terça-feira, 31 de março de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
Caixa de Pandora
Na rua Cândido dos Reis na baixa portuense encontra-se um palco ladeado por quatro tapumes siameses nos quais se encontra graficamente retratada uma caixa colorida estacionada nos alpes franceses a preto e branco. Na sua fronte-- e em cada lado do palco-- dois plasmas fazem a contagem decrescente ao surgimento das três celebridades do Norte que colectivamente se baptizaram de Grupo Novo Rock (GNR): Rui Reininho, Tóli César Machado e Jorge Romão, que recebem calorosos aplausos; acompanhados por Andy Torrence, Paulo Borges e Samuel Palitos. A primeira canção “Triste Titan” tem um ritmo binário em que o teclado e as guitarras docemente corporizam uma melodia leve como o planar de uma ave de rapina. A voz de Rui Reininho é de um timbre que apela por uma compaixão desmedida “se a manhã te dá um beijo mergulhamos”; “e a sereia no topo do bolo lá caiu”, a relação onírica dos acordes adensam-se pontualmente mas sem obstruir a porta para o sonho, e “vais à Nazaré e vais a banhos”; “ou nós enjoamos”, a aparente circularidade ondulante da melodia revela um mar de ondas de pétalas vermelhas tingidas de salitre do oceano Atlântico, onde navegam os desejos expulsos em dias de breve melancolia. “Lá caiu”; “a vida dos ciganos” errantes e destemidos flutuam por entre uma leveza desarmante de tão bela; se “Triste Titan” fosse música clássica teria sido composta por Vivaldi à procura de uma estação do ano imaginária, mas sendo Pop é naturalmente da lavra de Tóli César Machado. O poder dos acordes do piano de Paulo Borges versus a intensidade delicada da guitarra eléctrica de Andy Torrence secundada pela de Tóli César Machado, a primeira divaga de nota em nota, a segunda preenche os espaços vazios, e a tensão do baixo eléctrico de Jorge Romão com a devida cumplicidade da bateria de Samuel Palitos, inscrevem um crescendo encantatório perceptível ao público que preenche totalmente a rua Cândido dos Reis. “Vais a Gibraltar e vais à praia e vais a banhos há milhares de anos”. Rui Reininho ignora a hora noctívaga e cordialmente cumprimenta os presentes: “Bom dia!”. A pecaminosa “Vídeo Maria” encontra-se alicerçada numa equação em que imperam os sintetizadores que circunscrevem a estrutura Pop e injectando-lhe uma dose considerável da Kitsch, e adicionado a isto a guitarra eléctrica (wha wha) de Tóli César Machado confere-lhe uma frequência minimal. A voz de Rui Reininho relata uma ficção: “Tarde de chuva a península inteira a chorar”, quando sobrevém o baixo eléctrico de Jorge Romão a Pop ganha um pendor de dança numa discoteca onde rodopia uma bola de espelhos desdentada. “O latim vai mudar”, “o que ela faz aqui fumando? Estará a meditar?”. A acentuação do binómio rítmico entre a bateria de Samuel Palitos e o baixo de Jorge Romão citam a funk, mas sem redundar numa aliteração, à qual se adiciona a soletração por parte do teclado de Paulo Borges dos acordes luminosos do refrão: “Ai, ui, atirem-me agua benta”, “atirem-me agua fria”, “o nome dela é Maria”. Andy Torrence insere um solo melodioso, a síntese dos acordes de “Video Maria”, seguido pela omnipresença (wha wha) de Tóli César Machado e por fim a solenidade dançante imposta por Jorge Romão, “ai, ui”, “Maria, sexy eu sei, virgem ou não depende da vossa fantasia”. Os GNR inscrevem um crescendo tenso como um punhal de fancaria na “sua mona”, “lalala”. A terceira canção “Caixa Negra” tem por base um princípio Pop que ganha uma adjectivação Kitsch com a introdução repetitiva dos acordes da guitarra eléctrica de Tóli César Machado, que instaura uma toada de dança de baloiço sustentado num arame farpado. A voz de Rui Reininho é de um timbre contidamente alegre, “caixa negra tem segredos que não revela a ninguém, nem lembra ao diabo também”. A vertente de Pop alegre é gradualmente acelerada; “há quem lhe chame preta”, a voz de Rui Reininho parece um chamamento de um faquir que se espreguiça na sua cama de colchão de pregos, “trompeta”, “há sempre uma bicicleta”, os GNR fazem uma pausa, “perfeita”, “caixa negra traz traz revelações do além”, a bateria de Samuel Palitos aumenta o ritmo e é devidamente acompanhado pela tensão do baixo de Jorge Romão; e Rui Reininho é sedutor: “vai e vem”, “perfeita”, “rarefeita”, “há sempre uma bicicleta”; “uma bala na corneta”. A progressão que os GNR estabelecem é desconstruída pelo teclado de Paulo Borges e Rui Reininho aumenta a altura da sua voz como se fosse um alarme para um Portugal adormecido por ser ocupado por sonâmbulos: “Há sempre uma bicicleta com motor é uma lambreta”, e para que os portugueses se despertem basta, “uma bala na cabeça”, a Pop ganha uma densidade angustiante e anula o seu caracter festivo, “tão perfeita”, e para quem eventualmente esteja distraído, Rui Reininho repete o seu julgamento: “Há mais uma bicicleta que com motor é uma lambreta”, “Caixa negra vem vem” e ilumina a consciência portuguesa. Rui Reininho apresenta os músicos que acompanham os GNR: “Samuel Palitos”, “Paulo Borges”, “Andy Torrence”, e uma figura inexistente: “Pipi Legal, ainda bem que apareceste”. O hino à loucura consta na quarta canção “Bellevue” com o teclado de Paulo Borges a inserir a melodia Pop de valsa negra ou enegrecida quando a bateria marca o compasso de um actor disposto a cometer um crime real, o baixo de Jorge Romão é quem oferece a base para a narrativa de Rui Reininho: “Leve levemente como quem chama por mim”, cai sobre a rua um negrume leve e viscoso de onda de mar mergulhada num crude criminoso, “o odor a tensão do medo puro”; os GNR progridem gradualmente como se fossem uma segunda entidade