Noite quente de Inverno-Verão as estações andam travestidas de abstracções inseguras que levam a fé a torcer pela chuva. O Beat Club está imerso numa selva torrida, que faz o corpo derreter-se em cada minuto do penúltimo concerto da vida dos geniais Tiguana Bibles. A primeira canção é numa vertente maioritariamente Spaghetti western, com a guitarra de Torpedo a pronunciar-se através dos agudos procurando responder à de Augusto Cardoso, sobre um ritmo contínuo. “Hello, it’s fucking hot in here! ´Against the law`”. É a canção de uma delicadeza exuberante, com a voz de Bunny Lake a impor-se como o elemento que a cobre com uma melodia doce: “I found myself under the killing moon”, a banda segue a voz de Bunny Lake: “crush my body against the wall”, e quando deseja é sempre “soon”, e o desejo é asfixiante: “can`t wait any more”, as guitarras continuam o seu diálogo como se fossem dois membros do coro grego, mantêm-se expectantes: “it`s against the law this kind of love”. A incerteza e o medo de se ver vilipendiada por um sentimento que era uma ficção até ao momento , “The way I`m feeling about love”, síncope imposta pela bateria, “wrooong”, “up side down”, por vezes divide-se num outro microfone de onde sai uma voz compassada e máscula: “out of control”, languidamente: “it`s against the law”, a partir de “love”, o ritmo acelera e os solos de Torpedo e de Cardoso esquartejam-se intercaladamente e continuamente. Bunny Lake, no centro do palco, como uma estátua que luta para incutir nos ouvintes o amor: “it`s against the law”, “I`m feeling about love”, “I`m feeling about love”, “I`m feeling about love”. “Fuck me! This next song is called ´Rebound`”, a bateria através dos bombos insere o ritmo vibrante típico da pólvora seca, solos das guitarras a imporem a desagregação do equilíbrio ou deste ser promovido a partir de alfinetes a perfurar a carne macia, “street”. Bunny Lake levanta o braço esquerdo à altura do ombro, e a lamúria é um convite a ouvi-la: “stop this rebound”, a guitarra repete os acordes do refrão sobre a síncope dos bombos, “rebound”, “I can`t stop this rebound”, “I can`t stop this rebound”. “I have no interest in stories that I haven`t been told in books”, despe o casco de lantejoulas e releva um macacão preto com decote exuberante. Break da bateria com as guitarras a verter uma lascívia próxima da protagonizada por Johnny Marr pontuadas pelo travo trágico de Jonny Cash: “Why can I say it`s all in the books”, “I don`t care anymore”, “Their`s no escape in my life” entrecortada por um solo de guitarra que sobe a escala para fazer o mesmo movimento no sentido oposto. “Anymore”, “the words you say”, “I don’t care anymore”, “in my life”. “All can be a little more closer. He is [Panda, o homem do baixo] still in the fifties, it`s like Sting. Dirty ladies”. O ritmo é acelerado, “playing with the devil”, com a voz de Bunny Lake com os agudos mais fechados a adornar os “ing” , com a angústia: “working for the devil”, “apart”, “I don`t now”, solo ominipresente de Torpedo, sobre os breaks da bateria, “on my mind” (eco), a partir deste momento o Marr e o Cash fundem-se como ácido num copo de champanhe bruto. Bunny Lake, bebe água: “It`s fucking poison! I drink a lot of alcohol, It gives me a personality . It´s our first concert here and the last one”. Bateria sobre a qual a guitarra descarrega uma energia electrostática: “their`s one way to get me, you have to fall into my world”, guitarra, bombos, ritmo rápido, “heart to follow”, “waste all the time”, “tender eyes”, “please stay”, a certeza de uma mulher que deseja o desejado: “everything's gonna be all right”, o ritmo aumenta e as guitarras deflagram como se fossem tochas a verter chamas sobre os nossos ouvidos: “you have to fall into my world”, mexe o braço esquerdo e dança ao ritmo da sua prece: “out”, “work it out”, breaks vêem ao de cima, solo de Torpedo, “heart to follow”. Bunny Lake treina o português útil: “dá-me um cigarro por favor”, é socorrida por fãs sequiosas de lhe acender o vício. E a incursão pela língua latina continua na canção: “Meu amor”, com baixo de Panda a delimitar as fronteiras onde se inscreve um slow doentio não fosse cantado pela voz tropical de Bunny Lake: “I can`t get you out of my house”, o ritmo passa a binário, “you”, “AAAAA”, Bunny Lake senta-se e cruza as pernas, Augusto Cardoso abusa a melodia grotescamente, ao injectar um teclado travestido de tremelin, e por consequência os outros instrumentos ficam conspurcados com a sua súbita presença e transformam o Beat Club num baile de finalistas de cadáveres. O ritmo aumenta pontualmente, “meu amooor”, “don`t tell me, meu amoooor”, “I`m swimming in your sea”, “YOUR”, “oOOOO”, “you”, “you”, guitarras e bateria: “AAAAAA” (doce). “AAAAA” (doce). “AAAA” (doce). “AAAA” (doce). “Muito obrigado! So sorry I`m smoking! I love to smoke indoors. There’s nothing like this anymore in Britain”. A bateria abre espaço para a entrada da guitarra de timbre agudo, “misery”, pop-billy, “angles”, “words away”, refrão é quase explosivo: “just big explosions”, Bunny Lake abandona o palco e desloca-se por entre o público, como que a querer espalhar a sua explosiva sensualidade e desta forma impor-se à memória. “WE ARE EXPLOSIONS AND WE ARE BREAKING THE WALL, WE ARE EXPLOSIONS AND WE ARE BREAKING THE WALL”. “Fuck! Seriously I don’t understand why Madonna can sing for two hours! Right back to the start... I would like to dedicate this song to Jimmy and to dead Paul”. Palmas. “I want you far away from me”, “of my own”, “cigarretes”, ritmo 2x2 que com o baixo formam uma síncope angustiante, merecedora de um mergulho no ar no sentido da profundidade onde os micro-organismos impõe a sua natureza, as guitarras respondem com violência sanguinária. “Run, run to her town”, o convite é feito através de uma voz de veludo, que nos abre a porta para o precipício proporcionado pelo nada, “my tears won`t last”, e o seu convite à nossa fuga para “to see her”, e a resposta à sua solidão: “my heart only now”, descarga das guitarras com a de Torpedo a realizar um solo que sobe e desce a escala lentamente: “my tears won`t last”, o ciúme de Bunny Lake pelo ex-amante, “press on her”, “my body”, ele “you say to her”, “to me”, o convite à ordem: “Run, run to her town”. “I’m jealous of Portuguese girls: best skin and hair, and you don’t sweat”. A canção seguinte leva as portuguesas que se encontram na primeira fila do palco a dançar, à procura do primeiro pingo de suor que as suas peles brancas possam exalar. Proporcionado pelo ritmo rápido e pelos acordes das guitarras intercaladas em contínuos agudos, “close your eyes”, “soul”, “special”, “out of this world”, “soul”, “inside my soul”, solo de Torpedo resposta de Augusto Cardoso, “close your eyes”. Bunny Lake canta por entre o público, procurando “in your soul” alguma ordem num caos “you can see” eventualmente “heart in your soul” num “world” imaginário “artificial” como “heart of soul”, “love from me”, trágico: “inside my soul”, “inside my soul”, com as vogais cantadas de forma prolongada para nos levar para o fundo. A próxima canção é dominada por acordes puramente pop, mas há um senão, a tensão com que as guitarras libertam os acordes, de um teor sónico-épico e o refrão não poderia ser menos apropriado para sair de um transistor habituado a jogos de futebol: “sick of the world”, que envenena a canção: pop-sick, “soul”, os acordes da guitarra abrem espaço para a voz: “try”, solo de Torpedo a repetir as notas doces do refrão, 2x2, voz: “I want to tell you”, “I`m gona tell you the reason to cry”, “I`m sick of myself”, “hearts made of stone”, “mine”. O teclado leva a canção para uma introspecção insperada mas que gradualmente a afoga num lodaçal: “AAAAAAAAAAA”. “Ok! Last song”, segundo Bunny Lake: “Doors song with a help of The Beatles”, bateria, guitarra pop-rock-billy, “your heart against the wall”, e as ordens virão da determinação de Bunny Lake ao impor: “new orders will come from your heart”, que incendeia a plateia disposta a seguir os Tiguana Bibles para longe deste Beat Club. Voz + teclado fúnebre por contraposição à doçura tímbrica da deusa de um filme de Lynch onde a protagonista se revela numa outra personagem sempre que ouve no seu interior o eco do sintetizador de igreja que do vinho fez sangue.
