A Super Nova está à um dia de se revelar monstruosamente bela, prevê-se que seja uma bola de fogo que de tão morna ilumine o que resta do Planeta Terra. O ar transpira a um salitre húmido que tem um travo tóxico provindo de duas fábricas trituradoras dos assassinos eucaliptos que colonizaram Portugal, da mesma forma que o português no Brasil criou o mulato símbolo vivo da eloquência da alma que emancipou a saudade. As gaivotas planam eternamente insatisfeitas por a pesca da sardinha ter sido interdita aos pescadores, grasnam como se fossem espantalhos a apelar por misericórdia para com a escravidão a que a natureza lhes impôs. As ruas da Figueira da Foz estão numa sangria de figuras que passeiam o passeio de ontem e se hoje fosse ontem, que razão para existir valeria a pena, pergunto, se o passeio não fosse ontem o que seria de nós, que vazio nos alimentaria para dessa forma darmos sentido à vida, dá-me a tua mão e o teu beijo de madressilva patrocinado pelo Báton comprado no Rock and Vintage FleaMarket. Entramos atrasados numa garagem que não disfarça o infortúnio de ter sido pasto a carros durante diversas décadas, das suas veias ainda jorra o óleo que é acesso e propagado pelos demoníacos Parkinsons, força bruta de Brutus de guitarra dilacerantemente distorcida, o Minotauro tem o tronco esquálido nu, “caralho”, vocifera para o microfone ordens de combate contra os amores frustrados, mas sob uma perspectiva irónica de quem está habituado a ser um looser, à sua esquerda está um homem de bigode de chulo da revolução dos cravos que executa o baixo com uma pulsão rock, a sua companheira é Jackie la Feline que bate nos pratos e no bombo como se estivesse a impor o coma a um psiquiatra, por fim uma figura de óculos como lupas, barba, e mãos sensíveis que teclam poeticamente inscrevendo na barbárie uma harmonia negra, negra, negra. Os Parkinsons são um colectivo de psiconautas que escarram uma violência incomensuravelmente desmedida que durante uma hora impôs um estremecimento aos dias em que a rotina cega os corpos e lhes impõe uma insensibilidade para com o passeio para a morte, essa sombra que é o negativo da vida. A garagem fervilha de entusiasmo revelando rapazes gordos e magros depilados a dançarem no palco e atirando-se sobre o público; um dos quais mede forças com o Minotauro e esfregam os peitos suados e separam-se antes de se engalfinharem publicamente; o público recebe com redobrado entusiasmo as investidas do Minotauro que carinhosamente estende a mão a uma criança de vestido de noiva cor-de-rosa, assim como as deambulações épicas de Brutus com a sua guitarra que por vezes deflagra das chamas do Jimi Hendrix ou é snifada pela de Keith Richards. A apoteose é perfeita pois coloca os Parkinsons no pedestal dos hereges supremos veiculadores do punk. As pranchas de surf que me separaram do palco são as mesmas que me impedem de ver pormenorizadamente Los Black Jews, há uma belíssima long board de que são fãs os tubarões que têm como fetiche bocanhar umas pernas cobertas por fatos da Billabong, para matar a rotina de dias a sondar a presença de corpos e de preferência que seja o de um black jew, que beija com submissão a fotografia de Netanyahu. Este quinteto tem uma jovem na guitarra que “faz” coros, os restantes rapazes dividem-se por um teclado, bateria, guitarra eléctrica/voz e baixo, a música que promovem é quente e ritmadamente dolente, como se fossem raios de sol a incidir sobre a Califórnia da década sessenta do século XX em que a América transformou a praia e o surf numa indústria em que os jovens usavam melenas wax e elas defendiam a virgindade da investida das ondas que espargiam esperma. A