Os próximos convidados dos D3Ö são “os nossos amigos A Jigsaw”, “um caloroso aplauso para os A Jigsaw”. Palmas. Os A Jigsaw são uma dupla máscula constituída por João Jorri e de João Rui e este último queixa-se: “Faria para o ano dez anos que eu cantava sentado”, numa cadeira onde dedilha uma guitarra acústica e canta as suas baladas neo-negras, “mas estes gajos!” impediram-no de alcançar essa proeza e somente por isso os D3Ö mereceriam uma placa com o seu nome numa rua transversal à rua direita. “Night Before” é marcada por variáveis egocêntricas por parte do teclado de João Jorri, as guitarras dividem-se metricamente: uma é dantesca a outra convertida a um Diabo desconhecido. A voz de João Rui é grave e funda “fever”, o teclado de João Jorri anula-se para deixar as guitarras vaguearem como um unicórnio bicéfalo. “Strange guy”, “I have to try” , o solo do hammond é de facto pernicioso por evocar uma beleza inalcançável. Após a pausa o quinteto mistura-se e promove um caldo pronto a ser injectado numa veia azul, “I say yeah”, “it`s true”. Os A Jigsaw mantêm-se no palco juntamente com os D3Ö: “Lá ao fundo percebem o que eu digo?”. Em “Take this Love” o ritmo é quatro por quatro e a guitarra eléctrica de Toni Fortuna introduz os acordes que gradualmente a dominam com um torniquete torturador com a cumplicidade da guitarra eléctrica de Tó Rui. A voz de João Rui é funda: “for me”, “for me”, o recrudescer do ritmo ergue uma estrutura Rock and Roll, “why they say?”, e o teclado de João Jorri é pontual a emergir da rugosidade rock, “all the boys and the girls”, a constância rítmica emoldura a voz de João Rui, “hold you tight”, “no matter what they say”. Para anular a “frustração da redução de pessoas em palco, vamos chamar um outro trio, senhores e senhoras os Birds Are Indie”. “Uma salva de palmas para estes três senhores”, um dos quais é uma jovem tímida que se ocupa do teclado, um outro da guitarra acústica e da voz e ainda há quem empunhe um baixo eléctrico. Em “On The Age” o tempo que é estabelecido pela bateria de Nito é Pop, a voz é a de um jovem tristonho perdido propositadamente no caminho para casa, “standing all day”, o baixo eléctrico tonifica-a com uma profundidade Pop e o teclado é apenas um fantasma sóbrio. “Over my skin”. A contenção dos D3Ö sustenta a delicadeza das harmonias dos Birds Are Indie e evitam que “On The Edge” vacile numa melancolia Pop e desta relação há um fogo preso eternamente belo. Palmas. Ricardo Jerónimo dirige-se directamente em voz alta ao público: “Queríamos agradecer aos D3Ö por nos darem a possibilidade de gritar em palco”. Em “Wanna Hold You” são os Birds Are Indie que se impõe através de uma melodia frágil com a cumplicidade da bateria de Nito, que pontualmente é corrompida pelo solo da guitarra eléctrica de Tó Rui. A voz pertence à de Joana Corker: “Talk”. A resposta de Toni Fortuna: “Excuse me?”. Quando “Wanna Hold You” se encontrava em vias de ficar presa a uma monotonia Pop os D3Ö injectam no dreno uma vertigem rock pulverizando os Birds Are Indie. Toni Fortuna encarna num psicólogo rock: “Ninguém tem problemas?”; “a próxima música chama-se ´Too Late`”, e é a segunda e penúltima a ser executada exclusivamente pelos D3Ö. A pontuação da bateria de Nito é quase omnipresente e estabelece uma falsa progressão, as guitarras reviram incidentalmente as cordas e gradualmente impõem-se. O bombo bombeia um passo largo com a flutuação ríspida da guitarra eléctrica de Toni Fortuna sublinhado pelo solo preciso da guitarra eléctrica de Tó Rui. O encurtamento do ritmo oferece um minimalismo rock que perseguido pelas guitarras, “too late”, a comprometem com a usura do rock e isto oferece-lhe um carácter de originalidade. O solo da