In Loving Memory of Paul Hofner, Tiguana Bibles, 10 de Março, Beat Club @ Leiria
terça-feira, 13 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
Sob Escuta
O piano é uma malha fina de tecido de seda, “numa selva sem leões”, a declaração de amor carnal: “cheira-me a fêmeas fatais”, o espicaçar do violino dedilhado por uma mulher angular, magra e maquilhada de boneca do leste. “Ideias originais”, a banda vem à superficie , o pedido de clemência: “rei da rádio dá-me a voz”, sintonizamos o transistor e o “rei da pop compõe para nós”, pausa, banda respira, a merda das “cidades tão iguais” . O piano de Antonio Machado numa cadência neo-pop, com o sujeito poético a encarnar “tripas coracões” , no centro, o narrador ficcionado “indiferentes orações” , baixo submerso na malha melódica a puxar pela estrutura óssea do “rei da rádio dá-me a voz” , banda, a lei “compõe para nós” , a fatalidade da lógica institucional que somente o “rei do roque morreu por nós” , “por nós” (eco), o piano e o baixo surgem e o vilino expande-se rasgando o tecido do piano, que fez nascer a canção. “Rei da rádio dá-me a voz”, a voz da rádio portuguesa: “compõe para nós”, “cantam por nós” em inglês. “Morreu por nós” , o teclado de Hugo Novo, salpica o sangue essencial para encontrar o fim. “Obrigado boa noite, bom dia! É maravilhoso voltar aos palcos especialmente aqui em Estarreja” . O teclado volta dimensionar-se como uma malha de metal a partir da qual irrompem as cores do pecado: “tarde inteira a chorar” o que faz uma mulher numa casa portuguesa “fumando em frente ao altar”, será a a nossa irmã ou irmão? O ritmo engrandece a canção. A castidade revista em “um anjo fumegante” , violino cortante derrapante agressivo vivo a imputar a morte à morte, aborto, “profano desejo a crescer” , e o acordo ortográfico: “até sinto a língua morta” , o ritmo sincopado, mas numa vertente crescente e decrescente, remoinho, “estará a meditar”. O violino abre espaço entre a cadência ritmica para ser o transmissor da acção: “AAI! UI!” (Eco!) “Ao inferno de Dante, atirem-me água benta”. O Estado: “com ela lá vai a caixa de esmolas”, “atirem-me água fria”, solo hammond, sobre a sincope, o vilonio reverbera uma última vez: “Ai!UI! Atirem-me água benta, por ela assalto a caixa de esmolas” , “por ser cinquentona o nome dela é Madonna. AiUi! Sexy eu sei!”, “ depende da sua”, “ atirem-me água friaaaAAA”. “Um tema luso”, teclado fúnebre, dedilhado na barca do anjo, o hino à sangria que está ocorrer em Portugal. Baixo de Jorge Romão: “Leve Levemente como quem chama por mim”, a banda sublinha as vogais do objecto poético, mimético, “a tensão o medo”. Reininho sobe o pé e “a mão” , uma flauta emerge como um guarda rios suspenso numa cascata, o Rei de POPortual: “encosto no vidro o anel de brilhantes”, “ Ai! O meu coração!”, “sabem que me escondo na bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, somos todos cadáveres adiados: “um sorriso cruel atrás da última porta cama de dossel”, solidão,”sabem que me escondo na Bellevue”. Jorge Romão ergue o baixo: “as minhas amigas no jardim” das camélias “agora mais ninguém confia em mim”. Pausa. Palmas. Violino mais teclado submisso , violino impositivo, abre o prisma para a banda, as luzes acendem-se e apagam-se , estabelece-se a progressão, pausa, “sonho que me escondo na Bellevue, ninguém aparece ao meu rendez vous”, o espaço onírico onde “os meus amigos enterrados no jardim agora mais ninguém confia em mim”. Rei de PoPortugal veste a pele do Conde Lautréamon , a pericia de um membro em constante mutação, através da deglutição, a promesa: “desemprego” o murro no estômago e o vómito a espumar. “Uma mais positiva para fazer crescer as pedras da calçada” portuguesa. Mais vale um violino e teclado sobre o ritmo binário mais vale palmas mais vale baixo mais vale o bombo que marca o ritmo e o baterista faz correr areia num instrumento cilíndrico, é prenúncio de um nascimento, “que tentam calar”, é, “vais ouvir e ver”, a perversão de um povo velho, “mais vale nunca mais crescer”, solo do violino, e o baixo ressurge numa cadência comprometida com o “cérebro em fuga”, “letal”, “anda responder”, “mais vale nunca”, ficam, “ficas a aprender”, “mais vale nada”, e o Rei de POPortugal, joga basket com uma bola transparente, liberta-se do adolescente que o prende à terra, a banda segue o movimento dos acordes, livres e descompremetidos em relação ao envelhecimento imposto pela natureza. Pausa. “Mais vale nunca”, “nada”, ou, “apetecer”, “crescer”, não olhem, “olha para o que eu faço”, utópico: “Nunca mais morrer!”, violino e baixo, “agora Estarreja!” : “Nada acontecer!”: “Nunca mais crescer!”. “Jorge Romão no calhambeque. Há anos, estreamos aqui ao lado, em Aveiro, não sei se conhecem, esta espécie de Veneza com menos gôndolas mas com mais dinheiro, onde estreamos ´Popless`”. Antonio Machado, introduz através do teclado os acordes pop de uma canção de amor com “Asas”, “servem para voar”, “espreitar”, “mil casas no ar” o sintetizador dá-lhe uma textura infantil, “ar” eco, violino, “na paixão que te roer sem prazo ou idade para acabar”, baixo, “aconteça o que acontecer”, violino. A banda surge como se estivesse a soturar uma ferida aberta pela descoberta do amor adolescente. Rei de POPortugal, pega no tripé e coloca-se de lado, abana as ancas, dá voltas à memoria, “acabar”, “já não há leis para te prender”, a progressão segue duas vertentes, unas na altura e no tempo, e o seu cruzamento enuncia liberdade. “Parabéns pelo vosso salão. Somos todos dignos uns dos outros. Mas antes vamos cometer um pequeno pecado”, original: “Valsa dos Detectives”, os dois teclados impõe uma densidade próxima do pós-negrume, violino, sintetizador, pausa, a carga dramática é proposta por um ritmo de escadaria de Sacré Couer, pontuada por Piaf ou Picasso ou Toulouse-Lautrec ou pelo Conde de Lautréamont. “Tem medo do escuro tal criança sem futuro, é falso velhaco cobarde armado em duro”, e quem é, és, somos nós, e vai “pelo mundo guiado pela mão”, e não estamos mortos, “depois de morto dá uma volta no caixão”, violino, “nem na cama estás seguro” , não, violino, 2x2, “que te rodeiam”, “que mesquinhas serpenteiam”, não sabemos sair deste remoinho de esperança vã, de fatalismo kitsch, “guiado pela mão”, o sangue pinga de cada verso. “Depois de morto dá uma volta no caixão”, a acusação sobre a nossa: “traição” e o emigrante “vais pelo mundo guiado pela mão”, o violino inicia um solo contínuo a sobrepor-se à progressão encetada pelos teclados, bateria e baixo de Jorge Romão, ouve-se o centro de uma revolução como um tufão ou remoinho narrativo sonoro: “AAAAAA”. “É a mulher de ontem é a mulher de hoje, cherchez la femme”. Os teclados equilibram a canção num território beateliano, “carvalho” e a bateria revela a cadência de uma melodia agri-doce, a banda repete os acordes pop-slow: “agulha no cabelo”, há uma tragédia “onde o sol se põe atrás”, já que no amor, “és unica a dar gás”, a violência da declaração: 2x2, “rainha das marés”, violino é a voz da musa do sujeito poético. O objecto icónico como sinal da sua pureza transcendental: “crucifixo, nas mãos uns dentes de