maioria das canções são um tónico que nos remete constantemente para um universo sonoro ao qual não acrescentam soluções inolvidáveis, verdade, que quando impuseram um ritmo acelerado a uma das canções esta ganhou contornos psicadélicos deveras entusiasmante já que nesse instante conseguiram transformar o palco numa ilha do pacífico com um mar revolto em topázio sob um céu rupestre. As vozes que me acompanham dão as mãos para comunicar através da energia produzida pelo corpo humano, ditado pelo imortal coração que desconhece o véu que o impede de rever-se no seu espelho, Super Nova foi ontem e marcou o passeio do passado, como deves estar entendido através das notícias nos jornais, e é certo que as gaivotas são riscos brancos que riscam a noite como se fossem aviões à jacto, o cheiro a madressilva desapareceu e impera o odor fresco dos ciprestes que anunciam o fim do mês do Agosto quando somos invadidos por emigrantes. Se houvesse justiça no mundo a carta teria sido respondida selada com um beijo com Báton, mas ela jamais foi entregue pelo carteiro do Pablo Neruda. Hoje não há os mistérios extravagantes da lua nem tão pouco a sombra sobrevive, o silêncio não é mais do que a ausência de som, um é a solidão o outro a companhia. Sobre o palco encontra-se um marinheiro a ler uns nomes imperfectíveis, é uma figura que poderia figurar no elenco do “Love Boat”, estou certo que Michael Jackson o levaria para a sua “Never Land”, os D3Ö estão pacientemente à espera que o marinheiro cesse o seu discurso. A violência que implementam é contínua e constante num revirar de páginas de um diário escrito por uma mãe suicida, um bloco sonoro a espaços dilacerado pelas guitarras que são tão incandescentes quanto um tiro solar; quando sobe ao palco um homem que enverga um baixo eléctrico embrulhado no jornal “O Crime” as canções são salteadas numa visceralidade incorruptível; se por instantes surge um gigante dos teclados o compromisso é o da delicadeza e equilíbrio melódico; a harmónica imprime um blues que é gradualmente estilhaçado nas malhas distorcidas do rock, com direito a um spoken word demoníaco. Há invasões constantes do palco e o caos é gerido por uma caveira que é naturalmente demente e se deixa levar em braços por entre o público, uma óbvia encenação orientada por um Deus que não é imune ao Rock and Roll.
Gliding Barnacles, 27, 28, 29 de Agosto, Garagem Auto-Peninsular @ Figueira da Foz
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
domingo, 16 de agosto de 2015
sábado, 15 de agosto de 2015
On the Road
Há uma composição de igreja ateada por jovens do Ku Klux Klan que marca a entrada em palco dessa força armada denominada de GNR—Rui Reininho (voz); Jorge Romão (baixo eléctrico); Tóli César Machado (guitarras, teclado, acordeão) aos quais se juntam Samuel Palitos (bateria), Andy Torrence (guitarra eléctrica) e Paulo Borges (Hammond e afins). Para os mais distraídos-- e que são muitos neste este país onde graça o engano e a má língua-- os trinta e quatro anos percorridos pelos GNR, não foram em vão ou gratuitos; ou tendo como fim único o lucro; ou terem vivido de feitos históricos para todo o sempre: e por tudo isto e muito mais, o trio sediado na cidade do Porto, terão um lugar cativo num panteão Pop. Há uma alegria contida mas desmedida por parte dos GNR em apresentarem ao povo as canções do último albúm “Caixa Negra” com a excelente produção de Mário Barreiros. Mas antes, tocaram de forma irrepreensível: “Telephone Pecca”; “Popless”; “Vídeo Maria”; “Efectivamente”; “Tirana”; perderam o fôlego? Todas dignas de figurarem no manual escolar de como escrever canções Pop sublimes, para serem recordadas para todo