domingo, 7 de junho de 2015

Just Kids

O Parque da cidade do Porto acolhe a quarta edição do festival NOS Primavera Sound em que se inclui Patti Smith a musa de Robert Marplethorpe, testemunha ocular de uma Nova Iorque da década de 60 do século XX que fervilhava em criatividade e em luxuria. A poetisa americana surge da esquerda do palco acompanhada por quatro músicos: o homem da guitarra eléctrica de cabeleira comprida e esbranquiçada tal como a da Patti Smith, um outro ostenta o baixo eléctrico e outros dois que sentam-se respectivamente nos bancos do teclado e da bateria. O sol ilumina gloriosamente o palco e o vento expira a maresia de um mar que não se encontra encarapelado, Patti Smith coloca no seu rosto ossudo uns óculos escuros para se proteger da luminosidade primaveril; a banda prepara-se para dar início a “Gloria: In Excelsis Deo”, o primeiro tema do álbum “Horses” (1975) que vêm ao Porto apresentar na íntegra. Patti Smith cumprimenta alegremente a multidão: “Hello everybody!”; “olá!”. Sobre o piano lento de “Gloria: In Excelsis Deo”, Patti Smith canta como se estivesse a incendiar uma floresta de enganos: “Jesus died for somebody's sins but not mine”, o piano continua a impor a melodia amordaçada pela alegria, “They belong to me, me”, o compasso do bombo encaixa-se no piano e sublinha: “me”; “I walk in a room, you know I look so proud”; aparentemente Patti Smith não vê o seu reflexo no espelho do quarto de banho do Chelsea Hotel: “She looks so fine”; o ritmo acelera-se e a canção ganha densidade emocional, ferida aberta pela voz angustiante de Patti Smith: “Walking down the street”; “here she comes”; coro: “OOOO”. “She looks so fine”. Há um recrudescer do ritmo e consequentemente as cores rubras dos acordes de “Gloria: In Excelsis Deo” ganham um dramatismo Pop que é sublinhado pelo coro: “OOOO”, resposta da diva, “I'm gonna make her mine”, repete angustiantemente: “She told me her name”; “AIAIAI”. Patti Smith dança enquanto os músicos transcrevem a Pop para a transgressão Rock, antes do fim do verso: “And her name is, and her name is, and her name is, and her name is G-L-O-R-I-A”, o público grita libertariamente: “Glória”; e os dois cantos imiscuem-se livremente: “G-L-O-R-I-A”; público: “Gloria”; Patti Smith: “G-L-O-R-I-A”; coro: “Gloria”; Patti Smith: “G-L-O-R-I-A”. Patti Smith junta os braços ao seu tronco, que veste um blazer preto, a agradecer ao: “Porto”. Antes da segunda canção da tarde, "Redondo Beach", gera-se a primeira ovação da tarde; a toada espaçada do piano e da guitarra eléctrica revelam um ritmo reggae, o groove Pop é fornecido pela bateria acompanhado por um baixo eléctrico encorpado. “Late afternoon, dreaming hotel”; e sobre os acordes alegres canta: “I was looking for you, are you gone gone?”; o break da bateria não retira “Redondo Beach” do seu ritmo lento, “Well, you never returned, oh you know what I mean”; a bateria sublinha a Pop e a guitarra domina a toada reggae e sobre este composto dança a poesia de Patti Smith: “On Redondo Beach and everyone is so sad”. A guitarra eléctrica suporta melodicamente o verso entre da angustia relacionada com a rotina: “are you gone gone?”; “gone, gone”. “preaty litle girl”; “she was the victim of sweet suicide”. O ritmo Pop joga às escondidas com o reggae como se fossem duas máscaras sobrepostas que aparecem e desaparecem intercaladamente--- “you”, coro: “UUUU”; “I was looking for you”; e eventualmente: “Desk Clerk told me girl was washed up”, “are you gone, gone”?; coro: “UUUU”-- que oferece à canção um estado de espírito arrepiante; “Went to my room, started to cry”, “for you”, e sobre a melodia Pop reggae: “Gone gone, gone gone, good-bye”. Ouvem-se gritos e os braços ao alto da multidão que agradecem à cantora norte americana a bênção da sua presença alegre e comunicativa. Antes da terceira canção, Patti Smith mune-se de uma folha de papel branca onde consta a letra de “Birdland”; o piano insere umas notas corridas mas lentas, a sua voz canta/fala e narra: “His father died and left him a little farm in New England”; do piano surgem notas que são tocadas de forma decrescente/inversa aos tocados inicialmente criando um dramatismo pejado de suspense, “because when he looked up they started to slip”; o baixo, a guitarra eléctrica e com a anuência da bateria revelam uma consistência Pop mas mantém-se subjugados sentimentalmente à dor preguiçosa do piano, “because he was not human, he was not human”; num sponken word frio e dilacerante observa: “And then the little boy's face lit up with such naked joy”; insurge-se um crescendo que gradualmente transcreve na melodia Pop melancólica, “No, daddy, don't leave me here alone”, e o prog-rock é inscrito e dessa forma acrescenta uma agressividade que se imiscui inscientemente no consciente, “Pushing it all out like latex cartoon, am I all alone in this generation?”; uma perspectiva sobre a alienação que domina a população globalizada: “We'll just be dreaming of animation night and day”. “Birdland” continua dominada