Sunday, May 19, 2013

El Amor en Los Tiempos del Cólera

A cegueira compulsiva de um poeta de um metro e oitenta, registado com o apelido de Reininho sobe ao palco instalado no Estádio Municipal de Leiria acompanhado por Jorge Romão (baixo), Tóli Cesar Machado (guitarras/piano e acordeão); uma outra guitarra de Andy Torrence, bateira e teclado/programações. Os acordes são densos e o ritmo mecânico, como o mecanismo de um relógio que marca segundos decrescentes e crescentes para entrar num tempo psicológico onde “vejo um rio”, Douro ou Tejo, noite e dia, loucura e sanidade, amor “ vejo destroços de metal a flutuar”, toca o despertador “sinos sinetas ao acordar” e a obsessão não “para de martelar”. Rui Reininho dá marteladas na cabeça para alertar da facilidade com que surge o abismo que conduz à loucura gerada a partir da razão. A síncope é gerada pelo adensar do ritmo conjugada com os acordes agudos das guitarras, uma em sinal aberto a outra dispara a descarga eléctrica em forma de electro choque, Rui Reininho ganha corpo de animal: “metálicos frios” quase a “enferrujar”, “veias estalando, matéria por soldar”. Rui Reininho é como “as naves que eu construo não são feitas para navegar, aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”. “Sexta-feira (Um seu criado)” opõe-se ao negativo pop de “Sete Marés” ao se inscrever numa tónica rock com direito a bar aberto numa despedida de solteiro “era tal a bebedeira”, que afunila os sentidos: “ninguém sabia onde era o mar”. Quando o hammond intervém: “falta a tua confissão”, insere-lhe uma alma soul. “É Domingo na Madeira”, “No Funchal há um buraco na Madeira ninguém vai levar a mal”. O hammond sobressai por entre o jogo das guitarras, como se fosse “beija mão”. “Já não soube com quem falei”. O solo curto (semi distorcido) da guitarra, e o hammond respira e expira, “falta a tua confissão”, “Já não dá, já não dei”. A progressão é imposta pelas guitarras, a voz do cantor/performer Rui Reininho mergulha na muralha do black out: “Já não dou nem para o Dj”. “Boa noite! Já não jogávamos em Leiria há muito tempo! Agora para aquecer uma música brasileira, romântica”. O teclado assume-se como o elemento predominante, ao introduzir os acordes da música pop que celebra a Primavera: “Pássaros estúpidos a esvoaçar”, as teclas impõe sua omnipotência circulando por “Efectivamente” como uma contínua radiação ultra violeta, o poeta convive com “o riso das crianças dos outros”; e como em qualquer outra localidade: “Efectivamente em Leiria é diferente”. Sobre o timbre do teclado pontua a guitarra semi-acustica de Tóli Cesar Machado, sublinha uma delicadeza exasperante “de quem anda a engatar” . E a eloquente ironia: “como se fossem mafiosos convictos habituados a controlar”. E a figura tipo é escondida através do olhar de um voyer, solo da guitarra de Torrence, “Efectivamente gosto de aparências”. O poeta transfere-se para o actor que ouve mas nunca presta a atenção: “Aparentemente escuto as conversas, efectivamente sem moralizar”. Reininho junta as mãos junto à boca como a rezar e em simultâneo a agradecer as palmas. “É muito bom sermos lixo ao ar livre. Música sobre a guerra, a pedofilia e a psiquiatria. Enfim chama-se: ´Tirana`”. O assobio de Rui Reininho, introduz a melodia tropical que assola a ilha “Tirana” durante as estações do ano em que as borboletas voam em direção ao sol. A promessa é uma constante numa descontínua epopeia utópica: “Tirana é um lugar quem sabe difícil de encontrar”, não há medo: “Avançar e tirar”. A delicadeza pop levada ao extremo de uma beleza inatingível pelo olhar, os acordes ondulantes como uma bossa nova pop, uma pele “muito sedutora” mas que tem o poder “de dividir para poder reinar”, a duplicidade entre ser e o possuir, a bateria retira-a pontualmente da sua ondulação: “Bom nome para quem não passou fome”. “Para poder reinar”. O palco é iluminado por um cor-de-rosa dos contos infantis, para induzir o sono às crianças com medo escuro, a guitarra emite um solo contido que é secundado pelo hammond: “2 3 6”, “mais carne para canhão”, o