domingo, 2 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Retropolitana
As luzes do Auditório Jorge Sampaio no Centro Olga Cadaval em Sintra apagam-se e a voz off informa: “A Rádio Comercial apresenta Retropolitana”, o novo álbum dos G.N.R. O palco emite sirenes e as luzes imitam o foco de uma prisão de alta segurança, entram os três músicos que acompanham, Jorge Romão no baixo, e Tóli César Machado na guitarra-ritmo, veste uma camisa branca sob colete azul. El Rei del Roque, canta: “Macacos imitações”, “Rei da rádio, compõe para nós”, as guitarras estão afinadas e equalizadas na mesma onda, são os reis de la rocke. A guerra é apenas uma pintura, “retrato em pó”, “o rádio berra”, “o Sr. Dos Anéis”.”Clube dos Desencalhados” , “não é?”, “e vivo à beira de um mar plantado” , “o sorriso à espera”, “bem-vindo ao Clube dos Desempregados”, o meio tempo ganha em crescendo, “sentir tremuras” , “como as estrelas”, “há festa na praia do afogado”, “sentir tonturas“, trágico, sensível, frágil, “sentir touturas”, “soltar amarras”, o abandono: “Ficar no bar a ouvir as estrelas”, a melodia é perpassada por uma descontinuidade, “soltar amarras”, “passar a barra”, “a cantar.”. “Efectivamente”, “engate”, “ratos do esgoto”, al El Rei le gustam las aparências. É implacável com as suas groupies: “Já não tocávamos para gente sentada, desde o Natal dos Hospitais. Antes sentados que acamados!”. A constatação: “qualquer escravo era feliz”, “a rir a ser imperatriz”, “a cabra faz-me mal”, “já cá estamos outra vez?”, “a culpa é das televisões”, “e os bebés vinham todos de Paris”, “Papa faz de mama”, “e o bebé até é pop” , “pó sai”, pop/soul, o falseto é tão irónico: “O Papa faz de mama”, ahahah, “e a bebé já sai com o papá”, eco, a canção acaba em regime de Eurovisão com El Rei a rodopiar no sentido dos ponteiros do relógio. “Chama-me um táxi, já amanhece”, slow de telenovela. “Ainda bem que a névoa anda por ai”, “overdoses”, “as trevas vão iluminar.”.”Dunas”, é um passatempo, apenas se destaca quando o guitarrista mimetiza a delicadeza tímbrica de Alexandre Soares. El Rei reflecte: “Depois da nossa música sobre os submarinos”, aproxima-se da bateria e segura um copo na mão e com o olhar mede o líquido amarelo: “O que é isto?”, bebe, “cerveja? É a minha análise.”. Asas, “hesitas”, “paixão”, retira do indicador a aliança que coloca no bolso esquerdo do casaco branco. “Também somos das profissões mais antigas do Mundo”, “somos os piratas”, vivemos em “Tirana.”. Emitem mais um novo tema a meio-tempo, “até do musgo, casca de carvalho.”. Ouve-se a perfeição onírica com a melodia do teclado de Tóli: “Os Diamantes são eternos, como os amores de Verão”, “acrobacias”, “as nossas manias”, “pulseira electrónica”, “a nossa vaidade sem”, “pulseira electrónica”, “as más companhias”, El Rei ensaia uma queda, enquanto um solo electrónico de guitarra eclode. A constatação: “Eu acho que o Papa, não deveria ir ao Porto, ser feriado, porque ele está lá todo o ano!”. “U.S.A”, El Rei despe o casaco branco, e enluta-se enquanto canta este clássico, “abusa”, “tratado por tu já nem se USA nem em Castelhano”, num groove que sintetiza o neo-kitsh, “uma Musa.”. E, “Popless”, é inebriante. “Quem é que aqui é que usa Tatoo?”, os casais de meia idade, sorriem contrariados: ”Não foi de acto natural”, El nancimineto del Rei, “higiene pessoal”, “marca tropical”, “ABC é um animal”, “um homem nu”, speed-pop, “eu vou pagar uma bebida Nacional”, o imperativo: “Quero ver o teu tatoo”, “de um homem nu”, o sintetizador de Tóli, a sobrepor-se ao todo. “Quero ver o teu Tatoo”, Roxic Music é claramente o seu ADN, Del Rei! Viva El Rei! Viva El G.N.R: “Mostra lá esse tatoo”, “deixa ver esse tatto”, “o piercing é anal?”, ”paraíso fiscal.”. A narrativa do burro em pé é uma fábula gasta, que dorme “em pé”, harmonicamente devedora de um tema dos Beatles. “Mais vale nunca”, o tema hiper-pop, “crescer”, os sentados catapultam-se para a verticalidade, palmas, gritos, histeria. “Sangue Oculto”, loucura, espelho meu amor.
Retropolitana, G.N.R, Auditório Jorge Sampaio, Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra, 30 de Abril.
