domingo, 14 de julho de 2019
sábado, 13 de julho de 2019
Rita Lee - Uma Autobiografia
A minha carreira de carteirista é a prova de que não valeu a pena ter estudado numa escola comercial a aprender a costurar tapetes de Arraiolos ou direi antes coser sim de facto parece-me mais apropriado ao que fazia durante as aulas em que escolhia o desenho a partir de outros tapetes de sangue azul e adorava estar a estudar o movimento dos mosquitos em redor de um cadáver mas estou numa de costurar as palavras às folhas de alface desde que nasci vindo de um outro tempo em que os humanos eram canibais nessa altura a minha felicidade dependia de alguém que tivesse sido engordado a bolota e destinado ao espeto para as festividades da nossa vila de cavernas herméticas e cubatas com prostitutas oriundas de galeões perdidos no oceano e o ritual obrigava a consumir o seu sangue para nos apropriarmos da sua alma ou da sua força interior já que a alma é uma invenção posterior e da qual me nutro hoje nesta terra difusa de cores modernas e pós-modernas que são de uma fraqueza displicente carregada de tantos ecrãs quanto olhos que adormecem para reinventar o sonho pontuado por crocodilos que choram por se aproximar mais uma tempestade de ossos esvoaçantes cuspidos por outros tempos se fossem novos e hirtos seriam jovens a saltitar por entre girassóis humanos há fogos diversos que libertam um fumo negro como o do meu cachimbo de água envenenada colho dois versos de uma planta carnívora e tento tanger a minha lira às mulheres que passam nuas mas segundo uma perspectiva romântica em que as partes intimas são de uma delicadeza que as torna em pontos de uma subtil beleza suave e prontas a se erguerem perante as disfunções de uns garimpeiros que lhes escavam a pele à procura de gelo; nos claustros do Museu Machado de Castro em Coimbra—que recentemente foi integrado na área classificada pela UNESCO como Património Mundial da Universidade de Coimbra, Alta Universitária e Rua de Sofia— decorre a feira de troca de roupa usada dominada por mulheres de diversas gerações algumas com os seus filhos que saltitam como pequenos sapinhos de corda e a proposta musical deste evento recaiu no colectivo de três rapazes (Carlos Dias, Miguel Padilha, Pedro Antunes) que se denominam de Seam Beat Experience (estes músicos apresentam a sua terceira mutação em quatro anos) acompanhados pela Agente Costura e os seus Dedais Cósmicos e a sequência sonora que se prolonga durante uma hora é a de um som minimalista que se revela de forma progressiva poderá ser uma desconstrução do trip hop mas segundo os ditames do Brian Eno por ser lenta e nessa medida processar um tempo abstracto que se insinua através de um negrume quase psicadélico e tal seria possível se não estivesse um céu tão abertamente luminoso que parece de luz suspensa no ar antes se fosse raivoso e estivéssemos próximos da meia noite seria perfeito quanto à Agente Costura manipula diversos utensílios associados à costura e que ora corta ou cose e até corta as costas de um vestido negro de uma estranha com uma tesoura ligada a pedais e a outras divagações da ordem do doméstico-- veja-se o exemplo da Paula Rego que pinta mulheres a coser mas isto representa uma penetração e como tal estão a pensar em sexo-- e acrescenta sons similarmente concretos que correm de uma máquina de costura ponto por ponto as divagações negras dos três marginais; para se saciarem de uma eterna loucura cantam algo parecido com um coro de eunucos gordos e defeituosos pelas ruas da minha cidade esse aglomerado de betão que se dissipa no nevoeiro e ganha um contorno de fantasma adormecido das suas portas e janelas somente o silêncio tenebroso e nem as garagens mugem como carros e motas desgovernadas oiço um piano de cauda de leopardo a tocar nas teclas subtilmente a emoldurar a noite mergulhada no abismo de um monocromatismo branco do qual estou proibido de fugir por ter uma pulseira electrónica bilhete do festival numa prisão sobrelotada onde cantavam os papagaios do costume a dissertarem sobre um universo enervantemente novelístico como se fossem leis do espírito inverto o painel de autores desacreditados por serem vítimas de uma guerra entre os cidadãos vermelhos contra os descoloridos que lutam contra a cultura que oblitera uma língua para estofar o português jogam pelo seguro para instituir uma nova ordem oral mas secretamente castrada dos seus impulsos mais primários onde dominavam o p e o c e o 1 mais menos 3 numa perpétua hostilização da cultura simplificando a sua natureza a uma outra sem futuro revejo os satélites que emitem para o interior do planeta mensagens de amor e de maldizer tento a combustão do meu corpo disperso em diferentes momentos da minha vida passada mas ao realizar a junção das peças falta-me o motor a gasóleo peço a um estranho electricidade e esta reaviva-me para lá desta corporalidade desconexa relanço as estribeiras sobre o solo aguado que raramente solidifica e me erige tal figura monstruosamente bela que dá a sua mão de chave de fendas a uma divagação efectivamente tão bela quanto longínqua de tão próxima.