alho”, para afastar os espiritos como o de Lautréamon: “se eu uivar e acordares coberta de grelos”, a banda inicia a progressão para a retirar do lodaçal da tristeza, “rainha das marés”, com o violino a responder ao Rei: “és unica”, baixo desce a escala e afunda-a numa incerteza da qual é rasgatado pelo violino: “mas tu és unica a dar gás”, “a princesa das marés eu caio aos teus pés”. Coloca as mãos atrás das costas como se estivesse a ser algemado, abre a boca para fugir da asfixia, aumenta o ritmo, “és minha”, diminuem a altura e encontram-se no épilogo. “A coisa mais importante são vocês. Esta música são vocês. Se não fossem vocês erámos mais uns subsidiados ”. Teclado e violino encetam um percurso delicado, frágil, que surge quando os vassos comunicantes se cruzam no tempo e no espaço, “inventou o verbo amar, fugi sem hesitar”, em “que gozo com vocês”, “sem hesitar”, pausa, teclados mais violino, “se fiquei e não gostei”. O break da bateria traz consigo todos os instrumentos, “eu menti sem hesitar, esqueci o calor do lar”, “chorar”, o teclado introduz acordes de um tropicalismo tépido, fátuo, violino, baixo: “eu inventei o verbo amar”, “lar”, “inventei o verbo amar”, “parti e não vou chegar”: o assobio do Rei de POPortugal mimetiza os acordes tropicais inseridos anteriormente pelo teclado. “Ficar” (eco). “Obrigado Estarreja e Companhia. Os Casinos, Las Vegas, Las Vagas, Las Vagas: io”. Teclado binário, o baixo com o pendor de uma cascavel com veneno na ponta dos caninos salivantes, “macro onda, vista ali da marina”, a melodia é “de ouro a mina”, no tapete verde rodam os dados: violino, teclado, baixo, “aceita apostas”, cita Camões: “fiel das balanças”, com o baixo a impor-se como um corte transversal e continuo em cadência marcial, encaminha o sujeito-poético para a tragédia gréco-romana, “de quem gostas” (eco). O violino é o cumplice da máfia italo-americana, o ritmo e a altura aumentam, “magra, serei a gorda e tu” , a, “cabra cega”, a determinação: “estarás de licra e eu de tanga”, a liberdade: “sou um peixe fora de água” (eco), solo do violino tão assertivo quanto violento, “serei a gorda”, “serei quem peca serás quem paga”, a consolidação de uma verdade que os receptores não acreditam: “nós somos peixes fora d`água”, violino, no singular agrega a proposta asfixiante: “e eu sou um peixe fora d`água”, a progressão hipnótica instala o principio da loucura e o público bate palmas.. A violinista faz anos e recebe das mãos do Rei de POPurtugal um bouquet e o entoar do público: “Parabéns a você, nesta data querida...”. “Este aqui [jorge Romão] só faz anos de quatro em quatro anos”. E ridiculariza a “Sexta-feira” de um rapper: “Sexta-feira ó. É Sexta-feira ó”. “Sexta-feira (um seu criado)”, com a guitarra semi-acustica de Antonio Machado a incutir-lhe a estética country-pop sobre ritmo binário. “Souvant, ou lálá”, “Efectivamente”, o circuito melódico da canção passa obrigatoriamente pelo teclado, “pássaros estupidos a esvoaçar, o riso das crianças dos outros”, o observador nunca se imiscui na narrativa, “sem moralizar”, pausa, “panascas que passam”, aumenta o ritmo, “que disfarçam ao dealar”, estamos “a controlar”, “em Estarreja é diferente”, “sem moralizar”, a banda produz os acordes como se fossem tocados para trás, o teclado sobressai mantendo a melodia do refrão na mémoria do ouvinte, “sem, sem moralizar”, breaks da bateria, palmas do público. “Obrigado! A nossa vida está a recomeçar. Deixamos de viver das nossas subvenções. Amanhã estaremos aqui. E Segunda-feira também”. O teclado injecta os três acordes poéticos, do slow que veio do norte com a respectiva pronúncia que representa uma nação: “lá no fundo donde eu venho”, a língua “é a pronúncia do norte” , a tentação do poeta se substituir ao poder de Deus: “hemisfério fraco traga outro forte”. Ao viciar um instrumento de navegação como a: “bússola sei que existe aponta sempre para norte”, somente porque assim se impõe a “pronúncia do norte” ouve-se o Douro a correr para o “mar”(eco). O acordeão de Antonio Machado revela o serpentear das encostas do Douro talhado à vontade do homem para da vinha fazer o sangue do “barqueiro nem hei-de remar”, e é o orgulho de um povo que: “corre o rio para o mar”, se navega para a foz: “prenúncio de morte”(eco). Esperam “um gajo parecido com elas”, “andar”, corre “o rio para o maaar”, “norte” (eco), acordeão, a banda insurge-se na equação, mas o teclado mantém o seu pendor trágico, até à Foz. A lírica do Rei de POPortugal flutua no rio e transforma o seu leito nas veias de um corpo rugoso, que ao sol ou à lua, representa e representa-se como o devir de uma alma preparada para enfrentar as agruras do mar do norte. Teclado + bateria, a génese de “Sete naves”, é construir e desconstruir, não numa lógica de somatório de opostos, mas de circularidade dos acordes que encaixam no ritmo de máquina de indústria de “metal a flutuar”, que tem na voz do poeta: “desejo de me afundar”, aumenta o ritmo da máquina de fazer pancadas, não “paro de martelar”, violino, a frieza descritiva da máquina biomecânica: “dedos metálicos frios, vontade enferrujar, matéria por soldar”, mas a parte humana denota fraqueza: “vontade de me enforcar”, e o refrão revela a alma: “as naves que eu construo não são feitas para navegar, aguentam a violência de um beijo mas nunca a do mar”, o ritmo binário embebeda as luzes que nos iluminam hipnoticamente no convite aos corpos para que expulsem as almas, e as ponham a dançar a olhar para um precípicio. Os acordes do baixo são elementos que unem as peças soltas desta nave que flutua sobre as nuvens criadas por Dali, das quais saltam tigres dispostos a nos vilipendiar. Jorge Romão ergue o baixo disposto a decepar as cabeças que ouvem “as naves que eu construo não são feitas para navegar”, e voemos, “fundem-se com o ar”, “se se voltam devagar”, o Rei de POPortugal: “fundem-se com o ar”: “Lalai”; Jorge Romão: “BomBOmBOm”; Rei: “Lalailai”; Jorge Romão: “BomBOmBOM”. “Vocês têm peixes no brazão, nós temos peixes no coração”. “Sangue Oculto”, é-lhe retirada a vertente épica-rock, para a instalarem num ritmo esotérico que lhe mantém a trágica “luta na arena artificial”, “ao fugir de uma investida”, bateria e baixo, “ao fugir da própria vida, sem correr e sem saltar, oculto sangue que tenho para dar”. Palmas. “´Voos domésticos` primeira canção proeminentemente heterosexual”. Antonio Cesar Machado, tem a guitarra semi-acustica como elemento timbrico e é na sua orientação que a nave espacial encontra a sua cave, ela “me disse para aterrar em mim”, a banda repete os acordes dolentes e quentes simultaneamente, “em mim”, banda, “olha a turbulência é da tua ausência”, solo do violino, teclado, baixo, bateria, “a tua ausência”, nem o espelho responde nem a memória faz parte: “diz-me quem és? A torre de control, fantasma de lençol”. “Cais”, a canção proeminentemente pop, e o resumo da certeza de que em Portugal nunca há “ninguém para o crude limpar”, mesmo “sais”, o clássico argumento: “vendes o Cais”, aumenta o ritmo e a altura descolando delicadamente para a estratosfera: “mar salgado”, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?