bateria de Nito confere um assomar de um efeito épico mas que rapidamente é vilipendiado pelas guitarras eléctricas em galope de sangue a inundar o coração. “Too late”. Palmas. Quanto a “Ai Caramba” , “é a primeira vez que a vamos tocar em público”, e para tal convidam o trompetista, “uma salva de palmas para Daniel Tapadinhas”, palmas. As guitarras eléctricas inserem os acordes semi-distorcidos e a trompete de Daniel Tapadinhas soa exoticamente como um shot de mescalina para matar de vez com a consciência ao extorquir-lhe uma alucinação incontrolável, os bombos ressoam à laia de passos de um gigante em vias de extinção. As guitarras repetem as credenciais de um rock profundamente comprometido com uma alienação ditada por uma sociedade alcoolizada. O solo da trompete de Daniel Tapadinhas é o epicentro de um terramoto que nos transpõe para um bar com música de mariachis desterrados de um México onde reina o narcotráfico. “Ai Caramba”. Os D3Ö são os transmissores de uma alegria desmedida alicerçada num absurdo em que eclodem para dominar as fronteiras que regem o Rock and Roll. Daniel Tapadinhas remonta através da sua trompete para um universo bafond chicano e as guitarras revelam-se consequentemente distorcidas, uma das quais emite um solo rock and billy e a bateria de Nito concede uma violência contida. “Diable”. Palmas. Toni Fortuna declara: “Vou tentar cantar a próxima música. Chama-se ´Make It`”. E não dispensa a trompete em surdina de Daniel Tapadinhas que procura revelar-se através da massa sonora repetitiva que as guitarras eléctricas dos D3Ö expelem em bloco, “Make it”, o desenvolvimento desta relação é contínua com Nito a suster os três músicos como se fosse um tapete voador repleto de ervas daninhas. “I want to do it”. A surdina da trompete de Daniel Tapadinhas procura imiscuir-se na vertente rock das guitarras mas a natureza do seu timbre inculca-lhe uma introversão (in)esperda. “I want to do it”. A bateria ergue-se e epicamente alterna com a surdina de Daniel Tapadinhas e os D3Ö encaminham-se alegremente para uma autocombustão desmedida. Para “2Day” Toni Fortuna convida “Raquel Ralha”, palmas, “queria agradecer aos D30 por estar aqui a rockar”. A lógica que a bateria e as guitarras eléctricas estabelecem é o da acumulação de cordes debitados em frequências alternadas. A voz de Raquel Ralha é doce: “Looks fine”. “My way”. “I say today”. As guitarras criam uma malha perturbadora mas simultaneamente sedutora, a voz de Raquel Ralha “shine” mas não rejeita o seu parceiro que a quer abandonar ao abandono, “I say today”, há um recrudescer rítmico dos D3Ö cúmplices com a cantora e sublinham uma estrutura Rock and Roll, “I say today”. Palmas.Toni Fortuna determina que seja “Raquel Ralha” a cantar “Croos The River” e a “Paula Nozarri vai fazer mais uma participação” e apropria-se de um teclado. O ritmo lento da bateria de Nito é inicialmente perturbado pelo jogo ríspido das guitarras eléctricas. A voz da cantora Raquel Ralha é de um timbre quente: “If I can make you happy”, e os D3Ö impõe um Blues atípico, “I can do”, quando surge a vertente rock Raquel Ralha é insensível à dor emanada pelas guitarras. “I can climb a mountain”. Há uma leveza no seu canto que é profundamente sedutor, Raquel Ralha: “Up”. Toni Fortuna: “to the sky”. Um solo arrepia o Blues que remonta empiricamente para o rio Mississippi que espelha um céu clarividente. “Cross the river”. Palmas. “A próxima chama-se chama-se ´Go`” e conta com Paula Nozzari na bateria e com Nito de formação totémica na pandeireta em pé entre Toni Fortuna e Tó Rui. A violência da bateria de Paula Nozzari é um composto determinante para libertar as guitarras numa loucura desenfreada, “I say go”. Sobre a potência rítmica as guitarras progridem em bloco mimetizando o famoso Wall of Sound inventado numa noite toxicómana por um assassino amigo dos Beatles, quando se canibalizam repetidamente, “I say go”. O solo de Tó Rui é um flash de heroína, a bateria reverbera num pulsar de coração alimentado com sangue poluído com pó, “let me”, pausa, “I say go”. Palmas. Toni Fortuna é o psicólogo das massas cor-de-rosa: “Não sei se algum de vocês tem problemas de coração?”