vincadamente voyeurista, “e subo a mão”, que está expectante quanto ao percurso do criminoso mas imperdoavelmente ignoram qual o objecto do seu desejo, que o fez calçar as luvas de cabedal pretas e empunhar um punhal, talvez “um anel de brilhantes” (?), “salto à janela com muita atenção”; e como é que os GNR “sabem que me escondo na Bellevue” (?), com a predominância dos teclados a conferir-lhe uma copiosa marca de salão de chá preto onde dançam casais rotinados nos domingos, “ninguém comparece ao meu rendez- vous”. “Um foco de luz no último estertor”; “salto para cima experimento o colchão”. Sobrepõe-se à negrito de “Bellevue” uns teclados fantasmagóricos, “sabem que me escondo na Bellevue”, “os meus amigos no fundo do jardim”, “moi”, pausa na valsa, os teclados reintroduzem o padrão de preto sobre preto num minimalismo absurdo, ouvem-se passarinhos a chilrear de um ninho de cucos, Rui Reininho bate palmas timidamente e a multidão acompanha-o na peregrinação ao cadafalso, uma outra pausa nega o fim à canção e consequentemente à vida da personagem que se afunda na sua mais profunda consciência, “e agora mais ninguém confia em mim”, e a tragédia é finalmente desvendada pelo tresloucado: “Era só para brincar ao cinema negro”, a valsa repercute-se através de uma visão de tragédia social que simbolicamente ocorre quando a alma não é pequena: “Os corpos no lago eram de jovens no desemprego”. Rui Reininho apresenta a quinta canção da noite ao ar livre: “A próxima chama-se ´Não há Guerra`”. Que é dotada de um dote proeminente rock disso é exemplo a dinâmica instituída pelos GNR, em que se destaca a batida possante de Samuel Palitos e a sobriedade de Jorge Romão assim como a guitarra eléctrica de Andy Torrence, “Tudo à espera”, “infeliz”; os GNR aceleram o ritmo enquanto Rui Reininho canta: “toda a gente diz não há guerra”. A progressão que encetam encontra-se sediada num reverb de Rock and Roll que o orgão Hammond sintetiza subliminarmente, “Inglaterra”, “não há guerra”. A sexta canção “Las Vagas” predomina uma esquizofrenia Pop, já que os GNR se expressam através de uma aparente alternância dos instrumentos eléctricos, destacam-se o teclado de Paulo Borges e a guitarra eléctrica de Andy Torrence, “é tão grande macro onda, vista ali da marina”, a canção é progressivamente acelerada e consequentemente assume-se travestida de rock, “a roleta russa aceita apostas”, “são mudanças”; Rui Reininho canta incontidamente: “de quem gostas”; “de quem gostas”. E o rock anula definitivamente a Pop, “eu serei a gorda? Serei a magra”, e como será possível que esta personagem de indeterminada figura foi “andar de voga, não havia vaga”? O rock ganha contornos épicos por dilacerantemente se solver como potássio na água gélida de um lago à beira mar plantado, com o devido e angustiante solo de Andy Torrence, “eu seria a gorda, tu serás a magra”. A potência rítmica perpetrada por Samuel Palitos e a cordialidade de Jorge Romão erigem um universo inconcebivelmente agressivo e tão belo quanto nefasto, “tanga”, e por fim o desvendar do rosto da personagem indeterminada: “Sou um peixe fora d` água”. A penúltima canção da noite denomina-se “MacAbro” e é segundo Rui Reininho “mais uma estreia mundial”. O teclado é dedilhado pelos dedos longos de Tóli César Machado, inscrevem uma melodia tétrica que poderia constar numa peça de teatro de Bertold Brecht, o fluxo é profundamente fúnebre mas o corpo da vitima está inconcebivelmente ausente, não há flores ou velas nem tão pouco Jesus Cristo sacrificado numa cruz a pingar sangue das suas santas chagas. “Sabes quem eu sou? Cá em casa é tudo feito à mão”, o acompanhamento negro de Tóli César Machado é constante e Rui Reininho responde-lhe através do seu canto de filho único, inesperadamente o narrador revela que “sou parecido com o meu irmão”, e quando se aproxima do seu reflexo: “Eu saco do facalhão e aproximo-me do meu irmão” e perde o ímpeto assassino e “esfrego um limão”. O break de Samuel Palitos traz consigo os GNR que eléctricamente são complacentes com a melodia Brechtiana dominada por Tóli César Machado. Rui Reininho canta como se fosse o timbre de um marinheiro apaixonado por uma sereia do proletariado, “lálálálá”, Jorge Romão responde-lhe calorosamente, “lálálálá”, a imposição rítmica acelera a valsa mas sem a cremar, antes, inscreve-a numa vida às mãos de cuidados paliativos, “tudo é feito à mão”, “irmão”. Antes da última canção “Cadeira Eléctrica” Rui Reininho é cordial para com o público --que se estima que sejam um total de quatro mil pessoas-- que acorreu ao chamamento surpresa da maior e mais genial banda da Poportuguesa: “E a vocês muito obrigado!”. A lógica que os GNR instituem é a de uma melodia Pop que inicialmente é dominada por um imediatismo improvável, “há no céu da boca um sabor a mel fel”, e o solo da guitarra de Andy Torrence transcreve-a para um mecanismo repetitivo rock, “suicida”, e nesta caixa de pandora “já é de manhã”, “finge um sentimento”, associada ao transtorno rock está também a guitarra eléctrica de Tóli César Machado. Hoje há mudança de equinócio algo que inesperadamente coincide com a poética de Rui Reininho: “quando muda a hora”, o sintetizador de Paulo Borges é um cunho estéctico num vislumbre kitsch, “passa tudo por magia”, quando surge o refrão: “Liga a cadeira eléctrica”, há uma emancipação promovida por Jorge Romão e Samuel Palitos, “sente a energia”, o aumento do ritmo e da altura ressoa gradualmente, “passa tudo por magia”, e reproduz uma sumula rasgada por um rock and pop, “apaga as luzes já é de manhã”, “liga a cadeira eléctrica”, “sente a energia” da vida, “liga a cadeira eléctrica corta a corrente”.