o sempre; e se Deus fosse crente seria fã dos GNR mesmo que estes tenham pecado ao libertar a virgem Maria da sua virgindade-- como que um cinto de castidade orgânico imposto por anjos castrati. O tema que dá título ao décimo segundo álbum de originais “Caixa Negra” tem todas as qualidades melodicas para apresentar um passado revigorado e consequentemente é actualmente um composto Pop kitsch; liricamente está mergulhada numa ambiguidade desarmante que ao ouvinte ecoa como um jogo de espelhos onde se reflectem cegos. “Triste Titan” é uma bomba de inexcedível delicadeza sumptuosamente agridoce, se fosse um relógio seria de sol, se fosse amor seria uma eterna paixão; e se não tivesse sido composta pelo Tóli César Machado jamais alguém teria tal talento. Rui Reininho redigiu/canta um poema que é uma declaração de amor a Portugal, quem mais vai a “banhos, a milhares de anos”? Maravilhoso. A temperatura aumenta com “Cais” que é vilipendiada pela fúnebre “Morte ao Sol” e electrocutada por “Las Vagas” e por fim “Ana Lee” exorciza o seu exotismo erótico. “MacAbro” parece que foi composta por um músico no convés de um navio onde os ratos são pessoas, que oram para que a neblina fantasmagórica não seja do teor das suas almas; o coro composto por Jorge Romão e por duas silhuetas masculinas são iluminados por um sangue que pinga das luzes da ribalta, que identificam a incapacidade de nos libertar da fatalidade que a vida impõe. “LáLáLáLáLá”. “Asas”; “Pronúncia do Norte” e “Sete Naves” deveriam constar como estrelas num firmamento embriagado perseguido por um poeta em busca da sua musa para que lhe permita redigir uma ode à sua beleza. “Cadeira Eléctrica” é digna de uma beleza Pop acelerada para além dos limites que perpetuam uma redundância existencial, não há promessas na lírica do Rui Reininho, o paraíso é uma montanha de notas de crédito artificiais. “Sangue Oculto” é dominada por um Rock and Roll em duas vozes: uma castelhana a outra lusa, asseguradas exclusivamente por Rui Reininho. “Dunas” tem uma cadência da década de sessenta em que a ingenuidade foi anulada pela beat generation que transformou a América num lugar sombrio e marginal onde as flores são de alcatrão que rasgam os desertos e transportam os passageiros para estâncias alucinogénicas. Stop. “Sub 16” e “Mais vale Nunca”, a primeira é uma canção Pop que sentencia os “Djs” ao enforcamento, por instituírem o vazio e a futilidade como cultura dominante; a segunda é a canção preferida do Peter Pan nascido na Terra do Nunca vizinho dos GNR. Viva o “Inferno”, que se fosse o de Dante estaria em constante combustão, mas como é o do Roberto Carlos essa múmia residente do ié brasileiro, é violentada pelos GNR!
Caixa Negra, GNR, 14 de Agosto, Festival do Bacalhau @ Gafanha da Nazaré
Caixa Negra, GNR, 14 de Agosto, Festival do Bacalhau @ Gafanha da Nazaré
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Pink Elephants
Surge Mick Harvey no palco do Centro Cultural de Ílhavo em redor do qual estão quatro músicos—teclado/guitarra, bateria, baixo electrico, teclado/Guitarra eléctrica, a que se somam duas jovens cantoras: uma é loura a outra morena; e um quarteto de violinos—homenageiam o génio tumultuoso de Serge Gainsbourg, e concomitantemente o espectáculo reporta aos álbuns “Intoxicated Man” e “Pink Elephants” do cantor australiano que se apresenta: “I`m Mick”. O que se poderá relatar sobre este concerto baptizado de "Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg”? Há duas componentes distintas mas que inevitavelmente se encontram intimamente ligadas: a banda revelou-se segura mas inconsistente; a segunda: a voz de Mick Harvey, que tal como a da