Voos Domésticos, GNR, 09 de Março, Cine-Teatro de Estarreja @ Estarreja
Voos Domésticos, GNR, 09 de Março, Cine-Teatro de Estarreja @ Estarreja
terça-feira, 22 de novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
In Vivo
Ouve-se uma voz off das colunas do Coliseu de Lisboa, ligadas à RTP internacional que declara que é fundamental apertar o cinto antes da viagem ao futuro, onde a saudade nunca sera dominante, apenas um pormenor irrelevante. Coloquem os headphones e oiçam os acordes da “Valsa dos Detectives”, que remete para os concertos históricos de 1990 que deram origem ao “In Vivo”. Ovação. Um novo tónico emerge da secção rítmica, o violino insurge-se como uma fibra aguda, se parece uma “selva sem leões”, palmas, “cheira-me a fêmeas fatais”, a lentidão promove uma dolente abstracção, “macacos imitações”, “ideias originais”, eco-“maismaismais”, a bateria ruge. “Rei da pop canta para nós”, as harmonias ganham uma tonalidade de raios solares, tropicalismo chic, eco: “Morreu por nós”, baixo, “as cidades tão iguais”, capital: “Faz das tripas corações”, solo de órgão, “orações”. Eco: “Dá-me a voz”, “nosses”, eco: “Por nós”: “Rei do Rock morreu por nós”, “dá-lhe gás”. Jorge Romão com o baixo na passadeira saltitante, contudo, é o teclado que insere efeitos especiais a parodiar Bernard Herrmann, que o violino recria construtivamente e desconstrutivamente. “Compõe para nós”, “por nós”, “nós”, Rui Reininho dança, Jorge Romão ergue o baixo acima da sua cabeça. “Olá cidade maravilhosa, capital do Império”. “Ei”, a canção que beliscou o pecado original, “Vídeo Maria”, da virgem Maria. A bateria dá-lhe um nivelamento sequenciado através dos bombos, palmas, “Tarde de chuva a península inteira a chorar”, ibéria, a inquisição: “Fumando à frente ao altar”, é mortal, fumar é prática de prostitutas, “de um anjo fumegante”, violino, orgasmo é só direito dos homens: “Crescer”, sente, levantem-se, “a língua morta” e por fim o “latim vai mudar”, “compreender”, é censurar, a progressão repetitiva é entrecortada pelo violino: “Atirem-me água benta”, acordes da guitarra resumem o refrão, é pop incandescente, “atirem-me água fria”, e o “nome dela é Maria”: “FRIAAAAA”. Baixo+palmas, solo do Hamond, conspurcado pelo solo do violino, a pátria na lama, “Ai”, “UI”, atirem-lhe, “atirem-me água benta”, perfume é só para putas, “Maria”, “casta eu sei virgem ou não?”, mãe, “Madonna, sabichona”, a progressão é esotérica. Rui Reininho-eco: “AI”. Rui Reininho: “UI”. Rui Reininho-eco: “Ai”. Rui Reininho: “UI”. “Ladies and gents, que bom que é estar aqui desde o último século. Prossima canzone se chiama sette Berlusconi”. “Sete Naves” é a divagação maligna e benigna, extraíram-lhe as tonalidades de fado-pop, mantém-se a dinâmica mecânica-circular, e cada verso é um punhal com diversas lâminas: é a jangada de “vejo destroços de metal a flutuar”, pode ser “o Tejo”, sobre o ritmo da bateria, as guitarras introduzem funk crescente, hipnótico, cego, “desejo de me afundar”, “ao acordar”, não paro de pensar em me suicidar, “paro de martelar”. Hipnose obsessiva repetitiva afectada pelos acordes das guitarras leves-agudos, “metálicos frios”, “enferrujar”, “matérias por soldar”, “diáfanos de envenenar”, “paro de martelar”, “não são feitas para navegar”, “mas nunca a do mar”, é o que nos resta, Rui Reininho coloca-se sobre a passadeira: “O ar”. “Voltam-se devagar”, através de Jorge Romão a síncope cardíaca é contínua, palmas do público. Tóli Cesar Machado, acompanha no sintetizador o outro teclado que injecta acordes da música clássica. Jorge Romão toca e dança sobre a coluna que se encontra lateral ao palco. Violino. Pausa. “As naves que eu construo não são feitas para navegar”, guitarra de Tóli acrescenta-lhe um pendor pop-rock, “fundem-se com o ar”, “vêem-se devagar”. “Wherever, mas nunca a do mar”. Coro: “Lalalala”, “mar”, coro: “Lalalala”. “E elas vêm-se, as mães, voltam-se devagar”. “LaiLarai Bom Bom”. “Obrigado, senhoras e senhores! Se fossem os National diriam: ´Top audience we are going to fuck them!` É verdade com prazer é mais caro!”, ri. “Mil casas no ar”, para te “proteger”, pop flutuante, com as guitarras de cristal fundido, “virou”, “Darth Vader”, “o ar”, e o refrão é libertino: “Pousar na paixão que te roer”, acendem-se as luzes do palco, “acabar”, “prender”, e a decadência é fruto “aconteça o que acontecer”, solo da guitarra, “pousar na paixão que te roer”, “acontecer”, solo do orgão, guitarra semi-distorcida resulta no único indício de agressão à arquitectura pop, semelhante à ondulação das nuvens que circulam no Verão. “Obrigado! Os ricos vão para o tribunal Constitucional! Os pobres vêem aqui! E agora também em francês! À vossa direita está o Tony Carreira”, e aponta para a respectiva bancada. “Adoro as pulgas dos cães, todos os bichos do mato”, o teclado numa cadencia binária a ser o indutor inicial, “Efectivamente”, em Lisboa: “Ici é diferente”, o álibi: “Sem moralizar”. A melodia tem nas artérias uma corrente pop, e a poesia obriga-se a descobrir a beleza no perverso: “Panascas”, a “engatar”, 2x2, “como se fossem mafiosos convictos, habituados a controlar”, “efectivamente”: “ULALLLA”. A bateria segura o ritmo, Jorge Romão dirige-se sobre a passadeira e pede emprestado uma bandeira a um fã, a original que milita na capa do “In Vivo”. Solo da guitarra sobre o ritmo binário: “Efectivamente gosto de aparências”, coro: “Laalalaala”. “Sem moralizar”, coro: “Lalalaa”. “Escuto as conversas”, coro: “Lalala”. “Sem MORALIZAR”, “parprara”. “Americanos simpáticos”, Jorge Romão no inicio da passadeira incita o público a bater palmas. “Ana Lee” surge a pós-adolescente com um guarda chuva oriental. Rui Reininho: “Achas que chove?”, Marta Ren: “Acho que não”. O exotismo dos acordes da guitarra colocam-na numa geografia ainda por ser descoberta pelos portugueses, uma ironia que joga com a ambiguidade poética. Marta Ren: “Uma banheira decorada, num lago champô”, Rui Reininho: “Separadas”. Sai um tufão da garganta de Marta Ren: “UUUUU”, e a música dispara ritmicamente, Rui Reininho e Marta Ren: “Ópio do povo, jaguar perfumado”, é o cúmulo da alienação, surge o cerne de um psicadelismo ébrio, “queimado dourado”, Portugal, “no país em que fumam as cigarras”, Rui Reininho e Marta Ren: “Ana Lee, Ana Lee”. Marta Ren: “Triângulo dourado”. A partir daqui e sobre os acordes do piano insurgem-se as guitarras a lhe incutir uma lógica discursiva de Manchester. “ELÁAAAAA”. Rui Reininho e Marta Ren: “Ópio do povo” . Rui Reininho: “Tigres”, Marta Ren: “De papel”. A delicadeza agri-doce do original é totalmente vilipendiada, Rui Reininho e Marta Ren: “No triangulo dourado”. Rui Reininho recusa que as unhas de Marta Ren, se apliquem sobre as suas costas. Antes, inflige-se arranjadelas sobre as costas, ri, Marta deixa os lábios pintados de vermelho sobre a bochecha esquerda de Rui Reininho: “Ah! A vida de transexual é muito difícil”. Segura uma chávena de chá na mão direita, bebe. O órgão é o respirar da canção, é um cadáver a expiar, espiar, “Leve, levemente como quem chama por mim”, a bateria é omnipresente, e o baixo o agente transmissor, “a tensão do medo puro”, mesmo assim, “subo a mão”, o orgão continua a respirar como um cadáver esquisito. Para quebrar a janela, “encosto ao vidro o anel de brilhantes”, impossível, “são de fancaria”, “porra!”