pelo rock com laivos incisivos de prog, “The son, the sign, the cross”, a canção ganha uma suavidade Pop que acompanha a repetição do termo: “up, up, up, up, up, up”, Patti Smith levanta o braço direito e com o indicador aponta para: “up”. Por fim, o quarteto de instrumentistas revelam um blues/lento mas estranho por ter origem na miscigenação entre a Pop e o Rock (prog), “And where there were eyes were just two white opals, two white opals”, coloca as mãos sobre os olhos como se desconhece-se a sua própria narrativa, “Up up up up up up”, o público acompanha a sua gestualidade e entoa a letra que é rap, “Sha da do wop, da shaman do way, sha da do wop, da shaman do way”, “birdland”. Em “Free Money” é inicialmente o piano que intervém lentamente como se estivesse a retirar pétalas de um girassol: “Every night before I go to sleep”; “Find a ticket, win a lottery”, a lullaby encantada é levemente imposta pelas notas doces do piano, após o canto de sereia acutilante sustenido: “Cash them in and buy you all the things you need”, a bateria com a sua cadência bombeada pelos bombos substitui as tonalidades doces e a espaços agrestes do piano e com conivência estilística do baixo e da guitarra eléctrica assumem tonalidades Pop/Rock: Pop porque incorporam dinamicamente os acordes do piano, Rock porque instituem uma agressividade melodia de salutar. “I know they're stolen, but I don't feel bad”. “Oh, baby, it would mean so much to me/ Oh, baby, to buy you all the things you need for free”. Em regime de spoken word Patti Smith refere: “I'll buy you a jet plane, baby”. “And we'll roll, dream, roll, dream, roll, roll, dream, dream”, o coro responde-lhe: “Dreaming”. É a guitarra numa frequência agressiva que domina o composto sónico: “Find a ticket, win a lottery”; o fluxo dominado pela guitarra eléctrica é de uma aspereza dilacerante, coro: “dreaming”. Patti Smith num timbre diáfano do qual desconhecemos o seu género sexual: “Let's dream it, we'll dream it for free, free money/Free money, free money, free money, Free money, free money, free money, free”-- canto de uma ideologia utopica inscrita numa poetica Rock and Roll. Ovação. A quinta canção “Kimberly”, consta segundo Patti Smith no “Side B” do álbum “Horses”; quem sobressai do quarteto de músicos é a bateria num ritmo dois por dois, mas é o piano e a guitarra quem desenham a melodia Pop com alguns laivos perenes de reggae, “the sky will split/And the planets will shift”, o break da bateria encaixa-se na melodia Pop-- “the sky is falling, I don't mind, I don't mind”, “OOOO”-- que é hiperbolizada pela guitarra eléctrica, “Oh baby, I remember when you were born/ It was dawn and the storm settled in my belly”; “And I lit a match and the void went flash”; “Balls of jade dropped and existence stopped, stopped, stop, stop”. A bateria executa novamente um break que apenas serve para incutir a “Kimberly” um repente que a faz baloiçar numa ténue represa Pop, “I was going crazy, so crazy I knew I could break through with you”, sublinhada pelo trinar eléctrico da guitarra eléctrica: “fire on a mental plane”; a represa liberta a contenção rítmica e o rock domina, “The palm trees fall into the sea”; “As long as you're safe, Kimberly”; “OOO”. Patti Smith dança e empunha o microfone para os seus lábios húmidos: “Kimberly”, “OOOO”. Quanto a “Break it Up” Patti Smith é taxativa: “This song was written in loving memory of Jim Morrison”. O piano assume uma cadência lenta, “Car stopped in a clearing”, a bateria introduz um ritmo dormente, “I saw the boy break out of his skin”. Coro: “Break it”; as harmonias da guitarra eléctrica enunciam uma primavera tingida de cores outonais, “Break it up, don't talk to me that way”, o seu solo agudo é descrito como se fosse um raio resultante da reunião de duas nuvens antagónicas, “I could hear the angel calling”; após a repetida intromissão da guitarra eléctrica sobre o baixo e a bateria que suportam o coro: “Break it up”, Patti Smith relata suavemente: “Break it up, oh, I want to feel you”. A tragédia surge aos nossos olhos secos de esperança: “The boy disappeared”, a guitarra eléctrica revela-se como se fosse uma alma incandescente a aceder a um céu que nunca se realizou em qualquer pôr-do-sol-- a cadência mantém-se funebremente Pop-- Patti Smith clama: “I cried, ´Take me please!