quinta-feira, 23 de julho de 2015

Pink Elephants

Surge Mick Harvey no palco do Centro Cultural de Ílhavo em redor do qual estão quatro músicos—teclado/guitarra, bateria, baixo electrico, teclado/Guitarra eléctrica, a que se somam duas jovens cantoras: uma é loura a outra morena; e um quarteto de violinos—homenageiam o génio tumultuoso de Serge Gainsbourg, e concomitantemente o espectáculo reporta aos álbuns “Intoxicated Man” e “Pink Elephants” do cantor australiano que se apresenta: “I`m Mick”. O que se poderá relatar sobre este concerto baptizado de "Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg”? Há duas componentes distintas mas que inevitavelmente se encontram intimamente ligadas: a banda revelou-se segura mas inconsistente; a segunda: a voz de Mick Harvey, que tal como a da sua companheira Xanthe Waite, ficaram consubstancialmente abaixo do exigido--inicialmente ainda se pode supor que o culpado é o técnico de som da mesa da frente-- mas este aspecto foi-se gradualmente agravando e inexplicavelmente deteriorando. A lírica de Serge Gainsbourg é em determinadas canções muito palavrosa, encontra-se inscrita numa versatilidade poética recheada de imagens tão sedutoras quanto decadentes; e este último ponto raramente foi aflorado em Ílhavo. Uma pena. Antes de iniciar a “The Barrel of Mine 45”, um elemento do público tenta desestabilizar Mick Harvey que é um ex-Bithday Party, ex-Boy Next Door, ex- Nick Cave and The Bad Seeds: “You are a bad seed”; o silêncio cavalheiresco de Mick Harvey foi por este quebrado: “Past or present?”, de seguida discursou dizendo que não se sentiu minimamente incomodado com o grito, e encetaram numa vertente blues com domínio do órgão e do baixo. A verdade é que os pormenores instituidos pela banda e pelo quarteto de violinos, raramente encontraram uma consistência que daí resulta-se em algo próximo das melodias escritas pelo chanteur francais da mítica década de sessenta do século XX. Em “Je T'aime... Moi Non Plus” aproximaram-se continuamente do original e com os violinos a canção fluiu maravilhosamente; o dueto entre Mick Harvey e Xanthe Waite quase se aproximou dos de Serge Gainsbourg e da Jane Birkin. Há que salientar que quando Mick Harvey tocava congas aproximava-se de Slim Gaillard descrito por Jack Kerouac em “On the Road”, sendo assim não se lhe pode imputar falta de concentração durante o espectáculo: "Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg”, pena que os excelentes músicos que o acompanharam tenham sido capazes de apenas as recriar, incapazes de lhes incutir uma alma nova.

Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg, Mick Harvey, 22 de Julho, Centro Cultural de Ílhavo @ Ílhavo