. É-lhe vedado penetrar na “Bellevue”: “Ai o meu coração!”. “Ao meu rendez-vous”, desloca-se “pelo corredor”, segue a camara num traveling que é um flirt com a RTP internacional, “o sorriso cruel”, a mascarada: “Onde era sangue, era uma leve menstruação”. “Rendez-vous”. “As minhas amiguinhas lá no fundo do jardim, agora mais ninguém confia em Moi, Moi”, ressurge o órgão para manter o corpo a estrebuchar, mesmo que os acordes, a dominar a progressão, sejam para embalar os mortos, sobre a qual a guitarra debita agudos perpendicularmente, 2x2, solo do violino, pausa, “Bellevue”. “Ninguém aparece ao meu rendez-vous”, a solidão, cantada docemente: “Confia em mim”, o convite que ninguém aceitou: “Era só para brincar ao cinema negro”, o teclado responde como se fossem os acordes de um brinquedo sonoro para fazer adormecer crianças nos cuidados paliativos. “Os corpos no lago, eram de jovens no desemprego”. Rui Reininho desloca-se junto ao teclado de Tóli Cesar Machado e abraça-o: “Sou o irmão que nunca teve. E também é contra as touradas”. As escovas da bateria, “artéria principal”, canta lentamente “ardem chamas de dois sóis”, o circo romano, “a luta na arena principal”, onde “corre o sangue, mato-me primeiro e a ti depois”, o bombo está oculto, “oculto sangue que tenho para dar”, ligeira progressão, “funeral”, “flores é na igreja”, a lentidão de Portugal: “Sem correr e sem saltar”. Rui Reininho no imperativo: “Vá lá assumam!”. A progressão é pontuada pelo piano, por cada nota, vários palmos de terra sob, o baixo, bateria, e o violino transbordam epicamente: “Oculto sangue, Lisboa tem para dar”. DVD GNR. Jorge Romão: “Podem sempre cantar os parabéns, que a gente agradece”. Os alfacinhas cantam os parabéns, mas parecem contrariados, como se estivessem a responder a uma obrigatoriedade. O comandante do “Piloto Automático” é Tóli Cesar Machado na bateria, da qual retira uma força sonora animalesca, “quando chega a meia-noite começo a capotar”, se fosse somente épico, não é, luzes a baloiçar, a induzir: “Há um monstro dentro de mim”, o ressoar dos bombos elevam-na à mísula, “fígado a explodir”, os restantes componentes da canção acompanham a trip. O ritmo é mais curto no refrão, deixando espreitar, “wisky puro”, coro: “Vodka. vodka”. “Vinho só maduro”, coro: “Vodka, Vodka”. “Gin vó-mi-to”. Coro: “Vodka, vodka”. Rui Reininho: “Vodka. VodkaAAA”. Sobre a progressão marcial: “Ligo o piloto automático num programa a esquecer”, “até ao amanhecer”, “num programa a esquecer”. “Wisky puro”, coro: “Vodka, Vodka”. “Sangriaaaa”, coro: “Vodka, vodka”. “Vinho Maduro”, coro: “Vodka, vodka”. “Bagaceiraaa”. “Vodka, Vodka”. A guitarra retira um solo semi-distorcido, como se fosse o prenúncio do epílogo, mentira, continuamente ganha protagonismo à bateria, e por instantes e com a devida intromissão do baixo, citam Nirvana. “Wisky puro”, coro: “Vodka, vodka”. “Vinho maduro era da Andaluzia”, “era um cálice que eu queria”, “bagaceira”. “Vodka, Vodkaa”. Baterias + guitarra + “Vale Nunca”, “virou”, Jorge Romão atira-se com o baixo a tira colo, da coluna à esquerda dos espectadores. Introduz-se o sintetizador, a tingir a canção de uma tonalidade infantil, “logo ao nascer, é um grito mudo que tentar calar”, mais “crescer”, “MTV cérebro em fuga”, e o segundo refrão acutilante a encontrar a absolvição: “Olha para o que eu faço”, público: “Mais vale nunca mais crescer”. “Mais vale nunca mais crescer”. Solo da guitarra entre o rápido e o lento, solo de Jorge Romão com um pendor orgânico. Palmas. Sintetizador: “E mais vale nunca”, “agora é a doer”, e a banda cria um muro sonoro progressivo, que lhe subtrai a infantilidade, culminando num solo das baterias, que resultam numa jam, que engolem as palmas do público. Rui Reininho alicia Jorge Romão: “Se depois desta não das duas sem tirar, estás fodido! Jorge Romão quatro filhos!”. Tóli Cesar Machado entrega as baquetas a um fã. DVD GNR. “São camisas antigas, mais velhas do que muitos preservativos que andam lá em casa”. “Obrigado”. Rui Reininho, fala para o microfone à procura do seu interlocutor numa rede de estrelas, cometas internacionais, radares em forma de naves espaciais. “E o mundo vê”, o piano dedilha lentamente, “já parti e não voltei a pensar onde fiquei”, “lar”, violino, “mar”, slow-pop, com as harmonias de Liverpool, “mar”, um tratado eventualmente académico, “até doutor não sei porquê?”. O inconsciente a prolongar-se pelo consciente: “Já dancei onde parei”, solo do piano, “jobim”, violino, “hesitar”, progressão tropical-psicadélica: assobio: “Imagine”, John Lennon, mas a métrica da canção orienta-a para a divagação estilística de Bryan Ferry. “I`m just a jealous guy”. “Burro em pé” , segue o ritmo da sua precedente, com Tóli Cesar Machado na guitarra semi-acustica, insere os acordes dormentes, “vieste aqui para aprender”, “ar”, bateria, “calar”, o baloiçar é de uma cadencia, flutuante, “a pensar a dormir em pé”, a ordem: “Pára de mensagar”, do professor: “Esse piercing no umbigo é capaz de magoar”. Há um leve recrudescer do ritmo, que segue o teclado e a guitarra de Tóli, “vamos os dois para o castigo”, o teclado parece dedilhado por Paul MacCartney, “burro a dormir em pé”. Rui Reininho emite um urro interstelar. “Pronúncia do Norte”, é recebida com o público dividido entre as palmas e os assobios. “Lá do fundo donde eu venho”, se sois “torpe”, “manos ricos”, se for assim, “hemisfério traga outro forte”. New Max: controla os agudos, “aponta sempre para norte”, público: “É a pronúncia do norte”. Rui Reininho e New Max: “Mar”, o acordeão nem é marítimo ou rural, resume-se a uma alma que se abstrai como as paisagens de Turner. New Max: “Caminhos novos para andar”. Rui Reininho: “É a pronúncia do norte”. New Max: “Maaar”, “não tenho barqueiro nem hei-de remar”, é a confiança total nos astros que nos conduzem para o norte, onde estaremos a salvo da capital. O tempo não pára: Rui Reininho: “Corre o rio para o mar”, os acordes são pigmentados por uma angústia temerária. New Max, lidera, e Rui ausenta-se. “Lisboa vocês estão prontos?”, o slow do norte transfigura-se em funk, com a repetição dos acordes, sob os quais emana um break, “é a pronúncia do norte os tontos chamam-lhe torpe”, “norte”, “EAAAUAU”. Rap: “Contigo GNR. Contigo Jorge Romão. Contigo Tóli. Contigo Reininhooo”: “E!E!E!”, agudos: “OOOOOOO”. “Parabéns GNR! Muito obrigado Lisboa!”