`". Coro: “Breaking up”; a guitarra eléctrica realiza um solo épico que congrega uma dor tão excessiva quanto real. Palmas. A penúltima canção que consta em “Horses” é "Land: Horses / Land of a Thousand Dances / La Mer(de)". O primeiro momento é dominado pela guitarra eléctrica que discorre através de uma semi-distorção em delay: “The boy was in the hallway drinking a glass of tea/From the other end of the hallway a rhythm was generating”, “coming”. Patti discursa assertivamente que somos vítimas de “governments! Corporations!”; “Corruption in the world”, o público pronuncia-se em uníssono e responder-lhe como se Patti Smith fosse a líder de um partido constituído por activistas do Rock and Roll. A guitarra continua a dominar, mas num ritmo crispado, “Johnny”; “The boy disappeared, Johnny fell on his knees”, palmas, a solidão é-lhe delirante de tão doentia: “started crashing his head against the locker”. Quando Patti Smith canta, “horses”, há a marcação do bombo que é o alicerce a partir do qual o piano, guitarra e o baixo eléctrico descrevem um conjunto de acordes puramente rock e este é revertido para uma cadência mais lenta, violentada pela frequência agonizantemente da guitarra eléctrica (wah wah com delay), “Roll down on her back, got to lose control, got to lose control”, ovação, a canção ganha uma embriaguez imposta pela bicefalia Pop/Rock, “fucking games”; “Life is filled with holes, Johnny's laying there, his sperm coffin”; quando informa que Johnny está “dancing in Porto”, recebe um sonoro e pronunciado espanto, estupefactos por fazerem parte da narrativa trágica sobre Johnny. O piano reincide os acordes Pop de “Gloria: In Excelsis Deo”, a multidão delira e canta: “Gloria”. Patti Smith pronuncia-se tragicamente livre: “Jesus died for somebody's sins but not mine”, as palmas estalam como o chicote aplicado sobre o dorso branco de Jesus da Nazaré, o público delira, “glória”, hipnotizados por uma estranha beleza épica Pop, “G-l-or-i-a”. “G-l-o-r-i-a”, palmas e por fim uma violenta ovação: “Thank you!”. "Elegie" é a “last song from ´Horses`” e descreve-a como: “is a little song”, dedica-a: “in loving memory of Jimi Hendrix”; “and to all the people I love”, “to all of them”. O músico da bateria passa a ostentar uma guitarra eléctrica que se soma à pré-existente e ao baixo eléctrico. O piano introduz uma melodia de uma valsa tão suave quanto esotérica, com a pontuação de uma das guitarras que a sublinha delicadamente e o baixo confere-lhe um andamento longitudinal, a sua voz é um canto profundamente expressivo, “I just don't know what to do tonight”, as guitarras revelam-se poeticamente como se fossem violinos introvertidos. “There must be something I can dream tonight”; “All the fire is frozen yet still I have the will”, “UUUU”, uma das guitarras sobressai num crivo Blues mas sem redundar no cliché, Patti Smith em regime de spoken word: “Trumpets, violins”; “but I think it's sad, it's much too bad/That our friends can't be with us today”. Enumera diversas figuras míticas da cultura Rock and Roll: “Lou Reed”, palmas, “Joe Strummer”, palmas, “Sid Vicious”, palmas, “Fred Sonic Smith”, palmas; novamente lamenta: “That our friends can't be with us today”. Patti Smith e a sua banda dão por encerrado o capítulo das canções que compõe “Horses”. “Because the Night” é o primeiro bónus da tarde e tem um inicio dominado pelo piano, “Take me now baby here as I am”; “Desire is hunger is the fire I breathe”; a angustia melancólica trasveste-se de uma alegria Pop imposta pelo break da bateria com devida parcimónia dos restantes instrumentistas, “Come on now try and understand”; “Take my hand come undercover”; numa festividade Pop que encontra reflexo numa multidão enfeitiçada por Patti Smith, quando canta o refrão: “Because the night belongs to lovers/ Because the night belongs to lust/ Because the night belongs to lovers/ Because the night belongs to us”; coro: “Because the night belongs to lovers/ Because the night belongs to us”, deflagra uma histeria generalizada que a acompanha irrepreensivelmente; sobrevém o piano e o baixo resumindo pacientemente os seus acordes, “Love is a ring, the telefone”; “Here in our bed until the morning comes”. Patti Smith canta em unisso com o público: “The way I feel under your command”; o recrudescer do ritmo impregna-a de uma urgência inesperada: “feel”; “take my hands”; “Can't touch you now, can't touch you now”; empunha o microfone ao público: “Because the night belongs to lovers/ Because the night belongs to us”. Ovação. “People Have The Power” é dotada de uma melodia Pop com as guitarras eléctricas a revelarem-se rock, Patti Smith dança sobre a sua cadência alegre, “I was dreaming in my dreaming”, ganha uma progressão que mistura a pop com o rock, “And I awakened to the cry”, emancipam-se epicamente quando Patti Smith canta: “And the people have the power”, que é gritado em uníssono pela multidão; o baixo eléctrico ganha supremacia sobre os outros instrumentos que expectantes se secundarizam, “Vengeful aspects became suspect”, o baixo impõe-se como denominador comum imolando os acordes festivos, “And they laid among the stars”; “dust”, ouve-se o solo do baixo a acompanhado por palmas ritmicamente sintonizadas, “cry”. A banda redesenha a melodia pop/rock que extravasa com o refrão cantado pelo coro: “People have the power/People have the power”; “to dream”; a banda encara o público saltitante e encetam um contínuo assalto bíblico à democracia: “People have the power”. Patti Smith não poderia ser mais explícita: “Don`t forget it!”. A última ovação da tarde despede os quatro músicos, Patti Smith junta e ergue as mãos simbolicamente numa exortação de sincera e profunda gratitude.