. Para “God Knows” convidam Sérgio Cardoso que empunha o baixo eléctrico. Os D3Ö encetam uma estética virulenta, mas o baixo eléctrico de Sérgio Cardoso afoga-se no pantanal decibélico das guitarras, “I have to tell you a secret”. “Say”. Coro: “God kowns”. O solo da guitarra eléctrica de Tó Rui é em crescendo agudo, a bateria de Nito comporta-se como um louco que descobre que a sociedade é um manicómio, o solo em crescendo mantém-se, e a persecução da progressão dos D3Ö associa-se a uma fábula na qual fornicam diabos com hermafroditas. Palmas. Sérgio Cardoso mantém-se em palco juntamente com os D3Ö para tocar “Couldn`t Care at All”. A pontuação acelerada da bateria do monstruoso Nito suporta a aceleração das guitarras semi-distorcidas de Tó Rui e Toni Fortuna e este assegura um solo Rock and Roll mas pigmentado com vermelho negro. “Do it!”; “shake it”; “do it”. Pausa. A demência apodera-se dos D3Ö que não encontram cumplicidade no baixo eléctrico de Sérgio Cardoso, o delay da guitarra eléctrica de Toni Fortuna sobrepõe-se à violência rítmica de Nito que não se subjuga à agressividade da rugosidade das guitarras. Palmas. Sérgio Cardoso continua no palco do Salão Brazil a acompanhar os D3Ö para tocar “Say you Will”. O ritmo binário é potente e sobre o qual as guitarras distorcidamente actuam repetitivamente, “kown”, “ask you”, os D3Ö sustêm as notas, “no way”, “I say you will, I say you will”. Há uma detonação do epicentro dos D3Ö que é rápida e violenta, com uma incisão a sangue frio efectuada pela guitarra solo de Tó Rui. “I say you will, I say you will, I say you will”. Toni Fortuna: “A próxima música nunca foi gravada” e para “Nova Blue” convidam “o senhor Gui Barbosa”. A lógica instituída pelos D3Ö é o Blues com a devida memória sonora instituída pala harmónica de Gui Barbosa, “no”, “I love you”, pausa, “I`m in love with you”, “I love you too”, a harmónica de Gui Barbosa sopra um timbre de metal cromado e o ritmo ganha uma celeridade consistente. Toni Fortuna em regime de spoken word: “bad temper”. E ainda acrescenta: “É um prazer estar aqui com todos vocês”, palmas. Para a penúltima canção “Junior Dady” a bateria de Nito impõe-se através de uma cadência binária, Tó Rui ergue as mãos e bate palmas que são acompanhadas pelo público, os acordes das guitarras eléctricas introduzem uma rispidez de grão de cocaína, “yeah”. Toni Fortuna divide-se em duas personagens vítimas de bipolaridade surge um demente de olhos salientes, a sua boca liberta a língua que anarquicamente se exibe aos presentes, aumenta a altura e consequentemente a violência libertada pelos D3Ö, “inside my head”. Após a pausa o trio de Coimbra acelera virtuosamente como uma bola de speedball, “man”, Toni Fortuna está algures a subir para uma cadeira e a verter a sua esquizofrenia e quando salta explodem as personagens numa erupção que expele uma saliva viscosa de belladonas. A tensão é crescente com o solo de Tó Rui a imiscuir uma luminosidade rasteira mas épica, e os D3Ö transformam-se numa confederação beligerante que impõe a bomba atómica como futuro para a sociedade ocidental. No último tema Toni Fortuna convida para subir ao palco os convidados que o transformam em algo minúsculo e em conjunto encerram festivamente o concerto: “D3Ö and Friends”.