tropicalismo é pejado pelas cores negras do céu de Londres: “para poder reinar”. “2 3 2 1 é só subtrair”. “2 3 6”, “3 2 1”, “2 3 6 para poder reinar”. “2 3 6” “3 2 1” “2 3 6 para poder reinar”. “Temos novos rapazes na banda, isto ainda não é um club completamente homossexual, como o David Gueta! Na bateria Jorge Oliveira”. Os breaks da bateria e os pratos expelem um ritmo respirado, o elemento que insere a melodia é o baixo de Jorge Romão, que peja “Videomaria” da dor irreparável do fluxo sanguíneo pós delapidar a pele da “Península inteira a chorar”. A densidade da melodia agrava-se quando o narrador omnisciente vê “em frente ao altar”, a alma “de um anjo fumegante”, o homem vítima da sua capacidade para pecar sente “um profano desejo a crescer”, mas perde o dom da palavra: “Sinto a língua morta, o latim vai mudar”. GNR emitem uma massa psicadélica-pop, a eterna curiosidade: “Estará a meditar?”. O desejo corre nas veias do performer como se fossem agentes secretos do pecado mortal do amor entre um homem e uma mulher: “Atirem-me água fria”. A purificação: “Atirem-me água benta”. “Fria” (eco). “AiUiAiUi”. Palmas do público. A personagem bíblica: “É Maria”. “Sexy eu sei virgem ou não depende da nossa companhia”. A próxima “música é sobre Vampiros”. A melodia é inserida pelo teclado que delineia o recorte tétrico de “Morte ao Sol” num inóspito serpentear a enunciar: “Felizmente a noite sai”, o teclado carrega nas teclas pretas e brancas, que incendeiam um contínuo negrume. A guitarra irrompe como um raio de luz, sólido e flutuante, “estou contente se a luz se esvai”, as guitarras conjugadas criam e delapidam um diamante, que estoura nas mãos do baterista, forte sobre o bombo, e a guitarra sola em êxtase. A hipótese: “Se o amanhã perdido for”. A lei: “Eu declaro morte ao sol”. “OOO”. “Aí vem a dor”. Sobre a melodia constituída por um vácuo, irrompe um solo semi-distorcido. Vê-se ao espelho: “imagem atroz”, haverá alguém mais cruel? “Eu declaro morte ao sol”.“Aqui em Leiria não vale a pena falar em inglês nem em italiano”. “Bellevue”, é transgressora em dois níveis: o canto, que se desdobra numa contenção dilacerante, que nota após nota, verso após verso, acompanha a segunda parte que corresponde a uma valsa pop noir, “a tensão do medo puro”, a densidade acentua-se numa contínua marcha sobre as artérias de Paris. “Encosto ao vidro um anel de brilhantes”, é a tentativa de entrar, “sabem que me escondo na Bellevue”. O local onde decorre o drama: “cama de dossel”. “Ninguém comparece ao meu rendez vous , salto para cima experimento o colchão, onde era sangue era apenas menstruação”. As suas vítimas: “Os meus amigos no fundo do jardim”. A solidão: “Agora mais ninguém confia em mim”. O supérfluo: “Os corpos no lago eram de jovens no desemprego”.“Um peseudo-hit, do ´Retropolitana` [marca os rrs] ´Rei do Roque`. O meu nome é Rui Reininho”. A programação insere um ritmo duplo, mas gradualmente espaçado e dengoso, emitido das colunas de uma discoteca à beira mar, por entre a savana cheira-lhe a “fêmeas fatais”, em redor do predador “Macacos imitações”, o teclado insere o fraseado sobre o qual canta o apelo: “Rei da rádio dá-me a voz”. A massa rítmica gradualmente aumenta numa progressão acentuada pela intervenção do Hammond e do sintetizador: “cidades tão banais”. A guitarra de Tóli Cesar Machado recria os acordes vitais de “orações”, “Rei do Roque dá-me a voz”. “Rei do rock canta por nós”, GNR tomam a forma de uma estrutura pop que responde ao instinto do psicadelismo: “morreu por nós?”, pontuado pela guitarra eléctrica como a perfurar a hipnose que gradualmente se instala e que transforma GNR numa conjuntura sónica que converte “Rei do Roque” em reis da psicadélica. “Vou cantar uma canção, muito bonita, sobre as mães: ´Diário de Milú`. No piano forte Tóli Cesar Machado”. O piano insere a melodia, entre o negro e o cor-de-rosa choque, a bateria o ritmo de um coração faminto por um amor de romances de cordel. A natureza revela-se cenograficamente: “na casca de carvalho”. O cantor/performer canta como se fosse uma