. Surge Rui Reininho: “Se vocês quiserem isto é sempre a subir! Isto não é economia, é hot. Esta é linda chama-se: ´Cais`. Levamos três da Académica”, o público responde com risos, “na hora da despedida”. Um intervalo de espera para resolver o problema que prende a bateria, por fim, o início de uma cadência de navio em compasso de espera para se afundar com uma carga venenosa, “quando o barco tem pés para andar”, e “só essas ondas vêem chatear”, liberta “para o crude limpar”, mas o centro onde se encontram os acordes revela um nascimento: “Lá no fundo imundo imenso sais, ó neptunias, sereias sensuais”. Público: “No fundo imenso sais, ó neptunias sereias sensuais”. A música sobe uma oitava mas mantém a cadência de naufrágio, “mar salgado”, “vai ver no cinema se ´Há Lodo no Cais`”, sobe o som do palco, “o mar salgado”, e o ponto de partida é o Cais das Colunas: chegada: “Muito cuidado atina, voltas ao cais”. “Voos Domésticos”, é um contínuo jogo de referências, que ao espelho surgem invertidas, “aqui”, violino, “num tapete mágico”. Há um banco de ar que perturba a respiração da delicadeza instrumental, “olha a turbulência é da tua ausência”, “acredita”, solo do violino, “em mim”, vem “jantar com o Rei”, o trinar da guitarra, “num gesto de avareza só pago a sobremesa… e talvez um caféee”, sintetizador. A incerteza que provoca angustia, canta para “a torre de control”, “fantasma”, “adivinha quem sou”, solo do violino, responde o teclado, solo do violino, baixo: “A turbulência”, “adivinha quem é?”, não responde: “Quem sou?”, violino. “Las Vagas”, psico-pop-head com um forte travo dos bombos e um baixo como uma infusão intravenosa, e um piano que está a jogar a sua vida num pocker pseudo-existencial: “Eu serei a gorda”, “tu serás a magra?”, segura o tripé com as mãos, liberta-se das amarras, e a progressão sugere energia electrostática: “Sou um peixe fora de água”. “Jorge Romão, agora só falta a sereia”, surge uma jovem com rosto imberbe e um olhar tímido, com uma indumentária puéril. Rui Reininho: “Estou aqui há mais de seiscentos anos e a cantar com os melhores”. O baloiço de “Únika”, é um romance de cordel, com as vogais alternando entre as fechadas e as abertas. Ela: “No musgo”, ele: “No teu cabelo, agulha no cabelo”. Ela: “Onde o sol se põe”, ele: “Tu és a única a dar gás, a rainha das marés”. Luísa Sobral, tem um timbre de virgem por dessacralizar, mas que se perde através das suas narinas. Ela: “Alhos”, ele: “A estátua de um martelo e uma foice”, a beleza dos acordes alegres quando sustentam a voz: “És a rainha das marés”. Luísa Sobral: “Sol”, “quando me pagam”, para se despir e exibir o seu corpo lívido a Balthus, solo do violino, e o ritmo de dois por dois prolongam a canção quase até ao fim. Rui Reininho: “A voz única”. “Popless”, fica somente a cargo de Luísa Sobral, o que é uma declaração de amor na voz de Rui Reininho, transforma-se numa canção para adormecer adultos. A guitarra de Tóli Cesar Machado, introduz os acordes e segue o ritmo da bateria e da respectiva caixa de ritmos, que lhe dão uma constante juvenilidade, “sem reflectir”, ela não, “ é um vício danado”, ela não, “passar”, ela não quer “jantar”, “linda”, pedal wha wha, ela não “mostrando interesse”, um sobe “outro desce”. As guitarras aumentam a sua densidade estilística, e revelam uma temperatura, que Luísa Sobral não: “Lá vem ela sabendo que é boa”, “que é boa”, swing-pop, “janela”. Surge, Rui Reininho: “POPLESESES”. “A kiss is just a kiss”. DVD GNR. O piano, indicia um lento entoar, “felizmente a noite sai”, público: “Felizmente a noite sai”. Rui Reininho incita o Coliseu: “Não há isqueiros?”, que se acendem e o transformam numa estância lúgubre. A certeza: “Se o amanhã perdido for”, pode ser “meu amor”, quando “as trevas vão demorar”, o baixo proporciona um gradual aumento da tensão, “se a luz se esvai” em sangue. “Se o céu se fecha sobre nós”, o holocausto, “se o amanhã perdido, overdoses de horror”, bateria corta a cabeça ao teclado, e o público dá as mãos a Rui Reininho: “Directa sim eu declaro morte ao sol” e nesse instante: “Aí vem a luz”, e os raios são emitidos pela guitarra com preponderância dos agudos. “Se o céu não fecha já sobre nós, revela cierta imagem atroz”, público canta com rui Reininho: “Directa sim, eu declaro morte ao sol”, “boiar”, Rui Reininho: “OOOO”, público: “OOOO”. 2X2, palmas, público: “OOOO”, pausa. Público: “OOOOO”, Rui Reininho: “NANANA”, público: “OOOOO”, Rui Reininho: “NANANA”, público: “OOOOO”: “OOOO”. Rui Reininho: “OOOO”. Rui Reininho agacha-se, e usa mesma gestualidade que os árabes utilizam quando, virados para Meca, para rezar, e declara solenemente: “Eu beijo a vossa terra, capital do Império, e o rabo das vossas namoradas também!”. A caixa de ritmos instiga as palmas, e o acordeão declara “Dunas”, mas o cantor e poeta sofre uma breve branca: “Não me lembro desta! Caraças!”. E joga com “as unhas são como divãs”, o calor não é só expresso pelo local onde decorre a acção, mas também pelas harmonias e o ritmo primário, “deitados nas dunas, alheios a tudo”, e depois de um banho no mar salgado, “pensamentos lavados”, “TV”, ainda criança “na idade dos porquês”. “Muito obrigado RTP! Que foi a única que nos apoiou! As outras… as rádios já não passam as nossas músicas!”, e desfere um manguito, “e já agora obrigado à Câmara de Lisboa e do Porto!”. A citação revista pelos olhos de um surrealista: “Hasta la victoria, siempre! Anarquia ou morte! É a minha opinião!”. Durante o “Inferno” do playboy Roberto Carlos, todos os convidados são convocados a cantar: “Eu quero que você me aqueça neste Inverno e que tudo mais vá para o inferno”. Guitarra eléctrica, “matéria principal”, as pegas na “luta na arena artificial”, “saltar”, “oculto sangue que tenho para dar”, é rock: solo da guitarra semi-distorcido, pausa, solo espacial, “saltar a fogueira”. “Sangue Oculto” é a revelação do rock, que de tão sintético é perfeito. “Espelho Meu”, é um constante abrir e fechar de estímulos auditivos, organismo de eterna sedução, break beat, palmas, teclado incidental, “subsídios”. O baixo de Jorge Romão confere-lhe um travo indestrutível, psicadélico, “nós somos inteligentes?”: a resposta: “Perguntem ao meu espelho”, sincope, break beat, “já são muitos anos juntos, frágil, contra tudo decidi”, a resposta: “Saber o que faço aqui? Saber o que é sofrer?”. “Perguntem ao meu espelho!”. Guitarra solo, teclado dá liberdade a um som de marimbas bêbadas de mojitos, e hipnose, essa é corrosivamente bela. “Na rádio na TV, nos jornais já ninguém vê, Portugal na CEE”, com duas guitarras semi-distorcidas e uma bateria rápida, libertam-na do seu carácter primata neo-rock. “Quanto mais se fala menos se vê”, “Queeeero veer Portugal na CEE!”. New Max: “OOOOAIEAAA”. Rui Reininho: “Sexta-feira em Albufeira, o mundo esteve para acabar, era tal a bebedeira”, que o “mar”, assente num 2x2, e os acordes agudos da guitarra eléctrica, precedida pela acústica de Tóli, é um soft-rock, “mas falta a tua confissão”: “É um buraco na Suíça, em Cascais e no Funchal” e o Rui Reininho tem o bom senso de gritar, “chamem a policia!”, não, sim, não, “ninguém vai levar-me a mal?”. E onde está a “confissão” do Alberto João? New Max: “Japão”. Rui Reininho: “Já nem sei em quem votei, onde fiquei, já não dou com o Dj”. GNR perfilam-se lado a lado com os convidados, e simultaneamente agradecem as palmas do Coliseu de Lisboa. Deixam para trás um rasto de silêncio amargo, os fãs ficam imóveis a aplaudir, na esperança de uma derradeira canção.
