Entram os cinco músicos que acompanham Mayra Andrade no seu périplo por Cineteatros e salas de congressos, como sucedeu em Aveiro. Mayra, tem uma tez mulata e um corpo de nenúfar, mas que em vez de seguir a maré, impõe ao mar, o ritmo das correntes, a sua silhueta é de uma sensualidade desarmante. E o seu canto é de sereia que encantou Camões, e por ela, ofereceu aos portugueses a Ilha dos Amores. É o êxtase. A loucura. O crioulo oferece ao seu canto uma perspectiva enigmática, com a repetição de argumentos, percebemos que há uma ausência, que comparativamente ao fado, é semelhante. O público que enche o Teatro Académico Gil Vicente (TAGV) em Coimbra, grita: “És linda”, ou, “és a nossa bandeira”, com resposta da Diva: “Uma bandeira, é muito quadrada”, a rainha é um arquipélago de beleza e de sensualidade. Acompanhada por um duo de guitarras, um, é mais rock and roll, o outro é Pat Meteny, o que em algumas canções é um timbre descabido. Curiosamente, o outro guitarrista, pega em cavaquinhos, e fá-los soar a guitarra eléctrica, em guitarras e fá-las chorar, é o suspeito numero dois, o responsável por uma segunda voz. O baixo é um negro de camisa psicadélica, calça luvas, o seu dedilhar é de veludo, num diálogo directo com a Diva, comunica, não se impõe, é a reverência perante a Rainha de África. Ela é a Ilha de Cabo Verde, que à capela iniciou o concerto, e finaliza-o entregue a uma ladainha encantatória, é a beleza que se concentra num palpitar que sentimos, mas que não conhecemos, a pluralidade e a determinação do verbo, é o substantivo da profunda estupefacção; seja, o jogo dos percussionistas que palpitam como chagas de lava a irromper da terra de Cabo Verde, desta dualidade sobe à vida poética uma geografia exótica, apesar da aridez da paisagem cabo-verdiana. É de uma extrema simpatia para com a Celina da Piedade: “Vocês conhecem a Celina da Piedade”, as luzes acendem-se do TAGV, para Mayra Andrade contabilizar os que conhecem a acordeonista de “Rodrigo Leão”. A canção que assinaram em conjunto, é uma narrativa parisiense, mas falta a Celina no palco, para ela apertar a sua concertina e elevar a estética da canção, para o seu centro. Após o encore, surge Mayra Andrade, a Rainha de África e exala o seu timbre inqualificável, que concentra a sua energia no microfone e gradualmente, afasta-se do mesmo, num scat, inqualificável, poético poderá ser, é virginal, termo que qualifique ou explique o divino.
Stória, Stória, Mayra Andrade, Teatro Académico de Gil Vicente, 10 de Junho
quinta-feira, 11 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Autopsicografia
Os Livros Ardem Mal é a designação a encontros com intelectuais, ou, artistas, que se realizam no foyer do Teatro Académico Gil Vicente,(organizado pelo departamento de Letras da Universidade de Coimbra), numa cidade afectada por uma temperatura proibitiva. O convidado é o poeta e cantor dos G.N.R, Rui Reininho, vestido com uma camisa escura e ganga azul, calçado de sapatilhas cinzentas. “Já li alguns livros ao longo da minha vida”, a ironia é acesa pelo Rei, “não sou bairrista, não há canção mais bairrista do que o fado”, sobre, “os jornais ardem mal, eu sempre disse, sobre a crítica, é um acto único.”. Sobre ao facto de lhe ser, “difícil gostar de histórias novas”, quando era ainda criança, “espreitei o Borges”, através dos Círculos de Leitores era, “um sonho aqueles livros chegarem à nossa casa”, “os contos do Edgar Alan Poe”, “esta história dos livros é uma paixão”. Queimar um, “livro é o gesto mais atroz e revolucionário. Dar um pontapé na T.V, apagar a rádio. Mas queimar um livro é preciso coragem!”