GNR, “Caixa Negra” (concerto surpresa de apresentação do 12º álbum de originais), 28 de Março, Rua Cândido dos Reis @ Porto
segunda-feira, 2 de março de 2015
domingo, 1 de março de 2015
Alice do Outro Lado do Espelho
No ínfimo palco instalado no café do Cine-Teatro de Estarreja surgem dois homens de estatura alta, um dos quais toma a palavra: “Bom dia, boa noite”, e explica a particularidade da razão deste concerto: “A maior parte destas canções são de um audibook [Nota: “Chá, Café e etc.”, publicado pela Tcharan] e vamos tentar não destruir aquilo, a primeira chama-se ´Taça de Chá`”. O emissor denomina-se Rui Reininho e o seu parceiro é Armando Teixeira, que introduz um ritmo minimal digital através das suas máquinas analógicas, “máscara caída” e “os crisântemos no jardim”, o minimalismo da pontuação é constante, “geniais como ele”, “lágrimas”, “os seus olhos”, “confundiam-se cintilantes”; a voz de Rui Reininho ganha uma textura robótica “é remédio”, o minimalismo perdura, “deixo as cabeças nas esteiras”, “jardins”, “pela manhã”, “com leque de marfim”, pausa, “a estampa do pires igual”. A segunda canção é apresentada por Rui Reininho da seguinte forma: “Partimos então para ´Salão de Chá`”. A cenografia sonora é introduzida por Armando Teixeira e corresponde a um andamento repetitivo digno de um filme mudo que enquadra uma “menina que quer ir salão de chá com a mana”, ambas vestem vestidos rodados de seda mate e nas cabeças envergam chapéus com plumas de avestruzes albinas, “cetim”, “boutique é chique”, pausa; a voz de Rui Reininho ganha uma dimensão cósmica: “quero sapatos de ballet”, mas há algo que a perturba: “O chá está quente e queima-lhe o dente” e “queima toda a gente”. A terceira canção “Bule” tem um ritmo-melodia imposto por Armando Teixeira que corresponde a andar de bicos de pés sobre o gelo, “o bebé”, “mesa”, “e a mana refilona”, a voz processada como a de um robot de Rui Reininho assevera: “O bebé só bebe leitinho”. A delicadeza da cadência do loop permite ao espectador imaginar um bebé de fraldas a gatinhar sobre o tapete de arraiolos que sussurra “baixinho ao ouvido da mãe do bebé” que responde a si própria: “a mãe: pode ser, pode ser, pode ser”, o loop ganha uma consistência de uma temeraria hipnose infantil, “devagar e não se calava”, “beberam, beberam o leite do bule bulido”. Palmas. Rui Reininho não poderia ser mais universal: “Obrigado aos nossos poetas, poetisas e peotastras”. A quarta “Café des Anges” tem uma cadência rítmica Blues Bebop introduzida por Armando Teixeira, o fumo advém do verso: “com cigarros des Cafés des Anges”, há uma figura esguia que espera o seu cliente “sentada no fundo da janela usando um gorro vermelho”, os acordes processados por Armando Teixeira saem das colunas e Rui Reininho elucida: “cigarros apenas no Café des Anges”, a voz do narrador assinala que se deve “atentar na morena sentada”. A constante circularidade do Blues Bebop erige no palco um café como o Majestic, Rui Reininho estala os dedos como se fossem amarras lançadas à fantasia, e diz: “Jazz is not dead”. A espera é dissimulada através do consumo de “cigarros no Café des Anges”, a aceleração do Bebop impõe o acicatar do líbido por causa da memória da “morena sentada junto à janela com um belo gorro vermelho”. A quinta canção é apresentada cordialmente por Rui Reininho: “Vamos ter o nosso momento Manuel Pina”, “Café Gelo”, que confere às palavras uma melancolia de fim de tarde a beijar uma musa suicida, “esta ressurreição dissimulada”, das máquinas de Armando Teixeira emanam um universo decadente,“presque du café de la rouquette”, que remete pour la nouvelle chanson francaise-- mas usando a figura de estilo sinédoque que em “Café Gelo” corresponde a um sample que nos remete para o universo francófono datado da década de sessenta do século passado. A voz de Rui Reininho é um vibrato seco de uma lira de fancaria, “irregulares”, “onde cantam os sentimentos irregulares”, a introdução de um quarteto de violoncelos castrados incineram a consciência de uma viúva-alegre. “Pernas lentamente até um sítio e istmo escuro entro”, “dentro de mim”. Na sexta canção “Esplanada” sobressai a voz doce de Rui Reininho sobre o silêncio das máquinas de Armando Teixeira : “Bob Dylan encheu-se de dinheiro”, “como dantes”. O tango apropria-se de “Café Orfeu”, a melodia é uma silhueta de sereia coberta de um veludo tinto que lhe pinga dos lábios fruto do pecado original, “não tivesse existido”. “Não tivesse existido”. Palmas. “A Hora do Chá” e “Lugares Comuns” são emitidas das colunas do café do Cine Teatro de Estarreja em regime de gravações enquanto uma figurante serve uma chávena a cada um dos músicos. Rui Reininho não esclarece: “São poemas de Barreto de Guimarães”, e “Arca de Noé” é vilipendiada oniricamente pelos teclados e é enquadrada historicamente por Rui Reininho: “Antigamente as máquinas estavam sempre a avariar”. Palmas. “Hora X” é marcada pelo reco-reco que lhe confere uma estéctica kitsch, “à hora X à mesa Z é sempre a mesma coisa”, a fábula é representada através da presença do “senhor avestruz”, o ritmo repetitivo do reco-reco é como o trinar da cauda de uma cascavel alcoolizada, “ovos estrelados”; e a teimosia do poeta de representar que “à hora X no café Portugal é sempre a mesma coisa”, e “enquanto a ditadura, dura”, o reco-reco ganha um poder hipnótico e consequentemente uma ruptura própria do jazz, “yeah”, “à hora X no café Z é sempre a mesma coisa”. Rui Reininho esclarece sobre a autoria de “Hora X” de “Mário Cesariny” e informa: “Temos uma encomenda dos descendentes”. “Agora sim, creio eu, Pedro Mexia” , “Café”, a melodia introduzida por Armando Teixeira é uma ténue ladainha infantil, “os penaltis”, a música ganha uma espessura escura anulando pontualmente o som ingénuo, “o céu”, mas quando se dá uma união dos dois universos teoricamente opostos, há uma hipnose que nos catapulta para a determinação narrada por Rui Reininho através do seu timbre seco e impositivo como uma fatalidade, “os penaltis”. A décima