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Metamorphosis

A noite há muito que apagou as cores dolorosas do Verão e inevitavelmente a humidade impõe-se como denominador comum. A escuridão é parcialmente iluminada pela lua cheia que se ensimesma na freguesia de S. Silvestre e particularmente na mata do Camalhão, onde se realiza o Kamalhão Rock Fest. No palco principal encontra-se o power trio Cavemen, que apresentam um conjunto de canções em que vogam pelo funk, blues, rocka billy, reggae; e pelo rock, mas quando este é salpicado por variações rítmicas e consequentemente ganha a vertente trip, conseguem enfeitiçar o punhado de pessoas que os estão a observar. Persigo um perfume incaracterístico que flutua no ar e me orienta em direcção ao palco 2 onde se encontra o duo JAE Sessions a executar uma partitura free-pop de forma magistral. Se eventualmente me desloco na direcção do bar de madeira para encher de cerveja uma taça de metal, é porque a sede somente se mata momentaneamente; cruzo-me com figuras que envergam t-shirts com a inscrição do “Kamalhão” que se destina a uma imensa minoria habituada à urbe. Alguém observa que um satélite é iluminado por segundos pelo Sol, nesse instante somos testemunhas de um milagre com origem na tecnologia nipónica e na natureza divina. No palco principal estão os The Casket Kings, têm roupa aprumada e os penteados ostentam poupas com gel, estes são os elementos decorativos da estéctica rocka billy; musicalmente há uma guitarra eléctrica, um contra baixo sustentado pelo corpulento cantor e ainda uma bateria que se exibe arritmicamente, algo que o exaspera: “Dá licença?”; se não houvesse um conflito em palco não estaríamos perante uma banda rocka billy? Há espaços este vai-se diluindo no tempo e os The Casket Kings ganham uma fluidez compacta, manchada pela tarola a sobressair negativamente por questões técnicas. Há a realçar dois pontos: a guitarra eléctrica a inscrever-se continuamente entre o rock e Southern rock, e o canto do homem do contra baixo com forte pronuncia sulista que não destoaria numa igreja católica erguida pelo Ku Klux Klan. Oiço distantemente o palco 2 onde os JAE Sessions reverberam num reggae que é violentado ludicamente pelo funk. Algo se esfuma para o interior de um corpo, que atravessa o recinto em direcção ao palco principal para observar os impetuosos King Salami and The Curbaland 3. Liderados por um mulato que veste calças castanhas da década de 70 do século passado e uma boina digna de um boémio do Soho londrino, ele é quem domina as canções com um timbre tão lascivo quanto o do James Brown. O quarteto tem uma sintonia sónica irrepreensível, adicionada a coreografias absurdas que realçam uma ironia parodiada constantemente. As canções têm uma base predominantemente Rhythm & Blues ao qual injectam diversas estécticas, umas vezes o resultado é excelente, outras-- por óbvia oposição-- é redundante (o responsável é a secção rítmica). No balcão do bar de madeira surge um homem com vestes negras coberto por um casaco branco, e um outro com a mesma indumentária; ouve-se uma voz a dizer: “velha”; “sulfatar”; “HAHHA”; “milhafres”; “milhafres do Kamalhão”; “Lucifer”; “escritor”; “demónio”; e a ordem inesperada: “pega num gato e leva-o para o Kamalhão”. E “o espírito da velha tem que ser convocado”; “para quê fazer hierarquias?”; de forma infantil o narrador pronuncia-se: “Lálálálálá”; ameaçadoramente: “milhafres”; “merda”. Um dos actores atira-se para a terra batida e corre em direcção ao centro do recinto e leva nas mãos o sulfato do diabo que compartilha com um espelho multifacetado. “Kamalhão! Kamalhão! Kamalhão!”. O foco incide sobre o palco principal mas não surgem os músicos, o silêncio domina por longos instantes a natureza dormente; por fim surgem os quatro músicos: guitarra, guitarra e voz, bateria e contra baixo; este puxa as cordas mas não consegue ouvi-las do respectivo monitor e consequentemente recusa dar início à primeira canção. O cantor está desanimado e nervoso, veste fato escuro e camisa vermelha que sobressai na gola; pede desculpa pelo sucedido, não era assim que se encontrava no “teste de som”, abandona o palco. Chamam-se The Dixie Boys e vieram do Porto provar que o seu rocka billy é mais puro do que uma garrafa de Jack Daniels, e com mais personalidade do que um imitador de Elvis Presley em Las Vegas.