sua companheira Xanthe Waite, ficaram consubstancialmente abaixo do exigido--inicialmente ainda se pode supor que o culpado é o técnico de som da mesa da frente-- mas este aspecto foi-se gradualmente agravando e inexplicavelmente deteriorando. A lírica de Serge Gainsbourg é em determinadas canções muito palavrosa, encontra-se inscrita numa versatilidade poética recheada de imagens tão sedutoras quanto decadentes; e este último ponto raramente foi aflorado em Ílhavo. Uma pena. Antes de iniciar a “The Barrel of Mine 45”, um elemento do público tenta desestabilizar Mick Harvey que é um ex-Bithday Party, ex-Boy Next Door, ex- Nick Cave and The Bad Seeds: “You are a bad seed”; o silêncio cavalheiresco de Mick Harvey foi por este quebrado: “Past or present?”, de seguida discursou dizendo que não se sentiu minimamente incomodado com o grito, e encetaram numa vertente blues com domínio do órgão e do baixo. A verdade é que os pormenores instituidos pela banda e pelo quarteto de violinos, raramente encontraram uma consistência que daí resulta-se em algo próximo das melodias escritas pelo chanteur francais da mítica década de sessenta do século XX. Em “Je T'aime... Moi Non Plus” aproximaram-se continuamente do original e com os violinos a canção fluiu maravilhosamente; o dueto entre Mick Harvey e Xanthe Waite quase se aproximou dos de Serge Gainsbourg e da Jane Birkin. Há que salientar que quando Mick Harvey tocava congas aproximava-se de Slim Gaillard descrito por Jack Kerouac em “On the Road”, sendo assim não se lhe pode imputar falta de concentração durante o espectáculo: "Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg”, pena que os excelentes músicos que o acompanharam tenham sido capazes de apenas as recriar, incapazes de lhes incutir uma alma nova.
Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg, Mick Harvey, 22 de Julho, Centro Cultural de Ílhavo @ Ílhavo
Intoxicated Man: Mick Harvey performs the Songs of Serge Gainsbourg, Mick Harvey, 22 de Julho, Centro Cultural de Ílhavo @ Ílhavo
terça-feira, 7 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Metamorphosis
A noite há muito que apagou as cores dolorosas do Verão e inevitavelmente a humidade impõe-se como denominador comum. A escuridão é parcialmente iluminada pela lua cheia que se ensimesma na freguesia de S. Silvestre e particularmente na mata do Camalhão, onde se realiza o Kamalhão Rock Fest. No palco principal encontra-se o power trio Cavemen, que apresentam um conjunto de canções em que vogam pelo funk, blues, rocka billy, reggae; e pelo rock, mas quando este é salpicado por variações rítmicas e consequentemente ganha a vertente trip, conseguem enfeitiçar o punhado de pessoas que os estão a observar. Persigo um perfume incaracterístico que flutua no ar e me orienta em direcção ao palco 2 onde se encontra o duo JAE Sessions a executar uma partitura free-pop de forma magistral. Se eventualmente me desloco na direcção do bar de madeira para encher de cerveja uma taça de metal, é porque a sede somente se mata momentaneamente; cruzo-me com figuras que envergam t-shirts com a inscrição do “Kamalhão” que se destina a uma imensa minoria habituada à urbe. Alguém observa que um satélite é iluminado por segundos pelo Sol, nesse instante somos testemunhas de um milagre com origem na tecnologia nipónica e na natureza divina. No palco principal estão os The Casket Kings, têm roupa aprumada e os penteados ostentam poupas com gel, estes são os elementos decorativos da estéctica rocka billy; musicalmente há uma guitarra eléctrica, um contra baixo sustentado pelo corpulento cantor e ainda uma bateria que se exibe arritmicamente, algo que o exaspera: “Dá licença?”; se não houvesse um conflito em palco não estaríamos perante uma banda rocka billy? Há espaços este vai-se diluindo no tempo e os The Casket Kings ganham uma fluidez compacta, manchada pela tarola a sobressair negativamente por questões técnicas. Há a realçar dois pontos: a guitarra eléctrica a inscrever-se continuamente entre o rock e Southern rock, e o canto do homem do contra baixo com forte pronuncia sulista que não destoaria numa igreja católica erguida pelo Ku Klux Klan. Oiço distantemente o palco 2 onde os JAE Sessions reverberam num reggae que é violentado ludicamente pelo funk. Algo se esfuma para o interior de um corpo, que atravessa o recinto em direcção ao palco principal para observar os impetuosos King Salami and The Curbaland 3. Liderados por um mulato que veste calças castanhas da década de 70 do século passado e uma boina digna de um boémio do Soho londrino, ele é quem domina as canções com um timbre tão lascivo quanto o do James Brown. O quarteto tem uma sintonia sónica irrepreensível, adicionada a coreografias absurdas que realçam uma ironia parodiada constantemente. As canções têm uma base predominantemente Rhythm & Blues ao qual injectam diversas estécticas, umas vezes o resultado é excelente, outras-- por óbvia oposição-- é redundante (o responsável é a secção rítmica). No balcão do bar de madeira surge um homem com vestes negras coberto por um casaco branco, e um outro com a mesma indumentária; ouve-se uma voz a dizer: “velha”; “sulfatar”; “HAHHA”; “milhafres”; “milhafres do Kamalhão”; “Lucifer”; “escritor”; “demónio”; e a ordem inesperada: “pega num gato e leva-o para o Kamalhão”. E “o espírito da velha tem que ser convocado”; “para quê fazer hierarquias?”; de forma infantil o narrador pronuncia-se: “Lálálálálá”; ameaçadoramente: “milhafres”; “merda”. Um dos actores atira-se para a terra batida e corre em direcção ao centro do recinto e leva nas mãos o sulfato do diabo que compartilha com um espelho multifacetado. “Kamalhão! Kamalhão! Kamalhão!”. O foco incide sobre o palco principal mas não surgem os músicos, o silêncio domina por longos instantes a natureza dormente; por fim surgem os quatro músicos: guitarra, guitarra e voz, bateria e contra baixo; este puxa as cordas mas não consegue ouvi-las do respectivo monitor e consequentemente recusa dar início à primeira canção. O cantor está desanimado e nervoso, veste fato escuro e camisa vermelha que sobressai na gola; pede desculpa pelo sucedido, não era assim que se encontrava no “teste de som”, abandona o palco. Chamam-se The Dixie Boys e vieram do Porto provar que o seu rocka billy é mais puro do que uma garrafa de Jack Daniels, e com mais personalidade do que um imitador de Elvis Presley em Las Vegas.
A lua encontra-se com um véu de sujidade ao seu redor e a luz que emana é tão pulverizada quanto uma obra de Noronha da Costa. No palco principal encontram-se dois performers; um discursa para o microfone de forma lasciva enquanto empunha as mãos com garras horrificas: “corrupção”; “descodificação dos mecanismos democráticos”; a guitarra versa o hard rock primata, hair metal piolhento, estes clichés detonam o texto do orador. “GAL- Para um País sem Lobbies” é um discurso crítico sobre Portugal, o Político usa o mecanismo da quebra da quarta parede-- pois discursa directamente para o público-- a sua contra cena é a guitarra eléctrica do adjunto. O Político lidera um partido utópico pois parte do princípio que da anulação do mal obteremos o bem e consequentemente seremos finalmente civilizados? Há uma arrogância neste político, que não está em campanha eleitoral para umas eleições imaginárias, mas que tem a pretensão de