primeira canção tem uma poesia de “António Gancho” e segundo Rui Reininho denomina-se de “Café da Manhã”. A entoação dos versos por parte de Rui Reininho corresponde ao de um psiquiatra apaixonado por uma inimputável, “hospital psiquiátrico”, os sons emitidos pela mesa de mistura de Armando Teixeira incorre num fluxo incidental de tão fantasmagórico, “dantes era de manhã nos jardins”, que reverbera numa progressão como uma ferida no céu, “que fica e casa”. O narrador revela a proveniência dos “nossos cadáveres no nevoeiro já estão mortos”, a volúpia da melodia negra e incidental derrama um fogo preso “de todas as partes”, e a predominância da eterna espera: “muito tempo a sós”, “é uma maneira de trabalhar”, “escrever poesia”, “nostalgia de estar em casa”, “é frequente dizer optimista”, os sons ganham um minimalismo progressivo, “metal dos cafés”, que instaura o início da hipnose, “por cá sempre bom passar a vida”, surge uma frequência de um rádio taciturno sintonizado por António Lobo Antunes que confere “A Café da Manhã” um final épico. “Pólo Norte” a décima segunda canção tem uma melodia digital pontuada pelo domínio de elementos circulares saltitantes, “o que esperas à mesa do café?”, que são subsequentemente manipulados por Armando Teixeira evocando uma ânsia que seca as veias das roseiras lisboetas, “o que esperas à mesa do café olhando?”, pausa, “um oceano imundo a fábula de papapa”. No décimo terceiro tema “Comboios” Rui Reininho dá início a uma performance acidental: “Era um papel desta cor”; “não encontro o poema”, “juro que nunca me aconteceu isto”; “mas não vou começar a chorar”. Armando Teixeira introduz sons de um comboio cósmico conduzido por psiconautas, “os comboios que fazem parte de nós que partem num instante”, que segue sobre num carril de fantasia, “lá comboios com pizzicatos”, onde circula ao sabor do vapor, “larga este beijo como um fundo lamento”, que esfumaça como uma “espécie de hip-hop no ar”. Quanto a “Du Thé, Préconisé par sa Majesté” tem a honra de ser “dedicada ao meu jantar no Caracas”. Surgem sons crepusculares, “commes des Lords”, cavalgam em Pégazos, “se approche du soutane de la Raine”, e no tabuleiro de xadrez “chacun nosso que tombo mallourosement”. Os Pegázos emitem uma onda sonora que se enrola abstractamente em vias de beijar a areia do mar salgado, “qu`un appelle du thé”, “et en portugais et en chinois”, quando salpicam a areia a melodia ganha uma expressividade Pop, “chá”, a voz de Rui Reininho ganha uma súbita modelação robótica viciada em chá preto. O décimo quinto tema “Chá Demente” é da autoria do poeta Rui Reininho, o ritmo é destinado a uma casa de chá dançante, “chá demente, talvez um chá diferente”, os versos dançam ao ritmo digital: “um chá decente”, “Chá, chá, chá”, e o acordeão adulterado surge num rasgo de ruralidade onde crescem papoilas cintilantes, “cruel”, “chá doente”, “chá diferente”; o acordeão liberta raios de sol, “chá dormente, é sempre um chá diferente”, o chá digital dançante associa-se à realidade: “Eu sou um Chá da Pérsia, tu és um chá mente”, “chá demente”. Palmas. “Serpentes” revela-se sonicamente através de um reco-reco que metricamente é apoiado num ritmo binário, conjugados equiparam-se ao Pop-jazz como se fossem serpentes de metal a circular sobre telhados de zinco. O narrador tem uma voz de testemunha ocular de um encontro inesperado, “era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra”, Armando Teixeira impõe o Pop-jazz como denominador comum, “e um dia encontraram-se e comeram-se”, que gradualmente se apropria do inconsciente onde tudo é permitido, “AAAAA”, “simplesmente comeram-se”, surgem sons arabescos, “a lição é: não podemos odiar ninguém, ou então…”, “AAA”; e a segunda lição sobre o registo digital extravagante, “ter muito cuidado com o que comemos, ou então é preciso ter muito cuidado com o que se come”, “AAA”, “muito cuidado com o que nos come”. Palmas. Rui Reininho discursa cordialmente: “Obrigado, pelo carinho com que nos receberam”. Palmas. O décimo sétimo tema tem o título: “O Estranho Caso do Amante Preguiçoso”, com poema Pop de Rui Reininho. Armando Teixeira coloca uma agulha digital sobre o vinil que é riscado, as programações são de um groove circular dengoso, “e sigo-te”; a agulha tem unhas de gel, “falo e não falo”, o groove Pop circula por entre o refrão: “Cheiras bem? Cheiras bem? Então vem até Lisboa”. “Sabes bem”, e o saxofone digital oferece-lhe uma repentina beleza psico-activa, “Cheiras bem? Seio bem, vem até Lisboa”, as programações adensam alegremente o verso, “sabes bem esta Lisboa”. O groove é pontualmente e progressivamente curto, e a voz de Rui Reininho é grave: “Os dois”, “acordo às três”, “acordo à toa”, “limpo-te os pés”, o groove liberta-se da sua pontualidade e regenera-se através da Pop. “Cheiras bem? Cheiras bem? Então vem, até Lisboa”, o saxofone sola como se fosse o uivo de um homem sozinho no Frágil, “sabes quem, sabes bem esta Lisboa”. A décima oitava canção “Dunas” tem segundo Rui Reininho: “Uma das frases mais geniais da minha carreira, espero que me acompanhem nesta”. O ritmo é dois por dois e correspondente a uma frequência kitsch, “um resto de boa noite”, que poderia sair das colunas de um baile na província; uma flauta de pan destaca-se da batida, “então aqui vai”. Rui Reininho coloca a voz num falsete tórrido, “as dunas são como divãs, biombos indiscretos”, a toada popular é contínua, “sentados nas dunas alheios a tudo”, “pensamentos lavados”, “saltamos rochedos”; e por mandamento de Armando Teixeira “Dunas” ganha uma volúpia easy listening, “em câmara lenta como na TV”, “dunas”, “nas dunas roendo maçãs, a ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã”. O público num coro discreto entoa “dunas”, o órgão de uma igreja numa falécia adensa as cores tépidas mas alegres e prenuncia um fim de tarde de pôr de sol ao rubro, público: “Dunas”. Rui Reininho: “sós nas dunas”. Público e Rui Reininho: “Nas dunas”. “Patchiwara”. Rui Reininho: “Saltamos rochedos”; “Como na TV”; “Chá, chá, chá”.