A lua encontra-se com um véu de sujidade ao seu redor e a luz que emana é tão pulverizada quanto uma obra de Noronha da Costa. No palco principal encontram-se dois performers; um discursa para o microfone de forma lasciva enquanto empunha as mãos com garras horrificas: “corrupção”; “descodificação dos mecanismos democráticos”; a guitarra versa o hard rock primata, hair metal piolhento, estes clichés detonam o texto do orador. “GAL- Para um País sem Lobbies” é um discurso crítico sobre Portugal, o Político usa o mecanismo da quebra da quarta parede-- pois discursa directamente para o público-- a sua contra cena é a guitarra eléctrica do adjunto. O Político lidera um partido utópico pois parte do princípio que da anulação do mal obteremos o bem e consequentemente seremos finalmente civilizados? Há uma arrogância neste político, que não está em campanha eleitoral para umas eleições imaginárias, mas que tem a pretensão de questionar os respectivos responsáveis pela prostituição de Portugal. Por ventura, creio que estou algures iluminado por uma luz intermitente que se acende no palco 2 onde os JAE Sessions apresentam uma latitude prog com laivos de flamenco, sintetizados numa vertente jazz que se prolonga temporalmente numa visceral jam. As árvores dançam os seus ramos em direcção às estrelas enevoadas, que fantasmagoricamente abrem os braços e com as mãos empurram os Destroyers of All para o palco principal. Correspondem a um quinteto de metaleiros que abanam violentamente a cabeça com largas cabeleiras enquanto tocam nos seus instrumentos distorcidos, revela que estamos perante uma trupe de viciados no speed metal, heavy metal; a voz gutural, do único membro que tem o cabelo à tropa, é de uma violência diabólica. Duvido que a paisagem naturalista esteja em consonância com as canções dos Destroyers Off All, habituada que está a metamorfosear-se poeticamente de estação em estação do ano, segundo o calendário ditado pelos romanos. As figuras que se entrecruzam comigo estão a acelerar o passo para ver no palco principal do Kamalhão Rock Fest, Tracy Vandal que veste mini-saia metalizada e t-shirt preta; acompanhada por dois músicos nos teclados/guitarra. As canções que apresenta são de uma visceralidade synth pop, que a levam a saltitar ou deitar-se no palco ou a sentar-se na sua borda; a performance de Tracy Vandal é tão intensa quanto uma criança a brincar às escondidas com o Bela Lugosi, seria pernicioso reduzir o seu concerto a uma figura de estilo que não seja uma hipérbole. É nula a distância que me separa do palco 2, os acordes dos JAE Sessions acendem uma fogueira onde emolam o jazz e o reggae, enquanto jovens se atiram de pranchas de surf sobre uma pista em declive com uma superfície de esferovite. Quando Jibóia introduz os primeiros beats da sua mesa analógica-- atrai para o palco principal os festivaleiros-- adiciona-lhe a guitarra eléctrica da qual executa solos agudos que introduz na mesa, mistura-os com o beat e rejeita um composto tão venenoso quanto tóxico. O músico é um rapaz magro e tímido que ostenta um bigode indie, que está tão comprometido com a sua actuação quanto uma Jibóia a deglutir uma vaca em formol do Damien Hirst. A Jibóia tem a particularidade de ser bicéfala, quando surge Sequin, uma jovem de jeans e blusa clara, que introduz através do seu canto de virgem indiana um exotismo inexcedível às canções; quando desaparece e aparece de mini-saia a temperatura ambiente é acicatada, pena que a sua expressão corporal fique contraída com alguma timidez, caso contrário o concerto teria sido tão-somente sublime. E agora? A encerrar o palco principal do Kamalhão Rock Fest encontra-se Victor Torpedo de fato escuro, que apresenta o one man show “Karaoke”. As canções que são debitadas por um computador versam a Pop lo-fi, às quais se acrescenta a sua voz ao vivo e as letras retratam um crooner looser dandy. A sua performance é alicerçada nestes três pontos aos quais devemos adicionar a auto-punição-- com o microfone a estoirar na testa como se daí eludisse o principio do absurdo. Victor Torpedo é provocador ao despir o fato e a vestir um fato de astronauta, pede ajuda a um membro do público para lhe fechar o fecho das costas, segura no que parece ser um guarda-chuva e nasce um heterónimo com origem em Fred Astaire e Charles Chaplin. Um punhado de jovens sobe ao palco e dançam constantemente, um destes ostenta uma bandeira com um pau desmedido, que é roubada por Victor Torpedo que a atira sobre a borda do palco e estoira como um Big Bang Pop, que coroa a sua performance com rasgos de inevitável genialidade.