questionar os respectivos responsáveis pela prostituição de Portugal. Por ventura, creio que estou algures iluminado por uma luz intermitente que se acende no palco 2 onde os JAE Sessions apresentam uma latitude prog com laivos de flamenco, sintetizados numa vertente jazz que se prolonga temporalmente numa visceral jam. As árvores dançam os seus ramos em direcção às estrelas enevoadas, que fantasmagoricamente abrem os braços e com as mãos empurram os Destroyers of All para o palco principal. Correspondem a um quinteto de metaleiros que abanam violentamente a cabeça com largas cabeleiras enquanto tocam nos seus instrumentos distorcidos, revela que estamos perante uma trupe de viciados no speed metal, heavy metal; a voz gutural, do único membro que tem o cabelo à tropa, é de uma violência diabólica. Duvido que a paisagem naturalista esteja em consonância com as canções dos Destroyers Off All, habituada que está a metamorfosear-se poeticamente de estação em estação do ano, segundo o calendário ditado pelos romanos. As figuras que se entrecruzam comigo estão a acelerar o passo para ver no palco principal do Kamalhão Rock Fest, Tracy Vandal que veste mini-saia metalizada e t-shirt preta; acompanhada por dois músicos nos teclados/guitarra. As canções que apresenta são de uma visceralidade synth pop, que a levam a saltitar ou deitar-se no palco ou a sentar-se na sua borda; a performance de Tracy Vandal é tão intensa quanto uma criança a brincar às escondidas com o Bela Lugosi, seria pernicioso reduzir o seu concerto a uma figura de estilo que não seja uma hipérbole. É nula a distância que me separa do palco 2, os acordes dos JAE Sessions acendem uma fogueira onde emolam o jazz e o reggae, enquanto jovens se atiram de pranchas de surf sobre uma pista em declive com uma superfície de esferovite. Quando Jibóia introduz os primeiros beats da sua mesa analógica-- atrai para o palco principal os festivaleiros-- adiciona-lhe a guitarra eléctrica da qual executa solos agudos que introduz na mesa, mistura-os com o beat e rejeita um composto tão venenoso quanto tóxico. O músico é um rapaz magro e tímido que ostenta um bigode indie, que está tão comprometido com a sua actuação quanto uma Jibóia a deglutir uma vaca em formol do Damien Hirst. A Jibóia tem a particularidade de ser bicéfala, quando surge Sequin, uma jovem de jeans e blusa clara, que introduz através do seu canto de virgem indiana um exotismo inexcedível às canções; quando desaparece e aparece de mini-saia a temperatura ambiente é acicatada, pena que a sua expressão corporal fique contraída com alguma timidez, caso contrário o concerto teria sido tão-somente sublime. E agora? A encerrar o palco principal do Kamalhão Rock Fest encontra-se Victor Torpedo de fato escuro, que apresenta o one man show “Karaoke”. As canções que são debitadas por um computador versam a Pop lo-fi, às quais se acrescenta a sua voz ao vivo e as letras retratam um crooner looser dandy. A sua performance é alicerçada nestes três pontos aos quais devemos adicionar a auto-punição-- com o microfone a estoirar na testa como se daí eludisse o principio do absurdo. Victor Torpedo é provocador ao despir o fato e a vestir um fato de astronauta, pede ajuda a um membro do público para lhe fechar o fecho das costas, segura no que parece ser um guarda-chuva e nasce um heterónimo com origem em Fred Astaire e Charles Chaplin. Um punhado de jovens sobe ao palco e dançam constantemente, um destes ostenta uma bandeira com um pau desmedido, que é roubada por Victor Torpedo que a atira sobre a borda do palco e estoira como um Big Bang Pop, que coroa a sua performance com rasgos de inevitável genialidade.