Rui Reininho e Armando Teixeira, “Chá, Café e etc.”, 27 de Fevereiro, Café do Cine Teatro de Estarreja @ Estarreja
Rui Reininho e Armando Teixeira, “Chá, Café e etc.”, 27 de Fevereiro, Café do Cine Teatro de Estarreja @ Estarreja
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
domingo, 28 de dezembro de 2014
The Beauty and the Beast
Estão dois Robots humanos nos respectivos teclados, atrás dos quais se encontra um ecrã, e os sons que emanam são profundos mas simultaneamente leves. A programação festiva é tolhida por uma melancolia decadente que é introduzida pelo teclado, surge Tracy Vandal de vestido com lantejoulas até aos joelhos, é magra e o seu rosto é de um esmalte claro com lágrimas sob as pupilas, a sua voz é melodiosa: “Take me in my arms”, é alegre “of the night”, e festiva quando determina “free and nake”, os Robots estão isolados dos distúrbios românticos de Tracy Vandal, “moon”, e quase num sussurro: “like we dance before”, num eco: “night”. Tracy Vandal desloca-se para o ecrã e os Robots sustêm o negrume da melodia e quando as cores se revelam trazem consigo raios que perfuram nuvens brancas carregadas de algodão doce cor-de-rosa. O canto de Tracy Vandal é o de um corvo que assinala a chegada da Primavera “we ran free and nake”, e o pássaro ganha corpo de ícaro que esvoaça em direção da lua cheia e canta: “straight to the stars”, “where we could run free and nake just you and me”. Palmas. Tracy Vandal ironicamente deprecia o “Karaoke” do Rei de Coimbra a Capital do Rock, Victor Torpedo que nesta narrativa representa a beast: “I`m not Vic and Karaoke! I`m Tracy Vandal!”. As teclas impõem um andamento pausado e a voz de Tracy Vandal é diáfana “off this city”, a profusão das programações mergulhadas numa progressão de nevoeiro assassino emolduram um filme absurdo que é projectado no ecrã. Tracy Vandal confidencia como se estivesse como interlocutor David Foster Wallace: “In this quiet hill none can hear my scream”, e um punhal perfura o peito de um imberbe virgem, o ritmo que liberta as máquinas é cadente e consequentemente opressivo. A ode à morte é perpetuada no verso: “and I want slowly fade away”. Os teclados rejeitam uma melodia aparentemente e paradoxalmente alegre mas que na verdade representa a luz post-mortem. O canto de Tracy Vandal é aveludado: “I wash until they fall into the night”, “I won`t be their to catch me”, desloca-se para a frente do ecrã, as programações ganham um dramatismo épico, de costas para o público abre os braços com os quais desenha uma cruz e das suas mãos chagadas pinga um sangue vermelho tinto, quando se aproxima do tripé na boca de cena canta através do microfone: “to catch you”, “circles around my eyes”, os robots impõe um crescendo arrepiante entre o filme negro e o musical de Hollywood, “I wash as you fall into the night”, a promessa é cantada por entre o lirismo tecnológico: “I won`t be their catch it”. Palmas. Tracy Vandal confidencia à pequena multidão: “I forgot to explain. First you fall in love and you get him. Second you get into pressure. Third you go to the beach and you want to die. This song is call ´Once a Sunset`”. As máquinas apropriam-se de um ritmo pausado, a voz de Tracy Vandal expele as palavras lentamente e penetrantemente: “Where I can hear you?”, “every piece of me, try not to try a smile”. Quando o refrão é repetido quatro vezes: “I remember once a sunset”, e a voz relata: “and I fall in the floor”, a melodia exalta-se inserindo um kitsch Pop, “anymore”, “somehow more than I can tell”. A Tracy Vandal descreve-se, “I remember once a sunset”, as programações mergulham no mar morto onde flutuam obrigatoriamente os corpos vivos ou mortos, brancos ou verdes e inchados com os olhos salientes das órbitas. “I can feel”, ouve-se o metal a bater no metal, “for me”, como se fosse o ritmo de uma dança fúnebre numa sociedade pós-industrial, “I can fell a darkness”, a batida dos ponteiros marca a passagem do tempo psicológico, “take my soul away”, a voz de Tracy Vandal é de um cisne branco pintado por Henri Rousseau, “my soul away”. Palmas. A quarta canção “was written by me and João Rui”. Os sintetizadores emanam dos teclados uma melancolia que se expande levemente, mas Tracy Vandal desconcentrar-se acidentalmente: “Sorry can we start again? I fucked up because I wans`t hearing” os Robots param e retomam a métrica inicial: o da esquerda insere os sons flutuantes e o da direita as notas de um piano melancólico. Tracy Vandal canta como se estivesse a contar uma lullaby, “I hear a voice”, “of this words”, a relação entre piano e sintetizador encontra uma expressividade dramática, “across the moon”, a voz ecoa, “was a strong”, o piano mantém a melodia outonal, “into the night”, “last time I remember”, “away from this world”, “across this room”. Palmas. “Thank you! Who do you want to kill? This next song is ´X Codes`”. A programação dos teclados é ascendente com um beat digital, “you have to kill your sadness”, a voz de Tracy Vandal revela