D3Ö & Friends, Love Binder Effect, 19 de Dezembro, Salão Brazil @ Coimbra
domingo, 21 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
domingo, 7 de dezembro de 2014
Antichrist
Estão no palco mínimo da Havanesa um trio de delinquentes: Victor Torpedo na guitarra eléctrica, Pedro Calhau no baixo eléctrico e Marquis Cha Cha na voz, aos quais se acrescenta uma programação dançante. A massa melódica que daí emana é um groove que sub-repticiamente se apodera do ouvinte e consequentemente o obriga a menear as ancas. De realçar que o Marquis Cha Cha é um homem magro e alto que se encontra envolto uma gabardine castanha, na cara uns óculos escuros sobredimensionados para o seu rosto e na cabeça capucho do Pai Natal. Na quarta canção o Marquis Cha Cha questiona: “Are you ready for the miracle? Are you ready?”, o público responde-lhe com palmas, a melodia remete para os anos oitenta quando nasceu a designação indie no Reino Unido. “I`m yours”. Na quinta canção, quem domina sobre o beat atmosférico é a guitarra western de Victor Torpedo com o devido conluio do baixo eléctrico de Pedro Calhau, durante a qual o Marquis de Cha Cha despe a gabardine e revela o seu corpo branco de pernas felpudas, encobre a pélvis com um body preto que lhe oferece uma adjectivação sexy. A sexta canção tem um beat pesado que é assombrado pelo vocoder grotesco do Marquis de Cha Cha, a guitarra billy de Victor Torpedo flutua por entre as chamas da melodia que é polvilhada por gasolina pelo baixo eléctrico de Pedro Calhau. A sétima canção decorre a partir de uma métrica progressiva Pop: “Secret of life”. A oitava canção tem um pulsar predominantemente pesado e curto e incisivamente minimal com a dupla Victor Torpedo/Pedro Calhau a expurgarem um horizonte tórrido de deserto com um vento soprado por uma “bitch”.A nona canção é de uma métrica hipno-minimal rasgada pela guitarra eléctrica de Victor Torpedo, os PSICOTRONICS desembocam numa foz épica. A décima canção é incansavelmente dançante, cantada festivamente pelo Marquis Cha Cha: “Seat next to me”, “give me all your love”, que é aplaudida efusivamente pelo público, e educadamente agradecida pelo Marquis Cha Cha: “Muchas gracias”. A décima primeira canção é apresentada através de um beat rápido que é musculado pelo baixo eléctrico de Pedro Calhau com um solo imune à mediocridade de Victor Torpedo. A penúltima canção tem uma compleição da década de sessenta “belaparouva” que é divinamente decomposta pelos PSICOTRONICS. A última canção do concerto na Havanesa é de uma estrutura profundamente kitsch destinada para clubs onde se amam anjos puti. Após uma pausa, os PSICOTRONICS são convidados a tocar duas derradeiras canções que sumariamente representam um espírito subliminarmente transgressor e como tal inquiridor da nossa moral cristã.
PSICOTRONICS, 5 de Dezembro, Casa Havanesa @ Figueira da Foz
PSICOTRONICS, 5 de Dezembro, Casa Havanesa @ Figueira da Foz
terça-feira, 11 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Uivo
O documentário “Uivo” de Eduardo Morais marca os cinco anos da morte de António Sérgio e atesta que este não foi unicamente um radialista mas acima de tudo um homem que através dos seus programas revelou um ecletismo que o destacou dos seus colegas. Os entrevistados são músicos, radialistas, jornalistas, amigos e familiares e o ponto que os une é que existia em António Sérgio uma vontade expressa de representar uma minoria que não encontrava nos media um espelho no qual poderiam encontrar o seu reflexo. Ao colmatar este vazio António Sérgio é a voz de uma geração que quando sintonizava, por exemplo o “Som da Frente” (1982-1993) descobriam um líder que personificava uma marginalidade imposta pela sociedade. Numa época em que a internet era uma ficção e o acesso a determinados discos tinha que ser realizado através da sua importação. António Sérgio tem uma história profissional que é responsável pela produção do primeiro álbum dos Xutos e Pontapés “78/82” e do patrocínio de inúmeras bandas portuguesas como os Gift. Acima de tudo o António Sérgio usou a rádio como meio para difundir os géneros musicais Punk/Pop/Rock/Noise/Metal que eram rejeitados pelas rádios que difundiam uma estética imposta pelas multinacionais que exigiam o retorno imediato aos seus músicos. “Boa noite Coimbra. Cumpre-nos estar de novo em Coimbra com os Subway Riders” é a voz de Jinx o cantor e guitarrista