Monday, January 6, 2014

Bipolaridade

A guitarra introduz acordes agudos mas predominantemente sub-reptícios e a bateria expele uma tonalidade serpenteante, “com licença” é a voz do actor-narrador que está a passar por entre o público que se encontra em pé no Salão Brazil situado na baixa de Coimbra a capital do Rock and Roll. “Boa noite nós somos os TRACTOR”, “agradecer o convite por estar aqui aos Subway Riders”, “na verdade nós não sabemos o que vamos fazer aqui, talvez teatro do absurdo com rock progressivo”. A peça que o trio liderado pela bateria de Kalo leva à cena é um excerto de “A Varanda” (1956) de Jean Genet, onde as personagens “satisfazem os seus desejos sexuais” e que por sua vez reportam para “as figuras da nossa sociedade”. O bombo ensimesma-se provocantemente e a guitarra ecoa epicamente, e o espaço onde decorre a acção “tem as paredes pretas” sobre a qual se reflectem as personagens: surge a silhueta de “uma mulher” que “tem as mamas à mostra”, e há um “Carrasco ” e um “Juiz” que tem “debaixo das suas vestes tem umas andas”. A relação entre bateria e a guitarra é composta por camadas que alternam pontualmente no tempo, uma composição com as veias a circular o jazz e o coração como núcleo rock em progressão Frippiana. O Carrasco “de bruços vai rastejar até à mulher” e “ela diz”: “lambe, lambe primeiro o Juiz”. Perante esta afronta o Juiz intervém: “Então você não é uma ladra?”. “Os meus capangas viram todos os seus movimentos”. O Juiz aponta sobre a mulher em topless: “O que tem a declarar?”. “O Carrasco passa-lhe a mão debaixo da saia” e apalpa-lhe os lábios vaginais. “É um idiota!”. “Perfumes”. A guitarra é insidiosa e indecorosamente subtil como um fio de nylon sobre os pulsos de uma sereia envenenada pela poluição das centrais nucleares. O Carrasco entrega ao Juiz o objecto que constitui a prova da marginalidade da mulher: “Sr. Juiz é uma echarpe”. O Juiz associa o objecto a dois crimes: “Você é uma ladra ou uma estranguladora?”. A voz aguda da mulher: “Sr. Juiz vou ser espancada?”. Resposta: “Até ao poder das lágrimas”. “Você já não é nova”. E o Juiz denomina-se um “Juiz modelo, está claro?”. Voz de mulher indefesa e submissa: “Sim senhor Juiz”. Pausa. “Que barulho foi aquele? As portas estão bem fechadas lá em baixo? “. Carrasco: “Posso garantir”. A voz deste último é samplada e maximizada como um eco de uma gruta repleta de vampiros a sangrar dos caninos e a pingar sobre as pedras da calçada portuguesa com o rosto de António Oliveira Salazar. A voz do mal: “Tenho o bem e o mal”. O Juiz: “Você aceita ser amada?”. Ela submissa como uma cadela “estou a um hiato de vós”. A progressão é de uma densidade em que o timbre reflecte o preto das paredes, “e você está”, ela: “AHAHH”. Juiz: “Cale-se!”. “Profundezas do Inferno”, o break de Kalo induz à repetição da voz diabólica através da qual o homem se transforma num ser antropomórfico. “O bem é proveniente do mal”, “querida serei criminoso? Querida meu amor?”. “O que estas a dizer?”. “Não me deixes nesta posição”. A progressão é dominada pela guitarra aguda que expande uma luz escura e o “Juiz deita-se de bruços e rasteja até à ladra” e a intervenção do break subtil mas agressivo de Kalo conquista o Rock and Roll. O Juiz: “Peço-lhe: estou pronto para a lamber”. “Seus pés”, “ladra”, “ladra”.
