúncio de um nascimento, “que tentam calar”, é, “vais ouvir e ver”, a perversão de um povo velho, “mais vale nunca mais crescer”, solo do violino, e o baixo ressurge numa cadência comprometida com o “cérebro em fuga”, “letal”, “anda responder”, “mais vale nunca”, ficam, “ficas a aprender”, “mais vale nada”, e o Rei de POPortugal, joga basket com uma bola transparente, liberta-se do adolescente que o prende à terra, a banda segue o movimento dos acordes, livres e descompremetidos em relação ao envelhecimento imposto pela natureza. Pausa. “Mais vale nunca”, “nada”, ou, “apetecer”, “crescer”, não olhem, “olha para o que eu faço”, utópico: “Nunca mais morrer!”, violino e baixo, “agora Estarreja!” : “Nada acontecer!”: “Nunca mais crescer!”. “Jorge Romão no calhambeque. Há anos, estreamos aqui ao lado, em Aveiro, não sei se conhecem, esta espécie de Veneza com menos gôndolas mas com mais dinheiro, onde estreamos ´Popless`”. Antonio Machado, introduz através do teclado os acordes pop de uma canção de amor com “Asas”, “servem para voar”, “espreitar”, “mil casas no ar” o sintetizador dá-lhe uma textura infantil, “ar” eco, violino, “na paixão que te roer sem prazo ou idade para acabar”, baixo, “aconteça o que acontecer”, violino. A banda surge como se estivesse a soturar uma ferida aberta pela descoberta do amor adolescente. Rei de POPortugal, pega no tripé e coloca-se de lado, abana as ancas, dá voltas à memoria, “acabar”, “já não há leis para te prender”, a progressão segue duas vertentes, unas na altura e no tempo, e o seu cruzamento enuncia liberdade. “Parabéns pelo vosso salão. Somos todos dignos uns dos outros. Mas antes vamos cometer um pequeno pecado”, original: “Valsa dos Detectives”, os dois teclados impõe uma densidade próxima do pós-negrume, violino, sintetizador, pausa, a carga dramática é proposta por um ritmo de escadaria de Sacré Couer, pontuada por Piaf ou Picasso ou Toulouse-Lautrec ou pelo Conde de Lautréamont. “Tem medo do escuro tal criança sem futuro, é falso velhaco cobarde armado em duro”, e quem é, és, somos nós, e vai “pelo mundo guiado pela mão”, e não estamos mortos, “depois de morto dá uma volta no caixão”, violino, “nem na cama estás seguro” , não, violino, 2x2, “que te rodeiam”, “que mesquinhas serpenteiam”, não sabemos sair deste remoinho de esperança vã, de fatalismo kitsch, “guiado pela mão”, o sangue pinga de cada verso. “Depois de morto dá uma volta no caixão”, a acusação sobre a nossa: “traição” e o emigrante “vais pelo mundo guiado pela mão”, o violino inicia um solo contínuo a sobrepor-se à progressão encetada pelos teclados, bateria e baixo de Jorge Romão, ouve-se o centro de uma revolução como um tufão ou remoinho narrativo sonoro: “AAAAAA”. “É a mulher de ontem é a mulher de hoje, cherchez la femme”. Os teclados equilibram a canção num território beateliano, “carvalho” e a bateria revela a cadência de uma melodia agri-doce, a banda repete os acordes pop-slow: “agulha no cabelo”, há uma tragédia “onde o sol se põe atrás”, já que no amor, “és unica a dar gás”, a violência da declaração: 2x2, “rainha das marés”, violino é a voz da musa do sujeito poético. O objecto icónico como sinal da sua pureza transcendental: “crucifixo, nas mãos uns dentes de alho”, para afastar os espiritos como o de Lautréamon: “se eu uivar e acordares coberta de grelos”, a banda inicia a progressão para a retirar do lodaçal da tristeza, “rainha das marés”, com o violino a responder ao Rei: “és unica”, baixo desce a escala e