dos Dirty Coal Train que é acompanhado por uma femme fatale na guitarra e eléctrica e por uma jovem na bateria. O percurso que iniciam é pontuado por garagens situadas numa cidade falida como Detroit como se as guitarras de Jinx e da Femme Fatale estivessem configuradas numa sujidade melódica. Disso é exemplo a quarta canção em que a distorção é preponderantemente entrecortada pelos breaks da bateria de Lena Huracán Coltrane. A quinta canção é de uma pulsão lenta mas pesada e as guitarras transportam-na para uma Pop incinerada. A sexta canção, deriva de um ritmo sujo e a nervura a céu aberto das guitarras de Jinx e da Femme Fale uivam: “EYEY”; “AAA”; “UAU”, instituindo alternadamente riffs viscerais sobre o ritmo pesado. A sétima canção tem um início tépido mas pesado que é gradualmente altercado pela dupla de guitarras: “I mean”. Na oitava canção o Jinx e a Femme Fatale cantam em uníssono sobre o ritmo acelerado das guitarras semi-distorcidas: “I love you”. “UAUAUA”. A nona canção tem pouco mais de dois minutos mas o que a torna mágica é o saxofone de Pedro Calhau que minimalmente transgride por entre a malha garage realçando o seu carácter de urgência Jazz. E após a última canção do alinhamento fica um eco que ressoa nos ouvidos do Salão Brazil e o transformam num espaço conspurcado por um pecado original. A segunda banda a subir ao palco do Salão Brazil são os Subway Riders que apresentam uma Pop eclética em constante desconstrução que é acrescida pela voz de Carlos Subway que se impõe como um denominador do absurdo. Nas canções em que esta vertente não é seguida, sobressai o kitsch da guitarra eléctrica de Victor Torpedo que encontra no teclado de Augusto Cardoso um cúmplice que lhe dá espaço para elevar cada um dos seus acordes ao Olimpo. A terceira canção tem uma enunciação de um flamenco embriagado que é dançada por Calhau Subway e este episódio revela acima de tudo que os Subway Riders não têm pretensões de particionar uma vida agrilhoada a um sistema económico-social que os torna recipientes de faits divers. Na quarta canção apropriam-se do México, na seguinte param na Jamaica, e a quinta é um “clássico low fi”. A entrada em cena do Marquis de Cha Cha: “Um génio de Portalegre que vai fazer um dueto com o Calhau”, surgem passarinhos a namorar à janela de um hospital psiquiátrico. A sexta canção é apresentada por Carlos Subway: “Agora vamos tocar uma canção do Marques” que é dominada por um beat atmosférico viciado num groove dançante. A sétima “I can`t get no satisfaction” é dominada pela guitarra eléctrica de Victor Torpedo que reproduz os acordes da canção dos Rolling Stones sem os mimetizar antes oferece-lhe um minimalismo rock and billy. “James Brown” é uma sátira à soul mas envolvida numa convulsão constante. “África” tem um loop melódico produzido pelo teclado de Augusto Cardoso que é repercutido acidentalmente pelos Subway Riders. Para encerrar o concerto convidam os diversos músicos presentes na sala a subir ao palco, melodicamente surge uma substância espessa que trama uma opacidade sonora.
“Uivo” documentário de Eduardo Morais, The Dirty Coal Train, Subway Riders, 8 de Novembro, Salão Brazil @ Coimbra
“Uivo” documentário de Eduardo Morais, The Dirty Coal Train, Subway Riders, 8 de Novembro, Salão Brazil @ Coimbra
terça-feira, 4 de novembro de 2014
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Fado Alexandrino
Sobe ao palco do Salão Brazil a Joana Tê a responsável pelo festival multidisciplinar Re-Factory alusão à Factory de Andy Warhol em New York e à Factory de Tony Wilson de Manchester. Joana Tê discursa através do microfone: “Boa noite a todos. Bem-vindos à segunda parte do Re-Factory”; a tarde havia sido ocupada com o concerto dos Nó Cego, documentário, conversa com os Subway Riders, exposição de pintura. No palco do Salão Brazil estão os Vaginas Convulsivas constituídos por um trio: baixo, guitarra, guitarra e teclados e voz. A música que executam é apoiada num minimalismo low fi pontuada pela guitarra de Pedro Calhau que peja as canções com uma suprema vertente western do Ennio Morricone. A voz de Carlos Dias é um declamar cantado que causa inicialmente uma estranheza que se entranha e que não deixa que os presentes se ausentem para parte incerta. Quando as programações ganham corpo diáfano de pedra a partir da qual das quais a guitarra eléctrica de Calhau e o baixo eléctrico de Sérgio Cardoso a espessura sónica é arrepiante por apelar pelo desconhecido, um salto no escuro do escuro, um fechar de olhos que vê para dentro e perscruta a inconsciência com o seu labirinto de esgares que instigam o medo. Carlos Dias antes de executar a derradeira canção da noite despede-se da seguinte forma: “Vamos então tocar a última. Não sem antes de acabar, darmos os parabéns à Joana Tê por ter organizado esta coisa toda!”