“Horses”, Patti Smith and Band, NOS Primavera Sound Porto, 5 de Junho@ Porto

domingo, 24 de maio de 2015

Psycho

Noite tépida no Salão Brazil onde se encontram três bandas que fazem parte da festa de apresentação do festival Kamalhão que se realiza em Julho em S. Silvestre: The Jack Shits, PSICOTRONICS e os Gost Hunt. The Jack Shits estão a debitar a sua agressividade garage ao ritmo de Jackie la Feline que é a baterista mais ecléctica de Coimbra a Capital do Rock, a sua rapidez assertiva faz esquecer Nick Shit. “Olá boa noite, somos os Jack Shits”, é a voz do franzino de tronco nu Diogo Shit na guitarra semi-distorcida que aliada à de Samuel Shit, perfazem um composto tóxico de tão abrasivo; “Bem-vindos ao warm up do Kamalhão”. A canção nova que apresentam é uma união entre um vampiro e uma prostituta de apartamentos nos subúrbios de Coimbra onde se satisfazem inglórios pénis.
Os PSICOTRONICS são uma referência para moda a indie, atentem à roupa de Marquis de Cha Cha: no rosto tem uns óculos escuros redondos sobredimensionados para o seu rosto moreno surgindo um ser descrito por Kafka, na cabeça uma cartola digna de um finalista ébrio nas noites da Queima das Fitas de Coimbra, enverga uma jaqueta de smoking que cai até aos joelhos nus em pernas depiladas, a pélvis é coberta por um body de cetim vermelho, é este o clown indie criado para afastar os maus espíritas. A relação entre as programações, a guitarra eléctrica de Victor Torpedo, a voz do Marquis de Cha Cha e o baixo de Pedro Calhau, sobrevém um groove por vezes tecno outras psico-tecno ou psico-rock-tecno, que exalam uma alegria contagiante que convida o parceiro ou a parceira a dançar sem preconceitos.
Por fim os Ghost Hunt-- dupla constituída por Pedro Chau e Pedro Oliveira este último está rodeado por teclados analógicos e o segundo toca baixo eléctrico-- que se apresentam pela segunda vez ao público. O domínio estilístico pertence aos teclados que inserem diversas camadas de som tecnológico que circularmente dominam a consciência do ouvinte, e que sub-repticiamente é profundamente alucinogénio e obviamente psicadélico; quando Pedro Oliveira adiciona a guitarra eléctrica aguda, substituiria facilmente os violinos de Bernard Herrman na cena do chuveiro em “Psycho” de Alfred Hitchcock. Perante este vulcão sónico não é de estranhar que o palco tenha sido invadido por diversos rockers que dançaram e entoaram cantares de amigo. Se se cruzarem com os Ghost Hunt não se dêem ao trabalho de colocar a alma no seguro, porque essa ficará definitivamente confiscada à realidade.

Warm up do Festival kamalhão com The Jack Shits, PSICOTRONICS, Ghost Hunt, 23 de Maio, Salão Brazil @ Coimbra