uma angustia urgente, “my soon”, o ritmo digital é mais intenso como se fosse o tempo psicológico estivesse dominado pela ansiedade, “is a heart to follow, I will crash your sorrow”, “please stay”. Os Robots lançam uma cadência festiva de parada gay e a voz de ordem de Tracy Vandal é alta e consequentemente sobrepõe-se aos beats: “There`s only one way to get me”, as programações contém-se, “directions”; “a kiss is all that I want”, e por fim os robots ejaculam, “directions”, “a kiss is all that I want”, há uma ascendência rítmica promovida pelas programações, “and roll on the floor”, surgem a densidade cromática e as palavras determinadas, “we have to work it out”; e durante o beat Tracy Vandal é peremptória: “A kiss is all that I want, a kiss is all that I want, a kiss is all that I want”. Palmas. Tacy Vandal: “I`ll do the favor of not talk in portuguese”, “this song is call ´Fake`”. Os Robots impõe um ritmo curto e acelerado de discoteca de Ibiza onde dança sobre as colunas o Homem Aranha, “try to forget”, “try”, “remember”, a discoteca está comprometida com a lascívia que emanam das mulheres nuas. “You wish you where dead”, “so go go, I feel sick”, “so go go, up your face”, as programações revelam uma densidade de happy hour, “you are”, e o beat é promiscuamente kitsch, “that song you have to give”, no ecrã surgem figuras a preto e branco a contrabandear E, “go go”, “up your face”, “I get sick”. Palmas. “This next song is a very quiet song”; “It´s call ´One Second`”. A programação suspende-se como se fosse uma alma a emanar de uma recém-nascida e o teclado é cadenciadamente e melodicamente depressivo, no ecrã surgem vultos negros, a voz de Tracy Vandal é o de uma menina que vê o seu mundo a diminuir e o seu corpo a crescer e que alimenta o amor platónico por um anjo gótico, “one second to hold you”, “no matter”, o teclado sobrepõe-se à narrativa e cresce uma melancolia embebida num lago de cristais negros, “one second to hold you”, a programação irradia uma coloração de cadência dormente, “it doesn`matter ooo”, o teclado insere as notas de insulina e a programação adormece a menina. Palmas. “This next song is call ´If You Forget Me`”. O teclado grave e repetitivo é pontualmente polvilhado pelo sintetizador, Tracy Vandal olha para o seu reflexo: “you are fine to me”, “beautiful face again”, o teclado imita o timbre do cravo e oferece à canção uma espiritualidade Pop kitsch. Tracy Vandal canta lentamente: “pictures”, “streets and doorways”, sobre a densidade quase operática imposta pelos Robots. Palmas. “Last song”. “If you don`t go home and kill yourself”, “this song is call ´Last Take`”, “this song is about to die”. “Thank you for coming everyone”. A programação negra e profunda é acompanhada pelo teclado de melodia Pop, mas Tracy Vandal pede: “We are going to try this one again”, os robots param as suas maquinas psiconautas. Por fim retomam “Last Take” e a melodia que transcrevem é o namoro de um corpo com a sua alma, “the desire to die came from nowhere”, “the desire to die”, no seu canto há uma volatilidade que impregna o Salão Brazil de um esoterismo fúnebre, “and nothing”; “she belongs to anyone” os Robots são narradores flutuantes e a voz é delicada e sincera como um sussurro pecaminoso: “but the only words she could say was ´last take`”. Palmas.
A próxima estrela da noite é Victor Torpedo que sobe ao palco do Salão Brazil vestido de fato escuro e luvas de cabedal pretas como é apanágio de um mafioso prestes a cometer um crime banal. As colunas debitam uma música dançável e no ecrã dançam jovens, Victor Torpedo canta e prevê que “you are so dead”, as guitarras eléctricas e do baixo eléctrico derivam do movimento Madchester, “so dead”, a repetição dos seus acordes convidam à dança e o seu mais ilustre representante é Victor Torpedo, “ignore the city”, meneia as ancas antes de cantar os versos punks: “I`m sick of the city, I`m sick of the world”, dança absurdamente ao ritmo das guitarras e do baixo + bateria e do sintetizador que gingam alternadamente. A segunda canção é iniciada por uma pergunta de Victor Torpedo: “Tá tudo bem?”. A pulsão do baixo eléctrico é o elemento que conduz gradualmente para um groove ciber-kitsch, “to go”, o microfone parece que esta a ser arremessado contra o chão e daí resulta um estoiro metálico. Victor Torpedo revela a selva em que estamos inseridos: “People kill people”, “die”, o groove toma conta da consciência dos presentes através da sua festividade repetitiva com a devida disruptiva promovida pelo sintetizador, “People kills people”, “die”. Antes da terceira canção, Victor Torpedo sentencia sobre a beauty: “A Tracy não canta nada, eu é que canto melhor!”