Voos Domésticos- Celebração dos trinta anos de carreira dos GNR, 19 de Novembro, Coliseu de Lisboa @ Lisboa
Voos Domésticos- Celebração dos trinta anos de carreira dos GNR, 19 de Novembro, Coliseu de Lisboa @ Lisboa
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Defeitos Especiais
Coliseu do Porto, o público anseia pelo início do concerto comemorativo de 30 anos repletos de bancos de ar, turbinas em flagrante delito, do Grupo Novo Rock (GNR). Sob uma estrondosa ovação, entram em palco: Tóli César Machado, Rui Reininho, Jorge Romão. Este empunha um baixo, ao qual se acresce um piano numa vertente clássica, “Alon zi”, violino, o funk do original do “Rei do Rock”, é submerso numa vertente lounge, num apartamento sob o mar, com sofás brancos e uma mesa de vidro snifada por uma loura cadavérica. “Cheira-me a fêmeas fatais”, o violino é o interlocutor do dono do apartamento. “Rei da rádio dá-me a voz”, sobressai o dedilhar de uma guitarra acústica. A sonolência é um indutor venenoso, “as cidades tão banais”, o Porto: “Fazem tripas corações”, rezar: “Indiferentes orações”, a banda aumenta uma oitava, “Rei da rádio dá-me a voz”, “pop”, “Rei do rock morreu por nós”, o cantor imita a mímica pélvis do Elvis, o teclado cita a melodia de “Efectivamente”, solo do violino, palmas, “Rei do Rock canta só para nós”, “nós”, o teclado de Tóli insurge-se e impõe uma gradual e leve progressão. “Vamos à igreja que amanhã é Domingo”, é a introdução à blasfema “Vídeo Maria”, vítima de censura por parte da Rádio Renascença, porque magoava a mãe de Deus. GNR usurparam-lhe a alma numa equação vertiginosamente pop. A versão, que estão a executar segue a linha esotérico-lounge, evidenciada pela anterior. “Entro numa igreja fria”, 2x2, com forte pendor do baixo saltitante de Jorge Romão, “sinto a língua morta o português vai morrer”, a duvida ou a questão: “Estará a meditar”, violino revela angustia, “amo-te Video Maria?”, e para arrefecer a tensão a suplica: “Atirem-me água fria!”, o sacrifício ficcionado: “Por ela desço ao inferno de Dante”, é progressivamente pontuada por uma dinâmica psicadélica, o solo Hamond, coloco-a no interior de uma igreja erigida pelos Jesuitas, o violino responde-lhe com um gemido. “AI!UI” (eco). “Atirem-me água benta”, o pecado mortal: “Por ela assalto a caixa de esmolas”, “o nome dela é Maria”, “se é virgem ou não? Depende da nossa fantasia”, mãe, “Madonna”. Rui-eco- “Ai”, público: “Ai”. Rui-eco- “ui”, público: “UI”, Rui-eco-“EI”. Palmas. “Coliseu do Porto, já temos algum público por cá”. Tóli Cesar Machado abandona o teclado e segura uma guitarra eléctrica, com ligação à pedaleira wha wha, como se fosse um sampler que sustenta os outros instrumentos. “Provavelmente o Tejo”, “sinos ao acordar”, “faro”, o violino reproduz a mecânica do ritmo como se fosse uma mosca de Tzé Tzé, produz cogumelos, “enferrujar” , surge uma progressão circular crescente: “Veias estalando”, “ricas de carbono”, “vejo o rio”, “paro de martelar”, deixa de imaginar “as naves que eu construo não são feitas para navegar”, “as vagas em que elas vogam”, as ondas: “Vão e vêem-se se se voltam devagar”, a banda aumenta a altura, Rui Reininho salta, faz estalar castanholas, o solo do violino aproxima-se do flamenco. O público responde com palmas ao ritmo da bateria. Pausa. “Aguentam a violência de um beijo”, têm a garantia: “As naves que eu construo”. Jorge Romão: “Lalalala”, “elas vogam e fundem-se com o mar”, “devagar”. “Obrigado ladies and gents, aqui no silêncio não há crise. Mais uma música triste sobre Portugal”. As duas guitarras produzem acordes cristalinos, “mil casas no ar”, “as assas são para proteger”, as “imobiliárias”, “virou”, aumenta ligeiramente o ritmo da nave espacial comandada pela BT, “assas são para combater”, “mas só quando quiseres pousar a paixão que te roer”, és, serás, não és, “é um amor que vês nascer”, “prender”, “aconteça o que acontecer”, solo da guitarra com borbulhas de adolescente que delira com gomas e cocaína. “Aconteça o que acontecer”, a progressão atinge o terceiro nível, com um autorizado solo da guitarra eléctrica. “Mais uma música francesa, Zarkozy, Merkel, que se lixem! Nós somos do Porto!”. “Efectivamente”, a pop perfeita, com uma métrica do piano de filme animado em três D, cinestésico, como “adoro o campo”, como “esplanada de um bar, como “pássaros a esvoaçar”, “o riso” da puta dos outros, “cágados”. “Efectivamente”, coro: “Lalalala”. “Adoro os pedrastas que passam”, como “ratos de esgoto”, como “disfarçam ao dealar”, “efectivamente o Porto é diferente”, a declaração de amor: “Gosto desta gente”, como “aparentemente escuto as conversas”. Coro: “Papapapa”, os GNR são gradualmente engolidos pela histeria do público. Durante uma breve citação a “Portugal na CEE”, surge uma pós-adolescente, e canta: “Eu bebi sem cerimónia o chá”, Rui Reininho: “Como uma ideia que mata”. Ela: “UUU”. Rui e a sua partener e o público entoam: “Lotus azul, tigre de papel, triângulo dourado”. Rui: “Princesinha no trono de jasmim”. Ela: “Deixei-a a sonhar por mim”. Ambos: “Ana Lee, Ana Lee” pop com acordes tropicais debitados pelas guitarras. Ela: “São unhas que cravam”, crava-as nas costas do Rui Reininho: “Unhas que cravam” ambos: “São mãos que colhem, Arrroz xau xau”. “Bellevue” , bateria, baixo, teclados, 2x2, baixo: voz: “Leve levemente como quem chama por mim”, no ecrã atrás da banda surge um aeroporto, “subo a mão”, não sabemos para onde vai, a cadência é fílmica, “encosto ao vidro o anel de brilhantes”, quem és? “Com muita atenção”, a expectativa: “Ai! O meu coração”, aqui: o refrão: “Sabem que me escondo na Bellevue”, é o nome deste filme, “ninguém comparece ao meu rendez-vous”, tétrico: “O espelho, o esgar o sorriso cruel”, o local do parto, “experimento o colchão” . “Bellevue”, “rendez-vous”, guitarra acústica, “os meus amigos”, “agora mais ninguém confia em mim” é a declaração de um solitário voyeur, palmas. Ao solo do violino responde o teclado de Tóli, a enegrecerem a melodia, banda, solo do violino, teclado, palmas, o violino penetrante e intenso como o fio da lâmina de um punhal. Pausa. O violino prossegue a sua penetração, cada nota é uma punhalada sobre um cadáver exangue. “Ninguém comparece ao meu rendez vous”, e “as minhas amiguinhas lá no jardim”, “agora mais ninguém confia em mim”. Embala-nos na desculpa: “Era só para brincar ao cinema negro”, “jovens no desemprego”. Palmas. As harmonias que introduzem “Sangue Oculto”, são de um genérico de filme de série B, as escovas da bateria pronunciam que o sangue que alimenta a canção é pulsado de uma fonte vítima da preguiça, “principal”, “a luta na arena”, perde o pender de rock de estádio e enquadra-se na play list de uma rádio que emite no lusco-fusco. “Ao fugir de uma investida”, Reininho ajoelha-se, “ao saltar a fogueira”, canta muito devagar sobre o tónico lounge, “sem correr e sem saltar”, levanta-se: “Portugal não é só inveja”, “oculto sangue, latino que temos para dar”. Sobre o pano de fundo emite uma TV que transmite o passado dos GNR. “Piloto Automático”, é apresentado com a dimensão de uma bateria comandada por Tóli, o pendor da dinâmica é puramente marcial, com os bombos a ecoarem como pulsações que nos revelam a metamorfose: “Quando chega a meia-noite começo a capotar”, provocada pelo “fígado a explodir”, dinamitado por “wisky puro”, coro: “Vodka, vodka”, Rui Reininho: “Bagaceira”, coro: “Vodka, vodka”, Rui Reininho: “Seco madeira”, Rui Reininho: “Vodka, vodka”. “Ligo o piloto automático num programa a esquecer”. O hino contra-natura, “Mais Vale Nunca”, é cantado em uníssono e finalizado com um solo magistral da bateria de Tóli. Segundo Jorge Romão: “Tóli, trinta anos a tocar bateria! O melhor do mundo!”