domingo, 17 de maio de 2015

Death of a Salesmen

A discoteca States em Coimbra tem como cartaz da noite: “Victor Torpedo” e o seu espectáculo “Karaoke”, que celebra a edição do duplo “Raw”, primeiro trabalho a solo de Victor Torpedo. O músico de Coimbra passeia-se entre os presentes como se fosse mais um conviva, para quem tem no currículo bandas como os Parkinsons ou Tiguana Bibles seria perfeitamente normal que estivesse no camarim a concentrar-se para enfrentar o palco, isto revela uma atitude profundamente punk. Victor Torpedo vai “tocar” dezasseis canções, o “tocar” não é ingénuo pois na verdade as canções serão debitadas de um computador directamente para as colunas da States. O primeiro tema é um instrumental denominado “Congo”, corresponde a uma melodia exótica vinda de África, “stereo”, enquanto Victor Torpedo dança fora do palco. “So dead” abre a porta a uma melodia que advém da cidade de Manchester mas quando na década de noventa foi invadida pelos Stone Roses ou Happy Mondays. A Pop com contornos clássicos melancólicos são devidamente delineados em “Ways to Go”, que encontra Victor Torpedo a cirandar pelo público a cantar: “Sick of myself”; senta-se no palco: “I`m sick of the world”. Antes da quarta canção “About Life”, Victor Torpedo faz a declaração da noite sobre um dos seus heróis de infância: “O B.B King morreu e eu não posso fazer nada”. O que emitem as colunas é uma canção Pop que é preponderantemente low fi, isto oferece-lhe um carácter efectivamente kitcth, os versos versam “pictures of you”; no ecrã passeiam-se descapotáveis em L.A, “you can dream”, ouve-se o feedback do microfone, este som é provocado pela agressão do Victor Torpedo, “like you and me”, retira do bolso do casaco um pente e penteia a poupa Elvis Presley. Antes de “By Me”, Victor Torpedo revela algum desconforto: “Daniel isto está estranho; tá tudo bem por aí?”; o baixo eléctrico é de uma relevância constante, doseado numa frequência próxima à dos Joy Division, no ecrã surge uma manifestação gay com as suas bandeiras coloridas. Victor Torpedo canta: “They are calling for us”; “tonight”; “ride”, finaliza a canção fixando-se no palco como uma estátua que se sente tolhida pela realidade. A sexta canção é “Control”, remete melodicamente para a Pop em que as guitarras dengosas ressoam sobre o baixo grave e assertivo, uma celebração negra que instaura gradualmente uma alegria insuspeita, “take me to a place that I know”; no ecrã surge um rapaz tímido e solitário, “you control me”; “show”; “you control me”. Victor Torpedo agride o microfone que projecta um estardalhaço. O psicadelismo Pop domina “Confessions”, disso são exemplo as guitarras progressivas sobre um ritmo repetitivo, “cry”, algo que obriga à dança, “I`m sick of the world”; “life of lust”. Sobre o seu currículo de galã rockabilly Victor Torpedo é assertivo: “Nos anos oitenta eu e o Pedro papávamos tudo; era diferente nos anos oitenta!”. Na oitava canção “Out of Fasion”, o ritmo dançável mistura-se com um baixo corpulento, “or take your style”, Victor Torpedo encontra-se no meio do público a incitá-lo para que cante, há uma jovem que arrisca: “Fohografa”; Victor Torpedo: “Their`s time”. A nona canção “Beautiful Violence” é dominada por guitarras semi-distorcidas mas remetidas para uma produção low fi: “I`m never alone”; “sad”; “you and me”; “scream”; “love and hate”. A décima canção da madrugada é “I Agree”, que prolonga a vertente low fi decadente da anterior, com as guitarras a pronunciarem-se na vertente Pop.“Only Ghosts” tem um groove repetitivo que se instala em loop. “Meet my Tribe” é alicerçada num beat africano, “tribe”, que tem uma progressão Talking Head, “meet my tribe”; Victor Torpedo encontra-se próximo de uma jovem empunha-lhe o microfone e esta uiva: “AAAAA”. Antes da décima terceira canção “Oh ah Yoush”, Victor Torpedo questiona o público: “Querem mais? Eu toco mais quatro ou cinco, estou-me a cagar!”. A melodia Pop é imposta pelas guitarras eléctricas que se impõem como denominador comum e sobre as quais Victor Torpedo repete: “Oh ah youh”, num dueto absurdo divide o microfone com uma loura que enverga um vestido negro que não lhe encobre o colo bronzeado. Victor Torpedo faz vibrar o público com a sua determinação: “Tenho que cantar mais cinco!”. “Common” é dominada por um twist kitsch, Victor Torpedo empunha o microfone a Carlos Subway que grita: “AUIUI”. Victor Torpedo coloca o micro na boca e exercita o corpo através de flexões ao ritmo do twist, o dueto improvável mantém as suas coordenadas no grito latino: “UUU”; Victor Torpedo: “Common”; Carlos Subway: “AIAU”. Victor Torpedo repentinamente despe a camisa, “uuu”, atira-se novamente ao chão para completar as flexões; Carlos Subway: “AIAI”. Victor Torpedo em pé coloca o microfone sobre o coração como se estivesse perante um pelotão de fuzilamento. Antes da penúltima canção “Dawn of the Day”, Victor Torpedo veste o blazer escuro sobre o tronco nu, a Pop é orientada pelo baixo eléctrico a partir do qual flui a melodia low fi, no ecrã surgem militares a marchar, a bandeira dos Estados Unidos dança ao sabor do vento quente. “Bring your poison”. Por fim Victor Torpedo comunica: “Toco mais quatro?”; dedica, “Il est dejá Trop Tard” ao “B.B King que morreu hoje”. Composta por um ritmo dançável a partir do qual emerge o blues com origem nas alucinações de Tom Waits. Victor Torpedo de tronco nu: “Il est dejá trop tard”, é correspondido pela loura de decote que o perseguiu durante a apresentação de “Raw” na States. Victor Torpedo é taxativo quanto aos seus intentos de incansável crooner: “Vou tocar mais quatro, e vocês vão para o caralho!”. Repete: “So dead”. E finalmente assume: “Não sei se está é a última” e “queria dedicar esta canção ao Pedro Antunes e ao Chau e ao Carlos Dias [Subway]”.