Subway Riders iniciam o espectáculo através de uma revisitação minimal do ritmo minimal dark rock dos Velvet Underground quando estes se faziam acompanhar da misteriosa Nico, os saxofones em paralelo são a sombra sobre a melodia tétrica gravada em “Stereo” dito bem alto por Carlos Subway o estratega de um campo de batalha em constante canibalização, “mono”, a fluência rítmica coabita com os saxofones como se fossem gémeos siameses unidos pela heroína que lhes corre pelas veias. A segunda canção tem um falso início “a coisa não entra” e por fim Victor Subway introduz através da guitarra eléctrica os acordes de um hino dos The Rolling Stones. O Chau Subway percorre-a com um ritmo seco e retira-lhe o grau de urgência da insatisfação que alimenta o corpo de um adolescente. Carlos Subway grita: “I Can`t get no Satisfaction”, a bateria repele uma violência inesperada, “I Can`t get No”, “Nono”, “I can´t get no” o teclado electrónico é o fantasma de uma adolescente a masturbar-se pela primeira vez através da Internet e as maracas introduzem uma adejectivação caliente. “I can`t get no”, “NoNo”. “And I try, and I try”, a progressão rítmica que encetam é uma memória distante do original, “I Can`t get No”.“Vamos cantar uma música sobre uma mosca muito alucinada”. Victor Subway retira da sua guitarra eléctrica um punhado de acordes western billy, “Lálálá”, que dominam a terceira canção continuamente, e a voz está alta: “Sky”, e o bombo reproduz um ritmo infantil de uma criança descalça e com um ventre proeminente. A voz de Carlos Subway é grave e sustenida “I`m flying in the sky”, e os saxofones em surdina mimetizam o som das asas de um casal de moscardos à procura de uma poia reluzente com arqueológos asquerosos: “In the sky”. “Agora vamos chamar um dos nossos convidados. O Toni Fortuna, onde estás? Vai-nos ajudar a dar um impulso à amizade ibérica”. “Oh Toni!”. Os Subway Riders absurdamente desenham um pasodoble e o rufar do tambor propícia a dança flamenca de Calhau Subway que rodopia juntamente com Carlos Subway, e as guitarras rasgam a pele da pélvis de Joaquín Cortés, e o ritmo do sapateado dos bailarinos é repetido pela multidão “Ó Toni”. “Olé!”. Aos dois bailarinos associa-se um espontâneo e com o apoio de Carlos Subway transportam em ombros Calhau Subway para fora da praça de touros. Que retrata a “amizade entre Portugal e Espanha sempre em grande”. Para a quarta canção é imperativo que “o grande Toni” fique “mais um bocadinho”. “Vamos pedir silêncio”. “Eu e o Calhau” vamos “cantar uma música de piano”, “este é o novo single do segundo álbum” que à semelhança do primeiro ainda não foi editado. Do teclado é emitida uma nota acompanhada pela voz cacofónica- romântica de Carlos Subway: “Popopop”. O Calhau Subway é mais incisivo nas vogais e canta: “Pópópóp” dramatizando a lírica romântica com complexos edipianos. E a relação que se estabelece entre as vozes e o teclado minimal convergem numa emotiva enunciação da música contemporânea para uma obra do João Cesar Monteiro. O fado é apenas concretizado com o absurdo do verso “pega na lancheira e vai dar o almoço ao pai” declamado violentamente por um ardina alcoolizado. “Agora uma música com amor, somos muito dedicados ao amor. Não há aqui isqueiros? Mas podem por as mãos no ar”. A batida é um beat longo que ensombra o teclado que ilustra o cor-de-rosa como lampejos de pétalas com perfume patcholi, numa casa portuguesa com certeza com mulheres de bata com pernas por depilar. Apesar do seu forte pendor kitsch dominar a melodia os Subway Riders subvertessem-na para um blues apropriado para urbes desertas. “Baby” das colunas sai uma frequência radiofónica a circunscrever a canção para uma emissão em directo para a televisão. A dor de novela: “Oh oh oh baby I love you so”. As guitarras teletransportam os estudantes para papéis subservientes “I love you so”, coro: “I love you so”. Carlos Subway em discuro directo: “Façam o amor!”