Economias Alternativas—Troca de Roupa (Seam Beat Experience com Agente Costura e os seus Dedais Cósmicos), 11 de Julho, Museu Machado Castro, Coimbra.
Economias Alternativas—Troca de Roupa (Seam Beat Experience com Agente Costura e os seus Dedais Cósmicos), 11 de Julho, Museu Machado Castro, Coimbra.
segunda-feira, 24 de junho de 2019
domingo, 23 de junho de 2019
O Triângulo Mágico -- Uma Biografia de Mário Cesariny
Parece que tento alcançar algo que desconheço a sua forma e conteúdo pode ser o que bem entenda uma maçã ou um canivete suíço ou a cabeleira despenteada de uma velha de papel tenta-me risca-la da minha memória e espalha-la pela minha casa com sala mortuária onde se nasce e se morre consoante as estações do ano rubrico documentos sobre estatísticas como se fosse um respeitável funcionário público mas aparentam diários de um desconhecido que em tempos se fez passar por mim que por vezes encontrava no espelho a fazer a barba ou a procurar as cicatrizes delinquentes tento lê-lo mas a letra é ilegível mas esforço-me por descodificar esses dias separados por fronteiras movediças imersas num nevoeiro que se solidificava numa opacidade que esquartejava o meu cérebro tentava representar-me numa peça vaza de conteúdo e que me incutia a mortalidade que supunha numa sobreposição de impulsos que actuavam paradoxalmente subjugando a minha energia a um nível zero ou menos um ou dois numa variação continuamente negativa que me emergia um circuito de funesta e provável frustração que somente poderia ser mitigada pela ausência e a realidade era um tédio que era uma imersão no desencanto; Big Sandy & his Fly-Rite Boys são um quarteto da Califórnia liderados por Big Sandy homem de poupa e guitarra acústica a tira colo acompanhado por um contrabaixista e um guitarrista de guitarra eléctrica e um baterista que se encontram sobre um palco na Praça do Comércio em Coimbra à frente da CoolaBoola Colab (que se define da seguinte forma: “Co. de conceito ; Co. de cooperativa; Co. de co-Laboração; Co. de companhia; Co. de co work; Co. de concepção; Co. de Coimbra; LAB de laboratório de ideias; LAB de laborar; LAB de laboratório de experiências”) que é a promotora deste espectáculo e de outros como o que se realizou no dia dezanove no Salão Brazil pelos Colton Turner & The Melows e ainda Portuguese Pedro nesta mesma praça no dia vinte e este ainda irá tocar antes de Big Sandy e os seus rapazes algo que perdi por atraso rodoviário quanto aos californianos são visceralmente rockabillys mas com um travo de alguma latinidade que projecta uma América multicultural e consequentemente racial são músicos exímios porque fazem jus a uma herança que tem como ponto de partida uma linguagem rural que se transmutou para a urbanidade e que alterou radicalmente uma