afunda-a numa incerteza da qual é rasgatado pelo violino: “mas tu és unica a dar gás”, “a princesa das marés eu caio aos teus pés”. Coloca as mãos atrás das costas como se estivesse a ser algemado, abre a boca para fugir da asfixia, aumenta o ritmo, “és minha”, diminuem a altura e encontram-se no épilogo. “A coisa mais importante são vocês. Esta música são vocês. Se não fossem vocês erámos mais uns subsidiados ”. Teclado e violino encetam um percurso delicado, frágil, que surge quando os vassos comunicantes se cruzam no tempo e no espaço, “inventou o verbo amar, fugi sem hesitar”, em “que gozo com vocês”, “sem hesitar”, pausa, teclados mais violino, “se fiquei e não gostei”. O break da bateria traz consigo todos os instrumentos, “eu menti sem hesitar, esqueci o calor do lar”, “chorar”, o teclado introduz acordes de um tropicalismo tépido, fátuo, violino, baixo: “eu inventei o verbo amar”, “lar”, “inventei o verbo amar”, “parti e não vou chegar”: o assobio do Rei de POPortugal mimetiza os acordes tropicais inseridos anteriormente pelo teclado. “Ficar” (eco). “Obrigado Estarreja e Companhia. Os Casinos, Las Vegas, Las Vagas, Las Vagas: io”. Teclado binário, o baixo com o pendor de uma cascavel com veneno na ponta dos caninos salivantes, “macro onda, vista ali da marina”, a melodia é “de ouro a mina”, no tapete verde rodam os dados: violino, teclado, baixo, “aceita apostas”, cita Camões: “fiel das balanças”, com o baixo a impor-se como um corte transversal e continuo em cadência marcial, encaminha o sujeito-poético para a tragédia gréco-romana, “de quem gostas” (eco). O violino é o cumplice da máfia italo-americana, o ritmo e a altura aumentam, “magra, serei a gorda e tu” , a, “cabra cega”, a determinação: “estarás de licra e eu de tanga”, a liberdade: “sou um peixe fora de água” (eco), solo do violino tão assertivo quanto violento, “serei a gorda”, “serei quem peca serás quem paga”, a consolidação de uma verdade que os receptores não acreditam: “nós somos peixes fora d`água”, violino, no singular agrega a proposta asfixiante: “e eu sou um peixe fora d`água”, a progressão hipnótica instala o principio da loucura e o público bate palmas.. A violinista faz anos e recebe das mãos do Rei de POPurtugal um bouquet e o entoar do público: “Parabéns a você, nesta data querida...”. “Este aqui [jorge Romão] só faz anos de quatro em quatro anos”. E ridiculariza a “Sexta-feira” de um rapper: “Sexta-feira ó. É Sexta-feira ó”. “Sexta-feira (um seu criado)”, com a guitarra semi-acustica de Antonio Machado a incutir-lhe a estética country-pop sobre ritmo binário. “Souvant, ou lálá”, “Efectivamente”, o circuito melódico da canção passa obrigatoriamente pelo teclado, “pássaros estupidos a esvoaçar, o riso das crianças dos outros”, o observador nunca se imiscui na narrativa, “sem moralizar”, pausa, “panascas que passam”, aumenta o ritmo, “que disfarçam ao dealar”, estamos “a controlar”, “em Estarreja é diferente”, “sem moralizar”, a banda produz os acordes como se fossem tocados para trás, o teclado sobressai mantendo a melodia do refrão na mémoria do ouvinte, “sem, sem moralizar”, breaks da bateria, palmas do público. “Obrigado! A nossa vida está a recomeçar. Deixamos de viver das nossas subvenções. Amanhã estaremos aqui. E Segunda-feira também”. O teclado injecta os três acordes poéticos, do slow que veio do norte com a respectiva pronúncia que representa uma nação: “lá no fundo donde eu venho”, a língua “é a pronúncia do norte” , a tentação do