. “Um amigo meu, que enlouqueceu prematuramente e que foi anestesiado pelos freudianos, dizia: ´todo o pensamento universitário tem tendência para impor a mudança, mas na verdade, tem como objectivo que nada mude`, ahahhah”. Quanto à poesia, “não é para ser lida do princípio até ao fim”, “as minhas líricas comon & anas não têm pretensão, mas que subam ao povo, como diria o Homem Pedro de Melo”. Sobre Andy Warhol: “Ele não tinha a vontade de distinguir a baixa da alta cultura”, a ligação entre o artista plástico e o narrador pop é, “era escrever sobre nada”. O tema, “Bem Bom” das Doce, surgiu numa, “brincadeira, vamos fazer desta maneira-- estas obrazinhas tornam-nos prisioneiros-- com um arranjo à Marques de Sade, para que não fosse o ar de travesti das Doce.”. O Rei chegou a traduzir, “`Sodoma e Gomorra`, até ao primeiro volume é interessante, ele depois escreve numa de papel higiénico”, mas, “todo o meu trabalho tornou-se inútil. Tenho várias traduções que não aconselho, do final da década de 70, durante a qual era editado tudo o que era acabado em ismo”. Sobre o Teatro o trabalho do actor é, “para mim é assustador, repetir adnauseaum, até à exaustão”. Resume o mito: “Acho uma estupidez uma pessoa suicidar-se e não continuar vivo.”. Já quanto o predomínio do português nas suas composições: testemunhou uma conversa entre dois adolescentes, numa esplanada em Tentugal, quando estes viam um cartaz dos G.N.R: “`Não vais ver esses gajos! É uma pirosada do rock cantado em português!`”. Não alinha ao lado daqueles que acham que a nossa língua é “incantável, impronunciável, se pensarmos naquelas obras em alemão, ouvimos peças maravilhosas”, depois, “estudei os desvios fonéticos. Wolfgan, tem uma postura alemã, depois na fase pedreiro livre vai buscar o italiano.”. Na Galiza é interpelado pelos amigos, “Reininho, coño, se tens grupos tão bons porque coño, cantam em inglês? Sentem-se uns colonizados?”. Sobre a sua escrita refere que, “fui-me controlando ritmicamente”, “eu sou um poeta mas ninguém acha isso! Eu procuro as palavras certas, por vezes acordo com diferentes fonemas, já me inscrevi em japonês, em russo.”. O método de trabalho que prefere, “Camilo José Cela: ´quando a inspiração chega encontra-me a trabalhar`”, quanto ao meio, “o computador é bom, por vezes para apagar.”. O “inglês fere-me”, o que mais o impressionou foi o facto de ter visto, “o povo timorense a ser chacinado. Aquela gente a dizer ´Avê Maria Cheia de graça`, não diziam: ´Help me!`” , “em Macau ninguém fala português!”. O seu amigo Pedro Choft disse-lhe que: ´Não gosto muito de rock é um bocado estúpido. Mas se calhar o rock é o último refúgio da poesia`”, contudo, poderá ser muito fácil reduzir a escrita a um "´Obladi, Oblada` de Lennon/Macartney, mas há um poder encantatório que as palavras podem ter.”. Cita, Pedro Mexia: “´O homem não tem pretensão de ser um poeta per si`”, e confessa, “gostava de ter um busto numa rotunda e as pombas defecarem sobre mim, ahhahah.”. E sublinha que, “não há obras menores, somente as obscenas”, sobre os G.N.R, “a nossa função era gozar com toda a gente, e rir de nós próprios. Os surrealistas, no dia em que Paris caiu nas mãos do De Gaulle, os surrealistas, vieram para a rua”, dar vivas ao nazismo. “A Anar Band teve vários equívocos, o Jorge da Chaminé, tocou violoncelo connosco, em 1977 na Figueira da Foz”. O pecado preferido do Rei é: “Vanity is my favority sin.”. Numa entrevista na TVE, perguntaram se os G.N.R eram “pop ou rockopop?”, El Rei: “Si creo que és popRockopop`, tipo Zapatero e companhia, ahahha.”. “É difícil ver o Elvis em Las Vegas, todo aquele super-herói gordo. Dói-me vê-lo”, canta, “are you lonesome tonight? Talvez por isso tenha criado esta personagem da Companhia das Índias, tenho feito mais Cine-teatros, que para mim é difícil porque as pessoas estão sentadas, que foi durante anos um acto de indiferença.”. O que sucede a um Rei Sol? “Uma pessoa com a prática ouve vozes”.
Os Livros Ardem, Rui Reininho, Teatro Académico Gil Vicente, 1 de Junho.