Victor Torpedo, “Raw”, 15 de Maio, States @ Coimbra

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Englar alheimsins

Está calor no interior da discoteca Beat Club em Leiria que pontualmente convoca para o seu palco bandas diversas, esta noite tem como convidados os Jack Shits e os Parkinsons. Os primeiros encontram-se a debitar “Toni Lee” que tem uma melodia rock-mecânica-repetitiva suficientemente violenta para alastrar como se fosse lava expungida por um vulcão adormecido desde o paleolítico. Diogo Shit grita para o microfone a mudez da natureza que é aniquilada pelo manto incandescente negro e vermelho; o mecanismo assenta na distorção das guitarras associadas à violência dos pratos de Nick Shit e que dada a sua minimalidade é uma substância subliminarmente tóxica por extorquir a raiva contida em corpos frustrados com a vida-- ecoam as palmas do público que lota o Beat Club. “Bring it Home” tem como premissa as guitarras a deflagrarem acordes profusamente garage, o rock advém da bateria de Nick Shit, “I don`t know”, os Jack Shits aceleram o ritmo e após a pausa, Diogo Shit grita para o microfone: “AAAUUU”. Pausa. “Bring our love”, a detonação é contínua “AAAUUU”, e depois do solo da guitarra de um dos músicos há uma progressão com raízes num bullyng garage imposto a um idoso surdo. Palmas. Os Jack Shits apresentam-se: “Olá, boa noite! Somos os Parkinsons!”. “I Don't Want To Be Real” é de um curto espaçado com as guitarras eléctricas semi-distorcidas a ramificarem-se como espinhas num rosto de um adolescente vítima da mãe natureza, sobe ao palco um homem magro com uma cabeleira loura atraído pelos troncos nus dos Jack Shits, mas não perturba a dor na voz agressiva de Diogo Shit: “I don`t want to be real”, “real”. O bombo outonal de Nick Shit é crispado por um solo violento de umas das guitarras électricas semi-distorcidas, a loura e o Diogo Shit dividem o microfone como se este fosse um desejo Pop, há um suspense rítmico que lhe oferece uma expectativa inusitada, a loura beberica uma bebida branca, e as guitarras revelam-se num repuxo provocado pela respiração de uma orca assassina. Na quarta canção “Godmamn” impõem-se as guitarras eléctricas semi-distorcidas, uma das quais representa um solo violento e quando são injectadas pela detonação da bateria de Nick Shit a explosão projecta estilhaços para o olhar dos presentes, Diogo Shit berra: “to see”. Pausa. Os Jack Shits abandonam dinamicamente a frequência acelerada para se alicerçarem num rock crispado, “got the”, a melodia é confiada a uma dinamitação de minas pisadas por militares africanos e que corou o estropio como memória da guerra nas ex-colónias. Em “Sex Beat” dominam as guitarras em regime de semi-distorção com a bateria de Nick Shit a compensar com uma vertente contida e continua, “move”, pausa; um homem sobe ao palco e dança ao lado de Diogo Shit, entusiasmado por reconhecer a quinta canção como pertencente aos Gun Club, “move”, canta enquanto dança: “Sex beat”. A sexta canção “Wanna Make You My Baby” é iniciada por um feedback de uma das guitarras, que instauram uma frequência agreste como se fosse uma ventania promovida por arame farpado a cravarem as suas garras em bonzais que meditam sobre o sentido da vida, a bateria de Nick Shit é uma cúmplice providencial que determina o saque às mentes alienadas, Diogo Shit grita: “I” (grito), há um ritmo sustenido na massa das guitarras semi-distorcidas rejeitada pelos irmãos Shit, e perante o aceleramento rítmico, “I” (grito), há um solo angular que a penetra para jamais erradicar a maldade. A antepenúltima canção da noite é “You Don't Learn”, conjugam-se alternadamente as guitarras semi-distorcidas de Diogo Shit e de Samuel Shit com a distinção hiperbolizada da bateria de Nick Shit, pausa, os Jack Shits visceralmente reflectem-se num torpor criminoso; o bombo é um ponto de onde discorrem as guitarras, “just like” (grito); o trio ilumina um rastilho de um fogo preso acendido por um guru esquizofrénico. Às palmas, Diogo Shit apresenta novamente os Jack Shits: “Nós somos os Parkinsons”; “eu sou o Chau”, chama por “Kazuza”, figura incontornável da noite de Coimbra; ouve-se o bombo que marca o início de “Let`s Go”, “Kazuza prepara-te que entras a seguir!”, a premissa da canção deriva para um encadeamento intercalado entre as guitarras de Diogo Shit e Samuel Shit com um ritmo sincopado (Pop) desferido por Nick Shit, “AUAUAU” (grito), sobre o qual há uma interferência egocêntrica de uma das guitarras num solo angular semi-distorcido; o público rodeia o cantor de tronco nu franzino e gera-se uma apoteose, entre os quais se encontra o Kazuza que foi esculpido por Botero num dia em que a inspiração o agraciou para a inalcançável perfeição. Alguém canta para o microfone: “Au baby”; “yesterday”; os Jack Shits relegam-na para um fim épico, não sem antes citarem os Bon Jovi: “You give love a bad name”. Para “Gloria” da autoria de Patti Smith, Diogo Shit chama educadamente por “Victor [Torpedo] anda cá caralho!”, quando o Rei do Rock de Coimbra comparece enverga uma guitarra eléctrica, e é apresentado devidamente pelo cantor de tronco nu: “Victor Torpedo dos Parkinsons”, finalmente apresenta a banda que lidera: “Nós somos os Jack Shits”. As duas guitarras inserem os acordes Pop mas numa vertente de corrosividade suprema ao rasgarem via distorção a sua beleza melódica, “III”, o coro é de Pedro Chau: “Gloria”, a rapidez que encetam impõe a extrema decomposição dos acordes que simbolicamente a representam. Pedro Chau: “Gloria”; Diogo Shit: “AAA” (grito), a marca de água de Victor Torpedo corresponde ao dedilhar da guitarra como se esta fosse um músculo do qual exprime o blues, “allright”, “I”, Pedro Chau: “Gloria”; solo de Victor Torpedo. O ritmo decresce e agrega-se à Pop, os corpos dos músicos estão suados, Diogo Shit: “Gloria”, público: “Gloria”; Diogo Shit: “Gloria”, público: “Gloria”. Diogo Shit: “Gloria”, Pedro Chau: “Gloria”; Diogo Shit: “Gloria”, Pedro Chau: “Gloria”. Ovação.