Retropolitana, G.N.R, Auditório Jorge Sampaio, Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra, 30 de Abril.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Sitiados
São nove e meia da noite e o Coliseu de Lisboa espera que os Mão Morta subam ao palco para festejar vinte e cinco anos de vida e de morte. Há algo de enigmático neste colectivo bracarense, a postura de outsiders em relação a um sistema que privilegia quem segue os outros, mesmo que estes sigam para o vazio. E a lírica contestatária alicerçada em escritores obscuros que realçam o carácter decrépito do homem social, que ao criar a sua rede, é preso e morto pela mesma. São vinte e cinco anos de suor fétido a cadáver, a forma mais directa de anunciar a existência de vida alienada, corrompida pelo presente, a luz é predominantemente vermelha. “Qual é a tua identidade?”, é uma pergunta de um agente da autoridade, mas simultaneamente prende-se: ao quem sou eu? Quem és tu? O rock é alicerçado na distorção das guitarras, num baixo pulsante apalpado por uma mulher, “e se depois?”. Se o nosso, “corpo, sexo”, “agrarra”. A voz de Adolfo é uma faca com dois gumes cuspida por uma língua vertiginosamente sanguinária, “tu dissestes?”, “eu já tive muito medo!”, os acordes são sublinhados por um arranjo de citara a oferecer à canção uma tonalidade psicadélica. O pesadelo pode ser um caniche de peluche que uma criança desmembra com um prazer perverso, e o seu “cortex cerebral processa”, “e regista a reacção da medula espinal”, é um tema fúnebre, como qualquer pesadelo onde enterramos o inconsciente para ser possível viver em saudável relacionamento com o seu oposto. “Para fazer de morto”, basta ficar deitado no chão imóvel, para ludibriar a vida e ganhar invisibilidade, coro: “meu irmão”. “Budapeste” é um rendilhar de drogas e sexo, de bar em bar a aviar o putedo, ah putas, “sempre a ronckarollar”, “AAAAAAAA”. “É guerra sem quartel, de empresas rivais”, “em busca do control”, “encena-se o directo para televisão”, o hino anti-Face-Oculta/Telecom-compra-da-TVI-pelo-monco-Rui Pedro Soares, insurge-se contra a manipulação das televisões que enganam os ignorantes ligados a satélites, “por entre a multidão”. “Vão-se foder?”, “estes gajos são uns paneleiros”. As guitarras são o sangue dos Mão Morta, o baixo o coração e a bateria o martelo que aplica sobre as tábuas do nosso caixão os pregos necessários para encerrar o morto, a morta, a mão que escreve, e dedilha o piano: “Ó Capitão”, “dente por dente”, “olho por olho”, é uma lenga-lenga hipnótica, corrosiva, perversa, o público acompanha com palmas, e canta: “E o fim chegou”.
Pesadelo em Peluche, Mão Morta, Coliseu de Lisboa, 29 de Abril.
Pesadelo em Peluche, Mão Morta, Coliseu de Lisboa, 29 de Abril.
domingo, 11 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
Holocausto Canibal
Está uma noite quente de Abril, na Charneca, uma freguesia rural de Pombal. Onde se encontra o colectivo de metal RAMP, ainda estão a jantar, juntamente com as duas bandas que os irão anteceder. A sala onde irá decorrer o espectáculo tem um friso superior onde constam taças de casados contra solteiros, t-shirts emolduradas com as equipas visitantes, e uma guilhotina encostada à esquerda do palco, com a lâmina afiada pronta para decapitar os amantes de Deus. Rui Duarte está nas escadas oblíquas que dão acesso a esta sala: “É agora”, é uma da manhã, e os putos estão transformados em devoradores de cerveja, charros, cigarros. Rui, contorna-os com a confiança de quem enfrenta multidões há vinte e cinco anos, os seus cabelos encaracolados, chegam-lhe à cintura, é possante, e cada passo é uma marca de poluição contra o ambiente. Um intro antecede a entrada da banda em palco, os primeiros sessenta minutos de concerto, são de uma violência excessiva, as guitarras jogam entre si, como se estivessem a descarregar choques eléctricos sobre os putos, que abanam as cabeças e fazem das suas cabeleiras espanadores, que o Diabo usaria para limpar os ventres das suas amantes que se recusaram a abortar os filhos de Deus. “Somos milhares”, e os “RAMP gostam de ter os amigos consigo”, “obrigado!”. Os miúdos erguem os dedos como se fossem os cornos do Diabo, e exalam todas as energias acumuladas das rotinas diárias, gritam, e a histeria é contagiante. Rui Duarte é o incendiário, o pirómano, que congrega em si a atenção dos milhões que ficaram em casa a ver “as novelas da TVI”, e aponta o dedo “ao BLITZ” que no passado ainda dava atenção à música dos “RAMP”, mas, “isso, pouco importa!!! O que nos interessa é que temos connosco os nossos amigos!” Que veneram, mais uma hora e quarenta e cinco de espectáculo, de decibéis distorcidos, de voz grutural, de mandamentos que instalam a irracionalidade. “Alone”, será “SEMPRE MAS SEMPRE PARA A MINHA MÃE”, o tema rejeita o meio tempo do original e é decapitado na sua tensão, ouve-se a lâmina da guilhotina a decepar a cabeça multifunções de DEUS.
Subversion Tour, RAMP, Associação Desportiva Acção Cultural da Charneca,Pombal, 9 de Abril.
Subversion Tour, RAMP, Associação Desportiva Acção Cultural da Charneca,Pombal, 9 de Abril.
domingo, 21 de março de 2010
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