. Os sintetizadores introduzem uma melodia alegre, “dream about life”, Victor Torpedo no meio do público beija um dos espectadores, “like you and me”, há um solo de uma guitarra eléctrica alicerçada num ritmo binário, a festividade Pop domina-a como se fosse um fugaz encontro entre o homem e a felicidade, “like you and me”. Victor Torpedo aproxima-se do público, “like you and me”, “full of dreams”, “about life”, empunha o microfone a um fã que canta: “About life”. A quarta canção tem como princípio o riff de um baixo eléctrico e o sintetizador polvilha-a de uma vertente puramente dançante. No ecrã está um homem musculado seminu a fazer inchar os seus músculos picados por seringas hipodérmicas com hormônio do crescimento. “Loose control”, “they are calling for us”, os sintetizadores revertem-na para um travo de danceteria decadente da década de noventa, “happy in this land”, “loose control”, solo da guitarra eléctrica e do baixo eléctrico convergem para um madchester rock and pop-roll, “people care about”. Das mãos do homem musculado verte um sangue de poupa de tomate. Palmas. A quinta canção tem a premissa do baixo eléctrico que é preponderantemente pontuada pela caixa de ritmos, “go to a place that I konw”, Victor Torpedo despe o blazer, “people to bite”, surgem samurais no ecrã, “I know”, a melodia é Pop com assomos de um low beat contínuo que enfurece o Rei da Capital do Rock: “you control me”. A sexta canção mistura as programações com o baixo eléctrico, “their`s a way”, a voz de Victor Torpedo tem os trejeitos de um crooner sem abrigo, no ecrã surge Elizabeth Taylor no papel Cleópatra num palácio dourado que se derrete com os raios do deus Sol, “crime”, que recusa “a life of crime”, a Pop é um estado de alma profundamente decadente. Palmas. O Rei de Coimbra é um rebelde: “A minha mãe, desde os meus catorze anos, que diz que eu não canto um caralho!”, dedica a sétima canção a “todos os emigrantes”. O baixo eléctrico e as guitarras semi-distorcidas repetitivas transpõem uma Pop dependente da década de noventa. “Wind”. “Fresh desire”. Antes da oitava canção Victor Torpedo avisa: “Isto está quase a acabar!”. A programação em loop corresponde a uma melodia dançável que injecta sincopadamente uma festividade desarmante: “my eyes”, “TV”, no ecrã um gordo de cuecas tenta apanhar um homem magro e minúsculo de cuecas, um é a ratazana o outro um gato branco. Na nona canção o baixo eléctrico inscreve uma métrica repetitiva e que é quase negra, “that love sucks”, o sintetizador retira-a da dor e impregna-lhe uma melancolia determinada, no ecrã uma mulher armada escala um rochedo do qual cai, a guitarra eléctrica sola agudamente, “I belive in what you say”, e as guitarras versam um universo Pop que não a libertam de uma tristeza endógena. Palmas. Victor Torpedo é perentório sobre a popularidade da décima canção: “Os meus fãs sabem esta!”. Esta denomina-se de “Only Gosts” que tem um groove em que perdura uma bipolaridade entre a Pop e a dance music da década de noventa do século XX promovida através de low fi. Victor Torpedo enquanto dança passa o microfone a membros do público, “it`s only gosts”, no ecrã surge uma cria elefante num jardim-de-infância, “a picture on the wall”. A próxima canção é “Meet my Tribe” e Victor Torpedo discursa no imperativo: “Esta é a última depois toco mais quatro ou cinco!”. O loop que a perpassa é um afro-beat, “Meet my tribe”, no ecrã surgem afro-americanos que dançam freneticamente e fazem baloiçar as suas cabeleiras do movimento bombista os Panteras Negras, eco: “Meet my tribe”, “OOOO”. Palmas. Victor Torpedo determina: “Isto acabou! Querem mais?”. A programação da décima segunda canção deriva de uma relação entre o MDA e a água resultando numa inconsciente leveza do ser e consequentemente promove a deflagração da inexistência de constrangimentos morais, o Rei da Capital do Rock encontra-se no meio do povo com os quais delira: “OOO”. A décima terceira canção é apresentada por Victor Torpedo da seguinte forma: “Querem mais? Esta música é a última! Depois toco mais duas ou três”. Corresponde a uma sátira ao twist, “OOO”, surgem no ecrã chineses vestidos de cabedal com poupas hiperbólicas que dançam ao despique, “auu”, “AHAHH”, “common”, o twist acelera e ganha uma proporção de trip do absurdo, um homem nas cavalitas de um outro surgem espontaneamente no palco. A décima quarta canção é melodicamente melancólica, “let`s make some love”, no ecrã aparecem cadáveres de militares americanos num teatro de guerra vietnamita, as guitarras reverberam como ecos de uma última valsa. A décima quinta canção denomina-se de “Il Est Deja Trop Tard” e o Rei de Coimbra faz um apelo sentido: “Conduzam com calma, vocês são uns alcoólicos!”. Tem um groove das caraíbas, no ecrã uma loura espampanante olha para o público que observa Victor Torpedo que canta: “Il est deja trop tard” como se fosse uma confissão de um boémio que recusa partir para casa. A repetição de “il deja trop tard” e dos respectivos acordes podem incutir a hipnose, logo a canção está proibida de ser ouvida por menores, “I love Coimbra”. Victor Torpedo empunha o microfone a uma mulher de cabelos lisos que vibra com a canção e aceita o repto e canta: “Il est deja trop tard”. O Rei da Capital do Rock despede-se dos fãs: “Au revoir mês amis”.