Kamalhão Rock Fest, 3 e 4 de Julho, S. Silvestre--Camalhão @ Coimbra

terça-feira, 9 de junho de 2015

Primavera Sound

Noite quente na baixa de Coimbra e a esta temperatura não é alheio o Salão Brazil onde decorre o Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo. No palco encontra-se o curador Carlos Dias ou Carlos Subway quando assume a sua persona de músico nos Subway Riders; promete: “que vão ser dois dias de loucura absoluta”, mas o acaso subtraiu potências festivaleiros, tudo por culpa “do Primavera [Sound]”, que se encontrava em simultâneo a decorrer no Porto e das “marchas”; mas para gáudio dos presentes Carlos Subway acrescenta que há uma estrela contratada “à última da hora”, essa é nada mais nada menos que “kazuza”. Alexandre Valinho Gigas é poeta e diseur e fá-lo concentradamente sobre o loop, o poema versa sobre alguém que se encontra numa situação desesperada, causada por um acidente e que tem como companhia uma “garrafa de gin”, vê o “limite” onde passa o tempo a “olhar para ela”, “onde repousa inquieta”; sobre o loop, “liberdade”; “garganta”; “as palavras isoladas: pois”; “translúcido”; “tão só”; “o odor a fresco”; a voz de Alexandre Valinho Gigas aumenta o seu dramatismo, “outro lado”, “outro lado”, “outro lado”; “outro lado”. O primeiro músico a subir ao palco do Salão Brazil é o Marquis de Cha Cha que apresenta um conjunto de canções ecléticas, em que o pormenor gradualmente ganha domínio e se estabelece como denominador comum; a música concreta marca lugar através do uso de um objecto que arrebenta e que espalha cofetis coloridos pelo chão; o uso do megafone como se fosse uma voz estranha. Os universos sonoros por onde nos faz viajar é a feira com cavalos de pau saltitantes, a austeridade kitsch da música clássica, a paródia ao rock e ao rocka billy e à infância através do xilofone, tudo delineado com uma elegância irrepreensível. Carlos Subway que é o mestre de cerimónias do Mono/Stereo assume que: “Já a seguir mais uma estrela de Portalegre o Johnny Luv & os Hate Killers, mas antes mais umas palavras do Gigas”; que coloca a voz sublinhando os graves: “essa força”; “há uma força em mim maior que as intempéries”; “toda a gente vê casas coloridas”, dominadas por uma “impaciência frágil”; “na cave sombria” o nosso corpo é um “bunker certo, a recogitar”; “poema”; “sou um obelisco”; “estéctica”; “liberdade”. Surgem os Johnny Luv & os Hate Killers, que na verdade é a banda de um jovem magro e branco que se senta na cadeira e ergue a guitarra eléctrica e dirige-se directamente para o escasso público: “Boa noite pessoal!”. A relação voz + guitarra eléctrica + caixa de ritmos é de facto ainda muito imberbe, mas há algo de especial nas suas canções que é o absurdo das letras, repetitivas e primárias e consequentemente destituídas de lógica: a primeira versa a sua aversão ao “Sushi”, a segunda “Chic Guitar` vamos ver se corre bem”, a terceira inscreve estilisticamente o rocka billy; antes da quarta há um percalço: “Esqueci-me da letra!”; o público identificou as potencialidades Pop de “Sushi” e clama pela canção; o músico: “Ok! Sushi!”, despe a t-shirt e no peito tem uma cruz tatuada a preto e no pescoço um fio grosso, canta/fala repetitivamente sobre a guitarra não sincronizada com a caixa de ritmos: “Sushi up your ass”. Palmas. Carlos Subway é perentório: “Estamos com mais público”; conclui: “Estamos a roubar público ao Primavera [Sound] e às marchas!”. Reapresenta o “Gigas” que se dispõe a narrar mais um poema sobre o som arábico: “as trevas e a luz” são as sombras que “seguem a minha amante” e no silêncio “sem música silenciosa” surge “o céu azul de nada”; “outra vez”; “céu azul” em derrocada. Alexandre Valinho Gigas muda de poeta “e agora Heiner Müller”, a sua voz é frugalmente agressiva pois tem a língua ferida, “mostra” (agudo), o canibal: “ouvi estalar então os seus dedos”, o teclado emite sons densos e dilacerantes de tão introvertidos, a morte “inolvidável”, eu de “sorriso inolvidável”, ele “não sabe nada”, ignora “o terror” que é “carne quotidiana”, um escravo “da espécie” faz parte de “o terror o seu terror, o nosso terror”, “carne”, merda, “gordura quotidiana, grito da criação”, reflexo, “a indecência da espécie”. O terceiro convidado do Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo é o Bode que corrresponde a um indivíduo denominado de Bode Rice. Este utiliza programações maioritariamente etéreas beliscadas pela guitarra eléctrica, através desta relação constrói canções numa cadência progressiva com inúmeras texturas, tudo tão bem executado que os fiordes que erige estão constantemente banhados com sangue de baleias e orcas que se recusaram morrer às mãos dos arpões japónicos. Palmas. Alexandre Valinho