Kamalhão Rock Fest, 3 e 4 de Julho, S. Silvestre--Camalhão @ Coimbra
A lua encontra-se com um véu de sujidade ao seu redor e a luz que emana é tão pulverizada quanto uma obra de Noronha da Costa. No palco principal encontram-se dois performers; um discursa para o microfone de forma lasciva enquanto empunha as mãos com garras horrificas: “corrupção”; “descodificação dos mecanismos democráticos”; a guitarra versa o hard rock primata, hair metal piolhento, estes clichés detonam o texto do orador. “GAL- Para um País sem Lobbies” é um discurso crítico sobre Portugal, o Político usa o mecanismo da quebra da quarta parede-- pois discursa directamente para o público-- a sua contra cena é a guitarra eléctrica do adjunto. O Político lidera um partido utópico pois parte do princípio que da anulação do mal obteremos o bem e consequentemente seremos finalmente civilizados? Há uma arrogância neste político, que não está em campanha eleitoral para umas eleições imaginárias, mas que tem a pretensão de questionar os respectivos responsáveis pela prostituição de Portugal. Por ventura, creio que estou algures iluminado por uma luz intermitente que se acende no palco 2 onde os JAE Sessions apresentam uma latitude prog com laivos de flamenco, sintetizados numa vertente jazz que se prolonga temporalmente numa visceral jam. As árvores dançam os seus ramos em direcção às estrelas enevoadas, que fantasmagoricamente abrem os braços e com as mãos empurram os Destroyers of All para o palco principal. Correspondem a um quinteto de metaleiros que abanam violentamente a cabeça com largas cabeleiras enquanto tocam nos seus instrumentos distorcidos, revela que estamos perante uma trupe de viciados no speed metal, heavy metal; a voz gutural, do único membro que tem o cabelo à tropa, é de uma violência diabólica. Duvido que a paisagem naturalista esteja em consonância com as canções dos Destroyers Off All, habituada que está a metamorfosear-se poeticamente de estação em estação do ano, segundo o calendário ditado pelos romanos. As figuras que se entrecruzam comigo estão a acelerar o passo para ver no palco principal do Kamalhão Rock Fest, Tracy Vandal que veste mini-saia metalizada e t-shirt preta; acompanhada por dois músicos nos teclados/guitarra. As canções que apresenta são de uma visceralidade synth pop, que a levam a saltitar ou deitar-se no palco ou a sentar-se na sua borda; a performance de Tracy Vandal é tão intensa quanto uma criança a brincar às escondidas com o Bela Lugosi, seria pernicioso reduzir o seu concerto a uma figura de estilo que não seja uma hipérbole. É nula a distância que me separa do palco 2, os acordes dos JAE Sessions acendem uma fogueira onde emolam o jazz e o reggae, enquanto jovens se atiram de pranchas de surf sobre uma pista em declive com uma superfície de esferovite. Quando Jibóia introduz os primeiros beats da sua mesa analógica-- atrai para o palco principal os festivaleiros-- adiciona-lhe a guitarra eléctrica da qual executa solos agudos que introduz na mesa, mistura-os com o beat e rejeita um composto tão venenoso quanto tóxico. O músico é um rapaz magro e tímido que ostenta um bigode indie, que está tão comprometido com a sua actuação quanto uma Jibóia a deglutir uma vaca em formol do Damien Hirst. A Jibóia tem a particularidade de ser bicéfala, quando surge Sequin, uma jovem de jeans e blusa clara, que introduz através do seu canto de virgem indiana um exotismo inexcedível às canções; quando desaparece e aparece de mini-saia a temperatura ambiente é acicatada, pena que a sua expressão corporal fique contraída com alguma timidez, caso contrário o concerto teria sido tão-somente sublime. E agora? A encerrar o palco principal do Kamalhão Rock Fest encontra-se Victor Torpedo de fato escuro, que apresenta o one man show “Karaoke”. As canções que são debitadas por um computador versam a Pop lo-fi, às quais se acrescenta a sua voz ao vivo e as letras retratam um crooner looser dandy. A sua performance é alicerçada nestes três pontos aos quais devemos adicionar a auto-punição-- com o microfone a estoirar na testa como se daí eludisse o principio do absurdo. Victor Torpedo é provocador ao despir o fato e a vestir um fato de astronauta, pede ajuda a um membro do público para lhe fechar o fecho das costas, segura no que parece ser um guarda-chuva e nasce um heterónimo com origem em Fred Astaire e Charles Chaplin. Um punhado de jovens sobe ao palco e dançam constantemente, um destes ostenta uma bandeira com um pau desmedido, que é roubada por Victor Torpedo que a atira sobre a borda do palco e estoira como um Big Bang Pop, que coroa a sua performance com rasgos de inevitável genialidade.
Kamalhão Rock Fest, 3 e 4 de Julho, S. Silvestre--Camalhão @ Coimbra
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