. Os segundos convidados do Re-Factory são os Cavemen, um trio de rapazes com uma formação clássica de banda de rock constituída pelo baixo e voz, guitarra e bateria. Os meus rascunhos apontam para termos como: “repetitivo”; “ritmo and blues”; “estereotipado”. “Somos os Cavemen aqui de Coimbra”. A execução dos Cavemen do rock and blues é de facto irrepreensível, mas este poderia ser facilmente descartado se as canções tivessem alguns laivos de originalidade, algo que é deficitário na sua linguagem à la carte, resumindo-as a decalques apresentados em diferentes ritmos para dessa forma ganharem um caracter artístico, logo único. Este vazio repercute-se no ouvinte de duas formas: a familiaridade do género leva-o a gostar dos Cavemen; na falta de soluções que acrescentem algo mais às canções impõe-lhe um tédio pernicioso. Os Cavemen têm humor: “Conhecemo-nos na caverna”, três jovens ambiciosos que se um dia se distanciarem das raízes que prendem a caverna à Terra poderão emancipar-se artisticamente. Surgem os míticos M`As Foice que envergam fatos diversos: há três palhaços, um cowboy com balões, mafioso e um lutador de judo de quimono com balões, banda histórica da cidade de Coimbra por se terem insurgido artisticamente contra a ordem estabelecida imposta pela cultura académica e consequentemente opunham-se a uma cidade que em 1987 ainda vivia da memória dos fados de Coimbra compostos por Zeca Afonso. Um transístor assinala a existência de “António Sala” e de “Júlio Isidro”. “Destino Coimbra”. Toni Fortuna é um homem educado e sublinha: “Queria agradecer gentilmente ao Salão Brazil por este chocalho”, exibe-o e lança um olhar tresloucado sobre o público. Ouvem-se badalos e chocalhos é a ruralidade a invadir um ambiente profundamente urbano e através deste paradoxo revela um Portugal de minifúndio. Nito é o Cowboy destemido, homem alto e de estrutura totémica, as suas palavras são de ordem: “Cá mais prá frente!”; e ameaçador: “Devo lembrar que o meu microfone chega aí!” e aponta ameaçadoramente para a plateia que esgota o Salão Brazil. “Obrigado capital do Rock”, o ritmo da primeira canção é curto, “pessoal”, “latada”, os balões arrebentam e largam pó talco, a guitarra eléctrica do Palhaço Triste expele um riff rock and roleiro que se impõe como denominador comum, “não sei, não sei”. Toni Fortuna encarna no Judoca educado: “Obrigado!”, o seu papel é o de um desestabilizador por se retratar como se fosse um atrasado mental com pronuncia beirã, o tolinho da aldeia, o acólito que acompanha o padre na pascoela para se embebedar gratuitamente. Judoca: “Pró caralho!”. Cowboy: “Quarta-feira”; “Quinta-feira”. Os M`As Foice impõem uma pausa ao rock. O Judoca recebe uma chamada telefónica e responde com a sua pronúncia que sublinha as palavras de um sibilar de uma cobra perdida no pinhal: “a sério, bâton, capim”. “ir prá merda!”, os M`As Foice mantêm a propensão rock até ao fim, “prá estudante, vai anda merda!”. A segunda canção tem como propulsão o baixo eléctrico do Palhaço Alegre e a guitarra eléctrica do Palhaço Triste, ouvem-se galinhas a coaxar como rãs embriagadas durante o eclipse da Lua. O ritmo é popular mas não é popularucho, antes uma satírica às canções de bailes onde os casais namoravam na época da vindima ou na colheita da espiga. O Cowboy e o Judoca intervêm na sátira: “Lalala pospos”, o solo da guitarra eléctrica do Palhaço Triste inculca-lhe uma urgência festiva que é repercutida pelo do baixo eléctrico do Palhaço Alegre, explodem balões na cabeça do Judoca como se fossem balas a perfurar-lhe o crânio mas a substância que daí emana é um pó que foi inalado pelo inadaptado da “Laranja Mecanica” antes de brindar com Moloko a vitória de mais um crime gratuito. A harmónica inscreve-se numa contemporaneidade pertinente, a fornecer à canção um tónico que impõe a disruptiva. Explodem mais balões que inundam o palco com uma propriedade lunar mas simultaneamente tóxica. Na terceira canção o Judoca num