Gigas descreve que “ele nunca viveu” e consentaneamente “morreu à procura da causa”; “morreu à procura da causa”; “morreu à procura da causa”; “a causa estava a morrer à procura dele”; um homem seco de esperança pois “nunca deu o seu coração aos seus irmãos” e em vão divaga “por toda a cidade à procura da causa”, a esquizofrenia é alimentada pela “overdose”; “alicerces”; sobre o seu caixão “bandeira para sempre”; “ele morreu à procura da causa”; “morreu a manhã”; o Alexandre Valinho Gigas num falsete que encanta: “morreu cego, surdo e mudo”; impositivamente: “nós aqui somos a causa”. Os quintos convidados são os Subway Riders, a banda do ausente Augusto Subway, Victor Subway e de Calhau Subway liderados pelo mítico Carlos Subway, que tem o dom da palavra: porque “não nos convidam a nós para organizar um Primavera [Sound]?”; ainda por cima: “roubou-nos público!”. Depois do acidente de Johnny Luv & os Hate Killers, os Subway Riders confrontam-se com dois problemas: “não temos teclista” , e “nem baterista, mas temos a Paulinha [Nozzari]”, que enverga um vestido de princesa num conto de fada em que o palácio é um labirinto entre a fantasia e a realidade e assim surge Jackie la Feline pintada por Tim Burton. As canções que apresentam são de uma visceralidade sónica que versa por vezes a cacofonia, ao segundo tema surge Chau Subway que se coloca ao lado de Jackie la Feline a acompanhar o seu ritmo catártico, “AUAUUAUA”. Carlos Subway agradece à “grande Paulinha Nozzari” ou Jackie la Feline (que abandona o palco do Salão Brazil), anuncia que “é a primeira vez que o Chau [Subway] vai tocar sentado” na bateria “num concerto dos Subway Riders”. Antes da quinta canção chama ao palco “o grande Kazuza”; “vai buscar o teu micro”; e é ouvi-los a debitar uma canção rock and billy-- mas desconstruída-- com o Kazuza a vociferar indiscriminadamente a sua voz de vento de Inverno, enquanto investe sobre a multidão numa salutar demência. A sexta canção cita os acordes do clássico “Satisfaction” dos Rolling Stones, Kazuza entoa a letra numa perspectiva de uma criança fechada numa cave onde é violada pelo padre católico. Palmas. Carlos Subway discursa sobre as características únicas do Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo: “Trinta e cinco minutos para cada banda”, com “só um palco, não têm que se perder de palco em palco e não vêem as bandas” todas, algo que sucede no Primavera Sound. Os Subway Riders tocam a última canção que versa um rock psicadélico com direito a solo da bateria de Chau Subway. Por fim, uma dupla denominada de JAE Sessions, constituída por Paulo Travassos na bateria e por Zé Djalo na guitarra eléctrica, a relação que estabelecem tem duas vertentes centrais: a dinâmica e a melodia, neste composto percorrem diversos géneros musicais, mas uns resultam simples e consequentemente previsíveis, outros complexos e por vezes imprevisíveis, executado segundo critérios que deveriam estar diluídos nas suas composições e dessa forma encontrariam a emancipação.
A tarde está abrasiva na baixa de Coimbra, no palco do Salão Brazil encontra-se o infatigável Carlos Subway, que expressa o seu descontentamento para com o escasso público no Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo: “Ontem fomos roubados pelo pessoal do Primavera [Sound]”; mas uma estrela, que se estivesse no céu seria gigantesca, salvou a noite de ontem: “O Kazuza esteve em grande”. Anuncia o poeta/diseur: “Gigas e eu vou manipular o piano” de cauda, a toada que implementa é da música contemporânea, Alexandre Valinho Gigas toma a palavra, quem “inventou a civilização”? “Foste a resposta, o equilíbrio entre as duas”, o Ícaro pegou numa “pedra e matou-o”, assim “tinha inventado uma arma”. O primeiro convidado da tarde é o Drunk Dancer que tem uma t-shirt psicadélica, que apresenta um conjunto de canções que têm por base um groove dançante, as melodias que reproduz são cativantes mas têm três problemas: não têm uma estrutura definida algo que inscreve alguma monotonia, são melodicamente muito similares umas às outras e esta homogeneidade é de facto redundante; para além das vocalizações em inglês serem de tal forma desgarradas que não acrescentam qualidade Pop às canções. Segundo Carlos Subway: “foi o mítico Drunk Dancer” e “agora são “os Vaginas Convulsivas”; “antes de mais, anda para aí um boato que os Vaginas Convulsivas andam a roubar as músicas aos Subway Riders, é verdade”, faz eco da sua contínua ironia: “Os Subway Riders têm que roubar as músicas aos Vaginas Convulsivas”. Mas antes, é a vez de Alexandre Valinho Gigas: perturba-o “isto de facalhões e palavras”, assim como “o inominável”; e as “cores salientes”; “de todas as cores”; ah “isto da solidão acompanhada” é