. Tóli oferece as suas baquetas ao público. Jorge Romão: “Gente são trinta anos, o que é que se canta?”, o público canta os parabéns aos GNR. Vídeo com recortes de notícias da banda portuense. O slow-pop, com a preponderância dos teclados, numa cadência sedativa, com o cantor a abandonar os laços que o prendem “esqueci o calor do lar”, teclados e violino, “parado e o mundo vê”, solo da guitarra que é correspondida pelo violino, “esqueci o calor do lar”, do qual “fugi sem hesitar”. Tóli empunha uma guitarra semi-acústica, “Burro em Pé”, meio tempo, “vieste para aprender”, “põe um dedo no ar”, a pop é próxima dos Beatles, quando se inspiravam na obra de Vivaldi. “É verdade, grande surfista: Jorge Romão!” , “pronuncia do Norte” é antecedida por uma ovação, o slow do norte, que eleva um sotaque “lá donde eu venho”, público “torpe”, palmas. Entra em palco New Max: “A bússola não sei se existe”, “é a pronúncia do Norte”, Rui+ New Max: “Corre o rio para o mar”, acordeão, público: “Não tenho barqueiro nem hei-de remar”, é a declaração de independência da poesia, ovação. Rui Reininho retira-se e New Max lidera a canção que subitamente ganha um ritmo soul-funk: “GNR é a pronúncia do norte, os tontos chamam-lhe torpe”, público: “GNR!GNR!GNR!”. New Max: “Não tenho Romão. Não tenho Tóli. Não tenho Reininho”, o seu timbre agudo revela-se no epílogo: “É a pronuncia do norte”, “Porto muito obrigado! GNR 30 anos!”. Após o regresso de Rui Reininho, surge “Cais”. Revista no ritmo de um petroleiro a afundar-se devagar, “barco tem pés para andar”, a sua correspondência é “quando a maré negra chegar”, não há solução teremos que a “limpar”, 2x2, “imundo imenso sais”, “ó neptunias, quais sereias sensuais”, o refrão é a absolvição: “Se o pecado morre ao largo, então é ver no cinema se ´Há lodo no Cais`”, a guitarra de timbre agudo, perturbante, “imenso sais”, “sensuais”, a Foz: “Voltas ao Cais”, progressão contida com ligeira variação. “Voltas ao Cais”. “Esta música é linda”, Rui Reininho coloca a mão na anca direita e a outra na testa. É “Voos Domésticos”, slow doméstico, “ausência”, “ai”, “cozinha”, “campainha”, que se revolta numa ligeira aproximação a um tango encharcado em vinho do Porto: “Num gesto de avareza só pago a sobremesa”. A chantagem emocional: “Olha a turbulência é da tua ausência”, num romantismo depressivo pop, solo do violino, descolam, “ai a turbulência”, “quem és?”, “a torre de control”, “lençol”, “quem sou”. Rui Reininho: “UUUU”, público: “UUUUU”. “Viram os nossos cartazes com a inscrição Câmara Municipal de Lisboa?”, assobios e apupos do público. “Las Vagas”, com teclado como intro, o baixo peja-a de tensão, palmas de Rui Reininho, o teclado é pianíssimo a introduzi-la no universo musical dos Casinos, “marina”, “de ouro a mina”, “aceita apostas”, eu “serei a gorda”, “e tu?”, “e saberás quem paga?”, serei “um peixe fora de água”, o piano mantém-se impávido e sereno perante os acordes do violino, a ser o catalisador da angústia, “serei a gorda”. A partir de “serei a gorda”, a banda une-se ao ritmo do teclado, e aumenta a progressão, que “pensa”, “peixe fora de água”. “Sou um peixe fora de água”, aumenta a progressão, “sou um peixe fora de água”, aumenta a progressão, “sou um peixe fora de água”, massa sonora que reúne o violino, bateria em break beat, baixo, guitarra, teclado, solo da bateria, violino numa luta contra o tempo resulta num psicadelismo associado à morte. “Esta música é muito linda Unika”, “gostem das mães”. É o slow-naturalista, “orvalho”, “na casca de carvalho”, a canção segue as regras de uma composição clássica pop, ganha fôlego quando se transforma em “fantasmagórica”, “aiaiaiai”, e a guitarra eléctrica sola-estoira e transgride como um solo de Slash. “E agora Popless”, caixa de ritmos + bateria + teclado, introduzem as notas do refrão, “subir”, “existir”, “senti-la pousar”, “deixei-a”, “lá vem ela sabendo que é linda”, “cresce”, “interesse”. Tóli introduz o pedal wha wha, repetitivo que se traduz num tímido swing, “POPLESS”, teclado, “foi uma pena deixa-la a jantar”, “passou a hora”, “vibrar”, “bela”, “à janela”, swing pop, com múltiplos casais. Vídeo com os GNR. “Felizmente a noite sai, ainda bem há névoa por aí, estou contente”, a voz suportada pelo piano, “se a luz se esvai”, “se o amanhã perdido for”, “horror”, a bateria irrompe sobre a lentidão do piano, “O céu não fecha já sobre nós”, “revelam cierta imagem atroz”, “perdido for”, a declaração de guerra: “Directa sim, eu declaro morte ao sol”, “OOO”, o solo da guitarra é semi-distorcido que lhe dá o último recorte. Loucura no Coliseu do Porto. “Vamos à la playa?”, com as luzes acesas, os fãs anseiam pelo banho nas “Dunas”, cantada quase na totalidade pelos tripeiros. “Inferno” reúne no palco todos os convidados. Tóli: “Muito obrigado”. “Sangue Oculto” é de novo convocada a subir à arena “principal”, na versão próxima do original que emancipou o rock e rompeu com as fronteiras ibéricas. “Esta é dedicada ao James Rodrigues”, a guitarra eléctrica introduz os acordes hipnóticos do refrão, “a vida é assim e assado”, “para conhecer a verdade”, “perguntem ao meu espelho”, sincope, a introdução do piano talking head, remete-a para o absurdo. “Portugal na CEE”, quando era assunto de jornal “na TV”, rock, “Portugal na CEEE”, a ironia ainda é actual: “Quanto mais se fala menos se vê”, descarga eléctrica, numa métrica de rápidos 2x2. Jorge Romão: “Se nós estamos cá, há trinta anos a culpa é também vossa!” palmas. “Sexta-feira”, com o input de New Max, “ode a Japão”, Rui Reininho: “É Domingo na Ribeira”, palmas-gritaria, “grande buraco da Madeira, ninguém vai levar a mal”, ovação, esperamos a sua “confissão”, ambos: “Já não sei em quem votei”. Acendem-se as luzes do Coliseu, entram os convidados em palco, abrem garrafas de champanhe, e recebem palmas calorosas e entusiástica, GNR sorriem e são fotografados para memória futura.
Voos Domésticos- Celebração dos trinta anos de carreira dos GNR, 12 de Novembro, Coliseu do Porto @ Porto
Voos Domésticos- Celebração dos trinta anos de carreira dos GNR, 12 de Novembro, Coliseu do Porto @ Porto
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Susan Sontag
O tecelão que se encontra atrás da bateria de Simon Gilbert dos Suede são duas carcaças entre as quais deveria constar Brett Anderson tal ...
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