Os Livros Ardem, Rui Reininho, Teatro Académico Gil Vicente, 1 de Junho.
terça-feira, 2 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Ama Romanta
As colinas de Lisboa estão suspensas sobre um calor nocturno, iluminadas por a Lua que se exibe timidamente, que é gradualmente absorvida pela cidade da Mensagem. Sei Miguel é alto, magro, o cabelo escuro e espesso, pendem-lhe até as sobrancelhas, exibe um rosto sério e marcado pelas noites de desassossego, tumultuosas, belas, angustiadas, eléctricas, solitárias. Tem um brinco que parece o dente de uma baleia, que lhe dá um aspecto de corsário pronto a esquartejar os peitos palpitantes das ilhas virgens, as sandálias mostram pegadas que marcaram as ruas escuras e velhas da capital. Sei Miguel é um trompetista que conjuga delicadeza com silêncio, apoiado numa banda de três músicos: precursão, trombone de varas, e guitarra eléctrica, criam a base para o músico comunicar, seja através do precipício da leveza introvertida, socorrendo-se da surdina, ou, quando a retira, da extroversão. Por vezes dialoga com algum dos seus músicos, mas predomina, a sua dupla personalidade, que por entre os acordes que jogam por assimetria, e, ou por oposição, une as sete colinas, que são heteronomias de uma geografia acidental, é a poesia da conjugação de um quadro cénico que perturba as ruas alicerçadas no fado. Sei Miguel é o trompetista de uma contemporaneidade cinética, que mantém as raízes no jazz, mas que se encontra numa verbalização independente. Palmas. Ouve-se a sua voz, após meia hora, de concerto no Lounge: “Obrigado. Quando se toca uma peça nova pela primeira vez, há sempre um aspecto técnico, que posteriormente desaparece.”
Sei Miguel, Lounge, 28 de Maio.
Sei Miguel, Lounge, 28 de Maio.
sábado, 30 de maio de 2009
Arriba! Avanti?
“Grândola Vila Morena”, em registo de vídeo serve de suporte à entrada de uma trupe de comediantes: Homens da Luta, de Neto e Falâncio, a liderarem uma banda proeminentemente acústica. Neto é o comunista do Megafone que luta e assume os “problemas do povo”, é a solidariedade em formato de comício do PREC , a demagogia e o absurdo unem-se. “Vamos reviver o 25 de Abril! Isto não é a Rita Redshoes, só com canções de amor, pá!”. “Eles andam ai, a meter o nosso dinheiro ao bolso”, que está no cerne da, “luta camarada, a luta contra a reacção”, “os tambores lutam”, “é um prazer tê-los aqui hoje”, “luta, luta, camarada luta contra a reacção”. Falâncio é o agricultor ignorante que resume tudo a um vocabulário de dicionário unidimensional: “Reacção”. Neto: “Sejam bem-vindos ao espectáculo dos Homens Da Luta!”, a música é um resumo das angustias do povo, “a corrupção, pá! A recessão pá! Os comprimidos pá! E o povo pá?”, musical, “quer dinheiro para comprar um carro novo”, musical, “o povo também quer Ferraris!”, musical, “camarada da pesca? E o povo pá?”. Apresenta, os funcionários, “Lisnave”, “a nossa facção intelectual da luta a Quinta das Dores”, “no Bombo, o camarada Zé Pereira, uma salva de palmas! Não sejam tímidos, pá!”, “nesta ponta um homem que conduziu o Chaimite de Salgueiro Maia, uma salva de palmas para o soldado de Abril!”, musical, “e o povo, pá?”, musical, “na concertina, a Sesaltina da Concertina, é ela que mete o pêlo nos Homens da Luta”, musical, “na guitarra, o incontornável, kikikikikikirikirikiriki, o camarada Falâncio!”, musical: “E o povo pá?”. “Está Caro”, é “dedicado ao preço das coisas”, os tambores rugem, como numa arruada do PCP onde militam os verdadeiros comunistas. A rotina: “Vamos imaginar um jovem casal, que quer comprar casa. Lá vão eles ao BPN, Caixa, para comprar um T2s no Cacém!”. Resumo: “Lá se vai o ordenado!”, musical, “até ficarem endividados até aos cabelos, pá!”, musical, “lá se vai o ordenado! Isto está caro!”, refrão: “Isto está caro, camarada caro”, “o que faz falta é animar a malta, o que faz falta é dar de comer à malta, o que faz falta é libertar a malta”; “fazias jogo de conselheiro de Estado? O Sr. é acusado? Tá isento? Tem imunidade!”. A luta arrefece o ritmo, mas… “A reacção é só filhos da puta! Mas quando a tarde cai para a revolta, manda-se vir uma Jola e vai-se dar uma volta!”