loop: “Houve um dia ao entrar na porta, na janela”, que é absurdamente entrecortado e transforma o desportista do oriente num gago digital, por fim o Judoca consegue libertar-se da sua anormalidade e resume: “A porta era uma janela que tinha saída”. A estética que os M`As Foice se propõem explorar é o Rock, “no futebol”, mas as palavras de ordem do Judoca e do Cowboy remetem para um universo festivo de jovens a delirar com a estupidificação. “Mau Maria e era tudo o que eu mais queria”, o baixo eléctrico do Palhaço Alegre transporta-a para o colo de um Blues mas que é metricamente proscrito pelo solo da guitarra eléctrica do Palhaço Triste, “coração”. Explodem balões que exortam o despertar do público que não se consegue abstrair da progressão hard rock que a remata com laivos épicos. O público ovaciona os M`As Foice. A quarta canção tem como potenciómetro o baixo eléctrico do Palhaço Alegre, o Judoca entoa manhosamente: “É pá franja só uma vez se usa franja”. “É pá franja só uma vez se usa franja”. “É pá franja só uma vez se usa franja”. “É pá franja só uma vez se usa franja”. A secção rítmica responde em bloco a este refrão através de uma pontuação curta e repetitiva, as guitarras do Palhaço Triste e do Mafioso revertem para um universo Rock, mas é a entoação do Cowboy e do Judoca satirizam o fado através da onomatopeia: “Lalareirei”, “Lalareirei”, solo semi distorcido da guitarra eléctrica do Palhaço Triste. “Emocion hurts”. As cores que os Mas Foice procuram evidenciar são naturalistas aplicadas na tela de forma abstracta satírica. “Sejas de Coimbra”. O cowboy: “Dunas são como divãns”. O Judoca atira-se sobre a plateia. E por fim um conselho oportuno de um padre ébrio: “Não se preocupem que as nossas mães lavam tudo”. Na quinta canção os Mas Foice desferem um Rock dominado pela bateria hard rock da bateria do Palhaço Rico e pelas guitarras distorcidas do Palhaço Triste e do Mafioso, “AAAA” , “não o quis”, a progressão que encetam é uma virtuosa analogia à estética hard rock com madeixas hair metal, “a gaja não o quis”. A sexta canção tem como premissa a bateria do Palhaço Rico e o solo do baixo eléctrico do Palhaço Triste impõe um Rock and Roll preponderantemente demente pois estilhaçado pelos riffs da guitarra semi-distorcida do Palhaço Triste. O Cowboy possui a dona de casa como se fosse “uma meretriz”, um balão explode junto à cabeça do Judoca expelindo esperma em pó e os M`As Foice convertem-se em hard rockers saídos de uma garagem de teias de aranha. Antes da sétima canção o Cowboy é cordial: “Esta música é dedicada a toda à gente que ainda tem borbulhas” e questiona: “quem é que aqui ainda tem borbulhas?”. Da plateia a resposta é um gélido silêncio que os impede de insurgirem-se contra o insulto disferido do palco: “Imberbes!!”. E baptiza a sétima canção; “A próxima música chama-se ´Acne Juvenil`”. O riff distorcido da guitarra eléctrica do Palhaço Triste apresenta uma exortação violenta repercutida pela secção rítmica, o Cowboy e o Judoca entoam uma ladainha infantil que se impõe através do absurdo: “Há muito perdi a vontade de brincar”. “Há muito perdi a vontade de brincar”. “Há muito perdi a vontade de brincar”. O Judoca dança e atira-se como uma estátua sobre o palco instalando uma tensão angustiante, e reina a contínua exortação do Rock destinado a ser vivenciada durante a adolescência em que a realidade perde o seu carácter determinista. A oitava canção é iniciada por palavras de ordem do Judoca: “Esta merda toda em conjunto!”, “o que andam a fazer caralho?”. Os M`As Foice introduzem o Blues com pigmentação proficuamente kitsch disso é exemplo o solo da guitarra eléctrica do Palhaço Triste, o ritmo relega-se para um arrastamento de mãos sobre a areia de um deserto iluminado pela lua. “E uma sopa de feijão?”. A guitarra entrecortada e semi-distorcida do Palhaço Triste ensimesma-se do Blues e consentaneamente realça o seu carácter kitsch. “Bacalhau à portuguesa”. O solo do baixo eléctrico do Palhaço Alegre não é mais do que o prolongamento da escala típica do Blues para ser o nervo que sustenta a oitava canção vilipendiada pela guitarra do Palhaço Triste e secundarizada pela do Mafioso. “Cheiro a merda”. “Bacalhau à portuguesa”. “Laralaralara”. O Cowboy em discurso directo: “Na impossibilidade desta possível”. O Judoca impõe um suspense inspirado na Agatha Christie através da frase destituída de lógica: “Como se canta isto?”