cultura predominantemente segregada que através da música encontrou uma ponte para uma outra forma de liberdade que até aí era inexistente esta é a revolução que Big Sandy enaltece e que é ora rocker ou um crooner latino mesmo que isto possa ser visto como um atentado ao rockabilly e não posso esquecer a beleza e a envolvência da voz da Ruby Ann ou a hillbilly prestação do Portuguese Pedro e ainda a quase tempestiva saída do palco do Big Sandy porque um jovem havia tentado agredir uma jovem e que provocou um pequeno tumulto no público; digo que alguém está a contemplar a paisagem mas esta afirmação carece de veracidade pois ao meu redor crescem outros que como eu se mantêm atentos às folhas que atiro para o interior de uma lareira que arde e o vento levará esses restos mortais como se cada um fosse carne da minha carne sangue do meu sangue através deste sacrifício mudo de pele tal cobra e irrompo subnutrido e com sede de leite materno e da carícia paterna se chorar talvez sejam satisfeitos os meus desejos se me calar voltarei ao útero ligado a um cordão umbilical que me alimentava com amor e onde persistia um contínuo escuro que se assemelha a um paraíso perdido algures no Mediterrâneo este é o último dilema da minha vida orgânica que me submete a uma pulsação cardíaca que perpetua-me como ser vivo mesmo que queira manda-la parar jamais respeitara a minha ordem o coração é um órgão que é um rei ou deus do diabo que alimenta um sistema de maquinaria do século XXI que transforma o eucalipto em papel isto é sonhos em pesadelos tento esquecer-me do seu batimento para inverter esse resultado e alcançar a maçã e entrega-la a uma estátua que se faz passar por uma odalisca algo que lhe atribui um exotismo decadente de objecto de puro prazer e perante o seu mutismo entrego-me em cada gesto desatento ou verbo perverso e expressivo oiço portas a rangerem se fossem gatos e isso seria perfeito mas tal é tão utópico que quase me faz parar a narrativa sobre a minha escrava que com outras se diverte a brincar às escondidas ou a assaltar as bolsas de prata que escondem o bilhete de fugida para um avião ou um comboio que se desloca furiosamente para o interior de um túnel com louras dependuradas por cordas enroladas ao pescoço que quando estavam vivas seduziam instantaneamente os homens debilitados e amestrados por mulherezinhas pobres de tão ignorantes mas não sei quem foi o responsável por este quadro aparentemente destituído de simbolismo talvez tenha sido alguém sem coração e por isso destituído de razão é possível que sejam meras bestas que ditam a desordem e um mal-estar nos grupos de feministas que lutam contra a instrumentalização da mulher tornando-a num objecto sem conteúdo.
Big Sandy & his Fly-Rite Boys, 21 de Junho, CoolaBoola Colab, Coimbra.