sereia: “onde o céu ficou para trás”, o canto a profunda revelação: “És única a dar gás”, os teclados formam uma rede kitsh pop, ela é a “rainha das marés”, a paixão: “salto para os teus” como se fosse para o escuro onde é penetrado esse “atalho” e se sacia com “dentes de alho”. Ergue a bandeira: “Uma forca e um martelo”. Ecoa um laivo beatleano. “Eu caio aos teus pés”, de súbito a progressão dramática inscreve “Unika” numa nave conduzida por um remoinho transgressivo que toma de assalto o slow pop. “É como a EDP”. Rui Reininho encarna os ditadores da Tree Gorges: segura junto a si o tripé do microfone através do qual discursa em chinês: como se fossem zetas a trespassar o público. “Só depois de pé atrás”. “És a rainha das marés”. “Gás” o teclado insere a progressão, “trágica a canção”, a guitarra solo discorre ligeiramente distorcida enunciando o fim. “Andy Torrence on the guitar”.“Vamos a las vagens a ´Las Vagas`”. GNR, concebem sonicamente uma estrutura ondulada com sincope estratosférica perpetrada pela guitarra semi-distorcida, com o baixo com a bateria a suster “a macro onda”, os pontos sonoros formam no espaço uma quadratura do circulo: “Vista dali da marina”. A guitarra expande-se e retrai-se circularmente. “AAAA”. A textura da melodia enruga-se progressivamente: “perdes todos de quem gostas”. “Eu serei a gorda”. “Não havia vaga”. “Licra”. “Eu sou um peixe fora de água”, a voz de Rei Reininho ecoa, a guitarra eléctrica destravada, Reininho dança: abana as ancas e levanta os braços para à frente do seu peito. Aplausos. “Uma música transexual chama-se ´Voos Domésticos`”. O timbre que sobressai é o dos teclados que lentamente desenham a melodia com origem nos bares bafientos de Buenos Aires, que sublinha a proximidade de uma tragédia amorosa, de um amor em tempos de cólera. O timbre de Rui Reininho sublinha um abandono letal, “Ai a turbulência é da tua ausência”. Soa o bombo: “soa a campainha”. Aviso à navegação: “Só pago a sobremesa”. E o emissor pontua as vogais com delicadeza que é incisiva: “Adivinha quem sou eu”, a voz da sua consciência: “Sou a turbulência”. E em spoken word: “De pé os portugueses e as portuguesas na cama!”. O solo do piano impõe um crescendo rítmico num prenuncio emitido pela “Torre de control”, e a voz canta como um gato com vertigens: “adivinha quem é?”. Jorge Romão confere-lhe uma violência contida e precisa: “Ai a turbulência, doméstica violência”. A guitarra eléctrica de Andy Torrence desfere rápidos acordes mas em regime introvertido, a voz segura-os em continua possessão à espera do exorcista, que dê a água benta: “Eu bebi sem cerimonia o chá”, a guitarra gradualmente abandona a introversão e revela uma tropicalia da Bahia tóxica: “Ana Lee ópio do povo”, “tigre de papel”, a voz de Rui Reininho sobre os acordes da guitarra que “abrem” e que traz consigo GNR e consequentemente uma paisagem com personagem de um conto de fadas tropical: “Se ela se põe de vestidinha”, a pretensão: “deixei-a a sonhar por mim”. “Ana Lee”, “nada de novo”, “triângulo dourado”. O Tóli Cesar Machado tem uma guitarra nova “como a do gajo dos Depeche Mode”, aparentemente semi-acústica mas com uma forte munição, da qual desfere os acordes de “Personal Jesus”. Rui Reininho imita a dança languida de Dave Gahan: braços levantados e em movimento e ancas endoidecidas. Insulta o actual Ministro das Finanças: “Gaspar ó caralho!”, o público apupa, “não falamos de política!”. “Assas” é uma erupção de raios azuis onde “flutuam mil casas no ar”, o meio tempo consigna-lhe uma preguiça proporcionada por uma temperatura tropical, gradualmente devastada pelas guitarras que paradoxalmente emitem raios ultra violeta, “aconteça o que acontecer”. Os meios-tons do piano conferem à “Pronúncia do Norte” uma alma imersa no Rio Douro: “Lá do fundo donde eu venho”, a voz do Norte, “É a pronúncia do Norte”, a denúncia: “Os tontos chamam-lhe torpe”. O piano canta: “É a pronúncia do Norte”, “hemisfério traga outro forte”, é a prece proporcionado pela hipérbole: a bussola “aponta sempre para Norte”. Escorre o “rio para o mar” (eco). A paisagem é de contornos naturalistas, “as searas secaram”, “é um prenúncio de morte” (eco). Acentuada pela intervenção do acordeão de Tóli Cesar Machado, “caminhos novos para andar”, e que substitui o piano como se estivesse a tocar em almas de marionetas portuguesas confrontando-as com a sua mortalidade.