uma merda, “a ironia da história” advém da “impermeabilidade ao toque”. Icáro pretende alcançar “o sol dos dias da minha aventura”. Carlos Subway toma o seu lugar no centro do palco ao lado de Calhau Subway e Chau Subway, diz que a primeira música é um: “original que os Subway Riders nos roubaram”; é o espelho de todas as que irão tocar: uma excelente decomposição de géneros adjacentes ao rock e nessa medida fazem parte da new wave nova iorquina da década de setenta do século passado, devidamente representadas por letras absurdas. Entra em cena Alexandre Valinho Gigas: vamos “alucinar com o Rimbaud”: “a virgem doida”; “que vida”; “neste momento”; “delírios nem torturas”; “sofro grito” como um golfinho que vem à superfície respirar, “tudo é permitido”; e a frustração perante a chegada da velhice: “desperdicei corações”. A voz de Alexandre Valinho Gigas é a de um torturador a impedir a sua vítima de adormecer dia após dia, eu sou “aquele que perdeu as virgens doidas” numa madrugada de céu turbulento sobre um mar encapelado, fundem-se raios selvagens que acendem uma vela minúscula no horizonte encoberta pelas nuvens cinzentas. “Um pouco de ar” para que o corpo inconsciente se sinta vivo pela última vez, “misteriosas”, surge a voz de uma “querida” que é o representante do “demónio” que determina: “Anda cortar-me o pescoço”. Empunha a espada e reflecte sobre a mortalidade: “todas estas coisas por onde tens passado”; “olhos”; “anda para bem longe” onde “o mar está por inventar”; a declaração que ele é o Diabo em carne e osso: “sou de raça remota”, a voz ganha uma violência desmedida: “ferveram as costelas, bebi o próprio sangue”; “vereis que morri”? Carlos Subway constata: “Está calor!”; apresenta: “G.G Ramone do Porto”. O seu espectáculo tem por base canções pré-gravadas dos originais dos Ramones mas executadas por três dos seus membros, já que G.G Ramone mimetiza (ao vivo) na perfeição a guitarra eléctrica semi-distorcida de Johnny Ramone, numa análise racional parece uma proposta absurda, mas a sua postura séria e concentrada obriga a fixar o olhar sobre este homem com um boné azul com a inscrição N.Y a esconder a falta de cabelo, se não fosse a barba esbranquiçada julgaríamos que estaríamos perante um adolescente egocêntrico. Os três Ramones poderiam surgir consubstanciados em hologramas e estaríamos perante um espectáculo arrebatador. Se estivesse ao meu lado Andy Warhol diria que se poderia “equivaler a um ready made sonoro”, que estaria na disposição de filmar G.G Ramone na Factory e dessa forma “elevá-lo à obra de arte”. A poesia ouve-se da voz do incansável Alexandre Valinho Gigas: “vou ser apedrejado pelos mares”; “vou ser um asteróide”; “ó noite”; há vazio no “espaço”; “ligeiro e impalpável”; “majestática dignidade do silêncio”; “dos seres que se devoram”; inevitavelmente ocupado por “criaturas que rastejam” na noite, “ó noite”, “tudo constróis”; naturalmente: “em seu abandono”, com ondas de “sangue derramado sobre o mundo”; “ó noite”; “via láctea” que nos ensombra, “sombra”; “grande noite” denso arvoredo de almas a flutuar “outra vez”; “nunca houve noite”; “definitivamente aliás”. Carlos Subway sublinha que foi: “mais uma fantástica apresentação do Gigas!”, anuncia que os “Subway Riders decidiram ligar a um promotora e criar um festival”, que se supõe que será a segunda edição do Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo: “Para o ano há quatro dias de festival” com “bandas mais fora”; “pessoas amigas” e por fim remata: “Divirtam-se com os Mokes”; um quarteto composto por uma guitarra eléctrica, uma segunda guitarra e voz, baixo eléctrico e bateria. As canções que apresentam têm uma base predominante Pop, algumas das quais pecam por apresentarem soluções que redundam em clichés, mas o interessante é a distorção que contra balança positivamente e lhes oferece uma textura rock que controlam profissionalmente. Carlos Subway assume pela última vez o papel de representante do festival: “A última banda são os Carne Pa Canhão” para “o ano cá vos espero se não forem ao Primavera [Sound]!”. Os Carne Pa Canhão são um quarteto: guitarra e baixo, voz e bateria e as suas canções versam o punk, com uma dose de distorção elevada e as dinâmicas que implementam são vibrantes e deveras agressivas sem que resvalem na redundância. Os quatro músicos estão pintados e vestidos de guerreiros Apocalipse, usam um adereço que é uma caixa/TV atrás da qual canta o Comando, a sua voz deflagra em ordens diversas, a principal é que os alienados e os funcionais são todos: “Carne para canhão”.

Mono/Stereo—O Maior Pequeno Festival do Mundo, 6 e 7 de Junho, Salão Brazil @ Coimbra

Susan Sontag

  O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...