Os Parkinsons são recebidos com uma loucura contida e sem que lhes dê tempo para explodir o quarteto de Coimbra, que foi a primeira banda portuguesa a tocar no festival de Glastonbury, acende o rastilho de “Primitive” que tem uma vibração apoiada na guitarra eléctrica de Victor Torpedo e no ritmo acelerado imposto por Paula Nozzari, “I want to wake up”, o composto químico é proporcionado por um punk incisivo e a agressividade oral é assertiva, “long way to get me”, “race”, pausa, Victor Torpedo dedilha a sua guitarra eléctrica como se fosse uma harpa de cordas escaldantes, consentaneamente alicerçada na métrica de Paula Nozzari e pelo baixo eléctrico de Pedro Chau, há angustia no canto de Afonso Pinto: “I want to wake up!”. A segunda canção “Too Many Shut Ups” é perentoriamente mais acelerada que a anterior, e em termos melódicos é um estilhaço que dilacera os órgãos sumariamente e é compulsivamente dedicada a despertar os alienados da sua constante contemplação das sombras da alma. Victor Torpedo enquanto rejeita um solo épico atira-se da coluna para o fosso junto ao público, um demónio que apenas tem como objectivo personificar um guitarrista em transe por entre uma floresta de troncos nus tatuados. A parceria de Paula Nozzari e de Pedro Chau é uma barreira intransponível de fogo onde é incinerado um xamã, “I”, enquanto o solo da guitarra de Victor Torpedo se faz e desfaz num torpor inconcebível o microfone de Afonso Pinto é apontado para as bocas dos presentes que vociferam. Palmas. Afonso Pinto toma a palavra: “Obrigado! Somos os Parkinsons”, ironicamente corrige: “Somos os Jack Shits”, “muito obrigado aos Jack Shits! Muito obrigado ao Carlos Matos por arriscar trazer-nos aqui”. “Angel in the Dark” tem um dois por dois imposto por Paula Nozari mas é tão acelerado que parece exorcizado por uma máquina de costura que perfura os tímpanos com o apoio da sobriedade inevitavelmente estranha do baixo de Pedro Chau; e se Victor Torpedo enquanto sola não estivesse a investir dramaticamente sobre o público, não estaríamos perante o maior guitarrista da Península Ibérica, que transforma cada riff num punhado de ácidos ávidos por corromper o sol. Afonso Pinto grita: “reality”. A quarta canção “Body and Soul” é de uma reverb grotesca de tão suicidária, ou um complexo de barbitúricos num copo de cocktail manuseado por dedos finos de unhas pintadas de vermelho. “My life”; “many”; salpicada pelos solos dementes de Victor Torpedo, “in my heart”, o bombo revela-se num pulsar activo, a voz de Afonso Pinto é o rasgar dilacerante prolongado pelo solo electrocutado da guitarra eléctrica de Victor Torpedo, “it`s just body and soul, a variação para um meio tempo exonera-lhe a vertente punk e insere-a num falso Pop-- e se a isto juntarem a inoperância de Victor Torpedo que vê a sua guitarra perder uma corda, socorre-se de uma outra mas o jack não coincide com a reentrância da guitarra, pede ajuda e surge o Samuel Shit mas que não consegue resolver o problema— e quem sobressai é o baixo de Pedro Chau com a devida complacência da bateria de Paula Nozzari, Afonso Pinto continua a cantar: “Common baby you have nothing o loose”, “my baby”. A nova guitarra de Victor Torpedo faz-se ouvir através de uma cadência rock, ressoa o baixo de Pedro Chau, “my baby”; Victor Torpedo ocupa o espaço vago através de um solo discreto, “where`s my baby?”; “right next to me”; “where is my lady?”, um espectador divide o microfone com Afonso Pinto: “UUU”. Segundo Afonso Pinto a “Body and Soul” resultou numa “versão acústica.” A quinta canção “Nothing to Lose” é apresentada por Afonso Pinto da seguinte forma “esta é nova!”. Dotada de uma demência melódica em que impera a guitarra eléctrica semi-distorcida de Victor Torpedo e voz é um rasgo na pele de um mamífero indefeso, “Can go”, “in the back seat” , a distorção e rapidez rítmica consolidam um punk com uma coerência assassina. “Streets of London” tem um domínio rock mas a progressão atenua a sua agressividade, “paradise”, “away”, coro: “away”, “common”, um espectador sobe ao palco e automaticamente atira-se sobre a multidão e Victor Torpedo movimenta-se na linha da frente como se estivesse a digladiar-se com dragões alados, “Rock and Roll”, “away”, nunca a violência foi de tal forma vilipendiada. Victor Torpedo é poeticamente perentório: “Os Jack Shits foderam o material todo! Partiram-me as duas cordas!”