. A veia que os M`As Foice exploram é a Pop para ser incluída numa playlist de uma rádio que tem como target uma creche com crianças enlouquecidas por causa do consumismo paternal: “Pingo Doce venha cá”. O Cowboy e o Judoca numa entoação adolescente: “Coca, Coca Cola Billy, Coca, Coca Cola Billy, sou um Coca Cola Billy com poupinha no ar”. Anulam a Pop para deficientes mentais quando as guitarras eléctricas semi-distorcidas do Palhaço Triste e do Mafioso inscrevem a nona canção num hard pop contaminado pela adjetivação kitsch. “Coca, Cola Billy”, a bateria do Palhaço Rico encurta o seu ritmo, “reggae”, “Angola” e a melodia africana é devedora ao Duo Ouro Negro envenenados por cogumelos alucinogénios. Os M`As Foice enquadram-se numa vertente predominantemente rock pub que é contaminada pela guitarra reggae do Palhaço Rico e do Mafioso e aparentemente surgem troncos de canábis a serem incineradas em Auschwitz. O Cowboy ganha balanço e faz-se à plateia que não é violentada pela correria enlouquecida de um Totem humano; e por fim o hard rock encontra-se nas harmonias rudes e aceleradas. “Coca, Coca Cola Billy”. Palmas. O cowboy descobre: “Só coca no chão” e insulta o público: “Drogados!”. Palmas. Segundo o Cowboy os M`As Foice podem tocar: “Duas músicas e meia! Só para vocês!”, e o Judoca informa: “que há um incêndio aqui ao lado” e nem o seu sotaque de Cardeal Cerejeira credibiliza a personagem e consequentemente não instala o pânico na multidão, mas não desiste e profetiza um digno fim para os fãs dos M`As Foice: “Morremos todos queimados!”. A décima canção é dotada de um ritmo com uma protuberância infantil mas gradualmente o Palhaço Rico posiciona-a numa vertente dois por dois vilipendiados pela guitarra semi-distorcida do Palhaço Pobre, transcrevem um Rock anti-pedagógico pois demonstrativo de uma severa modelação satírica. “Não estou a fazer nada”; “passear na rua, passear na rua”. O riff da guitarra eléctrica do Palhaço Pobre sustenta a canção através da sua contínua presença perturbante, o Judoca modifica o seu timbre adolescente para o de um monstro que devora os ácaros: “Terror”. “Todos os dias eu passeava”. O ritmo Pop é imposto pela bateria do Palhaço Rico conspurcado pela guitarra de arame farpado do Palhaço Pobre. O gozo é permanente como o estado de espírito de um sem-abrigo que se ri dos escravos das cidades que para ele não passam de erva daninha que lhe dão esmolas misericordiosas: “AIAIAIA”. Pausa. O Cowboy aponta com a sua mão direita para o tecto do Salão Brazil: “Ele estava”, “mas”. O judoca: “Emergência”. O Cowboy ensaia deslocar-se por um cabo de metal com uma vara nas mãos para o manter seguro enquanto se deslocado por entre arranja céus. O Judoca com sotaque castelhano: “Lolita e seus sapatos” de bailarina virgem para seduzir Woody Allen. Por instantes a métrica Pop funde-se à Rock e a melodia é um sedutor zumbido melódico proveniente de uma esfera suspensa no espaço à espera da sua cara-metade com cicatrizes de robot hominívoro. Os M`As Foice transcrevem as harmonias de um casamento de ciganos da Mancha em que reina una fiesta que festeja o fim da virgindade da Lovenita. A valsa é o último acrescento à decima canção: “EIEIEI”. “EIEI”. A décima primeira canção tem um elixir de baile mas a melodia quente que os M`As Foice membros ponderadamente executam é um “Fado Alexandrino” que não foi escrito por António Lobo Antunes. O Cowboy encarna no fadista vadio que cruza as ruas sujas do Bairro Alto com bordéis emancipadores de jovens perdidos na cegueira provocada pelo estímulo do líbido. O Cowboy é fiel aos seus segredos; “De quem eu gosto nem as paredes confesso”, ele e o Judoca levantam os braços a celebrar uma portugalidade de papel de cozinha chamuscado pelo terremoto de 1755. “Não gosto de ninguém”. Palmas. Na última canção os M`As Foice inscrevem-se num pendor Rock repetitivo da responsabilidade do baixo eléctrico do Palhaço Alegre e da bateria do Palhaço Rico que sustentam o refrão: “É Mas Foice”, numa toada à laia de um hino de futebol que é pontuado por ovelhas clonadas que procuram o seu pastor numa deambulação perdida sobre a lava petrificada. O público acompanha o Cowboy e o Judoca: “È Mas Foice” numa festividade digna de ser inscrita na nossa memória futura.
Re-Factory, 01 de Novembro, Salão Brazil @ Coimbra
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