. “Para não pensarem que só tocamos originais, vamos tocar uma versão ´Riders on the Storm`” e para o original dos The Doors “vamos chamar o Padilha”. A canção dos Doors é executada do princípio para o fim relegando- lhe uma violenta decomposição que transmite a abstracção do sonho americano. “Riders on the Storm”. Para o nono tema os Subway Riders socorrem-se de Sérgio Cardoso no berimbau e as tonalidades que emitem são sombrias, a dupla dos metais conferem-lhe um contínuo e progressivo aprofundar da perspectiva sobre uma paisagem conspurcada com canábis a crescer a céu aberto e quando eclode a subtil cacofonia é uma fumaça diáfana. A guitarra eléctrica de Victor Subway numa frequência reggae billy colocam-na num a frequência estranha que se impõe como um objecto não identificado. “Ganja in Jamaica”, os metais produzem um fluxo contínuo sobre o qual Sérgio Cardoso sola, e a bateria impõe a que seja inscrita no domínio do épico. “E agora vamos chamar o Rodrigo para o blues” o tocador de theremin de “ nome artístico El Rodrigo”. A décima canção é dominada pelo solo fraseado de Carlos Subway e é a partir deste centro que os restantes instrumentos divergem ritmicamente e consequentemente melodicamente. Palmas. “Obrigado! Vamos ver se tocamos mais uma música”. “El Rodrigo é a primeira vez que pisa um palco”. “Chama-se ´What time is It?`agora tocamos uma versão arty. É a música mais rápida que alguma vez compusemos”. A voz grave de Carlos Subway: “O ink está rabinho”. A vertente rápida instituída pela bateria repercute-se nos outros instrumentistas convergindo para uma contínua dissonância: “What time is it?”. “What time is it?”. O distúrbio sonoro elucida um tempo psicológico desenquadrado da realidade e o emergir dos saxofones são suspiros efémeros de esperança associado ao recrudescer da bateria. “Achtung”. “What time is it?”. “Por favor, me puedes decir la hora?”. A dissonância por vezes lampeja quando revela a cacofonia “please tell me what time is it?”. Na décima segunda canção as colunas emitem uma banda sonora de um filme western spaghetti e a guitarra de Victor Subway está engatilhada num fraseado rock and billy; e é a partir destes eixos que a bateria progride marcando o compasso de uma perseguição entre os saxofones dissonantes. A guitarra eléctrica de Victor Subway agudiza a sua perspectiva tédio billy, conduzindo os Subway Riders a mergulhar numa massa que se converte em Wall of Sound e é o theremin que gradualmente se emancipa da erosão que pretende manter cativa a melodia tétrica. O recrudescer do ritmo promove uma síntese e concertação melódica com contornos épicos. “Bruno Simões no theremin”. “E temos mais uma estrela convidada que é a Paula”. “A Paula que é do Brasil”. “Esta música é uma Afro beat normalmente tem uma hora mas vamos tocar” uma versão reduzida. O sintetizador de Augusto Subway é lúgubre mas a sincope/sampler do beat afro encobre-o e a guitarra de Victor Subway desfere um fraseado rápido e agudo que mimetiza a melodia alegremente. “África”, “África” e os saxofones reviram-na para uma subtileza inesperada. Carlos Subway grita: “África”. Quando o sampler e o teclado desaparecem é a guitarra que se assume como o elemento predominante e as baterias de Paula e de Chau Subway diluem-na numa África com crianças a batucar em pratos depois de terem inalado cola. “África”. “África”. “África”. “Vamos tocar uma música que é uma homenagem ao James Brown” a melodia versa a soul da Motown mas o que lhe aplicam é uma contínua decomposição que a transforma numa obra estranha. Carlos Subway grita: “James Brown”. “James Brown”. Sobre a subtil e serena decapitação da soul surge a voz “James Brown”. E Carlos Subway num assomo encarna “James Brown “ enquanto atira o casaco contra a parede preta que se encontra atrás dos Subway Riders. “James Brown”. “Vamos tocar a última”. O beat é longo com a guitarra a versar sobre Madchester, o aumento gradual do ritmo e da altura associam-se paradoxalmente a uma missa em nome de Ian Curtis.

Subway Riders e os convidados especiais TRACTOR, 04 de Janeio, Salão Brazil @ Coimbra

Para a musa Tracy Vandal