Tracy Vandal and The Robots, “The End Of Everything” + Victor Torpedo, “Karaoke”, 26 de Dezembro, Salão Brazil @ Coimbra
A próxima estrela da noite é Victor Torpedo que sobe ao palco do Salão Brazil vestido de fato escuro e luvas de cabedal pretas como é apanágio de um mafioso prestes a cometer um crime banal. As colunas debitam uma música dançável e no ecrã dançam jovens, Victor Torpedo canta e prevê que “you are so dead”, as guitarras eléctricas e do baixo eléctrico derivam do movimento Madchester, “so dead”, a repetição dos seus acordes convidam à dança e o seu mais ilustre representante é Victor Torpedo, “ignore the city”, meneia as ancas antes de cantar os versos punks: “I`m sick of the city, I`m sick of the world”, dança absurdamente ao ritmo das guitarras e do baixo + bateria e do sintetizador que gingam alternadamente. A segunda canção é iniciada por uma pergunta de Victor Torpedo: “Tá tudo bem?”. A pulsão do baixo eléctrico é o elemento que conduz gradualmente para um groove ciber-kitsch, “to go”, o microfone parece que esta a ser arremessado contra o chão e daí resulta um estoiro metálico. Victor Torpedo revela a selva em que estamos inseridos: “People kill people”, “die”, o groove toma conta da consciência dos presentes através da sua festividade repetitiva com a devida disruptiva promovida pelo sintetizador, “People kills people”, “die”. Antes da terceira canção, Victor Torpedo sentencia sobre a beauty: “A Tracy não canta nada, eu é que canto melhor!”. Os sintetizadores introduzem uma melodia alegre, “dream about life”, Victor Torpedo no meio do público beija um dos espectadores, “like you and me”, há um solo de uma guitarra eléctrica alicerçada num ritmo binário, a festividade Pop domina-a como se fosse um fugaz encontro entre o homem e a felicidade, “like you and me”. Victor Torpedo aproxima-se do público, “like you and me”, “full of dreams”, “about life”, empunha o microfone a um fã que canta: “About life”. A quarta canção tem como princípio o riff de um baixo eléctrico e o sintetizador polvilha-a de uma vertente puramente dançante. No ecrã está um homem musculado seminu a fazer inchar os seus músculos picados por seringas hipodérmicas com hormônio do crescimento. “Loose control”, “they are calling for us”, os sintetizadores revertem-na para um travo de danceteria decadente da década de noventa, “happy in this land”, “loose control”, solo da guitarra eléctrica e do baixo eléctrico convergem para um madchester rock and pop-roll, “people care about”. Das mãos do homem musculado verte um sangue de poupa de tomate. Palmas. A quinta canção tem a premissa do baixo eléctrico que é preponderantemente pontuada pela caixa de ritmos, “go to a place that I konw”, Victor Torpedo despe o blazer, “people to bite”, surgem samurais no ecrã, “I know”, a melodia é Pop com assomos de um low beat contínuo que enfurece o Rei da Capital do Rock: “you control me”. A sexta canção mistura as programações com o baixo eléctrico, “their`s a way”, a voz de Victor Torpedo tem os trejeitos de um crooner sem abrigo, no ecrã surge Elizabeth Taylor no papel Cleópatra num palácio dourado que se derrete com os raios do deus Sol, “crime”, que recusa “a life of crime”, a Pop é um estado de alma profundamente decadente. Palmas. O Rei de Coimbra é um rebelde: “A minha mãe, desde os meus catorze anos, que diz que eu não canto um caralho!”, dedica a sétima canção a “todos os emigrantes”. O baixo eléctrico e as guitarras semi-distorcidas repetitivas transpõem uma Pop dependente da década de noventa. “Wind”. “Fresh desire”. Antes da oitava canção Victor Torpedo avisa: “Isto está quase a acabar!”. A programação em loop corresponde a uma melodia dançável que injecta sincopadamente uma festividade desarmante: “my eyes”, “TV”, no ecrã um gordo de cuecas tenta apanhar um homem magro e minúsculo de cuecas, um é a ratazana o outro um gato branco. Na nona canção o baixo eléctrico inscreve uma métrica repetitiva e que é quase negra, “that love sucks”, o sintetizador retira-a da dor e impregna-lhe uma melancolia determinada, no ecrã uma mulher armada escala um rochedo do qual cai, a guitarra eléctrica sola agudamente, “I belive in what you say”, e as guitarras versam um universo Pop que não a libertam de uma tristeza endógena. Palmas. Victor Torpedo é perentório sobre a popularidade da décima canção: “Os meus fãs sabem esta!”. Esta denomina-se de “Only Gosts” que tem um groove em que perdura uma bipolaridade entre a Pop e a dance music da década de noventa do século XX promovida através de low fi. Victor Torpedo enquanto dança passa o microfone a membros do público, “it`s only gosts”, no ecrã surge uma cria elefante num jardim-de-infância, “a picture on the wall”. A próxima canção é “Meet my Tribe” e Victor Torpedo discursa no imperativo: “Esta é a última depois toco mais quatro ou cinco!”. O loop que a perpassa é um afro-beat, “Meet my tribe”, no ecrã surgem afro-americanos que dançam freneticamente e fazem baloiçar as suas cabeleiras do movimento bombista os Panteras Negras, eco: “Meet my tribe”, “OOOO”. Palmas. Victor Torpedo determina: “Isto acabou! Querem mais?”. A programação da décima segunda canção deriva de uma relação entre o MDA e a água resultando numa inconsciente leveza do ser e consequentemente promove a deflagração da inexistência de constrangimentos morais, o Rei da Capital do Rock encontra-se no meio do povo com os quais delira: “OOO”. A décima terceira canção é apresentada por Victor Torpedo da seguinte forma: “Querem mais? Esta música é a última! Depois toco mais duas ou três”. Corresponde a uma sátira ao twist, “OOO”, surgem no ecrã chineses vestidos de cabedal com poupas hiperbólicas que dançam ao despique, “auu”, “AHAHH”, “common”, o twist acelera e ganha uma proporção de trip do absurdo, um homem nas cavalitas de um outro surgem espontaneamente no palco. A décima quarta canção é melodicamente melancólica, “let`s make some love”, no ecrã aparecem cadáveres de militares americanos num teatro de guerra vietnamita, as guitarras reverberam como ecos de uma última valsa. A décima quinta canção denomina-se de “Il Est Deja Trop Tard” e o Rei de Coimbra faz um apelo sentido: “Conduzam com calma, vocês são uns alcoólicos!”. Tem um groove das caraíbas, no ecrã uma loura espampanante olha para o público que observa Victor Torpedo que canta: “Il est deja trop tard” como se fosse uma confissão de um boémio que recusa partir para casa. A repetição de “il deja trop tard” e dos respectivos acordes podem incutir a hipnose, logo a canção está proibida de ser ouvida por menores, “I love Coimbra”. Victor Torpedo empunha o microfone a uma mulher de cabelos lisos que vibra com a canção e aceita o repto e canta: “Il est deja trop tard”. O Rei da Capital do Rock despede-se dos fãs: “Au revoir mês amis”.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
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