“E para vós provar que tem sido uma vida maravilhosa”. A poética surrealista: “quando o barco tem pés para andar”, sobre o compasso rítmico que gradualmente se eleva em altura e em intensidade, dramática a realidade: “E quando a maré negra chegar”. No refrão-prece: “lá no fundo do mar imenso imundo sais”. Rui Reininho projecta a hipnose através da poesia que tem dois emissores: um questiona o outro sugere uma tragédia económica e social. GNR sublinham uma melodia melancólica sustida por Jorge Romão, “se ainda se ama o mar salgado” , “então vai ver se ainda ´Há Lodo no Cais”, “muito cuidado atina”. O sintetizador confere-lhe uma vertente da pop dos anos oitenta, “se o pescado mora ao largo”, mas o e se o “medo impera e vais longe mais”, “muito cuidado atina, voltas ao Cais”. O bombo insere o ritmo compassado de “Dunas” e Rui Reininho anuncia que vai beber um “chá”. Sente-se um frisson provocado pela ansiedade por parte da multidão em trautear a melodia que retrata um dia de Verão passado nas “Dunas, saltamos rochedos como na TV”, a inserção do acordeão confere-lhe um timbre que repete as notas do refrão: “Nas dunas, roendo maçãs”. “Nas ondas da manhã”. “Em câmara lenta como na TV”. “Onde?” “AAAA”. Rui Reininho coloca no pódio “Tóli Cesar Machado a trinta e três anos à frente desta merda!” , ladeado por: “António Manuel Ribeiro e os Xutos&Pontapes”. Reininho imita a gestualidade contida de Morrissey e da sua boca sai um inglês fleumático: “Can you help me with this song? Motherfuckers?”. “Viva a liberdade! Viva esta cidade!”. “Popless”. As guitarras completam-se em regimes timbricos opostos uma mais rude a outra rock and roll, esta realiza os solos, retirando-a irreversivelmente da sua métrica circular repetitiva pop. Rui Reininho dança sob as luzes pretas e brancas. O surrealismo animista: “por onde ela passa a relva cresce”. A excitação do peito “tudo o que sobe também desce”. “Olá, Leiria já que não podemos ser amantes ficamos amigos”. GNR iniciam “Sangue Oculto” com o solo da guitarra a percorre-la continuamente, os breaks da bateria seguem o cantor: “ardem chamas de dois sóis”. A primeira parte da canção é gradualmente contida, a segunda cresce continuamente durante o solo hard rock de Andy Torrence. Rui Reininho encena uma corrida pelo palco com o tripé nas mãos. “Oculto sangue que tenho para dar”. E aprofunda a perspectiva sobre a utopia: “flores são como animais”. A chuva cai piedosamente no Estádio Municipal de Leiria e é iluminada pelos focos vermelhos que incendeiam o palco. “Ao fugir de uma investida”. Dão o corpo às balas através do rock épico, “o fogo uma fronteira”. “Mais Vale Nunca”, é uma lullaby para fazer acordar os adultos que subitamente descobrem que “há um bicho novo para limpar”. As guitarras completam o fraseado infantil do sintetizador, inculcando-lhe um carácter adulto, jogando em contra cena. “Género preguiçoso e letal”. O solo da guitarra é em eco crescente e decrescente. Jorge Romão impõe a pausa, surge o teclado: “Vais ouvir e ver”. A voz prevê: “Mais vale nunca mais crescer”. Continua a chover sobre os presentes. O solo de Andy Torrence corresponde a melodia que GNR canibalizam sonicamente. Subtraindo ao original, “Que tudo vá pro Inferno” (1965) assinada por Erasmo Carlos e Roberto Carlos, a sua vertente romântica popular brasileira, resgatando-a para a pura e simples diversão e impregnando-a de uma ironia letal que desdenha “o céu azul sempre a brilhar”. “Eu quero que vocês me aqueçam neste inferno”. “De quê me vale a minha vida de Ronaldo?”. “E que tudo o mais vá pró inferno”. A chuva dá tréguas e as palmas eclodem, atiram um cachecol do União de Leiria ao Rui Reininho: “Um beijinho para o David Fonseca”.

GNR, Estádio Municipal de Leiria, 18 de Maio @ Leiria