. Os Parkinsons iniciam “New Nave” que é sodomizada pelo riff vibrante, milimetricamente ora ascendente ou descendente, da guitarra eléctrica semi-distorcida de Victor Torpedo. Afonso Pinto tem um timbre de rebelde sem causas e como tal um delinquente expulso de um orfanato com adolescentes drogados, “station”, “I can`t see you”, o desferir dos pratos da incansável Paula Nozzari coincidem com as notas curtas da guitarra de Victor Torpedo e a sua constante repetição injectam-lhe doses impuras do mais sublime punk. Antes de “Runing” Afonso Pinto de tronco nu e com a tatuagem de uma ave ao peito da qual gotejam bombas nazis faz a seguinte declaração: “Deixem-me apresentar a nossa nova baterista, que faz muita inveja a muito homem, é a Paula” Nozzari ou Jackie la Feline quando destrói uma bateria. A relação que se estabelece entre os Parkinsons tem como centro o ritmo dois por dois da bateria e o baixo eléctrico de Pedro Chau é assertivo e quem instala a melodia é a guitarra de Victor Torpedo. O acelerar do ritmo retira-a da melancolia e instala-a num divã em que o psicanalisado consumiu cocaína, “1-2-3-4”, o crescendo impõe a visceralidade ou a alucinação de um pedrado, “never”, instala-se o caos no público que se revê no Rock and Roll travestido de punk. Após “Runing” Afonso Pinto encarna o político com uma medida contra a natalidade: “Somos filhos de putas!”, censura-se: “ Não há necessidade!”, contorce sensualmente o tronco nu como se estivesse a demandar por clemência ao público pela violação dos valores da Igreja Católica. A oitava canção da noite é “Wee Hours”, o bombo e o break da bateria de Jackie la Feline irrompem num crescendo, “you are happy?”, quando se estabelece numa rapidez sufocante é perseguida pela deflagrante guitarra eléctrica de Victor Torpedo, que se atira sobre o público para o intimidar, “rocking”, os breaks de Jackie la Feline promovem uma festa onde dançam esqueletos a snifar as cinzas dos humanos, a condensação da melodia é fixada no punk. Afonso Pinto declara: “A próxima música é dedicada a mim mesmo”, haverá algo mais punk do que o egocentrismo? “Litle Toys” dominada pelo riff de Victor Torpedo, “just rock and roll”, a eloquência siamesa entre a bateria de Jackie la Feline e o baixo elétcrico de Pedro Chau são uma rede que erige uma sustentabilidade insuspeita, solo minimal da guitarra eléctrica semi-distorcida de Victor Torpedo, progridem dramaticamente para o fim. A décima primeira canção “Girl From Another” é um carburante curto mas agressivo dada a violência contida com que Jackie la Feline desfere sobre o bombo, a simetria melódica é imposta pelo baixo de Pedro Chau a impor uma melancolia inesperada, pausa, “walk away”-- sobe ao palco um tipo louro que tenta dividir o canto com o indescritível Afonso Pinto-- pausa, o groove punk instala-se e faz dançar Kazuza a exibir a sua barriga prominente que parece um covil onde pernoitam filhos do Conde Drácula, “for you”, ao qual se deve adicionar um solo épico da guitarra eléctrica semi-distorcida de Victor Torpedo. Palmas. Afonso Pinto agradece a “Kazuza! És o maior! E obrigado a todos! Kazuza onde estás?”. “Good Reality” é apresentada através de um convívio saturante entre a Pop e o punk, “I`m dead”, “reality”, “in this wasteland”, “people are people”, “the reality”, os Parkinsons expulsam a Pop e instauram a violência à punk, “in this wasteland”. Kazuza há muito que se encontra a dançar e a cantar para um microfone desligado, os seus suspensórios balançam perigosamente, enquanto Afonso Pinto contorce o tronco como uma cobra camaleónica. O público entoa em coro: “Kazuza! Kazuza! Kazuza!”, que não abandona o palco enquanto os Parkinsons executam “Bad Girl”, despe o polo claro e exibe o seu peito ligeiramente invadido por um capim selvagem; o ritmo é dois por dois continuo revelando-se uma força Pop, os pratos marcam o canto potente de Afonso Pinto: “She`s a bad girl”, o cantor é raptado por membros do público e transportam-no como se fosse um andor com a Nossa Senhora banhada a ouro, Afonso Pinto tenta cantar mas ri perante a sua incapacidade, a guitarra semi-distorcida de Victor Torpedo é de um âmbito mecânico punk and billy, sobre a sofreguidão contida de Jackie la Feline e de Pedro Chau, “She`s a bad girl! She`s a bad girl”. “One-two-three-four”. A penúltima canção “City of Nothing” tem um ritmo acelerado que é o detonador de um extintor que ejecta o pó branco sobre a multidão que o inspira, a inefável guitarra eléctrica semi-distorcida de Victor Torpedo percorre a escala transigentemente, “where did”, há uma contenção rítmica imposta pelo baixo sóbrio de Pedro Chau, “When I give up?”, o aceleramento rítmico repele-a para um campo de concentração onde é utilizada para torturar membros do Estado Islâmico, “I walk through the door”… Por fim, “So Lonely” antecedida pela dedicatória de Afonso Pinto: “Esta é a última e é dedicada ao homem da noite, uma salva de palmas para o Carlos Matos, que nos vai enforcar não tarda nada!”. A interacção entre a guitarra eléctrica de Victor Torpedo e os breaks na bateria de Jackie la Feline é intensa, “world”, mas quando surge o refrão: “I`m so lonely, I`m so happy now”, os Parkinsons revelam-se melodicamente através de uma alegria que clama paradoxalmente pela solidão como seu último reduto, se é punk ou Pop ou rock ou apenas e só um hino para os que encontram o seu reflexo no fim do futuro.

The Jack Shits + The Parkinsons, 2 de Maio, Beat Club @ Leiria

Susan Sontag

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