Big Sandy & his Fly-Rite Boys, 21 de Junho, CoolaBoola Colab, Coimbra.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
quarta-feira, 12 de junho de 2019
Devotion
As mãos querem correr para fora da sensibilidade ou da possibilidade de redigir um testamento onde constem os desperdícios dos dias e a reciclagem dos sentimentos ou transformar o fuso horário num outro domesticado segundo esse ditador que é invisível e que poderia ser uma larva ou insecto ou talvez a lagarta a abandonar o casulo para se transformar numa bela borboleta de asas multicoloridas que ao esvoaçar é tão leve quanto poderão ser os pensamentos que se libertam do jugo do ditador rude e atroz parece de ficção mas não o é reclama para si o que pertence a esta gente suja e gasta sentada à borda da fronteira entre a fome e a miséria há lutas algures no meio de militares contra militares fascistas contra fascistas e cada um tem o seu ditador um magro o outro um velho desgraçado que transmite a sua doença venérea aos escravos da sua herdade que lhe parece o seu país não há futuro neste ou com este outro ser do mesmo poço fundo repleto de seres microscópicos se regressa-se o que deveria ocorrer como se fosse algo inevitável deveria suceder e se tal se cumprisse que fosse enquanto se aparelha um ser bicéfalo com cornos e outras decorações do domínio da imaginação do senso comum e se fossem mortificados dos braços tatuados com rostos de canibais e o resto entra-se em autocombustão a justiça estaria a se instituir como denominador entre os rebeldes que esfomeados se insurgem contra o preço milionário do pão e as migalhas para os pombos têm o preço da cocaína que passeiam num quietude de figuras de um museu da natureza e o bem-estar mas esqueléticas e com falhas na penugem por vezes irrequietas num arrulhar de pássaro solitário que esfomeado patrulha a varanda que se abre para um azul que teima em se empalidecer como se através da negação surgisse algo diferentemente belo mas aparentemente é um dia igual ao anterior com sangue nas ruas desta cidade de paredes feridas por balas de um calibre que vai além da sua proporção e que simbolicamente representam a violência que se divide em diversas e perniciosas manifestações a mais violenta é a tortura dos fascistas sobre os fascistas; a proposta para esta noite fria de Junho é a união de duas entidades naturalmente distintas os GNR ligados à corrente eléctrica com A Banda Filarmónica de Matosinhos-Leça da qual é presidente o Rui Reininho que teve a amabilidade de os convidar para abrilhantar o concerto e estes apresentam um medley que começa pelo hino da RTP e pelo meio tocam “Maria Faia” música popular para um público que cantarola as letras das canções e ao fim de vinte minutos desta temática surgem os GNR que se fazem às “Asas” e ouve-se o sustentáculo da filarmónica que enaltece a beleza da canção assim como sucede em “Popless” e esse papel é de realçar nas canções predominantemente lentas haverá em outras que tal é diminuído quase ao mínimo como se estivessem somente a decora-las mas ganha-se numa performance sonora vibrante por parte dos GNR que jogam entre si a pop em “Efectivamente” ou “Mais Vale Nunca” e o rock psicadélico de “Las Vagas” e ainda reggae em “Mosquito” e o dramatismo pop em “Morte ao Sol” e a eloquente por ser naturalmente épica “Pronúncia do Norte” a versatilidade estilística é representativa de quase quatro décadas a reafirmar novas fronteiras à música à passagem dos mutantes GNR; que mesmo que confessem a verdade dos seus actos jamais serão absolvidos deste sacrifício em que a vítima geme e chora antes de ser manietada com mãos de ferro com uma corrente presa aos pés de cimento e que empurram para o interior de uma piscina de água salgada e alguém salva-o e deixa-o na borda à espera que se desequilibre e ouvem-se fogos a estoirar ao longe surgem focos de fumo sobre as cabeças dos revoltosos que descodificam-no como focos que se elevam ao céu num transferir de almas que somente sobem e nada desce nem um raio de sol parece que repentinamente escureceu porque alguém correu o pano do teatro italiano onde as marionetas jogam xadrez contra damas numa imagem que representa o que se transmite das ondas de revolta que assolam as estações de televisão manipuladas pelos fascistas e minada de comunistas e o povo aparentemente serena na expectativa de que o fio que os prende ao silêncio que seja finalmente talvez um dia cortado e se tal suceder que seja como o sempre foi um novo fascista que institui as suas leis que se regem segundo os seus estados de alma ou pelos caprichos decadentes da sua consorte que consome o tempo a mima-lo a trata-lo por pai a paparica-lo e a dar-lhe tautau ou a roubar-lhe a constituição para analisar as alterações introduzidas pelos assessores de multinacionais de produtos de origem animalesca em vias de extinção.
GNR & A Banda Filarmónica de Matosinhos-Leça, 10 de Junho, Senhor de Matosinhos, Matosinhos.
GNR & A Banda Filarmónica de Matosinhos-Leça, 10 de Junho, Senhor de Matosinhos, Matosinhos.
segunda-feira, 10 de junho de 2019
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