poeta se substituir ao poder de Deus: “hemisfério fraco traga outro forte”. Ao viciar um instrumento de navegação como a: “bússola sei que existe aponta sempre para norte”, somente porque assim se impõe a “pronúncia do norte” ouve-se o Douro a correr para o “mar”(eco). O acordeão de Antonio Machado revela o serpentear das encostas do Douro talhado à vontade do homem para da vinha fazer o sangue do “barqueiro nem hei-de remar”, e é o orgulho de um povo que: “corre o rio para o mar”, se navega para a foz: “prenúncio de morte”(eco). Esperam “um gajo parecido com elas”, “andar”, corre “o rio para o maaar”, “norte” (eco), acordeão, a banda insurge-se na equação, mas o teclado mantém o seu pendor trágico, até à Foz. A lírica do Rei de POPortugal flutua no rio e transforma o seu leito nas veias de um corpo rugoso, que ao sol ou à lua, representa e representa-se como o devir de uma alma preparada para enfrentar as agruras do mar do norte. Teclado + bateria, a génese de “Sete naves”, é construir e desconstruir, não numa lógica de somatório de opostos, mas de circularidade dos acordes que encaixam no ritmo de máquina de indústria de “metal a flutuar”, que tem na voz do poeta: “desejo de me afundar”, aumenta o ritmo da máquina de fazer pancadas, não “paro de martelar”, violino, a frieza descritiva da máquina biomecânica: “dedos metálicos frios, vontade enferrujar, matéria por soldar”, mas a parte humana denota fraqueza: “vontade de me enforcar”, e o refrão revela a alma: “as naves que eu construo não são feitas para navegar, aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”, o ritmo binário embebeda as luzes que nos iluminam hipnoticamente no convite aos corpos para que expulsem as almas, e as ponham a dançar a olhar para um precípicio. Os acordes do baixo são elementos que unem as peças soltas desta nave que flutua sobre as nuvens criadas por Dali, das quais saltam tigres dispostos a nos vilipendiar. Jorge Romão ergue o baixo disposto a decepar as cabeças que ouvem “as naves que eu construo não são feitas para navegar”, e voemos, “fundem-se com o ar”, “se se voltam devagar”, o Rei de POPortugal: “fundem-se com o ar”: “Lalai”; Jorge Romão: “BomBOmBOm”; Rei: “Lalailai”; Jorge Romão: “BomBOmBOM”. “Vocês têm peixes no brazão, nós temos peixes no coração”. “Sangue Oculto”, é-lhe retirada a vertente épica-rock, para a instalarem num ritmo esotérico que lhe mantém a trágica “luta na arena artificial”, “ao fugir de uma investida”, bateria e baixo, “ao fugir da própria vida, sem correr e sem saltar, oculto sangue que tenho para dar”. Palmas. “´Voos domésticos` primeira canção proeminentemente heterosexual”. Antonio Cesar Machado, tem a guitarra semi-acustica como elemento timbrico e é na sua orientação que a nave espacial encontra a sua cave, ela “me disse para aterrar em mim”, a banda repete os acordes dolentes e quentes simultaneamente, “em mim”, banda, “olha a turbulência é da tua ausência”, solo do violino, teclado, baixo, bateria, “a tua ausência”, nem o espelho responde nem a memória faz parte: “diz-me quem és? A torre de control, fantasma de lençol”. “Cais”, a canção proeminentemente pop, e o resumo da certeza de que em Portugal nunca há “ninguém para o crude limpar”, mesmo “sais”, o clássico argumento: “vendes o Cais”, aumenta o ritmo e a altura descolando delicadamente para a estratosfera: “mar salgado”, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?



Voos Domésticos, GNR, 09 de Março, Cine-Teatro de Estarreja @ Estarreja