. Na seguinte, “vamos falar dos mártires da luta”, sobre o Tarrafal, “vamos falar dessa prisão que foi a Auschwitz da revolução!”, “eu, camaradas, estive no Tarrafal”, “a gritar feriado que é o meu objectivo”, “os melhores anos da minha vida passei-os no Tarrafal. Eu fui torturado no Tarrafal. A dura tortura do sono, onde nos obrigavam a dormir horas a fio!”. Os cabrões dos torturadores diziam ao Neto: “Seu comuna! Seu anarca! Só queres feriados? Dorme!”, a localização errada da prisão onde esteve Álvaro Cunhal, “na Ilha de Cabo Verde, onde sita o Tarrafal!”. Onde o Neto teve uma experiência homossexual: “Fausto tá aqui alguma coisa entre nós?”, “aí percebi porque lhe chamavam o Anaconda!”, “e ali mesmo aliviei o Anaconda.” . “A luta, quando está calor, ninguém é obrigado a trabalhar!”, conclusão: “A luta assim não dá!”, tambores, “39 graus à sombra é um calor do Diabo”, “o povo calado será sempre enganado!”, “a luta assim não”, numa frequência africana, “kirikirikirikirikiriki”, “o povo calado será sempre enganado”, “a luta assim não dá”, “a luta assim nã dáaa”, Falâncio dança como se fosse membro de uma tribo afro. Desde o 25 de Abril, “muita coisa mudou: antes, havia presos políticos, hoje, temos os inocentes políticos!”, antes, “o povo queria votar e não podia, hoje pode votar e não quer. Antes usava-se muitas metáforas, hoje em dia as canções é só…”, Neto é censurado por Falâncio: “Piiii”. Neto arrisca a falta de decoro: “O meu amigo Ary dos Santos”, imita o Ary declamador de poesia lírica, mas que era dita como se o Ary estivesse a relatar uma epopeia, “eu sou o Ary dos Santos”, o espanto da poética, o Ary confessa a Neto, “tenho um problema que me está a preocupar”, e o que será? “Tenho tesão por ti! Não me chames paneleiro! Isso não!”, Neto constrange-se mas salva o Ary do desalinho: “És homossexual”, e interdita a excitação do poeta, “mas comigo não! Pá!”. “Vamos tocar a ´Tourada` do Ary”, apresentada em formato hip-hop: “pá, pá, pá, pá, pá, pá, pá, pá.”. “Uma salva de palmas para o camarada Ary! O touro é o povo!”, “e depois há aquelas bichonas que querem que o toro vá ter com eles! A gente não mata o touro, metemos sal grosso nas feridas, que ele ainda tem que ir montar umas vacas gordas e dar bifes!”. O momento “Mudasti” é uma canção para o patrocinador da luta, que poderia ser tinto do garrafão ou cerveja, antes, é o chá da Nestea, “mudasti?”. Quanto ao desemprego, “é férias sem emprego”, “e o que se vê agora é só empresas a fechar”, “desemprego pá? Férias sem emprego, pá: E a Quiimonda, pá? E a Toyota, pá?”, flauta, “e a Samsung, pá?”, “e vocês todos, pá? E Portalegre, pá?”. Das melhores, “conquistas de Abril. Eu estou a falar das gajas que se engatavam em Abril!”, “no Galery, chega um gajo da bola e seca tudo. Quando aparece o Ronaldo com o seu amigo Zé, que é o amigo dele, mas não vamos falar de desgraças! Pá!”. “Quem faz um filho fá-lo por gosto!”, a conjugação verbal, “fá-lo”, é relacionado gestualmente por Neto com o seu falo. “Uma conquista de Abril”, o ritmo lento indica paixão, “estou muito sossegadinho e vejo uma rapariga a passar. Uma rapariga do campo”, Neto: “Olá, camarada!”, ela: “Hihihihi”, “olha que tens umas cooperativas muito desenvolvidas. Que tal irmos ali para baixo de um sobreiro? Sentei-a no colo e a minha revolução, já estava em pedra! Parecia a estátua do Cutileiro. Baixei-lhe as cuecas e meti o 25 de Abril, lá para dentro!”, “quem faz um filho fá-lo por gosto”, com predomínio da concertina e das percussões, o Neto mete o Megafone sobre o pénis: “por gosto.”. “Para homenagear esse povo que fez a revolução, dá-lhe Celsetina da Concertina”, a polka embebida em vodka, “aqueles que quiserem, subam ao palco para dançar esta música russa!”, sobem as mães da revolução e outros espontâneos. “A casa da luta é a rua! Vou desafiá-los para ir para a rua, a luta continua quando o povo sai à rua, pá!” Os Homens da Luta páram o trânsito da rua adjacente ao Cinema de São Jorge, apropriam-se de um largo junto a uma estátua, não há cravos, nem chaimites, nem sangue, é o povo a aprender a ser homem.
Homens da Luta, Cinema S. Jorge, 27 de Maio.
Homens da Luta, Cinema S. Jorge, 27 de Maio.
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